Rebelião

John acordou com Kyle o chamando; faltando o derrubar da cama. Com os olhos pesados, uma visão turva e fraca, ele vê um deslumbre de Kyle o chamando com sussurros:

  • John…? John…! Acorde…

  • O-O que foi? – disse John ainda sonolento. – Que horas são…?

  • Por volta das seis… – sussurra Kyle.

  • Da tarde…? – pergunta ele com aquela voz se forçando a acordar.

  • Da manhã… – responde Kyle.

  • Volte daqui sete horas… – disse John se recusando a acreditar que o amigo o esteja acordando a essa hora em uma manhã de domingo. Não sabe ele que John odeia levantar cedo, ainda mais no domingo? Talvez ele esteja se vingado por mentir para ele por cinco anos. Se for isso, então John passou de remorso para ódio.

John sempre odiou acordar cedo; só de imaginar, ele já se sentia enojado. Mas nos últimos nove meses, ele se vê obrigado a levantar cedo para estudar; coisa que ate o ano passado, ele estudava no período da tarde.

  • Rápido! Levante-se antes que alguém nos veja…! – disse Kyle em um tom de alerta.

John se segurou para não jogar o travesseiro no amigo (ou qualquer coisa ao alcance). Se virou e se levantou, pois sabia que Kyle não iria desistir, ele nunca desiste – uma das qualidades do amigo, e um dos piores defeitos.

Ao ficar de pé, se despreguiçou por alguns segundos seguido de um glorioso… bocejo.

  • O que é tão importante a ponto de me acordar na madrugada?

  • Tem gente que se levanta bem mais cedo para trabalhar, acredito que você não vá morrer… – disse ele o fitando, então olhou em volta e continuou. – Agora vamos, se arrume e pegue suas coisas, estamos de saída…!

Depois de fazer sua higiene pessoal, John retirou as ataduras. Como se uma tonelada (ou cinco) tivessem sido retirados de suas costas, ele suspirou de alivio, a queimadura feita pela mão de Sergei havia sumido. E pela primeira vez ele pensou nos outros, a garota, Sara, também havia sido queimada, assim como vários outros, mas ao contrario de John, eles continuavam queimados. O isso significava? Da noite para o dia, sempre que acordava, qualquer que fosse a ferida, mesmo arranhão, que ele sofrera no dia anterior, não existia mais, nem mesmo cicatrizes. Ele era curado como se fosse… mágica. Não podia ser, essa coisa de magia não existe. Mas, então como ele iria explicar o que ele testemunhou? O toque de Sergei, o grito sônico de Samira, o portão de aço flutuando, a própria Samira se movimento em uma velocidade mais rápida que bala? Isso só podia ser carma, ele devia ter feito algo muito ruim em sua vida passada.

  • Ruim? Não, só me matou… – disse a mesma voz sombria de antes, a voz que queria que ele jurasse lealdade.

John congelou, cada partícula de seu corpo estava com medo. Um arrepio em sua nuca, junto com todos os pelos de seu corpo, era como… como… como se fosse um… Fantasma, pensou John com seu corpo todo ereto.

  • Fantasma? Não, apesar de existirem, isso não sou eu. Mas, não se preocupe, pequeno príncipe, eu ainda mantenho minha oferta, me aceite, aceite-me como seu mestre, aceite minha marca, e aquilo que você mais desejar será seu…

  • Q-Quem é você…? – John usou todas as suas forças para perguntar.

  • Eu sou o último e o primeiro. Eu sou… não, ainda não é hora, mas em breve você descobrira. Eu lhe garanto, John Ryder, por mais que lute, tente se opor a mim, você ainda irar se render a mim no final… – a voz sumiu e levou junto consigo toda a sensação fantasmagórica do local.

