Ao refeitório.

Os corredores eram estranhamente iguais uns aos outros, com cinco metros de largura entre uma parede de metal fria e outra e se estendendo até o horizonte iluminados pelas fracas luzes de enerjom.

Xi já estava começando a sentir o cansaço causado pelos últimos acontecimentos. Mesmo treinado por sua família e por Tatua para aumentar sua resistência o jovem Bronze não conseguia suprimir o desgaste causado pelo estresse, e olhando em volta ele podia ver que seus companheiros não estavam muito melhor.

Sua almasha pendia em sua mão desativada para conservar o escasso enerjom. Mesmo uma fonte tão pura de energia não era ilimitada após ser retirada da terra e colocada nos corações.

– Uma porta! – sussurrou Swam liderando o avanço do grupo.

Mais a frente no meio do caminho acoplado a parede se encontrava um painel de controle e uma porta de metal do tipo que desliza para dentro da parede se encontrava ao seu lado.

  • Vamos olhar? – perguntou Ryu lançando um olhar cansado sobre o ombro.

Parecia para Xi que o jovem plebeu ainda estava um pouco traumatizado com o episódio com o golem. Agora que Ling não estava mais presente todos os alunos tinham concordado que Xi era o mais indicado para lidera-los. Não por ele ser um Bronze, mas sim, porque como Ling, ele possuía uma das melhores notas ali além de receber o respeito da maioria deles.

Xi tomou um momento antes de responder para recuperar o fôlego e pensar no que deveria fazer. Ele olhou para a porta de canto de olhe com um pequeno formigamento sob a pele. O que será que tem lá dentro? Ele se perguntou, percebendo que Ryu não era o único traumatizado com o golem.

  • Você consegue abri-la, Tou?

O pequeno Bronze se aproximou do painel de controle acendendo com um toque as luzes do teclado. Ele rapidamente começou a digitar e numa fração de respirações a porta deslizou para dentro da parede produzindo um silvo arrepiando.

  • Eu irei entrar com Tou – avisou Xi ativando o enerjom da lâmina de sua almasha – o resto de vocês fiquem atentos ao corredor.

Os jovens balançaram a cabeça concordando com o plano de ação. Xi olhou rapidamente para Tou, que segurava em sua mão direita a faça de aço negro, antes de dar o primeiro passo para dentro da pequena sala que tinham encontrado.

Essa era bem menor que as outras duas. Não possuía passagens adjacentes nem nenhum armário nas paredes, mas uma larga mesa se encontrava presa a parede de frente para a porta.

Após constatar que não havia nenhum perigo na sala o jovem desativou a lâmina de enerjom.

  • Aquilo é o que estou pensando que é?

  • Só espero que esteja carregado – respondeu Tou indo até a mesa.

Xi embainhou sua almasha com um leve suspiro de alívio se voltando para o grupo fora da sala e fazendo sinal para que entrassem.

  • Vigie o corredor, Ryu.

Quando Xi voltou sua atenção para Tou o outro Bronze já tinha conseguido ativar o teclado de enerjom sobre a mesa e projetado a tela holográfica acima dela.

  • O que encontrou? – perguntou Xi se inclino sobre o ombro do outro Bronze.

  • Uma defesa bem forte – resmungou Tou sem tirar os olha da tela, seus dedos voavam sobre a mesa digitando freneticamente no teclado digital – uma pessoa com conhecimento básico nunca passaria por isso aqui. O que os Instrutores estão pensando?

Se passou mais alguns minutos antes que o jovem Bronze conseguisse atravessar o bloqueio do sistema. Tou deixou um suspiro escapar de seus lábios enquanto enxugava o suor da testa.

  • Parabéns! Parabéns!- reverberou uma voz pelas paredes da sala assustando os alunos – essa geração possui verdadeiramente alguém habilidoso para ter passado pelo bloqueio desse sistema. Mas vamos direto ao assunto que o que vocês menos tem é tempo para desperdiçar. Por terem conseguido chegar a essa sala e passar do bloqueio, vocês vão receber três informações sobre esse teste.

Primeiro: O local onde vocês estão é dividido em cinco andares.
Segundo: Existem guardiões espalhados por todos os andares andando em grupo ou sozinhos.
Terceiro: Para completar esse teste vocês encontrarão a saída no último andar.

