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Reflexões da Garota da Guilda

 

— Nos ajude! Você tem que nos ajudar! Os gubrins acabaram de descer em nossa aldeia!
— Está apresentando uma missão? Por favor, preencha este formulário, senhor.
O fazendeiro agarrou o papel com tanta força que o amassou, e a Garota da Guilda pegou uma nova folha. Isso não era nada incomum na Guilda dos Aventureiros. Ela lidou com meia dúzia de pessoas assim antes do café da manhã.
Os aventureiros estavam ocupados durante o dia, então, eles visitariam o Saguão da Guilda principalmente de manhã ou à noite. Entretanto, as missões registradas não eram tão previsíveis.
As batalhas entre os deuses haviam durado tanto tempo que os monstros eram uma parte familiar do mundo agora. Quando uma aldeia fosse atacada, um ninho de terríveis criaturas seria inevitavelmente encontrado em alguma ruína próxima ou algo similar.
O homem ante dela naquela tarde, era apenas mais um em um desfile de pessoas que apareciam em seus juízos finais.
— Se isto continuar, apenas os deuses sabem o que vai acontecer com as pobres vacas! E os nossos malditos campos? Os gubrins vão iluminá-los…
A mão do fazendeiro tremia enquanto ele escrevia. Cada vez que ele cometia um erro, a Garota da Guilda estava pronta com uma nova folha de missão.
Sim, cada vez — cada vez que apareciam monstros, cada vez que atacavam uma vila, os aventureiros viriam. Seja dragões, demônios, olhos gigantes com seus nomes diabólicos, ou às vezes até uma equipe de criminosos sem coração.
Todos os que estavam entre os inimigos mais velhos daqueles que têm palavras: os Que não Rezam.
Claro que, este era um termo duvidoso, já que incluía sacerdotes servindo aos Deuses das Trevas. E os mais numerosos entre os Que não Rezam eram — você adivinhou eles — goblins.
— Nós nem sequer temos mulheres novas para que eles possam levar!
A Garota da Guilda estreitou seus olhos, tentando entender as letras que rastejavam como vermes através da página. Elas não eram legíveis. Este era o escriba mais talentoso que a aldeia pôde reunir?
De alguma forma, eram sempre essas pequenas aldeias agrícolas fronteiriças que os goblins iam atrás. Os goblins realmente estavam direcionados as aldeias de propósito? Era apenas porque havia tantas aldeias — ou tantos goblins? No que diz respeito a Garota da Guilda, tais questões estavam acima de sua escala de remuneração.
— Parece que a papelada está em ordem. Você tem o pagamento com você?
— Com certeza. Diga, é verdade que os gubrins às vezes pegam uma garota para conhecer ela, e depois a comem?
— Há casos em que isso aconteceu, senhor.
O fazendeiro ficou visivelmente mais pálido quando tirou o saco. A Garota da Guilda aceitou sem vacilar com seu sorriso perfeito. Era terrivelmente pesado…
O saco estava cheio principalmente com moedas de cobre, algumas pratas brilhavam entre elas. Não havia uma única moeda de ouro na bolsa.
A Garota da Guilda pegou um conjunto de escalas debaixo do balcão. O valor das moedas seria medido em relação contra um peso estabelecido.
— Tudo certo, eu confirmei o valor, — disse ela depois de um momento. — Está tudo pronto aqui para você.
Ela duvidou de que a recompensa chegaria a dez peças de ouro completo. Apenas o suficiente para contratar alguns aventureiros de ranque Porcelana com as taxas da Guilda. Tenha em conta as taxas de processamento que a Guilda cobra por atuar como intermediário, e os agricultores poderiam ficar no vermelho.
Mas aquele monte de moedas — algumas cobertas de sujeira, algumas com ferrugem, novas e velhas jogadas juntas — tinham um significado.
Alguém que não entendia esse significado nunca poderia se tornar um recepcionista da Guilda.
— Não se preocupe, senhor. Alguns aventureiros estarão dentro de alguns dias prontos para matar seus goblins. — Não importava como ela se sentia por dentro, seu sorriso nunca vacilava. O fazendeiro assentiu em alívio.
