Ars Goetia!

 

 

 

No meio da noite, Arthur acordou ao sentir um alarme disparar dentro de sua mente. Esse alarme eram seus instintos avisando sobre o perigo – um dos sentidos que ele treinou arduamente durante esses cinco anos.

Arthur levantou-se e pegou a espada de madeira em baixo do seu travesseiro. Ele havia pegado o costume de dormir com a espada de madeira em baixo do travesseiro, após ouvir as inúmeras histórias de guerreiros que morreram por não ter sua arma ao lado.

Apesar do quarto está escuro, Arthur andou pelo quarto sem problemas. Sua visão no escuro era muito melhor do que durante o dia.

Naquela noite o ar estava muito frio para uma noite de primavera.

Ele andou até a janela do quarto e olhou da varanda os arredores do quintal. Então, como em um filme de terror de segunda categoria, notou a figura sombria de manto e capuz negro no quintal olhando diretamente para ele.

Seu corpo parecia ser envolto por uma névoa que roubava todo calor da vida ao redor. Arthur piscou surpreso e nesse piscar de olhos o ser desconhecido desapareceu como se fosse uma ilusão.

―Será que foi minha imaginação?

Não. Não era a imaginação do pequeno Arthur.

Em resposta de sua pergunta, como se estivesse zombando dele, a temperatura ambiente do quarto ficou ainda mais baixo. Ele começou a tremer de frio e sentiu um arrepio sinistro em sua nuca.

Arthur sabia que aquela coisa lá fora estava agora dentro de seu quarto, e, provavelmente atrás dele.

Arthur engoliu sua própria saliva.

Seu coração batia freneticamente, suas mãos ficou trêmulas e suor frio escorria por sua testa. Mesmo não sendo religioso, fez uma prece silenciosa em seu coração para qualquer Deus que estivesse ouvindo.

Por um instante Arthur havia congelado de medo.

Arthur mordeu seus lábios e apertou firme o cabo da espada de madeira. Reunindo toda sua coragem, virou-se lentamente pronto para desferir um golpe com sua espada de madeira. Ao se virar, contemplou aquela figura sombria parada bem atrás dele, com um olhar penetrante analisando-o dos pés a cabeça.

Com um único olhar, Arthur percebeu que não tinha a menor chance contra aquela figura sombria. Ele era poderoso. Poderoso demais, parecia poder esmagá-lo com um único dedo.

Diante de uma situação desesperadora. Arthur pensou em dois planos: Primeiro plano; correr com todas suas forças. Segundo plano; acertar a figura sombria com toda sua força com a espada de madeira e depois correr.

Para Arthur nenhum dos dois planos era promissor. A figura sombria tinha um ar que não permitiria sua fuga.

Minutos depois Arthur escolheu o segundo plano. Preparou-se para bater na figura sombria com toda sua força e correr, mas antes que pudesse colocar seu plano em prática.

A figura sombria falou:

―Não precisa ter medo de mim, Arthur ―ele disse-lhe. ―Vim apenas te ver.

Arthur hesitou em acertar a figura sombria com sua espada. Estreitou seus olhos, analisando-o, tentando ver o rosto escondido pelo capuz.

―Me ver? ― Arthur franziu a testa.

A figura sombria sorriu. Um sorriso frio.

Então ele retirou o capuz, revelando um rosto de traços aristocráticos, emoldurado por longos cabelos escuros que chegavam até suas costas. Os olhos da figura sombria eram como os olhos de Arthur – cinzentos como uma tempestade silenciosa.

Vendo aquele rosto parecido com o dele, derrepende, tudo ficou claro.

―Pai?

―Um garoto esperto ―riu friamente.―Você está certo Arthur, sou seu pai, assustado?

―Não muito ―mentiu ele. ―Sinto mais frio do que medo. A fonte desse frio e essa névoa ao seu redor? É algum tipo de feitiço de proteção ou absorção de calor? Você é realmente um mago das trevas?

Toda atmosfera sombria desapareceu com Arthur disparando uma pergunta atrás da outra. Sabendo que seu pai era um grande Arquimago, tinha muitas perguntas para fazer sobre magia.

Agora que estava diante um grande mago, como Arthur poderia perder essa oportunidade para aprender mais sobre o caminho da magia?

Allan pigarreou para chamar atenção de Arthur.

―O termo mago das trevas é muito vago e pode ser interpretado de várias formas ― explicou ele.―Mas, pode se dizer que sim, sou um mago das trevas de certa forma. Sabe o que é um mago das trevas?

Arthur meneou negativamente.

―Um mago das trevas é aquele que praticas artes mágicas proibidas. Artes mágicas proibidas são feitiços que contém um grande poder causar danos ao próprio mago, ou feitiços que pode trazer calamidade sobre o mundo. Entre as inúmeras artes mágicas existentes, artes mágicas proibidas são sem dúvidas nenhuma as mais poderosas. Contudo, também são as mais perigosas para praticar. Um mago fraco sem um treinamento adequado pode acabar sendo corrompido pelo poder e acabar perdendo sua humanidade e transformar-se em um monstro.