– Boa sorte! E que os padrinhos os guiem com sabedoria.

Assim como na outra sala o sistema da mesa se apagou enfraquecendo a iluminação da sala, Xi e Tou trocaram olhares silêncios enquanto assimilavam as palavras do holograma.

  • Parece que conseguimos as primeiras peças para completar esse teste – comentou Xi – mas devemos nos reunir com os outros antes de discutirmos isso.

  • Falta muito? – perguntou Zico.

Xi tentou fazer os cálculos com base no que se lembrava do mapa, mas ele não era tão bom quanto Swam e Buco nessas coisas. No final ele se voltou para o pequeno plebeu com uma pergunta no olhar.

  • Acho que mais uns quinze ou vinte minutos no ritmo em que estamos – calculou Swam – isso é, se não houver imprevistos no caminho.

Para felicidade e alívio do grupo eles não encontraram nenhum empecilho em seu caminho. Eles seguiram quase em linha reta por um longo corredor atentos às partes onde ele se dividia. Dessa vez eles não encontraram outra sala, mas tiveram que pegar duas curvas para seguir em direção ao refeitório como indicava o mapa na cabeça de Swam.

  • Esse lugar é imenso – comentou Buco em certo momento – não acredito que o abandonaram para fazer testes acadêmicos.

Xi concordava com as palavras do plebeu, pelo que tinham visto o teste estava acontecendo em uma antiga base militar abandonada. Mas porque ela tinha sido abandona? As dimensões do andar onde estavam e levando em conta que ainda havia mais andares deixava claro que aquele tinha sido um lugar importante,  mas o que ele era agora?

O Bronze teve que parar de se preocupar com isso quando o corredor terminou diante de uma grande porta de metal branca muito parecida com a da sala onde tinha despertado. Um painel de enerjom se encontrava a direita da porta acoplada na parede e a um sinal de Xi o jovem Tou avançou para abrir as portas.

Com um suave sussurro de metal deslizando sobre metal a porta branca se abriu. Xi e Ryu se posicionaram a frente do grupo com suas espadas erguidas prontos para qualquer perigo que surgisse.

  • Fiquem atentos – sussurrou Xi avançando ao lado do plebeu.

Após a porta se encontrava outro corredor que se estendia por uns cem metros antes de terminar em outra porta branca. As paredes do corredor eram divididas por um grande número de portas deslizantes com painéis a direita de cada uma delas.

  • Agora falta pouco – resmungou Buco avançando para dentro do corredor.

  • Espere – Xi ainda segurava sua almasha olhando desconfiado para as portas – acho melhor verificarmos as portas.

  • Todas ? – perguntou um cansado Swam.

  • Sim. Todas. Não quero nada aparecendo em nossas costas enquanto avançamos.

Xi foi até a primeira porta da direita e fez sinal para que Ryu se colocasse ao seu lado. Quando o plebeu se posicionou o jovem Zhang pediu para que Tou abrisse a porta que ao se mover para o lado revelou um pequeno quarto. Xi viu dois beliches nas paredes laterais e um pequeno armário de frente para a porta.

  • Buco, Zico – Xi deu um passo para o lado encarando os dois plebeus – verifiquem se há algo de útil aí dentro. Swam, vigie o corredor. A outra porta, Tou.

Tou foi silenciosamente até o painel da segunda porta enquanto Buco e Zico entravam no primeiro quarto. Xi e Ryu entraram cautelosamente no segundo quarto quando a porta deslizou ao comando de Tou.

Xi encontrou no segundo quarto uma cena praticamente igual a do primeiro, o que acabou se repetindo em todos os outros quartos. O grupo não encontrou nenhum perigo, nenhum golem pronto para ataca-los. Mas a recompensa pelo tempo perdido investigando cada quarto foi muito bem vinda. O pequeno grupo reuniu uma boa coleção de coletes, calças, botas, luvas, alguns elmos e pelo menos dois escudos. Xi aconselhou o grupo a vestirem as peças que lhe coubessem e juntou o resto dos itens dentro de uma sacola feita com um dos cobertores dos beliches.

