Colegas de Classe 

O quarto de Xi na Academia não era muito diferente do que ele tinha em casa. Uma cama de solteiro ficava de frente para a porta de madeira, a esquerda da cama ficava uma estante para livros e um armário para os pertences. A direita da cama ficava uma mesa de leitura com uma cadeira de metal forrada com um pano marrom claro. Acima da mesa de leitura ficava uma janela retangular que se abria em direção a uma torre solitária.

O jovem Xi se encontrava no momento escorado contra a porta fechada observando seu novo lar. Suas duas sacolas com  seus pertences estavam no momento largadas no tapete ao pé da cama trazidas por algum servo. Lentamente ele se moveu para arrumar suas coisas. Colocou alguns livros na estante, suas roupas no armário e um tabuleta de Xadrez Imperial sobre a mesa de leitura.

  • Senhor Xi? – Chamou uma voz infantil do lado de fora do quarto.

  • Pois não?

  • A senhora Cham pediu para avisar que o banheiro masculino já está pronto. Os outros membros de sua classe estão se dirigindo no momento para lá.

  • Só um momento que já  vou sair.

Dando uma rápida olhada no quarto para ver se tinha guardado todos os seus pertences pessoais o jovem Xi se dirigiu primeiro para o armário pegando uma das toalhas que tinham sido deixadas antes de sua chegada assim como um novo uniforme.

Ao sair do quarto o jovem Xi seguiu pelo longo corredor onde estavam alojados os alunos da classe 1A seguindo em direção a escada em espiral que levava ao andar inferior como a Instrutora Ye tinha mostrado na sua chegada. Lá ele encontrou dois alunos plebeus que seguiam um jovem de roupas largas cinzentas. Um dos órfãos que a Academia adotava para trabalharem como servos cuidando da limpeza assim como dos jantares para os instrutores e alunos.

Em silêncio Xi seguiu o trio ouvindo um pouco da conversa deles sem ser notado. O rapaz da direita era um pouco pequeno para alguém de dezesseis anos. Seu cabelo era curto e bagunçado e ele andava se inclinando para frente. Pelo que Xi ouviu ele se chamava Swam e o garoto ao lado dele que era um pouco roliço se chamava Buco.

Os dois conversavam sobre a viajem de sua vila até a Academia e sobre todos os tipos de coisas que tinham visto durante o caminho. Xi simpatizou com os dois percebendo que era a primeira vez que eles tinham ido para tão longe de casa.

O jovem Bronze se lembrou da primeira vez que seus pais tinham levado ele para fora de casa. O quão surpreso ele ficou com a quantidade de pessoas que viviam na mesma cidade. O quão surpreendente era o mercado principal ou as terras montanhosas em volta da cidade.

De repente a conversa entre os dois alunos plebeus parou e Xi percebeu que eles o tinham visto. Por um momento ele desviou o olhar envergonhado por estar ouvindo a conversa dos dois. Mas diferente da reação esperada os dois plebeus simplesmente se curvaram e chegaram para o lado dando passagem para Xi.

Com um suspiro resignado o jovem Bronze avançou passando pelos jovens. Por mais que falassem que ali não existia castas, era muito difícil apagar da mente de uma pessoa seus costumes. Quando Xi estava prestes a passar pelos dois plebeus ele sussurrou.

  • Se continuarem se curvando para cada membro de uma linhagem nobre – começou Xi – logo vocês serão descartados pelos instrutores.

Isso fez os dois jovens erguerem a cabeça e arregalarem os olhos para Xi.

  • Os instrutores querem líderes, por isso recomendo que evitem abaixarem suas cabeças para alunos do mesmo ano.

Vendo o temor dos jovens diminuindo um pouco o sexto filho dos Zhang sorriu e continuou andando. Ele tinha ouvido de seus irmãos e irmãs que muitos bons oficiais eram plebeus e que para sobreviver na carreira militar era necessário subordinados bons e confiáveis. Quando esses pensamentos passaram pela cabeça de Xi ele parou de andar com uma ideia se formando em sua mente.  Lentamente ele se virou e encarou os dois surpresos plebeus.

  • Perdão pela minha falta de educação – Disse o Bronze cumprimentando os dois com um aceno de cabeça – Eu me chamo Xi, da família Zhang da província das Chuvas Cortantes. Será um prazer ter vocês como companheiros de classe.

Os dois garotos olharam primeiro para Xi de olhos arregalados e descrentes por um nobre ter falado com eles daquela maneira humilde e depois encararam um ao outro buscando no outro uma confirmação para o que estava acontecendo. O primeiro a se recuperar foi o gorducho que fez uma mesura formal para Xi antes de começar a falar.