―Compreendo…. ―disse Arthur com vários pensamentos em mente. ―….Então, pai, o que aconteceu com você? Você dominou as artes mágicas proibidas ou foi dominado?

―Nenhum dos dois ―respondeu Allan com um sorriso frio. ―Apenas humanos podem ser corrompido por esse tipo de magia ― esclareceu e afastou o cabelo de suas orelhas revelando um par de orelha como as de um elfo. Seus olhos cinzentos se tornou duas fendas demoníacas. ―Não sou humano.

―Pai se você não é um humano, o que você é?

Allan sorriu novamente. O mesmo sorriso frio e sem vida com se não tivesse emoções.

―Sou um Demônio.

Arthur abriu e fechou a boca sem saber o que falar. Desde que Arthur reencarnou naquele mundo havia passado por muitas coisas que ultrapassavam sua compreensão. Mesmo assim, estava pasmo por descobrir que além de reencarnar em um mundo de magia, carregava sangue demoníaco em suas veias.

…É eu pensando que eu era um meio-elfo, pensou Arthur.

―Entendo, isso explica o porque sou diferente das outras pessoas….Então isso me faz um meio-demônio?

―Sim, você carrega minha bloodline demoníaca ―respondeu Allan. ― Por esse motivo pode operar a magia diretamente sem uma ferramente mágica, ou como agora ver no escuro. São algumas das habilidades inata de um demônio.

Arthur sentia que havia recebido a peça final de um quebra-cabeças incompleto. Agora compreendia por que a energia mágica era tão grande nele e outros aspectos que o diferenciava de outras pessoas.

―Será que posso manifestar asas de morcego em minhas costas? Chifres ou uma cauda?

Arthur não sabia qual era a imagem de um demônio nesse mundo. Na sua vida passada, na terra, os demônios eram retratos com asas de morcego, uma cauda longa fina e chifres de bode. Eram considerados a encarnação de todos males do mundo.

Ele esperava sinceramente que não fosse o mesmo nesse mundo.

―Depende de qual bloodline demoníaca você descende ― disse momento depois. ―Algumas linhagens demoníacas puxam traços animais, outras puxam traços mais humanoides. Os mais poderosos demônios tem chifres, asas e cauda.

Arthur compreendeu que demônios eram diferente em vários aspectos com o corpo de uma pessoa comum. De certa forma estava aliviado e agora tinha uma ideia por que não conseguia utilizar energia interna de seu corpo.

―Seu corpo é incompatível com o método usado pelos humanos para utilizar energia interna de seu corpo ―explicou ele como se estivesse lendo a mente de Arthur. ―Apesar de você não ser um demônio completo, seu sistema de circulação de energia é igual ao de um demônio, totalmente diferente do sistema de circulação de energia do corpo de um humano. Somente humanos é algumas outras espécies são capazes de utilizar energia interna. Pela raça demônio ser mais próxima da magia, somos incapazes de utilizar energia interna que é um poder inato de alguns seres desse mundo.

Arthur suspirou de alivio.

Sinceramente, Arthur estava de certa forma aliviado. Não desejava aprender artes marciais, mas por causa de Milaine ele trabalhou duro para deixa-la orgulhosa. Felizmente, ou infelizmente, agora ele tinha uma desculpa para abandonar aqueles treinos infernais.

O que Arthur realmente desejava era aprender magia.

―Eu sei que tem muitas dúvidas referente sobre magia. Prometo que no futuro irei ensinar tudo que eu sei. Mas hoje o motivo da minha visita é diferente ―Allan retirou uma caixa de madeira negra e entregou para Arthur. ―Esse é meu presente de aniversário de dez anos atrasado. Parabéns, Arthur!

Arthur aceitou o presente e com um sorriso sincero agradeceu seu pai.

Ele estava muito feliz.

 

 

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A caixa era feita de madeira escura de alta qualidade, envolta por uma fita branca contendo vários símbolos estranhos.

―São selos mágicos de contenção ―explicou Allan. ―Serve para evitar que a aura mágica do objeto vazar para fora da caixa ou que seja detectado por feitiços de adivinhação.

Arthur retirou a faixa de selamento da caixa e a abriu encontrando um grimório de capa cor azeviche brilhante adornado por um símbolo místico e complexo. Sem pensar duas vezes, com a mão direita, tocou na capa do grimório mágico. No mesmo instante uma poderosa onda de energia fria adentrou seu corpo, circulando pelos canais de energia, chegando até sua mente, inundado com fórmulas mágicas, circuitos mágicos e outros conhecimentos arcanos.

Na costa da mão direita que tocou o grimório surgiu um selo mágico demoníaco.

―Esse Grimório é um artefato antigo ― disse Allan num tom orgulhoso. ― Contém 72 tipos de Artes Mágicas Proibidas. Seu nome é Grimório Demoníaco, Ars Goetia.