  • Quando eu pensei que não podia fica pior, seja mal vinda, voz bizarra…

John, agora mais frustrado do que com medo, saiu do banheiro, vestiu uma camisa preta; sem desenho ou estampa alguma, uma jaqueta de moletom branca, mas em um tom meio cinza, calça jeans preta e tênis preto com tubos vermelhos, esse conjunto era o que John mais gostava, pois foi o que ele comprou com o próprio dinheiro em um trabalho honesto há alguns meses atrás. Lembrou que a vendedora da loja, deu um bom desconto para ele; ela quis deixa-lo ainda mais lindo com aquelas roupas, o que funcionou, pois quando ele saiu do provador usando o conjunto inteiro (camisa preta, jaqueta branca em um tom mais cinza, calça jeans preta e tênis preto com tubos vermelhos abaixo do calcanhar na sola e de marca), ela quase desmaiou ao fitar ele inteiro; assim como as outras vendedoras; coisa que John não percebe, ele era meio lento nessas coisas de relacionamentos, e como ele não tinha interesse algum em arranjar namorada e nem nada do tipo, simplesmente achava que aquilo era normal; o que era muito ingênuo da parte, se ele pudesse ler pensamentos… com certeza iria deixar de ser a pessoa mais ingênua do mundo, exceto pelo fato de vender drogas. Nem se importou em pentear seu cabelo, lembrou que Kyle fez uma observação um tempo atrás, disse que seu cabelo, mesmo desarrumado, parecia ser um penteado feito propositalmente por um profissional do ramo. Ele deixou o zíper da jaqueta aberta, apesar de estar frio naquela manhã (o que era estranho), não o suficiente para usar a jaqueta como uma blusa de frio sem zíper.

Pegou a mochila de baixo de sua cama, que não tinha nada além de sua carteira com identidade, o medalhão com a foto; de quem ele tinha certeza de ser seus pais, alguns doces, já que ele era meio que, viciado em açúcar (principalmente nos confetes), entre outras coisa, mas nunca carregava material escolar na mochila (uma mochila preta e de vários bolsos imperceptíveis a primeira vista, também tinha comprado com seu dinheiro; já estava meio desgastada de tanto ser usada) já que, na escola tinha armários nos corredores para cada aluno.

Saiu do quarto na ponta dos pés, quando passou perto do banheiro, não resistiu em olhar pelo ombro o local da mais bizarra experiência que ele já tinha tido, e olha que ate um segundo antes da voz falar com ele, a mais bizarra era o que tinha acontecido na antiga fábrica metalúrgica. E algo bem lá no fundo lhe dizia que aquilo era só o começo, ele tinha aquela estranha sensação de que agora estava sempre sendo observado, e que, mesmo não querendo saber o quê, aquela voz lhe deu a impressão de que algo muito pior estava prestes a acontecer e que ele estava envolvido. Só podia ser um pesadelo!

  • Príncipe… – murmurou John repetindo a lembrança. Ele queria saber o que aquilo significava, será que ele era algum tipo de príncipe? Se sim, de qual pais? Ele temia que aquela voz não se referia a um simples príncipe de um país estrangeiro, e sim de um lugar bem… bizarro. Ah… ele não estava pronto para lidar com isso, tudo o que ele queria era esquecer, ele tinha que esquecer, pelo menos nas próximas horas, mas sabia que Kyle não iria deixar isso quieto, ele estava aprontando algo, e John estava mais curioso e com medo do que nunca para saber o que era, mas a curiosidade estava falando mais alta que o medo. John sempre foi curioso, e ele temia que algum dia isso iria acabar lhe colocando em uma grande enrascada.

Ele saiu do quarto e encostou a porta cuidadosamente para não acordar ninguém. Olhou de relance para o escritório da diretora, Marcia, e seguiu em frente, rumo a escada. Ao chegar na escada, olhou pela janela, e viu a limusine preta do outro lado da rua. Ok, aquilo já estava ficando mais que estranho. O que uma limusine estava fazendo parada no outro lado da rua naquela vizinhança? A limusine estava no mesmo local, de frente para a pousada de três andares. De repente, John sentiu uma sensação, definitivamente, alguém o observava. Seu olhar subiu da limusine ate o primeiro andar da pousada. A cortina de uma das janelas que estavam fechadas, balançou. Era como se alguém o observasse pela janela, e quando John olhou, simplesmente tentou se esconder.

  • Até quando você vai continuar parado aí? – a voz de Kyle veio do andar de baixo.

John voltou a sua atenção para o orfanato, se virou para baixo, e lá estava Kyle no pé da escada com um sorriso estampado no rosto (o que deixou John meio assustado).

  • Então, onde vamos? – perguntou John enquanto andavam pela calçada.

