Padrinhos

A noite chegou no terceiro dia após a chegada dos novos alunos da Academia e uma silhueta se movia pelos jardins do castelo praticando as oito formas do Ju’gam. Seus movimentos eram fluidos e belos de se observar, era como se a pessoa que praticava as oito formas estivesse praticando uma dança conforme seus braços e pernas se moviam lentamente.

Após uma longa hora de pratica, o jovem Xi deixou seus braços caírem ao lado do corpo e soltou um longo suspiro de cansaço. O segundo e terceiro dia tinham passado com uma velocidade assustadora. Tatua tinha feito varias sessões de exercícios para aumentar a resistência dos alunos enquanto Lee e Gon exploravam os conhecimentos dos jovens. O gordo Instrutor tinha feito um debate que durou três dias sobre os acontecimentos da fundação do Império no qual os primos Q’wem e a bela Ling tinham se destacado mais que qualquer um.

Já nas aulas de estratégia e táticas de Lee, aqueles que tinham se saído melhor foram Xi, Muh e Tau. O quieto Tau tinha mostrado sua verdadeira personalidade enquanto debatia com o Instrutor Lee sobre táticas de batalhas de uma maneira que até mesmo Xi e Muh não puderam acompanhar. O jovem Tau tinha mostrado que mesmo sem habilidade de combate, ele possuía talento para ser um ótimo oficial do exercito.

Sentindo a temperatura nos jardins caírem mais pouco, o jovem Xi decidiu voltar para seu quarto e descansar para o quarto dia de aula. Ele já tinha criado um menu próprio de estudo e pratica onde debatia um tempo com os primos sobre a historia do Império ou lhes explicava suas duvidas sobre as aulas de Lee, saindo em seguida para praticar as formas do Ju’gam no jardim tanto para aliviar a mente dos pensamentos quanto melhorar cada vez mais o próprio corpo.

Quando estava para retornar aos corredores da Academia os olhos de Xi se fixaram em um estranho pilar entre algumas poucas arvores que compunham o jardim. Ele calmamente caminhou até o local dando a volta nas arvores e observando o pilar com mais atenção, ele estava desgastado, mas Xi ainda conseguia ver um pouco do relevo onde desenhos foram esculpidos em formas de ondas. Atrás do pilar uma entrada de forma circular feita na muralha externa do jardim levava para um corredor escuro.

  • Posso ajuda-lo,Jovem Mestre?

Xi girou rapidamente assumindo uma das oito formas do Ju’gam com os punhos erguidos para um pequeno servo parado atrás da arvore que ele tinha contornado. O jovem que não devia ter mais de catorze anos deu um passo para trás com os olhos arregalados em direção aos punhos erguidos de Xi. Se repreendendo pela reação precipitada o jovem Bronze se recompôs e encarou o garoto diante dele que ainda o encarava com aqueles olhos esbugalhados.

  • Não vou te fazer mal – garantiu Xi sorrindo para o garoto – você só… me pegou desprevenido.

  • Peço perdão por isso, Jovem Mestre. Mas vi que observava a entrada para o Santuário, por isso perguntei se podia ajuda-lo.

  • Santuário? Para os Padrinhos?

O garoto assentiu rapidamente com a cabeça concordando com o Bronze. Xi voltou a encarar a entrada circular na muralha e de repente se lembrou que fazia muito tempo que ele não fazia uma oração aos Padrinhos dos Izanitas. Xi olhou para o garoto que parecia menos assustado agora e perguntou.

– É permitido o acesso de alunos ao Santuário?

  • Sim, jovem mestre! Todos os que quiserem pagar seu respeito aos Padrinhos podem visitar o Santuário da Academia.

  • Ótimo! Você pode me guiar? Bom, então vamos em frente.

O servo se afastou da árvore em direção a entra circular sendo seguido de perto por Xi. O pequeno órfão foi até a lateral da entrada tirando das sombras um pequeno lampião. O garoto abriu a tampa do lampião e um cheiro adocicado preencheu o ar. Xi reconheceu prontamente o cheiro do óleo dourado que era usado nos lampiões como combustível.

O servo tirou de um de seus bolsos uma pedra amarelo e deixou cair dentro do lampião. A pedra mergulhou no óleo com um chiado provocando várias bolhas conforme a pedra ia brilhando e afastando as sombras do corredor.

