Palavras sob as estrelas

Três silhuetas se moviam em sincronia pelo jardim da Academia. Xi agora aproveitava da companhia dos primos Q’wem  para treinar as formas do Ju’Gam depois que Tatua tinha começado os duelos. 

No segundo dia de duelo o pobre Buco foi sorteado para enfrentar uns dos subordinados de Muh. O gordinho foi rapidamente dominado pelo adversário, recebendo uma vergonhosa derrota sem nem conseguir reagir. Depois disso ele é Swam tinham se juntado a Xi na esperança de melhorar suas habilidades de luta.

Já Xi estava verdadeiramente contente com o empenho dos primos. Se eles conseguissem melhorar suas habilidades físicas com sucesso a aprovação na Academia seria mais garantida.

Quando terminaram de treinar os três estavam cobertos de suor, respirando com dificuldade após horas de esforço.

  • Vocês estão melhorando – comentou Xi.

  • Hum – bufou Buco – saber fazer as formas e saber usa-las em combate são coisas completamente diferente.

  • Não se force tanto. Com a prática seu corpo vai se movimentar com mais facilidade numa luta. Será mais natural.

  • Pode até ser – disse Swam entrando na conversa – mas no momento a única coisa natural que meu corpo quer é um banho.

  • Sim. Dos bem quentes – concordou Buco.

  • Vão na frente. Eu tenho algo para fazer antes.

Os primos se despediram de Xi e seguiram seu caminho de volta para o prédio da Academia. O jovem Zhang ficou parado recuperando o fôlego enquanto seus novos companheiros se afastavam. Ele tinha sido sincero quando disse aos primos que eles estavam melhorando. Quando pensava no futuro, o jovem Xi conseguia ver a gordura de Buco transformada em uma massa muscular muito parecida com a de Bo e podia ver o pequeno Swam administrando tropas com uma perfeição de deixar qualquer comerciante invejoso.

Após se despedir dos primos o jovem Bronze passou no Santuário para pagar seu respeito aos Padrinhos e aproveitou para conversar com o jovem servo que o tinha guiado da última vez até lá.  O garoto parecia mais confortável em conversar com ele agora, falando sobre sua vida como servo na Academia e sobre as coisas que ele já vivenciou enquanto vivia ali. Em determinado momento o Sacerdote Haku se juntou a eles dando sua bênção para Xi e perguntando-lhe como estavam a aulas.

Xi não sabia porque, mas ele simpatizava muito com aqueles dois. O garoto era interessante e esperto, se alguém investisse nele era certo que ele teria um grande futuro. Sorrindo ele resolveu guardar esse pensamento para o futuro. E prestou um pouco de atenção no Sacerdote. Ele era claramente um ex soldado.  E alguém importante para ter uma prótese daquela qualidade.

Em determinado momento a conversa passou para um tema altamente militar conforme Xi e Haku trocavam opiniões sobre táticas e estratégias. O pequeno servo balançava a cabeça olhando de um para o outro sem conseguir acompanhar o assunto dos dois o que fez com que caíssem na gargalhada quando perceberam.

  • Acho que já é a hora de ir – disse Xi se despedindo dos dois.

Logo estaria muito tarde para ele conseguir descansar alguma coisa para o dia de amanhã.  Provavelmente Tatua faria mais um sorteio para duelos após um sessão de exercícios e ele poderia muito bem ser chamado de novo para lutar. Se ele não descansasse era bem capaz dele levar uma surra de seu próximo oponente.


Xi saiu rapidamente da passagem escura já memorizando o caminho o bastante para não precisar de iluminação. Do lado de fora, no jardim ele olhou para cima admirando o vasto céu estrelado. Era uma vista incrível aquela a cima dele, o céu noturno se estendendo até onde seus olhos conseguiam ver sem nenhuma nuvem para esconder o brilho das centenas de estrelas que brilhavam lá em cima.

  • Eu irei me esforçar mais. Não precisa de se preocupar.

As pernas e  Xi travaram a meio caminho da entrada para os corredores da Academia assim que ele ouviu a voz. Cautelosamente ele se escondeu atrás de uma árvore e observou os arredores.
Parados a poucos metros dele bloqueando o caminho para a entrada do prédio da Academia estavam o velho Instrutor Lee e Ryu.

  • Eu sei que você é um jovem esforçado, Ryu – disse o velho Lee – mas sobreviver na Academia é mais do que isso.

  • Eu não irei decepciona-lo – rugiu Ryu – eu prometi a ele.

  • eu sei disso meu jovem, mas se você não melhorar sua notas nas aulas de Gon…

Conforme ouvia as palavras do Velho Lee o rosto de Ryu foi perdendo a cor e o desânimo foi tomando conta de sua expressão. Pelo que Xi se lembrava o jovem plebeu estava entre os melhores nas aulas de Tatua e Lee, se saindo um pouco acima da média nas aulas de Mor. Mas quando as aulas de Gon começavam ele parecia desaparecer de vista.

