Kuork

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Intermissão

 

 

 

O céu estava carregado de pesadas nuvens escuras. No horizonte, caía dos céus uma cortina de chuva pungente e fria – era temporada de chuva, o tempo mais fechado e sombrio do ano. Nas profundezas da Floresta dos Sussurros, Insagrim, Senhor dos Lobos do Norte, fitava uma fenda, como uma cicatriz exposta, na encosta rochosa.

Em seu olhar havia relutância.

― Não posso hesitar mais ― balbuciou para si mesmo. ― Muito sangue foi derramado. É apenas uma questão de tempo dos humanos formarem uma nova força de subjugação. Quando era pequeno ouvia dos anciões, contos sobre a Rainha da Noite Eterna, aquela que governa os mortos…Todos pensavam que era somente um conto, mas ela é bem real. Quem diria, agora ela é minha única esperança.

Insagrim fechou seus olhos e levantou a cabeça em direção aos céus, sentindo as gotas pungente da chuva cair sobre seu corpo, encharcando seu pelo. Lembranças de um passado que desejava esquecer, assaltaram sua mente, dando forças para fazer o que era necessário para completar sua vingança.

― Foi em um dias desses que a vila foi atacada ― murmurou. ― Quando eles chegaram como espectros da floresta, matando quase todos da aldeia. Ah, aqueles odiosos aventureiros, movidos por sua ganância. É ainda dizem que os monstros são criaturas malignas, encarnação do mal. Mas, esquecem que sua própria raça são autores de atos abomináveis de enojar os deuses.

A vila de Insagrim era localizado nas profundezas da floresta dos sussurros. Um local aonde lobisomens como ele se reuniam e viviam em paz até a construção da estrada. No passado não havia uma estrada que cruzava a floresta dos sussurros, fazendo as viagens até a Al-Markhen levarem muito mais tempo. Para encurtar as viagens, o Conselho mandou uma equipe para limpar a floresta dos sussurros e auxiliar na proteção da equipe de construção.

Por sua vila estar no caminho da construção da estrada, entraram em confronto com a equipe de aventureiros, resultando na morte de quase todos membros da vila. Insagrim podia lembrar claramente os gritos e a imagem dos guerreiros vestidos em suas reluzentes armaduras mágicas e suas lâminas brilhantes espalhando morte. E os terríveis magos destruindo com seus poderosos relâmpagos a vila que tanto se esforçaram para construir.

Para escapar de seus perseguidores, eles e outros sobreviventes, foram obrigados a se refugiar cada vez mais nas profundezas da floresta dos sussurros. Muitos morreram. Seu coração estava cheio de ódio.

É era somente o ódio que o movia para frente.

― Eu os matarei! ― rosnou. ― Cada um desses pretensiosos humanos que se chamam “aventureiros”, Irei caça-los como nos caçam e fincar sua cabeças em lanças.“Três moedas de prata”, esse será o preço que pagarei por cada cabeça!

Insagrim não hesitou mais e adentrou a escuridão da fenda. Seguiu por uma longa passagem estreita até chegar dentro de uma gigantesca caverna, uma cavidade rochosa cujo tamanho não podia ser metido pelos olhos.

Apesar da escuridão, por ser um lobisomem, podia ver claramente no escuro.

Do solo forrado de ossos humanos e animais, cresciam estalagmites volumosos e consistentes, mas finos na ponta como uma lança de justa – alguns chegando alcançar as estalactites formando colunas.

A floresta das pedras, pensou ele lembrando-se de um antigo poema cantado por seu povo.

 

Nas profundezas da floresta,
Na cicatriz da montanha,
Entrando no reino das sombras,
Seus pés pisaram sobre o tapete dos mortos,
Andando por entre as colunas da floresta de pedra.
Nas profundezas da floresta de pedra,
Lá vive uma mulher formosa,
Seu vestido é tingindo de sangue e enfeitado de ossos de seus inimigos.
Seus cabelos cor de prata,
Reluz como o brilho das estrelas,
Atraindo inveja dos deuses….

 

Insagrim não era muito claro de como continuava o longo poema cantado pelos anciões da aldeia. Lembrava-se vagamente que o poema da formosa mulher era repleto de tragédia e tristezas por causa de sua beleza.

 

…Ela foi condenada ao reino das sombras,
Amaldiçoada pelos deuses a nunca ver a luz do sol,
e o descanso da morte para sempre foi lhe negado,
A formosa mulher de cabelos de prata,
A rainha da noite eterna.

 

Um poema triste, pensou ele.Um lembrete de como os deuses podem ser invejosos e cruéis.