  • Por aqui, jovem mestre.

Xi seguiu o jovem não podendo deixar de ficar admirado com o poder dos alquimistas. A pedra da luz era feita artificialmente pelos alquimistas e já tinha se tornado um recurso muito valioso para as civilizações. Quando as substâncias que compunham a pedra entravam em contato com as substâncias do óleo dourado uma reação acontecia criando luz conforme a pedra ia sendo consumida.

Quando menor, o jovem Xi costumava  brincar com as pedras da luz. Ele usava pedras de diferentes cores para iluminar baldes cheios de água e impressionar os servos de sua casa. Ao se lembrar disso ele não pôde deixar de sorrir percebendo o quão besta aquilo parecia agora.

O servo guiou Xi pelo corredor até uma grande porta de metal onde se encontrava em sua superfície o relevo de uma grande montanha com um sol a direita e uma lua cheia a esquerda. Sobre o pico da montanha se encontrava um tornado girando furiosamente.

Os símbolos para cada Padrinho dos izanitas. A montanha que representava Shoukam. O Sol para Shim’Sa. A lua para Yon’Tal. E o tornado para Ukshi.

Quando se aproximaram das portas dupla elas se abriram para a direção oposta aos dois jovens dividindo a montanha ao meio e revelando uma grande galeria subterrânea. Os olhos de Xi saltava de um lado para o outro conforme o cenário se expandia diante de seus olhos.

A galeria tinha centenas de metros de comprimento com pelo menos metade disso em largura e uns trinta metros de altura. Pilares em espiral subiam nas laterais até um teto oval onde luzes esbranquiçadas brilhavam lembrando estrelas no céu noturno. No final da galeria se encontravam quatro estátuas sobre palanques esculpidos nas rochas da montanha.

  • Quem é seu convidado, Li?

Xi girou novamente, assustado pela segunda vez naquela noite com a facilidade com que tinham se aproximado dele sem ele ter percebido. Saindo de uma passagem lateral escondida nas sombras, um homem encapuzado se aproximou dos dois.

  • Sacerdote Haku! – exclamou o jovem servo caindo sobre um dos joelhos.

Diante da reação do garoto o jovem Xi não pôde deixar de ficar  cauteloso com o homem na frente dele. Ele rapidamente juntou as mãos em direção ao homem, curvando a cabeça numa saudação formal.

-Pago meu respeito, Sacerdote Haku! Eu sou Xi da família Zhang.

  • Seja bem vindo, Jovem Zhang – saudou o homem curvando levemente a cabeça- a que devo a honra de sua visita?

  • Gostaria de fazer uma oração aos Padrinhos, Sacerdote.

Haku acenou mais uma vez para Xi antes de se virar em direção as quatro estatuas dos Padrinhos na outra extremidade da galeria. Cada povo possuía seus próprios Padrinhos, entidades enviadas pelo Criador para ajuda-los no inicio dos tempos a sobreviverem no mundo de Maya contra os terrores que habitam a noite.

  • A quem veio orar? – perguntou Haku caminhando em direção as estatuas.

Agora que o sacerdote perguntava, Xi não fazia a mínima ideia de a quem veio rezar. Com certeza não seria ao Yon’Tal cuja estatua era feita de prata na forma de um belo homem com longos cabelos e uma postura altiva, Xi não queria segredos e mistérios em seu caminho por isso esse não era o Padrinho certo. Shoukam era até uma boa opção levando em conta que simbolizava a prosperidade. Sua estatua feita de mármore com dezenas de joias tinha a forma de um homem musculoso e barbudo, mas Xi não achava que seria o Padrinho certo para o caminho militar.

Já Shim’Sa, a Madrinha dos izanitas resplandecia em sua estatua de ouro na forma de uma bela mulher com cabelos selvagens e um sorriso maternal. Shim’Sa representava para os izanitas a honestidade e a honra, algo que Xi levava muito em conta e que tinha lhe garantido dois aliados na Academia e isso estava levando o jovem Bronze a quase tomar sua decisão, mas o ultimo padrinho em sua estatua de vidro captou a atenção de Xi.

