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Sangue nos Corredores

 

Cinco jovens espreitavam pelos corredores da base abandonada. Xi liderava o grupo cautelosamente com sua almasha desembainhada pronto para qualquer perigo que surgisse em seu caminho. Acompanhando o jovem Bronze estavam membros das três classes. Ryu vinha logo atrás de Xi segurando sua almasha também, enquanto En da classe B usava uma da’masha ao seu lado. O aluno da classe D com o olho esquerdo ainda coberto por um pano ensanguentado também portava uma espada comum.

O rapaz da classe D era um plebeu chamado Ron que estava na linha de frente quando os misteriosos encapuzados atacaram. Segundo o que Xi conseguiu tirar do jovem, ele tinha conseguido bloquear um golpe contra sua cabeça, mas o inimigo era mais forte e conseguiu empurrar sua da’masha no final causando o corte no rosto e  inutilizando o olho esquerdo.

  • Sinceramente eu não vejo nenhum problema nisso – disse Ron em determinado momento tocando o pano ensanguentado – depois que eu conseguir meu salário como oficial posso implantar algum tipo de prótese. Quem sabe um daqueles sensores – então ele começou a rir sozinho e se afastou um pouco do grupo.

O ultimo membro do grupo era Suh’sa, uma garota alta de cabelo curto da classe B que andava na retaguarda do grupo armada com uma alfings. Xi não conseguia simpatizar muito com a garota, apesar dela nunca ter feito nada para ele, na verdade eles mal tinham trocado algumas palavras antes desse teste. Mas Suh’sa era uma das seguidoras de Muh, se não do Prata, pelo menos de Ial e nenhum das duas opções agradava Xi.

O pequeno grupo tinha se separado dos outros em missão de reconhecimento para evitar que o resto das classes encontrassem imprevistos por seu caminho. Enquanto espreitavam pelos corredores os cinco alunos da Academia não encontraram nada de novo, algumas salas grandes com acesso para vários corredores e umas poucas salas com quadros dos Padrinhos ou de algumas batalhas.

A primeira coisa que Xi percebeu de diferente entre esse andar e o que a classe A tinha despertado, era que não havia pequenas salas, nem quartos. O andar onde a classe A iniciou o teste era repleto de pequenas salas no mapa com acesso para o refeitório, um dormitório, a sala de armas e salas de controle. Não importava como Xi pensasse ou olhasse em volta, ele não consegui ver nenhuma utilidade naquele andar alem de ser um labirinto.

Será que é isso? Esse andar foi feito simplesmente para confundir uma forca que tivesse coragem de invadir?  Se perguntou Xi enquanto ele e os quatro plebeus percorriam mais um corredor. Logo ele teria que voltar, ou esperar que o grupo principal chegasse até eles para que não se perdessem. Estava sendo enervante percorrer os corredores em busca de uma ameaça desconhecida, a expectativa que a cada curva, a cada sala, os inimigos surgissem para ataca-los estava deixando os jovens à flor da pele.

Quando estava prestes a dizer ao resto do grupo que era hora de voltar, o jovem Bronze avistou algo mais a frente perto de uma curva. Uma forma indistinta na fraca iluminação dos corredores, mas que ficava mais nítida graças ao uso dos elmos que Xi e Ryu usavam. O punho de Xi ergueu-se fazendo sinal para que o grupo parasse e ficasse atento.

– Onde estão os malditos? – sussurrou Ron olhando para frente, mas Xi sabia que ele não conseguiria ver a forma agachada na curva.

  • Consegue ver? – perguntou o Bronze para Ryu ao seu lado.

  • Pouco – respondeu baixinho o plebeu – nem mesmo o elmo esta conseguindo me dar uma vista clara.

  • Sim, o meu também não.

  • Vocês deveriam me dar um desses elmos – comentou Suh’sa se intrometendo na conversa – como vou atirar em alguém se nem consigo vê-lo?

Xi sabia que a garota estava certa, mas sua implicância com Muh e Ial fazia com que hesitasse em entregar-lhe seu elmo. Percebendo o desconforto do jovem Bronze em relação a jovem, Ryu desafivelou seu elmo e o passou para a garota.

  • Ali! Perto da curva. Consegue ver?

A jovem Suh’sa habilmente colocou o elmo e olhou para onde Ryu apontava assentindo com a cabeça em seguida para dizer que via o que quer que Ryu estava apontando. Ela ergueu a Alfings e apontou-a para a figura agachada na curva do corredor.

  • Não atire diretamente – disse Xi ao lado da garota – mire um pouco acima, não sabemos o que é ainda.

Um grunhido subiu pela garganta de Suh’sa indicando que ela tinha ouvido o Bronze, a garota então ergueu um pouco a mira e disparou fazendo com que um feixe de luz azulada cortasse o ar do corredor cruzando logo acima da figura agachada.