Os únicos sons dentro da caverna era dos ossos estalejando sob suas patas e o eco da água que gotejava. Andou lentamente pelo tapete de ossos, adentrando a infindável escuridão, passando pelas colunas de pedra.

Seguiu em frente por incontáveis minutos, até seu caminho ser bloqueado por guerreiros esqueletos.

Eles haviam surgido das sombras, cercando-o de todas direções, apontando suas espadas antigas.

Esses guerreiros esqueletos vestiam uma armadura arruinada de couro sob mantos negros esfarrapados. Eles carregavam espadas antigas e escudos castos – alguns chegando a ser de madeira apodrecida.

De seus capacetes abertos era visível seus rostos apodrecidos. Em suas órbitas vazias havia uma chama azul pálida, brilhante, cheio de fome e desejo de violência.

― Sou Insagrim, Senhor dos Lobos do Norte! ― anunciou ele, fazendo sua voz reverberar pela caverna. ― Peço audiência com sua soberana, Rainha da Noite Eterna!

Por um longo minuto não houve resposta. Até os guerreiros esqueletos voltarem suas cabeças apodrecidas em direção das profundezas da caverna. Abaixaram suas espadas, afastando-se lentamente para escuridão. Desaparecendo silenciosamente da mesma forma que surgiram, escondendo-se entre as colunas de pedra.

― O que deseja criança do clã amaldiçoado dos lobos de prata? ― questionou uma charmosa voz, vindo atrás dele.

Assustado, virou-se em direção da voz. É o que encontrou foi uma mulher de beleza impecável. Ela era uma mulher alta, pele pálida quase translucida. Usava um elegante vestido púrpura e um colar de marfim de aranha cobria seus ombros e peito.

Assim como no poema, seu cabelo prata que chegava até sua cintura, reluzia com luz própria. Seus longos cílios prateado realçava ainda mais a beleza sobrenatural exalada por sua iris violeta.

Um olhar cheio de um charme paquerador difícil de resistir.

Insagrim procurou um termo para descrever a beleza da Rainha da Noite Eterna, mas acabou mostrando-se uma tentativa fútil. Por que não havia palavras no limitado vocabulário mortal que poderia fazer jus com a beleza daquela mulher.

Ele se ajoelhou no chão de ossos.

― Rainha da Noite Eterna ― disse ele com reverencia. ― Vim até ti para pedir sua ajuda….

Insagrim narrou todos acontecimentos nos últimos meses e sua luta por vingança.

― Somos poucos e eles muitos. Estamos condenados no fim a perecer pelo aço frio de suas espadas, mas não posso aceitar tal destino. Não até Al-Markhen sofrer as chamas da fúria de minha vingança. Quero que sintam a mesma dor que eu senti ao ver minha aldeia sendo destruída e meus colegas mortos! Sangue clama por sangue!

A Rainha da Noite Eterna andou em círculo ao redor de Insagrim, sempre mantendo um sorriso charmoso em seu rosto.

― É o que posso fazer por ti? ― perguntou ela num tom maduro e ao mesmo tempo jovial. ― Se chegou até aqui, deve saber da lenda e a maldição que foi emposta sobre mim. Estou presa nesse lugar, condenada a viver para sempre nesse mundo de sombras.

― Estou ciente ― respondeu ele humildemente, com a cabeça baixa. ― Estou ciente, mas as lendas também dizem que você é uma das necromancer mais poderosa de Arcádia. Talvez você não possa sair desse lugar, mas pode criar um exército de mortos-vivos. Foi por essa razão que vim até você, Rainha da Noite Eterna e dos Horrores e da Morte. Peço com humildade sua ajuda para realizar minha vingança, esmagar o símbolo da terra santa dos aventureiros!

Ela não respondeu. Permaneceu andando ao redor de Insagrim, com um olhar distante, imersa em seus próprios pensamentos.

Insagrim observava inquietamente a silhuete da Rainha da Noite Eterna, circulando ao seu redor. Apesar de sua figura esbelta e aparentemente frágil. Sabia que ela não carregava os títulos que ganhou ao longo dos séculos por nada.

O que não era visível aos olhos, para Insagrim ficava claro com seu olfato lupino. É todo ar circundante da Rainha da Noite Eterna, carregava o denso aroma da morte.

― É o que você pode me dar em troca de minha ajuda? ― questionou ela, quebrando o silêncio.

― O que você desejar, não medirei esforços para conseguir.

― Desejo liberdade, pode me tirar desse lugar? ― perguntou ela num tom charmoso, mas era visível a zombaria em seus olhos. ― Tem o poder de quebrar uma maldição imposto pelos deuses?