  • Eu me chamo Buco Q’wem – se apresentou apressadamente – venho de uma família de mercadores da vila Sota.

  • E eu me chamo Swam Q’wen – disse o baixinho – também sou filho de mercadores da vila Sota.

  • Irmãos ? – perguntou Xi estranhando o sobrenome dos dois.

  • Primos! – corrigiu Buco – Swam é filho de minha tia.

  • Entendo. Se não me engano a vila Sota fica a oeste da Cidade das Chuvas, correto ?

  • Sim, Lorde Xi.

  • Nada de “Lorde” – cortou Xi – aqui somos todos alunos com o mesmos nível.

Os dois garotos voltaram a trocar olhares como se estivessem se comunicando mentalmente antes de voltarem-se em direção ao Bronze.

  • Perdoe nossos modos, Lor… Xi – Buco fez uma pausa medindo as palavras que iria usar – mas porque esta aqui perdendo seu tempo com plebeus como nós?

Xi arqueou suas sobrancelhas surpreso com a pergunta do gorducho. Normalmente a plebe ficaria doida para conseguir favores de um nobre, mas aqueles primos eram espertos e possuíam uma natureza desconfiada clássica dos mercadores. Por isso Xi decidiu ser sincero com eles.

  • Vocês sabem o que nos esperam nesses dois anos? Não.  Não só nesses dois anos, mas sim daqui até depois de nossa formatura ?

Os primos voltaram a se encarar antes de sacudirem a cabeça negando.

  • Já imaginava isso. Bem, eu possuo cinco irmãos que se formaram nas Academias. Três se formaram nessa mesma Academia que estamos. Um se formou como Piloto de um Deus da Guerra e minha irmã mais velha se formou no Exército Celestial e hoje é capitã de sua própria nave no frota.

Os olhos dos dois plebeus quase pularam para fora de suas órbitas conforme Xi dizia das conquistas de seus irmãos. A família Zhang estava claramente em Ascensão.

  • Uma coisa que esses meus irmãos e irmãs deixaram bem claro para mim é que um bom comandante possui bons oficiais para segui-lo.

  • E você quer que nós nos curvemos a você ?- Perguntou Swam desconfiado.

  • Não ! – exclamou Xi para a surpresa de todos – eu quero companheiros hábeis pata ascenderem comigo até o topo. Me ajudem a conquistar minha formatura e eu irei apoia-los nas de vocês.

Buco e Swam deram as costas a Xi e começaram a sussurrar. Pacientemente o sexto filho dos Zhang esperou pela resposta dos Q’wen.

  • Só para deixar claro – disse Buco franzindo a sobrancelha para o nobre – Você está nos propondo uma aliança ?

  • Sim! – respondeu simplesmente Xi.

  • Então aceitamos.

Os três garotos então trocaram um aperto de mão selando um compromisso que iria mudar a vida deles para sempre. Xi e os primos sorriram uns para os outros felizes com o desenrolar dos acontecimentos até que perceberam que o servo ainda estava parado a poucos metros esperando por eles. Rindo o trio seguiu o servo até a área dos banhos.


O banheiro masculino da Academia era um grande retângulo  com mais de trinta e metros de comprimento com dez de largura com dezenas de chuveiros saindo das paredes. Alguns dos jovens nobres se surpreenderam por estarem tomando um banho coletivo enquanto os plebeus e os Bronzes de famílias grandes estavam mais acostumados a esse tipo de situação.

Após tirar sua roupa e entrar no banheiro enrolado em sua toalha o jovem Xi se deparou com um gigantesco espelho que cobria a parte superior das paredes do banheiro. Xi caminhou até um dos chuveiros e parou com uma mão sobre a maçaneta de metal. Diante dele estava seu reflexo no espelho úmido. Sua estatura estava na média entre os izanitas e seu cabelo preto estava cortado um pouco a baixa da altura dos ombros. Uma pequena cicatriz dividia sua sobrancelha esquerda e outra marcava bem de leve seu lábio inferior. Para quem olhasse com atenção perceberia que seu nariz era levemente torto após ser quebrado uma vez em treino.

Muitos nobres após se ferirem usavam da tecnologia moderna para se curar, mas a família Zhang acreditava que cada cicatriz servia como um lembrete para as ações futuras e que não deveriam ser apagadas do corpo para que o ferido não esquecesse da experiência.

Após tomar o banho os jovens foram guiados por um grupo de servos até um grande salão repleto de longas mesas cobertas de comida. Xi sentou-se ao lados dos primos Q’wem conversando sobre as coisas que tinham visto durante a viajem enquanto as outras classes se juntavam a eles ocupando as outras mesas. Assim como os irmãos de Xi tinham lhe dito os alunos do segundo ano não estavam presentes.