A estatua de Vidro de Ukshi era a mais estranha das quatro, conforme a luz passava por seu interior ela parecia mudar diante dos olhos de Xi e dos outros dois dando cada vez mais sentido ao que esse Padrinho representava. Ukshi era o Padrinho da mudança, era o arauto dos novos tempos e dos grandes acontecimentos. Sua estatua tinha a forma de um homem encurvado e encapuzado difícil de distinguir pelo corpo feito de vidro.

Mudança. Isso era algo que Xi precisava mais do que tudo na Academia. Ele precisava que os ventos mudassem de direção para que novos acontecimentos surgissem dando a ele e seus aliados chances de conseguirem renome, para que conseguissem subir nas classificações da academia. Com um sorriso estampado no rosto o Bronze se aproximou da estatua de vidro tocando silenciosamente no pé do encapuzado e orando ao Padrinho por novos acontecimentos em sua vida.

O jovem servo e o Sacerdote Haku observaram o jovem Bronze em silencio, respeitando seu momento de comunicação com o ser divino. Em seu interior o sacerdote não pôde deixar de orar para que o Padrinho ouvisse as palavras silenciosas do jovem aluno da Academia. Em todos os anos em que esteve naquele santuário ele nunca tinha visto um aluno se apresentar nos primeiros meses para fazer uma oração a um Padrinho. Muitos não levavam fé no que os seres antigos podiam ainda fazer nesse mundo e por isso os consideravam seres do folclore do Império.

  • Obrigado por me deixar usar seu santuário, Sacerdote Haku.

Xi respeitosamente saudou o homem encapuzado mais uma vez recebendo novamente um rápido aceno de cabeça do homem encapuzado. Haku ergueu sua mão direita fazendo um gesto de proteção em direção a Xi que recuou um passo surpreso já que a mão que surgiu de dentro das longas mangas das veste do sacerdote era feita de metal.

  • Surpreso? – perguntou Haku com um toque de diversão em sua voz – É a primeira vez que vê uma prótese mecânica?

  • Não! Peço perdão por minha reação, sacerdote.

Xi rapidamente abaixou a cabeça envergonhado por sua reação diante da mão mecânica.

  • Tudo bem, isso é normal. Já me acostumei.

A mão direita de Haku assim como a parte do braço que aparecia de dentro da longa manga de sua túnica, eram totalmente feitos de metal com linhas onde uma luz azul clara brilhava. Xi já tinha visto alguns soldados a serviço de sua família usando próteses como essa após perderem um braço ou uma perna em combate, poucos tinham dinheiro para repor seus membros perdidos. Mas aqueles que conseguiam uma nova perna ou um novo braço e se adaptavam a eles acabavam por se tornarem bem perigosos, ganhando mais força e velocidade do que uma pessoa normal. Xi estranhou o motivo de um sacerdote ter uma prótese dessas, mas resolveu não tocar em um assusto delicado como esse.

  • Mesmo assim devo pedir seu perdão, Sacerdote Haku!- Xi fez novamente um saudação respeitosa para o homem encapuzado se abaixando mais do que sua posição pedia – Fui indelicado e nada justifica tal comportamento.

  • Você é muito serio, Jovem Zhang – comentou Haku removendo o capuz par revelar seu rosto velho.

Haku devia ser tão velho quanto o Diretor Zou, com uma bela barba grisalha e a cabaça raspada. Sua pele enrugada apresentava algumas manchas e seu olho direito era completamente branco.

  • Aprenda a se adaptar a qualquer situação imprevista e assim evitara problemas no futuro.

  • Agradeço pelas sabias palavras, Sacerdote.

  • Acredito que você deveria voltar para seu quarto agora – Haku colocou seu capuz de volta sobre a cabeça escondendo seu rosto nas sombras – Se não estiver enganado o Instrutor Tatua deve trabalhar pesado com você e com os outros amanhã.

Sem mais palavras o velho sacerdote saiu pelo corredor que tinha surgido deixando para trás o jovem servo ainda ajoelhado e em silencio ao lado de Xi. Suspirando o jovem Bronze pediu para ser guiado de volta a seus aposentos, assim como Haku tinha dito, os dias que estavam por vim seriam muito puxados para perder noites sem motivo.

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