Insagrim não estava surpreso com o pedido. Sabia que a única coisa que a Rainha da Noite Eterna desejava era livrar-se das correntes que a prendia naquele maldito lugar.

― Eu não tenho esse tipo de poder….

Antes que pudesse terminar de falar, foi interrompido por ela.

― Então você não pode oferecer nada que seja do meu interesse! ― disse ela friamente, virando-se de costas, desaparecendo gradualmente na escuridão. ― Saia daqui criança do clã amaldiçoado, antes que eu tente transforma-lo em meu brinquedo.

Insagrim entrou em pânico, apesar do medo que dominava seu coração, não deixou o lugar. Sem ajuda dela, a vingança que clama não passaria de um sonho risível.

― Por favor, espere! ― gritou ele. ― Eu não tenho esse tipo de poder, mas conheço alguém que talvez possa quebrar a maldição!

Os passos da Rainha da Noite Eterna vacilaram e então virou sua adorável cabeça, lançando um olhar penetrante para ele.

― Oh! ― seus lábíos vermelhos se contorceram em algo parecido com um sorriso. ― Me fale mais sobre essa pessoa que você conhece. Embora, se essa pessoa tem o poder que afirma. Por que veio até mim?

― Na verdade eu não o conheço ― confessou Insagrim, havia tensão em sua voz. ― Meses atrás, ele passou pela floresta dos sussurros, matando muito de meus irmãos. Sua aparência era de um garoto humano, mas ele não cheirava a humano. Não completamente. Ele exalava o mesmo aroma de um dia de inverno e….Algo mais….

Insagrim deixou a frase no ar.

― O que seria esse algo mais?

― Algo nada humano ― concluiu Insagrim, sentindo todos pelos de seu corpo eriçar. ― Não sei o que ele é, contudo sei que é poderoso….Naquele par de olhos cinzentos parecia esconder um ser aterrorizante….Era como se um terrível monstro antigo havia vestido a pele de um garoto.

Após ouvir o relato de Insagrim sua curiosidade foi instigada. Ela aproximou-se do lobisomem de pelo prata, rastejando a barra de seu vestido cheio de babados no chão de ossos, com suas adoráveis mãos segurou a cabeça de Insagrim.

Os olhos violeta dela se fixaram no olhos escuro do lobisomem.

A princípio nada aconteceu, até a visão de Insagrim se tornar embaçado. Tentou lutar para livra-se da mão dela, mas descobriu que seu corpo estava paralisado, rígido. Não podendo mover um único centímetro.

― Não resista ― disse ela. ― Se resistir, irá conseguir apenas ferir a si mesmo.

Sem mais explicações, ela invadiu a mente de Insagrim. Navegou pelo mar de memorias dele, como estivesse lendo um livro aberto. Procurou pelas lembranças sobre o garoto misterioso, passando de lembrança em lembrança.

Apesar de levar um tempo para descrever, tudo aconteceu em menos de um segundo.

Quando ela encontrou a lembrança que procurava, foi sinceramente surpresa. Por fazer muito tempo desde o acontecido, normalmente as lembranças se tornam borradas é imprecisas. Mas no caso de Insagrim, aquela lembrança era nítida e cheio de detalhes como se fosse uma memoria recente.

Através dos olhos de Insagrim ela viu o garoto de cabelo escuros e olhos cinzentos. Viu como ele lutou contra vários lobisomens de uma única vez. É logo chegou a uma conclusão: o garoto era mais do que aparentava.

É como a criança do clã amaldiçoado descreveu: um terrível monstro fantasiado de garoto. Seu corpo humano é uma máscara que esconde seu verdadeiro eu. Me pergunto o que exatamente ele é?

De repente, seu olhos arregalaram de surpresa ao ver o poderoso grimório flutuando ao lado do garoto. Mesmo sendo uma lembrança, podia sentir um terrível poder emanando do grimório.

….É um grimório antigo, um bem poderoso, pensou ela chocada. Uma sentimento de esperança surgiu em seu coração.Aquele grimório teve carregar inúmeros feitiços antigos e possivelmente até mesmo proibidos…Se for assim, talvez exista um feitiço capaz de quebrar a maldição que me prende nesse lugar!

Suas adoráveis mãos pálidas soltaram a cabeça lupina de Insagrim.

― Eu te ajudarei em sua vingança ― declarou ela, deixando após um longo período de silêncio. ― Em troca você terá que trazer aquele garoto até mim. Caso ele se recuse, apenas traga o livro que ele carrega. Se resistir, mate-o.

Insagrim meneou positivamente com a cabeça.

A Rainha da Noite Eterna, desenhou um círculo de sete camadas no chão de ossos, repleto de runas antigas. Após concluir o desenho do círculo mágico, sussurrou um curto encantamento, fazendo o círculo reluzir uma luz púrpura.

