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Akai Ito, O fio Vermelho do Destino!

 

 

 
O sol já estava mergulhando nas montanhas oeste, tingindo o céu com uma tonalidade laranja e rosada, quando Mei Yue finalmente despertou. Sua cabeça doía, debilmente levantou-se, sentando-se na beira da cama macia.

Seus olhos digitalizou o quarto.

Ela estava sentada em uma cama, tão macio que parecia estar sentado em nuvens. O quarto era espaçoso e decentemente mobiliado. No quarto mal iluminado procurou por sua espada e logo a encontrou, junto com parte de seu equipamento ao lado da cama. Por um momento pensou que estava sozinha naquele quarto estranho, até ver um garoto de mantos negros de olhos fechados, sentado com as pernas cruzadas.

Ele estava envolto de sombras, e ao mesmo tempo imerso na luz demoníaca irradiada pelas páginas de um livro que flutuava no meio do ar.

Que lugar era aquele? Quem era aquele garoto?

Tentou lembrar-se como havia parado ali, então as lembranças de antes de perder a consciência assaltaram sua mente. Suas mãos tatearam seu corpo, mas não encontrou qualquer ferimento – até mesmo as velhas lesões haviam desparecido.

Mei Yue tentou erguer-se bruscamente, mas suas pernas estavam fracas, voltando cair sentada sobre a cama.

― Você ficou inconsciente por quase uma semana ― anunciou Arthur, abrindo seus olhos, irradiando uma luz sobrenatural. ― Seu corpo está enfraquecido, continue deitada. Vou pedir algo para você comer.

― Não é necessário ― recusou Mei Yue com a voz rouca. Seus olhos verde pálido profundo encaravam com força Arthur. ― Meu corpo recebeu graves lesões, era para eu ter morrido naquela floresta. Como conseguiste me salvar?

― Você foi tratada por uma sacerdotisa do templo Dian Cecht ― disse ele, fechando o grimório demoníaco. ― Foi possível tratar suas lesões, mas… ― ele hesitou por um segundo. ― Era impossível restaurar os canais de energia de seu corpo. Sinto muito.

Aflição tomou conta da jovem espadachim ao ouvir as palavras de Arthur. Fechou seus olhos com força, numa tentativa em vão de parar as lágrimas que escorriam por seu rosto.

― Você está viva ― disse ele. ― Poderá viver uma vida…

― Eu jamais poderei empunhar uma katana novamente! ― gritou Mei Yue, interrompendo-o. Sua voz estava cheio de aflição, dor e desespero. ― Sem poder empunhar uma katana, que valor eu tenho?!

Desde que era uma criança, a primeira coisa que aprendeu não foi a falar ou escrever, mas a manejar uma katana. Somente após dominar totalmente o manejo da katana, foi permitido aprender falar e escrever. É, com o tempo, foi submetida a treinos rigorosos para transformar-la em uma espadachim de corpo e alma.

A doutrina do Clã Mei estava profundamente enraizado em sua mente. Para alguém cuja vida dedicou-se a seguir o caminho da espada, como ela poderia não cair em desespero? Como ela não poderia estar a beira de perder a sanidade?

Sem poder utilizar a energia interna, não poderá executar técnicas de Kenjustsu. Para Mei Yue era o mesmo que morrer.

Arthur caminhou até a jovem espadachim, ajoelhando-se diante dela. Retirou um lenço, secando suas lágrimas.

― O valor de uma pessoa não está somente em sua habilidade, em seu poder. Seu valor está em seu coração, em sua alma, nas decisões que tomamos. Sempre haverá esperança, enquanto não sucumbimos ao desespero.

― Por quê? ― perguntou ela, numa voz cheia de dor. ― Por que me salvou! Me diga?!

― Por que você tem seu valor ― respondeu misteriosamente. ― Se esqueceu da visão?

Antes de perder a consciência, quando havia encontrado Arthur pela primeira vez, teve uma visão. Lembrou-se do vasto salão repleto de cavaleiros demoníacos. Do garoto, em uma forma adulta demoníaca, sentando em um imponente trono de cristal. Mei Yue podia sentir até agora em seus ossos o poder opressor que ele exalava.

Honra. Glória. Poder e Amor.

Ela tinha tudo isso na visão.

― O que você deseja de mim? ― questionou ela mais calma. ― Deseja que eu o sirva?

― Sim ― a resposta foi franca e direta.

A resposta sem excitação de Arthur a confundiu. Ela fixou seus olhos no de Arthur, e estremeceu ao notar aquele olhar cheio de expectativa, sentimentos e cheio de um estranho calor.

― Por quê? ― perguntou ela, abaixando sua cabeça. Seu corpo tremia. ― Sou uma espada quebrada.