  • Espero que Ling tenha conseguido algumas armas – comentou Xi quando estavam deixando o corredor com os quartos – Agora temos roupas para quase todos, mas se não conseguirmos armas para nos defender isso aqui não vai ter muito serventia.

Os outros assentiram em concordância, todos os seis usavam elmos agora e Zico e Buco carregavam os dois escudos. Os escudos eram ovais feitos de metal sem nenhum adorno ou símbolos em sua superfície, era o tipo de proteção básica de infantaria normal podendo defender um homem de muita coisa, mas se tornando frágil contra um ataque de enerjom podendo com muita sorte repelir um único disparo de uma alfings ou retardar um golpe de almasha indireto.

  • Vamos em frente!

Alguns minutos depois o grupo chegou a uma gigantesca sala repleta de longas mesas de metal flanqueadas por longos bancos igualmente de metal sem apoio para as costas. O refeitório era imenso com espaço para receber centenas de pessoas de uma vez e ainda ter espaço para que essas centenas transitassem sem se chocar umas com as outras.

  • Vigie a entrada, Swam – disse Xi avançando para o refeitório com sua espada erguida – O resto de vocês se espalhem e verifiquem o lugar.

Ryu e os outros seguiram rapidamente pelas passagens entre as mesas em busca de algum sinal de perigo ou do grupo de Ling encontrando nada mais que poeira e o vazio de uma sala não usada a anos.

  • Eles não estão aqui – comentou Buco parado de frente para uma pequena porta deslizante – Aqui dentro deve ser a cozinha e o armazém. Tou, você pode abrir?

O magro Bronze inclinou a cabeça em direção a Buco observando o gorducho plebeu em silencio por um momento antes de ir até o painel ao lado da porta e abri-la após uma rápida digitação.

  • Espere, Buco. Não entre sem saber o que esta ai dentro.

  • O que mais pode ter aqui dentro alem de comida, Xi?

  • Um golem quem sabe? – retorquiu Ryu se aproximando de Buco e de Tou – eu vou com eles.

Os três entraram na dispensa ou quem sabe fosse a cozinha deixando Xi, Zico e Swam no refeitório. Olhando para todo aquele espaço empoeirado e vazio o jovem Bronze se perguntou mais uma vez onde eles estavam. Como uma base daquele porte poderia ter sido abandonada e se foi mesmo abandonada, o que fez com que o Império a abandonasse? Xi estava absorto em pensamentos ate que ouviu a voz alarmada de Swam. O sexto filho dos Zhang se ergueu do banco onde estava sentado em um salto com a almasha já em mãos avançando a passos largos em direção ao pequeno plebeu.

  • O que foi? Um golem?

  • Não – respondeu Swam abrindo um largo sorriso enquanto se virava para Xi – olhe, são os outros.

Um longo suspiro de alivio escapou de Xi quando ele avistou um pequeno grupo de pessoas vindo de uma curva no corredor que dava para o refeitório, guiando o grupo vinham duas pessoas. Uma era uma bela jovem com longos cabelos negros e o outro um rapaz alto segurando nas mãos uma alfings.

  • Vocês estão atrasados – gritou Xi para o grupo erguendo uma mão em saudação.

  • Zhang seu maldito – veio o grito de Feng em resposta – nunca achei que ficaria tão feliz em te ver.

  • Digo o mesmo, Feng – respondeu Xi sorrindo – Pelo criador, me digam que encontraram algumas armas pelo caminho.

  • Passamos pela sala de armas se é isso que você quer saber – respondeu Ling entrando com seu grupo no refeitório – mas a maioria das armas lá eram da’mashas.

  • Antes uma espada de aço do que uma faca – retorquiu Swam mostrando sua faca.

  • Verdade – concordou a jovem sorrindo – mas vejo que vocês também conseguiram algumas coisas.

A jovem Prata apontou para o elmo que cobria o rosto de Xi e em seguida apontou para suas roupas. Em resposta o jovem Bronze apontou para a trouxa sobre uma das mesas do refeitório.

  • Vamos ver como podemos dividir os itens extras – comentou Xi.

Ling estava para dizer algo quando uma voz alta e alegre se elevou do fundo do refeitório ecoando pelas paredes.

  • COOOOMIIIIIDAAAAAA!

 

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