  • Consegui ver alguma coisa – sussurrou En.

Sim, Xi também tinha visto a coisa agachada e deixou um suspiro de alivio escapar por entre seus lábios. Ele se permitiu sorrir conforme avançava a passos cautelosos da coisa agachada agradecido por estar desativada assim como o golem que tinham encontrado assim que subiram para esse andar. Conforme Xi e o quarteto de plebeus avançou, a forma humanoide do golem ficou mais clara. O golem tinha sido desativado prestes a fazer a curva e tina se agachado bem entre os dois corredores.

O corredor que Xi estava levava a uma parede que se estendia em duas direções opostas como um T, e na parede diante dele se encontrava um quadro de tamanho normal se comparado a todos os que eles tinham visto até agora. O quadro media quase dois metros de altura e quase um de largura com as bordas feitas de mármore fixa a parede. Dentro do quadro se encontrava retratada uma poderosa cena de batalha.

  • A Defesa de Askou’za – murmurou Ryu sobre o ombro de Xi – a maior batalha fronteiriça do Império no ultimo século.

Xi acenou com a cabeça distraidamente enquanto deixava os olhos fixos no quadro. Ele contemplou as forças imperiais espalhadas pelas elevações das passagens de Askou’za com soldados de infantaria, andadores de batalha e transporte alem de Deuses da Guerra. Os céus estavam cobertos por naves imperiais e inimigas e investindo contra as tropas imperiais estavam as forças unidas da Aliança das Cidades Livres. A Defesa de Askou’za tinha sido uma das ultimas batalhas durante a ultima guerra entre o Império Izar e os reinos das Terras Baixas. Se a memória de Xi não estivesse falhando, as Cidades Livres foram as ultimas a deixar o combate contra o Império causando um confronto que durou quase uma semana deixando milhares de corpos na fronteira entre as Terras Altas e Baixas na passagem de Askou’za.

Alguns anciões a serviço do Patriarca da família Zhang tinham contado ao jovem sexto filho que os últimos confrontos entre o Império e a Aliança foram o que determinou o pacto de paz entre as nações do continente Saramir. Os soberanos de todas as nações perceberam que continuar com os conflitos na proporção que estava se tendo só traria a ruína para seus povos com o numero de mortes que estava sendo registrado.

  • XI! – o grito acompanhado de um puxão tirou o jovem Bronze de seus devaneios.

Antes que Xi pudesse perguntar o que estava acontecendo o corredor se encheu de gritos de guerra conforme formas encapuzadas vinham do corredor para o qual o golem estava virado. O jovem Bronze percebeu de relance um homem recarregando um besta e isso foi o bastante para perceber porque tinha sido puxado.

  • Recuar em formação – disse ele analisando a situação – nos cubra, Suh’sa!

A garota grunhiu para a ordem de Xi, mas seu disparo foi perfeito decepando o braço de um atacante que caiu aos gritos. Mal o grupo tinha dado dois passo de volta para o corredor de onde vieram e os encapuzados os alcançaram. Xi bloqueou uma da’masha e usando os movimentos do Ju’gam afastou o dono da arma e fez um segundo recuar para evitar ter o braço cortado fora.

  • Por Him! – gritou Ron deixando a formação e mergulhando em direção aos atacantes.

O jovem plebeu cravou a espada no estômago de um dos atacantes enquanto desferiu um pontapé no joelho de um segundo homem. Deixando escapar um xingamento, Xi deu um passo a frente para trazer Ron de volta.

Mas antes que Xi pudesse fazer algo o jovem plebeu cambaleou para trás com a ponta de um dardo surgindo em suas costas logo abaixo das costelas.

  • Merda, Ukram! – exclamou um dos homens armado com uma da’masha – temos que captura-los. E não ficar matando cada um que aparecer na nossa frente.

  • Foda-se, Lom! – respondeu alguém atrás da linha de guerreiros – o pirralho matou, Fugo. E não me parecia com nenhum dos alvos.

  • Vocês estão falando de mais – rebateu tensamente uma terceira voz – vamos para de perder tempo e pegar logo esses aqui.

Enquanto os inimigos debatiam entre si, o grupo de Xi foi recuando aos poucos mantendo uma pequena distância dos homens de capuz que iam seguindo seus movimentos. Analisando as fileiras inimigas, o jovem Bronze contou pelo menos nove homens, sem contar os besteiros na retaguarda.

O pobre Ron estava caído entre as pernas dos inimigos, gemendo e se contorcendo enquanto suas mãos agarravam a haste do dardo. Xi queria ir buscar o garoto, mas sabia que essa era uma escolha idiota e fadada ao fracasso.

