Sala Fechada

Quando acordou, uma forte dor de cabeça o fez gemer. Xi ainda sentia um pouco daquele estranho odor doce no nariz, mas pelo menos ele sabia que estava vivo. Apesar de não saber exatamente aonde estava.

Em volta dele os outros membros da classe A gemiam e despertavam do sono forçado. Olhando em volta ele percebeu que estavam em uma grande sala retangular com paredes de metal e uma grande porta também de metal tingida de branco no centro de uma das paredes. Alguns armários se espalhavam pelas paredes e poucas mesas enchiam a sala. Além disso as únicas coisas no campo de visão de Xi eram os outros alunos.

  • Onde estamos ? – perguntou alguém com a voz carregada de medo.

  • O que aconteceu ? – perguntou alguma garota.

  • Fiquem calmos – falou Ling tentando manter a ordem entre os alunos.

Xi percebeu que toda sua classe estava presente. Todos os dezoito alunos da classe A, cada um deles apresentando um grau diferente de nervosismo. Muh estava sentado em posição de lótus com seus seguidores de pé em volta dele. O Prata parecia imperturbável, mas o mesmo não podia se dizer de seus seguidores que olhavam nervosos em volta.

Feng e Ling estavam no meio da sala acalmando seus respectivos grupos com palavras de confiança. Xi viu nos três nobres as características de líderes passadas pelas famílias nobres e ampliadas pelas aulas da Academia.

Muh mostrava para seus seguidores uma calma inabalável que aos poucos dava confiança ao seu grupo enquanto Ling e Feng tentavam inspirar com palavras aqueles em volta deles.

Enquanto assimilava tudo isso o jovem Xi se reuniu com seus companheiros. Buco e Swam pareciam estar um pouco ansiosos, mas estavam conseguindo disfarçar bem. Já Ryu se mantinha em uma posição de sentido alerta a tudo em volta dele enquanto analisava os arredores da sala.

  • O que aconteceu ? – perguntou Buco sussurrando.

  • Só me lembro de apagar em meu quarto – respondeu Xi – E vocês?

Os primos rapidamente concordaram. Swam ainda lia um livro de estratégia quando começou a apagar e Buco estava indo para a cama quando perdeu os sentidos no meio do caminho. Após analisar a sala com cuidado o jovem Ryu informou que estava praticando o Ju’gam quando suas forças começaram a sumir e ele desmaiou.

  • Então todos fomos neutralizados em nossos quartos, mas porque?

  • Um teste – se elevou a voz de Ling chamando a atenção de todos – Estamos em um teste da Academia.

  • Mas que teste ? – interrompeu a voz de Muh – Normalmente nos reúnem em um determinado dia para fazermos os testes e não nos sequestram a noite quando vamos dormir.

Rapidamente os alunos do grupo de Muh começaram a erguer a voz concordando com seu líder até que o Prata se ergueu silenciando-os.

  • Eu nunca ouvi falar de um teste como esse, Ling. E você?

  • Eu também não – concordou a jovem balançando a cabeça – mas só porque nunca ouvimos falar desse teste não quer dizer que não seja um.

  • Será que vocês podem fazer silêncio por um momento – Todos se viraram para ver quem teve a coragem de interromper o debate entre os Pratas.

Foi nesse momento que Xi reparou que Tou estava agachado ao lado de um teclado digital preso a parede oposta à que tinha a porta branca.

  • Com quem pensa que está falando, Bronze ? – perguntou Muh recuperando um pouco de sua antiga personalidade, mas tão logo percebeu o deslize ele se calou e observou Tou carrancudamente.

O Bronze o ignorou e continuou a mexer no teclado digital chamando a atenção de todos que se calaram e começaram a observar o jovem com expectativa de que ele conseguiria uma resposta.

Todos sabiam que Tou não era o melhor guerreiro dentre os alunos da classe A, mas todos conheciam suas habilidades estratégicas e sua grande genialidade. Era com toda certeza alguém que poderia encontrar uma resposta para a situação. E é por isso que Muh se calou tão rápido. Pensou Xi olhando de canto de olho para o Prata.

Os minutos se arrastaram lentamente causando um grande sofrimento para os alunos. Uma eternidade tinha parecido se passar até que Tou se ergueu com um sorriso estampado no rosto.

  • Pronto ! – disse ele simplesmente clicando uma última vez no teclado.

Com um zumbido agudo acompanhado de um clarão surgiu sobre uma das mesas se erguendo em uma torre de luz. Todos os alunos recuaram cobrindo os olhos da forte iluminação.