Ele provavelmente estava imaginando um caçador de monstros com uma armadura resplandecente, galantemente lutando contra monstros. A Garota da Guilda sabia bem. Ela sabia que não era quem apareceria. Os aventureiros que encontrariam o caminho para aquela aldeia seriam classificados como Porcelana. Totalmente iniciantes.
A maioria deles seriam feridos na batalha. Se as coisas ficassem ruins, eles morreriam. Havia até mesmo uma chance de que — no pior cenário — a aldeia ser destruída.
Então, embora possa ter sido simplesmente para fazer com que todos se sintam melhor, todas as recompensas eram pagas no final da missão.
Não havia fim para os goblins. Um provérbio afirmava que “cada vez que uma pessoa falha, nasce um goblin”. Eles apenas tinham seus números como vantagem. Eles eram os mais fracos de todos os monstros que poderiam atacar uma aldeia. Mesmo trolls não eram comparação.
Goblins tinham apenas a inteligência, força e tamanho de uma criança pequena. Então, novamente, essa era outra maneira de dizer que os goblins eram tão inteligentes, fortes e perspicazes como crianças.
O assassinato de goblins pagava uma miséria. Aventureiros experientes evitavam eles como pragas.
Os recém-chegados absolutamente eram os únicos que podiam ir.
Eles podem ser feridos, eles podem morrer, mas eles matariam os goblins. Mesmo que o primeiro grupo a ir fosse aniquilado, o segundo ou o terceiro conseguiriam.
Sim, os goblins seriam expulsos. Então, o Estado não teria que se envolver. O Estado tinha coisa maior para se preocupar: demônios, caos gerais.
— Bem, senhorita, eu certamente esperarei. Espero que você possa nos ajudar.
Os procedimentos burocráticos terminaram, o fazendeiro deixou o edifício da Guilda, curvando a cabeça repetidamente em agradecimento. A Garota da Guilda o observou com um sorriso, segurando um suspiro.
— Este é o terceiro hoje…
Enviar três grupos inexperientes de aventureiros para suas mortes, ou deixar três aldeias serem destruídas?
Apenas pensar nisso fez um nó em seu estômago. Ele pairava sobre ela como uma nuvem.
Claro, a Garota da Guilda tentava explicar as coisas para os novatos. Ela contava a eles sobre os perigos, até mesmo recomendava outras missões que poderiam pegar.
Mas ninguém nunca queria que sua “aventura” fosse estar a matar ratos nos esgotos.
Os aventureiros experientes, por sua vez, eram bastante felizes, caçando as criaturas que viviam nas montanhas, longe de qualquer habitação humana.
Muito poucos aventureiros que assumiam uma missão de assassinato de goblins voltavam ilesos.
Na maior parte eram aventureiros idealistas que tinham apenas começado que fazia essas tarefas. O resto tinha apenas uma pitada de experiência. A Guilda sempre esteve perturbada por sua incapacidade de produzir um núcleo sólido de caçadores de goblins. E simplesmente não haviam aventureiros realizados que aceitaria de boa vontade os imensamente perigosos goblins.
— Bem, — ela disse para si mesma, se estendendo no balcão, — isso não ébem verdade. — O balcão legal e polido foi sentido bem contra a sua testa e bochechas ruborizadas. Ela entendia que não era adequado a sua educação como filha de uma família decente ou de sua posição como recepcionista da Guilda, mas mesmo que ela tivesse que relaxar de vez em quando. E não havia visitantes para vê-la então, de qualquer maneira.
Desejo que ele se apresse e venha até aqui…
E naquele momento, a campainha da porta soou quando a porta da Guilda se abriu. A Garota da Guilda disparou para a postura correta.
— Minha querida Garota da Guilda, eu derrotei alguns bandidos!
Um aventureiro com lança surgiu através da entrada. A expressão torcida em seu rosto quase não parecia feliz. Atrás dele, uma bruxa entrou com passos elegantes, com os quadris balançando enquanto caminhava. Ela encontrou os olhos da Garota da Guilda.