A terra estremeceu e do centro do círculo mágico, surgiu um lança óssea de dois metros de cumprimento, entalhado com runas profanas. Um miasma de morte ondulava sobre a superfície da ponta da lança.

Era possível ouvir os prantos e lamentos dos mortos.

― Essa é uma imitação da Lança Profana da Morte, Blóosugan ― esclareceu a Rainha da Noite Eterna. ― Qualquer ser vivo morto por essa lança, retornará como um morto-vivo. Mas ainda não será o suficiente para realizar sua vingança.

Ela desenhou um círculo mágico de várias camadas na terra. Do círculo mágico desenhado, transbordou um líquido viscoso preto, criando uma pequena poça escura. A superfície ondulou e uma mão pútrida surgiu segurando um requintado jarro antigo entalhado com vários rostos medonhos, aflitos, como estivessem gritando por socorro.

A Rainha da Noite Eterna cortou seu dedo e pingou uma única gota de seu sangue. Quando a gota de sangue atingiu a poça preta, o líquido se agitou e elevou-se, acompanhado por um berro animalesco que fez todos pelos de Insagrim eriçar.

― Troca realizada ― disse uma voz profunda e maligna, vindo aparentemente de lugar nenhum. ― Pegue o Jarro do Desprezo e traga morte e desgraça aos vivos.

A Rainha da Noite Eterna fez uma reverência respeitosa, e pegou com cuidado o bizarro jarro. Assim que retirou o jarro da mão pútrida, desapareceu, voltando para o inferno que tinha sido invocado.

― O Jarro do Desprezo contém uma terrível praga mortal. Uma vez liberada no ar, nada poderá conter seu avanço. Durante a era do caos essa praga ceifou a vida de milhares de pessoas. Se for usa-lo ou não, será sua escolha. Mas, pense com cuidado antes de liberar a praga, por que nem mesmo seu povo estará protegido contra essa praga.

A Rainha da Noite Eterna continuou falando até sentir um olhar penetrante atrás de si. Ela virou-se calmamente, fitando a escuridão. Por um segundo teve a ilusão de ver dois par de olhos cinzentos.

― Você não sabia que mulheres odeiam ser espionadas? ― disse ela sorrindo de forma mordaz. De seu corpo se elevou uma opressora flutuação de energia mágica, fazendo toda caverna tremer. Ela lambeu seus lábios e falou: ― Se tiver coragem, venha até mim garoto de olhos cinzentos. Se for um bom garoto e ajoelha-se diante de mim, vou permitir que beije meus pés e seja meu brinquedo por toda eternidade!

As flutuações de energia se tornou uma feroz onda de morte, aonde surgiu milhares de rostos aflitos, atingindo a presença invisível. As duas vontade se chocaram e após uma curta batalha, a vontade daquele que espionava desapareceu seguido pelo som de uma taça de cristal sendo estilhaçada.

Insagrim encarava estupefato o vazio, sem entender nada o que havia acontecido.

― Estávamos sendo espionados ― disse ela virando-se para o lobisomem de pelo de prata. ― Tenha cuidado com o garoto de olhos cinzentos, ele é forte. Se realmente deseja destruir Al-Markhen, faça-o agora. Liberar a praga e depois ataque quando estiverem enfraquecidos. Esse é o método mais fácil de realizar sua vingança. Mas como eu disse anteriormente, liberar a praga ou não será tua escolha.

Após dizer aquelas palavras a Rainha da Noite Eterna despareceu sem deixar qualquer vestígio de sua presença.

Insagrim encarou o jarro bizarro que continha o poder de realizar sua vingança. As consequências eram claras: milhares de inocentes morreriam e poderia acabar trazendo a ruína ao seu próprio povo.

Suas garras estariam encharcadas de sangue inocente.

― Meu povo também era inocente ― murmurou para si mesmo, endurecendo seu coração. ― A morte vem para todos, cedo ou tarde. Sei que mesmo se suas vidas estiverem em risco, por vingança, eles não hesitaram em sacrificar suas vidas. Nossos corações morreram junto com a destruição da aldeia e a morte daqueles que amamos. Durante a noite eles uivam de pesar, e durante o dia suas garras clamam por vingança. Sangue clama por sangue! Eu, Insagrim, Senhor dos Lobos do Norte, será aquele que colocará abaixo a amaldiçoada terra santa dos aventureiros!

Ele havia embarcado em um caminho sem volta.

Tudo que poderia fazer agora era liberar a praga.

Custe o que custar.

A taça que contém as chamas da vingança será derramado sobre Al-Markhen.

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