Kuork

Apenas Tradutores Errantes

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Habilidade de um guerreiro

   As lâminas de enerjom se chocavam conforme Xi e o homem com a faca e adaga trocavam golpes. O jovem Bronze tentava usar a vantagem do alcance de sua arma para manter o indivíduo afastado, mas seu inimigo provou-se mais habilidoso e perigoso do que ele imaginava.

   E como se não bastasse ter um inimigo poderoso a sua frente, Xi ainda tinha que se preocupar com o outro encapuzado que ficava andando em volta dos dois armado com uma da’masha esperando que Xi desse uma abertura para atacar.

   O jovem Bronze tentou um golpe baixo no usuário de facas que foi facilmente esquivado e completou o golpe com um chute giratório que acertou o ar quando o inimigo de Xi deu dois passos rápidos para trás indo para uma posição segura.

   Nessa hora o segundo encapuzado atacou com sua da’masha, um golpe vertical de cima para baixo que foi defendido com muita dificuldade pelo Bronze. Xi cambaleou para trás com a força do golpe e viu um pequeno pedaço de aço voar sobre sua cabeça.

   Xi viu o homem recuar enquanto o assassino de Ron avançava com um brilho de expectativa no olhar. Xi tentou firmar sua postura, mas não conseguiu ser rápido o suficiente recebendo um corte raso na coxa direita e no braço esquerdo antes de conseguir repelir o ataque.

– Isso é tudo que um filho da tão aclamada família Zhang pode fazer? – perguntou o homem com a faca e Xi pôde sentir no tom do homem um toque de desapontamento – No final vocês nobres só sabem falar. Vamos acabar com isso, Ifle.

– Não baixe a guarda, Kau – disse o companheiro erguendo a da’masha danificada.

   Kau resmungou para o homem e apontou a faca e a adaga para Xi, ele estava um pouco decepcionado esperando uma luta melhor com alguém de uma família nobre militar. Kau se inclinou pronto para atacar Xi, quando o jovem Bronze tomou a investida. 

   Xi lançou um ataque rápido de cima para baixo que foi seguido por um corte horizontal da esquerda para a direita terminando em um ataque de baixo para cima. Kau deu um passo para o lado deixando o primeiro golpe passar, depois teve que inclinar o corpo rapidamente para traz evitando ser partido em dois para em seguida ter que se jogar de costas no chão evitando o último ataque.

   Xi já estava para finalizar o inimigo no chão quando Ifle resolveu agir. A da’masha se chocou duas vezes com a almasha antes de se partir e o encapuzado tentar recuar, mas Xi estava decidido a não deixar essa chance passar.

   Aproveitando que Kau ainda estava se levantando o jovem Bronze avançou com ferocidade sobre Ifle. O encapuzado ainda tentou se defender com o que sobrou de sua da’masha, mas só conseguiu perder uma mão antes de receber um profundo corte no peito e cair no chão com uma expressão de dor.

   Um grito animalesco fez com que Xi se virasse e se deparasse com um furioso Kau. O encapuzado desferiu uma chuva de golpes em Xi causando pequenos cortes pelo corpo do jovem Bronze que tentava desesperadamente se defender.

   Um golpe amplo de Xi abriu um corte na cintura de Kau, mas o encapuzado parecia nem ligar para o sangue que começou a escorrer da ferida lançando cada vez mais golpes atrás de golpes em Xi.

   O jovem Bronze afastou uma estocada baixa pela direita e bloqueou um corte baixo pela esquerda. Todos golpes rápidos e precisos visando as pernas ou o abdômen de Xi. Lentamente o sexto filho dos Zhang começou a sentir o cansaço do dia. O efeito da perda de sangue causada por todos os golpes que Kau tinha lhe causado.

   Xi conseguiu bloquear por pouco um corte baixo pela esquerda quando Kau resolver mudar a estratégia de ataque. O encapuzado forçou a mão direita  com a faca fazendo força contra a almasha causando faíscas de energia pelo contato entre as duas lâminas de enerjom e antes que Xi pudesse reagir ele fez uma estocada com a mão esquerda apunhalando contra o rosto de Xi.

   O elmo brilhou por dentro em aviso para Xi sobre o perigo, mas mesmo com o aviso do elmo o jovem mal conseguiu reagir. A lâmina do punhal acertou a parte inferior do elmo um pouco acima da boca rasgando o metal e a viseira de um lado ao outro quando Xi virou a cabeça. Em um movimento desesperado Xi girou o corpo chutando o flanco ferido de Kau.