― Quebrada sim, mas inutilizada não ― sua mão acariciou o rosto macio de Mei Yue e segurou seu queixo, levantando seu rosto, fitando diretamente seus olhos. ― O metal que serve como base da lâmina de uma espada, pode ser moldado para uma infinidade de formas nas mãos de um habilidoso ferreiro. Derretendo os pedaços dessa espada quebrada, fundido-os com novos tipos de metais, não seria possível forjar uma nova lâmina? Uma mais afiada?

Ela o encarou, atônita. Por um momento a dor deixou seu coração, a ideia de se tornar mais forte era tentadora. Do desespero, seu espirito foi as alturas imaginando as novas possibilidades.

Mas, logo perguntou-se qual era a verdadeira intenção daquele garoto. Em suas viagens por Arcádia aprendeu que não havia ajuda sem interesse. Que não havia poder sem um preço a se pagar.

― Para obter esse tipo de poder, qual preço devo pagar?

― Primeiramente eu quero seu serviço como espada, depois seu coração, alma e finalmente seu corpo. Desejo que me sirva com a mesma sinceridade e paixão qual segue o caminho da espada. Obviamente, eu sei que esse tipo de sentimento não é algo que possar ser forçado, que vem naturalmente com o tempo.

Mei Yue não era uma jovem tola, sabia bem o que Arthur desejava dela. Ele não queria apenas que ela fosse apenas sua espada, mas também que fosse sua amante.

― É seu não for capaz de ter esse tipo de sentimento? ― ela perguntou, hesitante.

― Nada ― respondeu ele com um leve sorriso. ― Não desejo uma escrava, Mei Yue. Desejo uma mulher que deseje verdadeiramente estar ao meu lado. Mas, não pense muito nisso. Essa é uma questão para o futuro.

Arthur soltou um suspiro, andou até a janela do quarto. Vendo o céu escurecendo gradualmente.

― Esse é apenas meu desejo, mas o preço que terá que pagar para poder voltar a manejar uma espada é outro, qual talvez você não esteja disposta a pagar.

― Qual?

― Sua humanidade ― respondeu fitando o céu noturno. ― Seus canais de energia foram destruídos, mas se você transcender seu corpo físico para o de um demônio, ganhará um novo sistema de circulação de energia. Suas capacidade físicas e sensoriais serão muitas vezes mais forte do que um ser humano que utiliza energia interna. Você estará pisando em um reino que somente os heróis do passado alcançaram.

Arthur ficou em silêncio, deixando a jovem espadachim fazer sua escolha. Ele sabia que nem todos estavam dispostos a sacrificar sua humanidade em troca de poder. Por que em Arcádia, de acordo com a crença popular, os demônios eram a encarnação da maldade.

Pensou em deixar o quarto, mas a voz de Mei Yue soou pelo quarto logo em seguida:

― Tudo bem, o que devo fazer?

Arthur virou a cabeça, encarando a jovem espadachim surpreso.

― Tem certeza? ― perguntou ele. ― Após fazer sua escolha será um caminho sem retorno.

A jovem espadachim meneou a cabeça positivamente.

― Enquanto eu puder empunhar uma katana, seja humana ou demônio, não importa ― disse ela com um brilho estranho em seus olhos. ― O que realmente importa é continuar aperfeiçoando minha esgrima até o ponto que não exista nada que minha lâmina não possa cortar.

Ao ouvir a resposta sem hesitação da jovem espadachim, um sorriso involuntário surgiu em seus lábios.

― Se meus cálculos estiverem corretos, em um ano vou ter transcendido para um Arquidemônio. Quando isso acontecer, terei o poder de transforma-la em um demonesa. Até lá seja paciente e treine seu corpo.

Ele caminhou até ela e estendeu o braço, oferecendo um aperto de mão.

― Então temos um acordo?

― Sim ― disse ela segurando sua mão, em um aperto firme. ― Temos um acordo.

Reunindo um pouco de força, levantou-se e caminhou com passos vacilantes até seu equipamento ao lado da cama. Pegou do cinto uma pequena bolsa mágica, de onde retirou uma faixa de tecido vermelho.

Ela enrolou metade do tecido ao redor do braço direito até seu dedo mindinho. Caminhou até Arthur, ajoelhando-se e sentando sobre seus calcanhares.

Essa não é a posição Seiza? Perguntou-se surpreso.Será que ela está se preparando para fazer um ritual de juramento igual Samson?

(Magusgod: Seiza é uma posição tradicional de se sentar no japão.)

― Por favor, sente-se ― disse Mei Yue, apontando para o espaço a frente dela.

Copiando a forma de se sentar de Mei Yue, ele sentou-se de frente a ela. A jovem espadachim enrolou a outra metade do tecido vermelho no braço direito de Arthur até o dedo mindinho, com as palmas das mãos unidas.

Apesar de expressão fria de Mei Yue era visível um leve traço de vermelho nas maçãs de seu rosto.

― A faixa de seda vermelha representa Akai Ito, o fio vermelho do destino ― disse Mei Yue num tom suave. ― Em meu país de origem, acreditamos que quando nascemos, os deuses amarram um fio vermelho invisível em nossos tornozelos, nos ligando com aquele que estamos predestinado a ser nossa alma gêmea.