  • Mas que merda…

  • Tou seu maldito.

Os alunos começaram a xingar o Bronze reclamando enquanto coçavam os olhos. Mas quando recuperaram a visão, todos se depararam com a figura do Instrutor Lee de pé sobre a mesa, ou melhor dizendo, o holograma do velho Instrutor.

  • Parabéns meus jovens – reverberou a voz de Lee vinda de todos os cantos da sala – meus parabéns por conseguirem ativar o holograma guia. Isso é um belo paço para o futuro de vocês.

O velho sorriu para os jovens olhando diretamente para a porta branca diante dele.

  • Vocês devem estar cheios de dúvidas no momento, mas infelizmente não posso revelar tudo a vocês. No entanto, vocês serão recompensados por conseguir ativar esse holograma.

O velho fez uma pausa rápida dando aos alunos o tempo para se concentrarem em suas próximas palavras.

  • Vocês estão agora no Teste de Sangue e eu garanto a vocês que vocês encontrarão mais perigos aqui do que na pequena aventura de vocês nas passagens.

Essas palavras causaram calafrios nos alunos. Principalmente em Xi, Ling, Ryu e Wei.

  • Esse teste irá leva-los aos extremos de seus treinamentos. Vocês devem sobreviver com o que encontrarem nessa sala e nos corredores lá fora. Fiquem avisados que um erro pode resultar em morte. Um deslize e todos podem nunca mais sair desses corredores. O teste acaba quando encontrarem a saída ou morrerem. Desejo sucesso a todos vocês.

Assim que as palavras foram ditas o holograma desligou-se diminuindo e muito a iluminação da sala. Tou se aproximou novamente do teclado e voltou a digitar, mas após uma rápida análise ele se virou para o grupo com os olhos caídos.

  • O teclado parou de funcionar.

  • Só isso? – explodiu um dos seguidores de Muh – Grande ajuda,  velhote desgraçado.

  • Acalme-se – Muh lançou um olhar cortante para seu seguidor – Agora sabemos que isso é um teste. E a falta de informação faz parte do teste.

  • Ele disse que dependemos do que encontrarmos para sobreviver – se intrometeu Xi – devemos descobrir logo o que temos além das roupas que usamos.

Aquilo chamou a atenção da classe A para outro detalhe que eles tinham deixado passar. Nenhum deles estava usando a farda da Academia. Tantos os garotos quanto as garotas usavam Ukras brancas, camisas de manga longa bem folgadas com aberturas que iam do pescoço até o meio da barriga unidas por um cordão em zigue-zague.

Além das Ukras os jovens usavam uma simples calça marrom escura bem justa ao corpo. Além dessas duas peças visíveis eles não usavam mais nada. Estavam sem luvas. Descalços e para desagrado de muitos, com fome.

  • Vamos ver o que achamos pela sala – disse Ling tomando a iniciativa – coloquem tudo que encontrarem nas mesas para termos uma base do que temos ao nosso dispor.

Xi reparou que um dos subordinados de Muh estava prestes a rebater a ordem de Ling quando foi sumariamente silenciado pelo Prata.

Sem mais demoras os jovens se espalharam pela sala. Nas mesas já estavam alguns objetos que foram ignorados enquanto cada aluno se dirigia até os armários nas paredes explorando seus interiores.

A primeira porta que Xi abriu continha uma almasha e duas facas. Ele desembainhou a espada verificando que era uma arma real com lâmina de ativação de enerjom enquanto as duas facas eram normais feitas de aço negro. Xi levou as armas para a mesa mais próxima onde ele viu de relance alguns coletes, capas, elmos e dois pares de botas.

Sem perder tempo o jovem Bronze voltou para os armários a procura de mais itens achando na segunda porta que abriu um bracelete de metal que ele reconheceu rapidamente como sendo BEE, um bracelete escudo de e enerjom. Xi ficou tentado a colocar o bracelete no braço, mas isso poderia causar problemas com os outros alunos, principalmente com o grupo de Muh. Com um suspiro pesado o jovem levou o bracelete até a mesa e o depositou ao lado das facas.

Em poucos minutos a classe A tinha reunido tudo que tinha na sala. Enquanto os alunos recolhiam os itens a bela Ling tinha se mantido ao lado das mesas organizando os itens encontrados. E pela expressão da jovem algo não estava certo.

  • O que aconteceu, Ling ? – perguntou Xi quando percebeu a expressão da garota.