A bruxa piscou para ela apologeticamente. A Garota da Guilda colocou aquele sorriso sem fim no rosto.
— Oh, isso soa muito cansativo. Você poderia fazer o seu relatório, por favor?
— Bem, deixe-me lhe dizer, não foi fácil! Eles estavam acampados na estrada principal!
— Minha nossa, isso soa muito cansativo. Por favor, conte-nos tudo sobre isso em seu relatório escrito.
— Tinha que haver pelo menos vinte, vinte e um bandidos escondidos lá, e eu peguei cada um!
— Meu… isso soa muito cansativo. Talvez você devesse tentar uma poção de Estamina.
— …Sim, por favor.
— Aqui está. Obrigado por comprar conosco!
Os itens que a Guilda vendia em nome dos comerciantes que frequentavam o lugar, compreensivelmente, não era de qualidade excepcionalmente alta. A poção de Estamina, por exemplo, não era uma poção mágica apropriada, mas uma mistura de algumas ervas diferentes.
Mas funcionava. Não havia nenhum problema em manter um na mão ou mesmo realmente bebê-lo. E o lucro que a Guilda fazia com tais itens, poderia ser colocado em todos os tipos de propósitos uteis.
Eu nunca colocarei meu rosto naquele lugar novamente, no entanto, a Garota da Guilda prometeu a si mesma que, com um sorriso apaziguador, ela observou o Lanceiro inclinar-se sobre o balcão onde ela estava deitada um momento atrás.
Foi quando o sino tocou pela segunda vez.
— Oh!
— Ugh…
A figura que apareceu na entrada fez o rosto da Garota da Guilda se iluminar e o Lanceiro dar um clique indisfarçável com sua língua.
Seu passo era destemido e despreocupado, de alguma forma intimidador.
Ele usava uma armadura suja de couro e um capacete de aço. Seu equipamento era inferior — patético mesmo.
Ninguém no Saguão da Guilda teve que olhar para a tarjeta de prata em volta de seu pescoço para saber quem era ele.
Matador de Goblins.
— Bem-vindo de volta! Está tudo bem com você? Algum ferimento grave?
— Nenhum que possa dizer.
Seu sorriso estampado, se abriu em uma risada como uma flor que desabrochou em flor. Enquanto o Lanceiro ficou de pé com uma expressão sufocante, o Matador de Goblins acenou com a cabeça e disse:
— Era um ninho pequeno, mas havia um hob lá. Problemático.
— Eu adoraria ouvir tudo sobre isso. Por favor sente-se, descanse… Oh! Eu vou trazer um pouco de chá também! — a Garota da Guilda correu como uma cachorrinha excitada para o escritório de trás, com sua trança saltando.
O Matador de Goblins se sentou comodamente em uma cadeira próxima, e ele passou a olhar para o Lanceiro. Pela primeira vez, ele pareceu perceber que o Lanceiro o tinha fixado com um olhar frio, e com um leve “hmph”, o Matador de Goblins disse, — Peço desculpas se eu interrompi alguma coisa.
Houve uma longa pausa. O Lanceiro então respondeu, — Não, você não. Eu já terminei de fazer o meu relatório.
— Entendi.
O aventureiro com lança chutou uma cadeira com um grunhido venenoso. No banco de frente para ele, a bruxa, que assistia a tudo, estava esperando com um sorriso debochado.
— Bandidos, você diz? …Se não tivéssemos tomado essa estrada, não teríamos feito um cobre hoje.
— Oh, bem,me desculpe! E se eu quisesse me gabar um pouco?
— Mesmo que você diga isso…, — disse a Garota da Guilda, com seus lábios vermelhos se dobrando.
— Então nada. Eu acho que me lembro de meus feitiços ajudarem um pouco, também…?
— …Eu sei que eles foram.
— Aww, o Mais Forte da Fronteira não pode ficar amuado…
O Lanceiro cruzou os braços emburrado. A bruxa, olhando para ele com carinho, deu um riso agradável.
A Garota da Guilda bufou enquanto ouvia e mentalmente mostrava a língua para eles.