Arthur olhou com pura admiração para o grimório demoníaco. Apenas por tocar a capa do grimório estava apreendendo aos poucos sobre os conceitos básicos da magia.

―Não sabemos ao certo sua origem ou quem a criou, seu nome mudou várias vezes conforme as eras foram passando. Tudo que sabemos é que esse Grimório pertenceu uma vez a Soberana Demoníaca dos Nove Infernos, Azura ― continuou ele. ―O grimório demoníaco também funciona como um amplificador mágico, duplicando danos de um ataque mágico, estendendo e aumentando alcance e duração de certas magias.

―Pai….Esse grimório parece ser um tesouro….Não posso aceitar…―disse Arthur rapidamente, tentando devolver o grimório.

―É tarde demais ―disse Allan com um sorriso frio. ―O selo demoníaco em sua mão significa que Ars Goetia o reconheceu como seu novo mestre. Agora, além de você ninguém conseguirá utilizar o grimório. O único modo, é quando o mestre atual morre.

Arthur iria agradecer novamente. Quando de repente, o grimório se abriu e as folhas se moviam em alta velocidade, sua mente foi assaltada por um fluxo de palavras como um rio de correntezas ferozes. O selo em sua mão direita expandiu e linhas negras foram espalhadas por todo braço direito de Arthur em linhas contorcidas e paralelas.

Todo seu poder mágico fluiu para as linhas negras, como canais de energia, pulsando, seguindo até o grimório demoníaco, Ars Goetia fazendo-a brilhar em chamas espectrais.

Quando estava preste a lançar uma poderosa magia. Allan tocou em seu ombro e o vez voltar a si dispersando a energia mágica canalizado no grimório.

―Nunca use Ars Goetia dentro de casa! ―disse ele num tom sério. ―Seja lá qual das 72 magias você iria lançar, na melhor das hipóteses seria forte o suficiente para destruir toda a casa. Na pior das hipótese, apagar do mapa o vilarejo não seria impossível.

Arthur suou frio ao pensar que se Allan não o tivesse parado, ele poderia ter matado todo mundo que conhece com sua magia.

―Por algum motivo Ars Goetia e completamente submissa a você ―disse ele com um suspiro. ―Em breve terei que ir embora. Mas antes vou te ensinar alguns feitiços básicos.

―Antes de me ensinar pode me responder uma pergunta, pai? ―Allan meneou positivamente com a cabeça. ―Mamãe, havia mencionado uma vez que a magia e separada por camadas. Pode me explicar quais são essas camadas?

―Existe tantas artes mágicas e feitiços assim como as incontáveis estrelas do céu. Cada feitiço tem seu nível de consumo de energia mágica, função, e no caso de magias ofensivas o nível de dano que é capaz de infligir. Esses feitiços são divididos por dez camadas. Da primeira camada sendo o mais fraco e a décima camada a mais forte.

―Então resumindo. Feitiços da primeira camada são mais fracos e exige menos consumo de energia? ―perguntou Arthur.

―Sim ―respondeu Allan.―Quanto maior for a camada que o feitiço pertence. Mais forte será o feitiço, e em contrapartida, maior será o consumo de energia mágica. Por esse motivo humanos, por não ter muita energia mágica, normalmente consegue usar feitiços até a quinta camada. É aqueles conhecidos como Sábios ao longo das histórias, normalmente são indivíduos especiais que nasceram com uma grande reserva de energia mágica, podendo usar feitiço até a sétima camada.

Ouvindo a explicação de Allan uma nova dúvida surgiu.

―Então quer dizer que aqueles com aptidão mágica nasce com uma determinada quantidade de energia mágica no corpo?

Allan meneou positivamente com a cabeça e com um gesto simples de sua mão criou vários copos de gelo de diversos tamanhos.

―Veja cada um desses copos como o corpo de um ser humano ―disse ele, e depois com outro gesto preencheu os copos com água. ―Cada copo pode conter uma determinada quantidade de água. Copos menores pode conter pequenas quantidades de energia mágica, copos maiores pode conter maiores quantidades energia mágica. Assim também são os humanos e outras raças com aptidão para magia.

Arthur queria fazer outras perguntas mais antes que pudesse abrir a boca, Allan falou:

―Sem mais perguntas. Meu tempo e curto e logo terei que partir! Agora vamos praticar feitiços básicos. Venha, segure minha mão!

Arthur caminhou até Allan e segurou sua mão. No mesmo instante, Allan jogou a mão livre para frente e com uma rapidez desumana, fez selos com a mão abrindo uma fenda na camada espacial.

Arthur ficou boquiaberto, ao ver que do outro lado da fenda, se encontrava uma clareira dentro da floresta.

―Posso criar fendas na camada espacial, podendo me mover de um local para o outro ―disse indiferente, como se todo mundo pudesse fazer o que ele fez. ―No futuro quando tiver uma compreensão maior sobre a magia, poderá fazer o que estou fazendo.

Sem dizer mais nenhuma palavra puxou o jovem Arthur para dentro da fenda, chegando até a clareira na floresta.

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