Durante o banquete os instrutores apareceram se reunindo em uma grande mesa redonda sob os pés de uma grande estátua de um guerreiro izanita portando uma Almashas desembainhada apontada para o teto. Xi ficou observando a bela escultura que retratava um belo guerreiro em seu auge. Cada detalhe da armadura e da roupa assim como do rosto tinha sido retratado com o máximo de cuidado levando a um trabalho nada menos que perfeito.

Percebendo a interesse do novo amigo, o pequeno Swam se inclinou em direção a Xi sussurrando.

  • Aquele é o Diretor. Ou pelo menos era em sua juventude.

  • Ta de sacanagem… – Xi não pode deixar de comentar sem acreditar comparando a bela e imponente figura com o Velho Diretor.

  • Meu pai já vendeu algumas miniaturas dessa ai – comentou Swam orgulhosamente – por isso posso te garantir que é verdade.

Xi sabia que o Diretor Zou tinha sido um grande guerreiro no passado e um dos principais generais do Império recusando servir a própria família Jinx e deixando o comando da família e das tropas desta para com a família principal. Olhando a escultura o jovem podia imaginar aquele velho Diretor no campo de batalha a muitos anos atrás liderando exércitos em nome do Imperador de Izar.

  • Parece que vocês estão apreciando o banquete!- Reinou de repente a voz do Diretor como se soubesse que estavam falando sobre ele.

Xi e os primos Q’wem olharam em volta tentando achar o velho Diretor até que o avistaram sobre a cabeça da estatua no que parecia ser uma pequena plataforma de apoio. Zou olhou em volta para a centena de jovens comendo felizes e quase sentiu pena de dizer o que tinha que dizer. Quase.

  • Espero que a refeição esteja ao agrado de vocês, minhas crianças! – Ele sorriu paternalmente para os jovens presentes imaginando como eles reagiriam a partir daqui, sempre havia reações diferentes. Principalmente da nobreza – É uma pena que essa será a ultima refeição tão farta que vocês vão ter nesses últimos dois anos.

A primeira coisa que veio foi o silencio confuso dos jovens que não sabiam se tinham ouvido direito, então eles começaram a conversar entre si para ter certeza se tinham ouvido certo. Depois vieram as perguntas bradadas para serem ouvidas umas sobre as outras.

  • Silencio! – ordenou o gordo Gon se erguendo de sua cadeira fazendo todos se calarem.

  • Obrigado, Instrutor! – Zou lançou um aceno desinteressado para o gordo homem enquanto falava – Agora prestem atenção, jovens. Poucos de vocês devem ligar para algo a não ser o pequeno mundinho de vocês para saber que o Império esta em uma crise. Vivemos em uma região montanhosa e de pouco cultivo com uma população grande de mais que cresce a cada dia. para ser alimentada com o que podemos cultivar nas poucas regiões férteis, por isso esse banquete é uma cerimônia de boas vindas para vocês que só será repetida daqui a dois anos quando se formarem. Até lá viverão de uma parca ração onde os melhores de vocês terão os melhores alimentos. Então saibam logo que aqueles que não se esforçarem não sobreviverão para conhecer um futuro digno ou estarão de volta para suas famílias com a vergonha de não terem conquistado nada.

Percebendo os olhares perplexos dos jovens, principalmente dos nobres o Diretor desceu do pequeno palanque satisfeito por ter entregue sua mensagem. Após a descida do diretor o aleijado Lee se ergueu mancando pela escada atrás da estatua para se colocar sobre o palanque atrás da escultura do jovem Zou.

  • Suas aulas começam amanhã, por isso descansem bem essa noite! Os papeis com os horários de suas aulas já foram entregues em seus quartos com todas as informações que precisam – Lee fez uma pausa observando os estoicos estudantes percebendo que o choque das palavras do diretor tinha sido grande de mais. Os nobres nunca ficaram sem comida na vida, mas durante campanhas militares bem que precisariam se acostumar a sobreviver com pouco. Já os plebeus imaginavam que por estar na Academia ganhariam mais comida que em casa e o choque dessa ilusão tinha sido grande de mais – Deixem eu completar o discurso do Diretor Zou. Se não querem passar fome é melhor que treinem mais que a pessoa ao seu lado, que estude mais que aqueles com as melhores notas e que aprendam mais rápido que aqueles com mais privilégios. Nos próximos dois anos e nos dias que se sucederão a estes o futuro de vocês estará nas decisões que tomarem de agora em diante.

Ouvindo as palavras do Instrutor Lee, o jovem Xi e os primos Q’wem não puderam deixar de trocar um olhar decidido compreendendo as palavra do instrutor melhor do que ele achava que qualquer um deles compreenderia.

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