Ela sabia, é claro, que manter as gangues de bandidos sob controle era um trabalho perfeitamente digno. E ela sabia que o Lanceiro, um aventureiro ranque Prata, era conhecido pelo nome de “O Mais Forte da Fronteira”.
Então ela não pegou leve, e ela certamente não queria expulsá-lo. Ela realmente não queria. Era só isso — bem, há aventureiros que cuja força era a sua única reivindicação de fama, e então, havia aqueles que saiam da trilha para assumir os trabalhos que ninguém mais faria.
Como não posso tratá-los um pouco diferente?
Não era só preferência pessoal. Com certeza. Provavelmente.

§

Ela abaixou a linda caneca de argila com um tap. O vapor subia do chá marrom claro de dentro.
Quando ele bebeu, o Matador de Goblins parecia estar simplesmente despejando o líquido em seu elmo. Ele não prestou a atenção a fragrância ou ao sabor. Ou o fato de que as folhas eram de seu estoque pessoal, que ela obteve da Capital e foram misturadas com um pouco de poção de Estamina, para criar um fermentado único…
— Hum, de qualquer forma, bem-vindo de volta! — a Garota da Guilda disse tão docemente quanto conseguiu. Era assim que ele sempre foi, então, ela tentava não se incomodar com isso. — Eu sei que você tem feito equipe com alguém ultimamente. Seu primeiro solo em um tempo tão longo deve ter sido difícil.
— Eu sempre trabalhei sozinho antes. Eu posso me virar. — Ele abaixou o copo acenando com a cabeça. Ela ficou satisfeita pelo menos ao ver que não havia nenhuma gota sobrando.
Pelo menos, ele nunca disse não ao meu chá.
— Entendo, — ela comentou ansiosamente.
Bem… não é que não havia nada a reclamar.
Ela estava genuinamente feliz por ele orientar essa Sacerdotisa, a quem a Garota da Guilda tinha considerada como sem esperança. E ela se sentiu melhor apenas por saber que ele tinha uma companheira de armas agora.
Mas, apenas ele e uma garota, sozinhos em uma masmorra…? Eu não sei…
A única coisa que lhe dava esperança era saber que ele sempre tinha se empenhado mais sobre o trabalho do que com as mulheres, e sua amiga era uma clériga devota.
Supondo que eu não tenha os julgado mal.
Bem, já era um pouco tarde para se preocupar, de qualquer maneira. Há quanto tempo ele estava vivendo naquela fazenda?
Na verdade, a Sacerdotisa tinha estado no Templo por três dias, reivindicando algo sobre deveres religiosos. Supostamente, ela voltaria para se juntar ao Matador de Goblins hoje ou no dia seguinte.
A Garota da Guilda sorriu para si mesma. Era como se ele continuasse a fazer missões por si mesmo enquanto isso.
— Algo errado?
— Ah, não. Apenas… não se meta em problemas, está bem?
— Se ao me meter em problemas eu puder matar alguns goblins, eu faria isso e não o consideraria uma perda.
Ele estava calmo e, como sempre, absolutamente focado no assassinato de goblins.
Enquanto preenchia alguns relatórios, a Garota da Guilda roubou uma olhada em seu capacete sob o pretexto de olhar sua papelada. Claro, ela não podia ver a sua expressão. E ainda…
Há quanto tempo que ela o conhecia? Quase cinco anos? Ela tinha acabado de terminar seu treinamento na Capital e foi oficialmente designada para este edifício.
Ele apareceu na Guilda de repente, um novato até então. Ela estava bastante certa de que, na época, ela não tinha pensado em nada disso.
Mas, sempre que ela não conseguia propor todas as missões de assassinato de goblins, lá estaria ele.
Ele sempre voltava daquelas missões. E ele sempre terminava o serviço. Todas às vezes.
Ele nunca mostrou a sua força ou se gabou de suas realizações. Ele simplesmente fazia o que se tinha que fazer, uma e outra vez, até que ele finalmente alcançou o ranque Prata.
Ele não tomava riscos desnecessários; ele sempre foi gentil, se calmo. Valia a pena a longa espera, ansiosa pelo seu retorno.