Um dos homens se inclinou sobre Ron olhando atentamente para seu rosto como se procurasse algo. Após um momento o homem balançou a cabeça e abriu a garganta de Ron com um golpe preciso de sua faca.

  • Aqueles dois garotos não são alvos – disse o homem com a faca apontado para En e Ryu – mas os com elmo podem ser. Os peguem vivos.

Ao ouvir o comando do homem com a faca os encapuzados avançaram sobre os alunos, focando a investida na direção de En e Ryu. Na hora que os homens avançaram foi também o momento que Suh’sa escolheu para disparar sua alfings. Uma cabeça sob o capuz foi estourada como um melão e o corpo a baixo dela caiu derrubando outros dois homens que vinha atrás.

Essa era uma oportunidade que Xi não podia deixar escapar. Ele avançou soltando um poderoso grito de guerra enquanto desferia um corte lateral em direção ao homem que avançava em direção a En. O homem ergueu a espada para se defender, mas pouco antes das lâminas se encontrarem o jovem Bronze ativou o enerjom da almasha.

Xi acompanhou com os olhos o movimento de seu próprio ataque. Do momento que o borrão cinza se tornou um borrão azul. Ele contemplou o momento em que a lâmina da almasha se acendeu iluminada pelo enerjom que a cobria no gume e se chocou contra a lâmina de aço da da’masha do inimigo criando uma explosão de fagulhas.

Xi também conseguiu ver quando os olhos do homem se arregalaram ao perceber que o jovem a frente dele usava uma almasha e a surpresa nos olhos do homem foram trocadas por uma chama de desespero quando a da’masha foi dividida pelo golpe de Xi.

O homem recuou segurando em suas mãos o resto de sua espada que não media mais que vinte centímetros agora. O homem tentou se afastar de Xi, mas foi empurrado para frente por seus companheiros que não tinham visto a arma de enerjom ainda.

Xi sorriu ao perceber isso, o elmo lhe dava uma ótima ideia do que acontecia ao seu redor permitindo que ele atravessasse o homem com a espada quebrada e ainda acertasse um homem atrás dele que gritou de dor e surpresa.

Um outro atacante pulou sobre os homens caídos desferindo um golpe contra a cabeça de Xi que nem se preocupou em se defender ou se esquivar pois o elmo lhe avisou sobre uma aproximação por trás.

En surgiu no flanco de Xi bloqueando a lâmina inimiga e contra atacando com os movimentos do Ju’gam.

Para um grupo que nunca tinha lutado junto antes, eles estavam se saindo muito bem. Metade dos inimigos já estavam caídos e a única baixa entre os alunos tinha sido Ron que perdido em seus sentimentos avançou sem pensar em sua própria segurança.

A alfings de Suh’sa disparou mais uma vez contra os inimigos, mas dessa vez o alvo conseguiu se esquivar se jogando no chão e rolando em direção aos garotos. Ainda usando sua almasha ativada o jovem Xi atacou o homem reconhecendo-o como o homem da faca. A lâmina energizada desceu com velocidade em direção a cabeça do homem no momento que ele preparava-se para se erguer.

Em um movimento frio e calculado o homem puxou um punhal enquanto rolava e cruzou a nova arma com a faca diante do rosto para bloquear a almasha. Um movimento inútil que resultaria em sua morte, não fosse o caso que as duas pequenas armas se acenderam com enerjom.

Nesse momento Xi viu os olhos do homem por de baixo do capuz e sobre um pano escuro que cobria seu rosto. Eram olhos escuros, mas com um brilho de prazer que arrepiou a espinha de Xi.

O usuário de faca se inclinou para trás fazendo Xi perder o equilíbrio e girou acertando-o no estômago com o cotovelo. Xi se inclinou sobre si mesmo perdendo o ar dos pulmões e viu
a lâmina do punhal se aproximar rapidamente de seu ombro fazendo um pequeno corte ao ser desviada pela almasha de Ryu.

O jovem plebeu segurou Xi pela gola do colete e o arrastou para trás enquanto En se esforçava ao o máximo para afastar as investidas dos atacantes.

  • Vamos recuar, En – Xi disse ainda sendo puxado por Ryu – mais um disparo e volte para o grupo principal, Suh’sa.

A garota grunhiu uma concordância antes de se jogar no chão para evitar um dardo de uma besta. Suh’sa se levantou, apontou e atirou com sua alfings antes de se virar e sair correndo sem esperar para ver se tinha atingido alguém.

  • Vamos, não vamos conseguir segurá-los aqui.

Xi se recompôs e junto com Ryu e En recuou ombro a ombro enquanto o Homem das facas e seus companheiros observavam o trio. Alguma coisa no comportamento daqueles homens estava incomodando Xi. Alguma coisa sobre o que eles disseram, mas Xi não conseguia pensar no que era.

 

Comentarios em ACM: Capítulo 21

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