   O encapuzado caiu com um grunhido de dor enquanto Xi cambaleava para trás com a parte inferior do elmo pendendo presa a tira de couro do queixo.

   Foi por pouco. Pensou Xi segurando a almasha com mais força enquanto Kau se levantava. Se eu fosse um pouco mais lento ele teria me matado.

   O jovem Bronze viu o encapuzado se agachar apontando a faca em direção ao seu peito e o punhal escondido atrás do corpo. Xi percebeu logo que Kau planejava fazer algo para encerrar o duelo.

   O jovem Bronze percebia que seus braços e pernas estavam mais pesados, que seus pulmões buscavam cada vez mais ar com cada vez mais esforço. Ele podia sentir lentamente o sangue escorrendo de suas feridas e podia imaginar que Kau deveria estar passando pelo mesmo.

   Já era hora de acabar com isso. Xi flexionou os joelhos entrando em uma posição do ju’gam mais confortável. Seu pé direito deslizou um pouco para frente enquanto o esquerdo se firmou no chão. Suas duas mãos seguravam a almasha com força enquanto seus cotovelos se curvavam para fora do corpo e para baixo. Suas costas ficaram mais eretas e seus olhos se focaram no inimigo a sua frente.

   Kau pareceu perceber a mudança, pois assim que Xi terminou de se preparar o encapuzado se agachou mais um pouco como um gato que arqueia as costas e arrepia o pelo para intimidar um inimigo.

   Xi respirou fundo uma, duas vezes para se acalmar e se preparar quando o enerjom sobre a lâmina de sua almasha começou a piscar. Primeiro cinco vezes fracamente antes de piscar uma sexta vez com força e se apagar de vez.

– Parece que o destino está do meu lado – gracejou Kau ao ver acabar o enerjom da almasha de Xi.

   Mas o jovem Bronze não se abalou, a lâmina de aço podia matar com a mesma facilidade que uma de enerjom. Tudo que ele precisava era de um golpe bem dado no lugar certo.

   O tempo pareceu desacelerar entre os dois. O som do combate que os cercava foi gradativamente sumindo até que os dois só conseguiam ouvir as próprias respirações. Quando o mundo entre eles alcançou uma paz irreal a ação estourou.

   Kau avanço em direção a Xi, o encapuzado se inclinava para baixo e para frente com a faca na frente do corpo e o punhal atrás.  Enquanto isso Xi esperava na mesma posição. Ele observou enquanto Kau dava um primeiro passo longo acompanhado de um segundo. No terceiro o encapuzado já estava a meio caminho entre eles e quando deu o quarto passo o jovem Bronze agiu.

   O pé direito de Xi deslizou para a frente enquanto Kau executava seu quinto passo. A ponta da almasha que estava apontada para frente se moveu primeiro para trás de Xi e em seguida o jovem golpeou em direção ao encapuzado.

   A espada se moveu de cima para baixo em um golpe diagonal visando a região entre as pernas de Kau e seu estômago, mas o encapuzado conseguiu ver o movimento e reagir a tempo cruzando as duas lâminas energizadas diante do corpo como tinha feito mais cedo. Mas dessa vez a espada não seria bloqueada, mas sim partida em duas pelas laminas de enerjom.

  Quando Kau chegou ao seu sexto passo com as laminas cruzadas a centímetros de se chocar com a almasha, o jovem Xi torceu o pulso fazendo com que a espada subisse em um golpe ascendente enquanto impulsionava o corpo para frente com a perna esquerda. O Bronze e o encapuzado passaram a centímetros um do outro com Xi aterrissando atrás de Kau com as pernas abertas e a almasha ensanguentada apontada para o teto da sala enquanto Kau executou mais dois passos cambaleantes antes de cair de cara no chão.

  Rapidamente uma poça vermelha começou a se formar em volta do encapuzado conforme o sangue vertia para fora do corte em seu pescoço. Xi deixou a almasha cair de suas mãos, agora a arma estava incrivelmente pesada de uma maneira que fazia o jovem se perguntar como tinha segurado a espada até agora. Ele conseguiu dar uma olhada no corpo imóvel de Kau antes de olhar em volta para a batalha que continuava na sala.