Ele não trocou de equipamento desde que nos conhecemos. Mas essa era apenas uma outra maneira de dizer que ele era familiar.
A Garota da Guilda percebeu que as boas lembranças a haviam causado a sua boca se desenvolver em um sorriso, mas ela não tentou o esconder.
— Ah, você realmente é sempre de uma grande ajuda.
— Eu sou?
— Ah sim!
Houve uma pausa. — Entendi.
A Garota da Guilda lambeu o polegar e folheou seus papéis, olhando, como de costume, para todas as missões relacionadas a goblins.
Ontem ele matou goblins. Hoje ele matou goblins. Havia muitas equipes iniciantes fazendo um bom trabalho, também. E, no entanto, as missões de assassinato de goblins nunca acabavam. Eles tinham, pelo menos, um todos os dias. Talvez, a medida em que os aventureiros se multiplicavam, os ninhos de goblins também. Ou talvez, mais ninhos de goblins significassem mais aventureiros.
— Por que os goblins sempre estão atacando nossas aldeias? — a Garota da Guilda perguntou à toa.Seria mais fácil se fossem os homens lagarto, sabe? Então, pelo menos, a única diferença seria a cultura. — Talvez os goblins gostem de atacar pessoas. — Ela pensou que estava apenas conversando. Goblins era algo que eles tinham em comum. Na verdade, ela estava meio brincando.
— O motivo? — ele disse.É simples. Depois de uma pausa, ele continuou, — Imagine que um dia, a sua casa é atacada de repente por monstros.
A Garota da Guilda se endireitou e colocou as mãos nos joelhos. Ela se concentrou em seus ouvidos. Ela estava pronta para ouvir. Afinal, não era toda hora que ele tomava a conversa por si mesmo.

— Imagine que um dia sua casa é atacada de repente por monstros.
— Eles causam em sua aldeia como se pertencesse a eles. Eles matam seus amigos, eles matam a sua família, eles saqueiam sua casa.
— Imagine que eles atacam a sua irmã. Eles a torturam, eles a violam, a matam. Eles profanam os corpos de sua família, fazem o que querem, gargalhando o tempo todo.
— E você vê tudo donde você estava escondido, tentando não respirar.
— Como você poderia deixar isso assim?
— Então, você pega uma arma, você treina a si mesmo, você aprende, você cresce. Tudo o que você faz é para te ajudar a se vingar.
— Você os procura, os caça, você luta, você ataca, e você os mata, e os mata, e os mata.
— Às vezes as coisas vão bem, e às vezes não. Mas, a cada vez que você pergunta; como vou matá-los da próxima vez? Qual é a melhor maneira de matá-los? Dia após dia, mês após mês, é tudo o que você pensa.
— Quando você tem uma chance, é claro que você testa todas as ideias que você tem.
— E quando você tem feito tudo aquilo a um tempo suficiente…

— …Você começa a apreciá-lo?
A Garota da Guilda engoliu pesadamente.
— Hum, isso é…? Você está…?
Ele ainda está falando sobre goblins? Ela não tinha certeza.
Talvez — o pensamento passou a beira de sua mente — ele estava falando de si mesmo.
Mas, antes que ela pudesse expressar essa especulação, ele continuou, — Alguns tolos pensam que estão sendo magnânimos, dizendo que devemos poupar os jovens. —Eles não percebem que os goblins roubam gado para manter seus filhos alimentados?
Tremendo ligeiramente, a Garota da Guilda assentiu. Ela entendeu o que ele estava dizendo muito bem.
Os ranques Porcelana e os jovens que queriam ser aventureiros vinham o tempo todo, cheios de confiança. —Eu lutei com alguns goblins quando eles vieram à minha aldeia uma vez. Eles são miúdos. Eu vou ficar bem.
Aqueles que esses caras durões “lutaram” não eram mais que alguns goblins, se afugentavam facilmente e fugiam. Faça isso uma ou duas vezes, e deixe as pessoas pensarem que deveriam se tornar aventureiras.