  • Está faltando muita coisa – respondeu ela – não temos armas para todos, nem vestimentas.

  • E para piorar sem comida – resmungou Buco ao lado de Xi olhando para as mesas carrancudo.

As palavras de Buco renderam um coro de gemidos e xingamentos por parte de toda a classe, quase todos estavam com fome e a falta de informação não estava ajudando.

  • Não há nada que possamos fazer sobre isso – Xi calmamente disse aos outros alunos – no momento devemos nos concentrar no que temos aqui.

  • Xi tem razão – concordou Ling  – lembrem-se das palavras de Lee. Devemos sobreviver com o que encontrarmos aqui nessa sala e nos corredores além daquela porta.

  • Como iremos dividir os itens ? – perguntou Feng analisando as mesas – muito gente vai ficar sem uma arma para se defender.

  • Antes disso – interrompeu Muh se apoiando sobre a borda da mesa e encarando Ling e Feng – creio que devemos criar uma cadeia de comando.

  • Como assim?

  • Não é óbvio? Alguém precisa nos liderar para evitar que haja problemas. Você sabe como é, pode haver conflito de ideias ou objetivos. É melhor ter alguém para guiar a classe.

  • E quem você acha que seria a melhor opção para nos liderar?

  • Não é óbvio? – cortou um dos seguidores de Muh.

  • Sim. É muito obvio – Xi deu um passo a frente se colocando ao lado de Ling e Feng querendo acabar logo com o jogo de palavras, eles estavam perdendo tempo com essa birrinhas – a melhor aluna da classe é a melhor opção para tomar a liderança.

Muh estreitou os olhos em direção a Xi, mas o jovem Zhang o ignorou sabendo que futuramente essa ação lhe causaria problemas. Acontecesse o que acontecesse, ele sabia que nada de bom aconteceria se Muh assumisse a liderança.

  • Concordo com Xi – Se adiantou Feng percebendo os pensamentos do Bronze – Ling vem a ser nossa melhor opção.

Do jeito que Muh cerrava os dentes, parecia até que ele iria debater com os dois Bronzes sobre a liderança da classe. Mas olhando em volta ele percebeu que o jogo estava contra ele. Muh tinha controle sobre um quarto da classe, mas os outros três quartos estavam ao lado de Xi, Ling e Feng.

  • Acho que está decidido estão – após perceber que Muh não iria interferir, Feng voltou ao assunto – Ling irá nos liderar, quem vai ficar com o que, capitã?

A bela Prata lançou ao amigo um sorriso honesto antes de se concentrar nos itens sobre as mesas. Os recursos que eles possuíam estavam bem limitados por isso ela teria que dividi-los da melhor maneira possível.

Enquanto Ling analisava os itens a ser distribuídos o jovem Xi se concentrou em observar Muh discretamente. O Prata tentava manter uma expressão neutra no rosto enquanto seus seguidores se mantinham carrancudos as suas costas, mas quando os olhos do garoto se encontraram com os de Xi um brilho perigoso se acendeu em suas órbitas.

Um calafrio subiu a coluna de Xi. Um aviso instintiva para redobrar a precaução ao lado do jovem Prata.

Quando Ling começou a distribuir os itens ela ia explicando porque estava dando cada objeto a cada pessoa. Xi recebeu das mãos da jovem uma almasha enquanto Ling explicava que ele como sendo um dos melhores guerreiros estaria responsável pela linha de frente.

Além de Xi, mais cinco pessoas estavam armados com almaças. Dentre eles estavam Ryu, Wei, os dois guardas costas de Muh e o próprio Prata. Dos outros alunos, sete carregavam facas de aço negro. Quatro levavam alfings nas costas. Alguns tinham conseguido capas, botas ou luvas e pelo menos duas pessoas usavam BEE.

  • Não sabemos o que nos espera lá fora – começou a dizer Ling após subir em uma mesa – O velho Lee nos avisou que esse teste é perigoso o suficiente para nos matar. Por isso nos manteremos unidos, pois unidos seremos mais fortes. Eu posso estar nos liderando, mas cada um de vocês tem talento para ser um líder. Cada um de vocês foi treinado para liderar. Vamos seguir em frente e completar essa tarefa como uma unidade. Vamos conquistar nosso lugar no topo.

Ling ergueu o punho esquerdo, onde reluzia o BEE, soltando um grito de guerra que foi repetido pelos outros alunos. Fazendo um gesto em direção a Tou que estava parado ao lado do painel da porta branca a jovem avançou e os alunos a seguiram.

 

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