  Muitos corpos se contorciam pelo chão cobrindo toda a extensão da sala enquanto pequenos grupos combatiam separadamente por todos os lados. Xi não conseguia ver Arkagin em nenhum lugar e se perguntou se alguém tinha abatido o homem de preto enquanto ele lutava com Kau e o outro encapuzado. Mas afinal quem eram os encapuzados? O que eles estavam fazendo ali?  Esses pensamentos começaram a surgir na mente do jovem conforme ele procurava por seus companheiros na sala.

  Ele não via mais Suh’sa caída no centro da sala,  ou ela só esta de baixo de todos aqueles corpos? Ele também não sabia onde estava En,  ele sobreviveu aos inimigos que investiram contra ele? E Ryu?  Para onde ele tinha ido depois de escapar do corredor? O jovem Bronze continuava andando aos tropeços olhando em volta para os poucos alunos que ainda lutava contra um numero ainda menor de encapuzados na sala tentando encontrar neles as respostas para suas perguntas.

  Foi nesse momento que seus joelhos falharam e ele caiu sobre os corpos de dois encapuzados sentindo levemente o cheiro de queimado causado pelas balas de enerjom concentrado. 

– Xi? Ei, Xi! – chamou um voz ao lado de Xi sacudindo seus ombros, mas sua visão estava começando a embaçar e ele não conseguia ver quem o chamava – Você ainda esta vivo, Xi? Merda, ele perdeu muito sangue. Alguém me ajude aqui…

  Xi tentou prestar atenção na voz, mas ele começou a sentir muito frio. Seu corpo parecia mais pesado do que ele se lembrava, mas pesado e cansado do que nos dias de exercícios impostos por Tatua na Academia. Lentamente ele sentiu o mundo se apagando e os sons do resto do combate sumindo lá longe. Longe de mais para significar algo para ele, mas uma voz teimava em chamar seu nome.

– Xi! Xi! Resista seu maldito, você não vai morrer depois de tudo isso. Droga!

***

   O cheiro do medo! Do desespero! Da raiva! do ódio! O cheiro de sangue! A escuridão que afastava tudo isso levando-o ao esquecimento.

   Quando recobrou a consciência o jovem Xi estava gritando pelo impacto das memórias que voltaram todas de uma vez. Ele sentiu o grito morrer na garganta seca enquanto ele engasgava e o corpo tremer de dor com espasmos que iam das cabeças aos pés.

   Quando enfim conseguiu se acalmar e estabilizar a respiração ele se deu conta de onde estava. Em volta da cama onde o Bronze se encontrava estavam longas cortinas brancas. A própria cama onde Xi estava destro também era branca e muito confortável. Ele olhou para o teto e encontrou assim  como esperava um teto branco. Sim, não havia dúvidas. Ele estava em uma enfermaria. Mas quem me trouxe pra cá?

   O jovem ficou em silêncio pensando no que se lembrava antes de ir parar ali. Ele se recordou do teste na base abandonada. No confronto com o golem e na ida até o refeitório após se separar do grupo de Ling.

   Sua mente foi explorando sua memória até o encontro com a outra classe e a informação sobre os encapuzados. Logo em seguida se lembrou da batalha, a morte de Ron, a batalha desesperada recuando pelo corredor. A emboscada na sala e a hora que cortaram a orelha de Suh’sa. Aquela memória embrulhou o estômago de Xi, a memória do sangue, dos gritos e então do ataque de Ling e Feng juntos com as outras classes.

   Então sua mente clareou e ele se lembrou do duelo com o encapuzado chamado Kau. Ele se lembrou dos golpes dados e recebidos, das horas que a almasha se cruzou com a faca e a adaga. Até que sua mente se focou na última trova de golpes. No movimento que o patriarca dos Zhang, o próprio pai de Xi o ensinou. E então se lembrou do corpo caído de Kau e do sangue que surgiu rapidamente sob seu corpo.

   Tinha sido um bom duelo contra um adversário digno. Pensou Xi,  meu primeiro duelo de vida ou morte no qual me deixou suas marcas. Ele deslizou as mãos pelas feridas enfaixadas no corpo e até mesmo esse gesto pareceu lhe esgotar as forças.

– Estou vivo – sussurrou sorrindo – Meu caminho ainda não acabou. Meus dias de glória estão começando. Meu primeiro passo foi dado. Minha primeira vitória. Minha primeira conquista. Ainda estou vivo – disse novamente um pouco mais alto – E quem quer que tenha planejado o ataque irá pagar muito caro pelas vidas desperdiçadas. Isso eu juto em nome dos Padrinhos. 

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