Os goblins que sobreviviam a esses encontros, por outro lado, aprendiam e cresciam. Eles eram conhecidos como Andarilhos. Muitos deles se estabeleciam em novos ninhos, muitas vezes como caciques ou guardas.
Depois disso, as lutas com eles eram determinadas menos pela força do que pela sorte.
— É assim que as coisas costumam parecer, de qualquer maneira, — ele disse brevemente. — Em outras palavras, eu sou para os goblins, o que eles são para nós.
A Garota da Guilda prendeu a respiração, perdeu as palavras. O que ela poderia fazer sobre esta torrente de emoção? Não, primeiro… primeiro, ele estava lá.
Caramba. Ele a deixou respirar. — Bem, me desculpe, mas…
— Sim?
Antes de pena, antes de tristeza, antes de simpatia: — Nós somos os únicos que lhe damos suas missões. Então, por sua lógica, o que isso faz de nós?
— Hmm.
Por que me sinto tão brava?
Ela trouxe seu sorriso habitual em seu rosto e bateu no balcão com um dedo.
— Você está nos comparando com os Deuses das Trevas? Isso é terrível. Eu realmente sou tão medonha?
— …Não foi isso o que quis dizer.
— Isso é o que soou.
Quando ela bateu no balcão de novo, ele deu um gemido intimidado.
— Como a Guilda pode manter a sua reputação por falar assim por aí?
Outro gemido.
— Eu gostaria de evitar isso. Talvez seja melhor se eu não lhe oferecesse missões no futuro.
Houve uma longa pausa. — Isso seria um problema para mim.
— Não seria, no entanto?
De alguma forma, seu problema de uso sincero de palavras parecia muito infantil.
O seu sorriso fixo parecia que estava prestes a se romper.
— Alguém tem que fazer essas missões, e você está fazendo elas. Você deveria se orgulhar disso.
Ela sacudiu o dedo como se quisesse dizer,Se você não for, isso refletirá sobre a guilda… e a mim.

Era verdade, depois de tudo. Ela era responsável por ele como um aventureiro. E o que era mais…
— Você é um aventureiro classificado como Prata.
Desta vez, foi a vez do Matador de Goblins ficar em silêncio.
Verdade, ela não podia ver a sua expressão por trás de seu elmo. Mas, depois de cinco anos, isso não significava que ela não conseguisse adivinhar como ele estaria se sentido.
Finalmente, ele disse, — E… onde estão os goblins de hoje? Quão grande são os ninhos?
— Certo, certo.
Acho que eu vou o deixar ir… desta vez. Enquanto ela ria para si mesma, os dedos da Garota da Guilda voavam sobre as pilhas de papéis de missões. Ela pegou três folhas, depois escolheu uma. Tinha estado lá por alguns dias — uma missão de assassinato de goblins, é claro.
— Este está nas montanhas do norte. Perto da aldeia, há um — bem, um castelo, mais ou menos. Uma fortaleza na montanha.
— Eles fizeram o seu ninho lá?
— Sim. Nós também temos vítimas, muitas. A irmã de quem propôs foi sequestrada, e… — Ela suspirou quando ela virou o papel, embora soubesse que era um comportamento ruim. — Alguns aventureiros bem-intencionados que passaram por lá foram resgatá-la, mas eles não voltaram.
— …É tarde demais, — disse o Matador de Goblins calmo e frio. — Considerando a duração tomada pela viagem, eles estarão perdidos antes de eu chegar lá.
No entanto, ele estava de pé. Como sempre, não havia sinais de hesitação.
— Não podemos o deixar. Se destruíssemos o ninho agora, talvez não haverá mais vítimas.
— …Certo.
Certo, era por isso. Era por isso que ele era a pessoa mais valiosa na fronteira.
Havia aqueles que poderiam lutar contra um monstro poderoso.
Mas quantos poderiam continuar voltando para a luta?
Muitos foram salvos por causa dele. Ele estava fazendo um serviço real para o mundo.
Pelo menos, ele me salvou.
Então, ela faria o que fosse preciso. O que ela pudesse.
— Tudo certo. Boa sorte, meu Matador de Goblins!
Ela o ajudaria a andar com a cabeça erguida.

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