Lá fora o sol despareceu por completo, mergulhando o quarto em uma escuridão entrecortado pela faixa de luz de uma brilhante lua cheia.

O coração de Arthur bateu mais rápido, contemplando o delicado rosto de Mei Yue iluminado pela tênue luz da lua.

Naquele momento sua beleza etérea era semelhante ao de uma deusa.

― Arthur, talvez esses eventos estavam predestinados a acontecer para nos unir naquele dia. Não sei o que o futuro me reserva, nem as dificuldades do caminho que você está destinado trilhar. Mas, aqui eu faço o maior voto de fidelidade das tradições de meu povo ― ela moveu seus dedos, entrelaçando-os com os dedos de Arthur. ― Eu, Mei Yue, faço meu voto de fidelidade a ti, dedicarei minha vida à você como espada que corta seus inimigos e como sua fiel mulher. Que essa faixa de seda vermelha, o fio vermelho do destino, represente esse voto de união.

Ela fechou seus olhos e murmurou um poema.

Um fio invisível conecta os que estão destinados a conhecer-se…
Independentemente do tempo, lugar ou circunstância…
O fio pode esticar ou emaranhar-se,
mas nunca irá partir.

(Magusgod: essa parte foi tirado da lenda chinesa sobre Akai Ito, o fio vermelho do destino.)

Quando ela voltou abrir os olhos, um fenômeno estranho aconteceu. Um vento misterioso soprou dentro do quarto, rodopiando ao redor dos dois. A faixa de seda vermelha que envolvia seus braços, pegou fogo – uma chama espectral, azulada, mas não era possível sentir nenhum calor vindo das chamas.

A chamas imateriais dançaram como pequenas fadas e logo se extinguiram, sendo substituído por fios mágicos que se entrelaçaram, conectando Mei Yue e Arthur pelo dedo mindinho.

Seus corações, alma e destino agora estavam unidos pelos deuses.

Gradualmente os fios despareceram, mas Arthur podia sentir claramente que ainda permaneciam lá como uma prova silenciosa de sua união.

― O que aconteceu? ― perguntou ele, boquiaberto.

― Magia Antiga ― respondeu Mei Yue também surpresa. ― Meu pai havia falado que o voto de fidelidade Akai Ito não era para ser feito levianamente. Por que há magia antiga no voto. Quando duas pessoas que estão amarradas pelo destino, fazem o voto de de fidelidade Akai Ito, a seda irá pegar fogo e os laços serão forjados entre os dois. Vejo que minha intuição estava correta.

― Então realmente estamos destinados a nos unir….― disse Arthur ainda atordoado pelo acontecimento repentino.

― Sim ― respondeu ela inclinando-se para frente, baixando a cabeça até ficar 30 centímetros do solo, esticando os braços para frente, pousando as mãos no solo. ― A partir de hoje estarei em suas mãos, querido.

A palavra querido o atingiu como um raio, atordoando-o. A partir do momento que ele viu Mei Yue, apaixonou-se imediatamente. Mas, mesmo assim, achava que a situação estava desenvolvendo rápido demais.

Depois de tudo que aconteceu eu não posso falar para ela ir com calma, certo? Pensou Arthur.Da próxima vez quero um aviso prévio que há chances desse tipos de eventos misteriosos acontecer! Ah, que seja!

Arthur copiou a posição formal de Mei Yue e falou:

― A partir de hoje estarei em suas mãos…. ― e completou quase chorando a última palavra: ― Querida…

Os dois voltaram a suas posições normais. Ele ajudou levantar Mei Yue de volta para cama.

― Fique em repouso ― disse ele, ajudando ela deitar-se na cama. ― Vou trazer algo para você comer.

Mei Yue assentiu, vendo-o andar até a porta.

Ele é apenas um garoto, mas suas palavras e o ar a sua volta e o de um homem experiente. Há disciplina em seus passos e em sua postura….Ele recebeu o treinamento marcial. Eu sei o que ele se tornará no futuro, mas ironicamente não sei como ele é no presente.

Arthur parou diante a porta, com a mão na maçaneta.

― Não pense muito ― murmurou ele, como estivesse lendo seus pensamentos. ― Com o tempo nos conheceremos melhor.

Ele girou a maçaneta, abrindo a porta e deixou o quarto.

Quando ela não podia mais ouvir os passos de Arthur no corredor, sua expressão fria quebrou em um rosto envergonhado.

― Ah….Não posso acreditar que fiz voto de fidelidade com alguém tão jovem! ― disse ela enterrando seu rosto no travesseiro. ― Quando ele se tornar um adulto, teremos que passar pela cerimônia de casamento e unir nossos corpos……Ah, céus isso é tão embaraçoso!

Ela rolou de um lado para o outro na cama.

É assim surgiu um novo sentimento no coração de Mei Yue, além de sua dedicação pelo caminho da espada.

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