  • Eu irei melhorar – Ryu lançou um olhar raivoso para o velho diante dele – eu não serei descartado. Eu superarei qualquer coisa que mandarem sobre mim e me formarei nessa Academia.

O velho Lee olhou em silêncio para o jovem diante dele pesando as palavras ditas. Até mesmo Xi escondido atrás da árvore encarou Ryu com um novo respeito.

  • Espero que faça jus à essas palavras – sem mais nada a dizer o velho se virou e entrou na Academia.

Xi estava sem palavras. Ele nunca tinha esperado ouvir uma conversa dessas e sentia uma mistura de ansiedade e empolgação. Estava prestes a se revelar para falar com Ryu quando outra voz surgiu.


  • Finalmente o velho saiu.

Disse um jovem deixando a proteção das árvores sendo seguido por outros dois garotos. Xi olhou para o garoto lembrando-se vagamente que ele estava no andador dos nobres, mas não se lembrava para que turma ele tinha ido ou qual era seu nome. Mas os dois garotos ele reconheceu rapidamente como sendo os capangas de Muh.

  • Ei!  Plebeu, ouvi dizer que você é razoavelmente habilidoso.

  • Quem é você ? – perguntou Ryu ainda se sentindo irritado pela conversa com  o Instrutor.

  • Como eu sou mal educado – comentou o rapaz batendo de leve na testa com dois dedos – Eu sou Ial Bul da classe B. Você chamou o interesse de meu chefe por isso vim falar com você.

  • Seu chefe ?

  • Sim. Sim. O manda chuva. O cara que dá as ordens. O grande Muh.

  • O Prata metido – sussurrou Ryu o que gerou uma expressão carrancuda nos dois capangas.

  • Não posso negar que ele é um metido – comentou o jovem nobre jocosamente – mas ele tem os recursos para poder ser metido, diferente de nós.

  • Como se eu me importasse. Diga logo o que quer, Ial!

  • Como é apressado – Ial balançou a cabeça numa decepção fingida – Mas vamos ao que importa. Você inegavelmente possui habilidades. Habilidade marciais. Mas se quiser ir longe você vai precisar… de uma ajuda extra .

  • E me tornar o cachorrinho de Muh como esses dois aí?

Os dois jovens trincaram os dentes e estavam quase avançando sobre Ryu sendo contidos simplesmente pela presença de Ial.

  • Não diga isso. Há tanto a ganhar se vier se juntar a nós.

  • Não tenho nenhum interesse de me curvar a Muh. Nossos princípios são muito diferentes.

  • Princípios não enchem barriga, Ryu! – exclamou o nobre – Poder é o que move o mundo, e o que mais tem poder além de um Prata?

  • Um Ouro ? O Imperador? Uma Espada Imperial?

Xi não pôde deixar de sorrir com as provocações de Ryu. Era claro como o dia que o jovem plebeu não gostava de Muh e que não se juntaria a ele mesmo com as promessas de poder. Mas as palavras de Ryu já estavam passando dos limites deixando os dois capangas no limite da paciência e até mesmo o sorriso brincalhão de Ial começava a desaparecer conforme ele percebia que não conseguiria convencer o plebeu.

  • Parece que você não tem mesmo vontade de se juntar a nós. Então vou te deixar um conselho, plebeu. Se não vai se curvar, então não fique no caminho.

Ial então passou por Ryu e seguiu seu caminho com os dois capangas em seus calcanhares lançando olhares carrancudos para Ryu. O plebeu se manteve firme observando calmamente o trio deixar o jardim pelo mesmo caminho que o velho Instrutor Lee tinha tomado.

  • Você deve tomar cuidado com eles – disse Xi saindo de trás da arvore.

Ryu quase deu um salto de susto ao perceber que mais alguém tinha estado presente ouvindo sua conversa as escondidas.

  • Porra! Quem mais esta escondido atrás dessas arvores?

Xi percebeu o olhar de raiva do garoto e ergueu as mãos num pedido de calma enquanto se explicava.

  • Não é culpa minha vocês estarem tendo essa conversa logo aqui onde qualquer um pode passar.

  • Mas mesmo assim escolheu por ficar e ouvir – acusou Ryu.

  • Não leve a mal, simplesmente aconteceu. Mas mais importante, fique atento a Muh e seus seguidores.

  • Não sou nenhum idiota – cuspiu Ryu – se ele vier arrumar problema ele terá problemas.

Xi suspirou e balançou a cabeça pesarosamente, o rapaz diante dele era pelo visto bem esquentado e assim como o Velho Lee tinha dito ele iria precisar de mais do que esforço para sobreviver na Academia. Afinal, as verdadeiras provações da Academia Imperial ainda não tinham nem começado.

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