  • Já, já você vai descobrir… – disse Kyle em um tom suspeito.

John suspeitou, ele tinha razão em suspeitar, afinal, eles foram por um caminho conhecido por ele. Pegaram o metrô e desceram na estação certa. Sua suspeita estava ficando cada vez mais certa, John não queria. O que ele queria era dar meia volta, mas não podia, pois o amigo iria continuar com ou sem ele. John não podia deixar o amigo ir sozinho, mas também estava colocando toda a sua força de vontade de seguir em frente; seu corpo todo queria dar meia volta.

  • Por que estamos aqui? – perguntou John colocando toda a sua coragem na fala (o que foi bem difícil).

Ambos estavam na frente da antiga fábrica metalúrgica. Kyle não respondeu, apenas deu a volta pelo prédio ate chegar na entrada dos fundos. John estava apavorado, mas não queria demonstrar, estava ainda mais apavorado depois de ver o gigantesco portão de aço preso na parede, era como se ele nunca tivesse sido arrancado e arremessado.

Kyle colocou a mão na porta e a abriu.

  • Espere…! – disse John colocando a mão no ombro do amigo.

  • Não se preocupe, vamos só dar uma olhada… – disse Kyle com aquele tom de voz de curiosidade de sempre, essa era uma das semelhanças dos dois, sempre curiosos.

Sem esperar que John o impedisse de prosseguir, Kyle entrou no prédio. Droga! Aquilo não estava acontecendo. John jurou a si próprio que nunca mais iria voltar naquele lugar. Jamais. Nunca. E agora, lá estava ele respirando fundo, reunindo a coragem necessária, e seguindo o amigo. O ouvido de John foi surpreendido de vozes. Haviam pessoas lá. As vozes eram familiares. Kyle e John se esconderam atrás de antigos latões químicos. E observou, como se nada tivesse acontecido, lá estava Sergei e sua gangue reunidos em sua volta, ele sentado em seu trono improvisado. Eles pareciam bem machucados.

  • Mas o que diabos foi aquilo…? – perguntou Sergei sentado em seu trono, parecia estar se recuperando de uma surra que levou. – Ela ainda não acordou? – ele perguntou olhando para Carlos.

  • Ainda esta inconsciente… – Carlos respondeu olhando para a parede ao lado.

John seguiu seu olhar, não podia ser, como aquilo sequer era possível? Depois de tudo, ela foi capturada? Como? Ela não era super poderosa?

Samira Gorvendell estava presa, acorrentada nos pulsos e pés, presa na parede. Estava inconsciente.

  • Descobriu o que ela é? – perguntou Sergei. – Como ela é tão poderosa?

Carlos olhou novamente para ela e respondeu:

  • Ela não revelou nada durante a tortura – “tortura?” – Ela apenas ficou rindo de um jeito bem… bizarro. Maldita aberração… Só sabemos que ela é uma mutante, uma mutante bem poderosa. Mas, também descobrimos que, todo aquele poder, tem um limite de tempo. Tivemos sorte desse limite de tempo exceder bem na hora H.

  • Nem me fale… – disse Joane, outra capanga de Sergei, ela passava as mão no pescoço. – A maldita tentou me estrangular, ainda sinto meu pescoço todo dolorido…

Um som de metal ecoou por toda a fabrica.

  • Ela esta acordando…! – disse Carlos em alarme; tinha medo e raiva em sua voz.

  • Achei que você tinha ficado louco quando disse tudo aquilo… – sussurrou Kyle a John.

  • É… eu também… – sussurrou John.

O que John mais queria no momento era… estar louco. Assim ele não teria que lidar com aquilo tudo. Mas sua cabeça estava intrigada, ele queria saber mais sobre esses… mutantes, foi assim que Carlos a chamou, e parece que Sergei também é um desses mutantes, mas… O que diabos é mutantes? Coisa boa não deve ser, ou será? Por um momento, John quis ser um desses mutantes. Ter poder devia ser bem legal. Mas o que diabos ele estava pensado, aquela não era hora para ficar sonhando, ele tinha que salvar Samira, apesar de cada fibra de seu corpo dizer o contrario. Mas ele tinha que fazer isso, afinal, ela o salvou, e duas vezes. A primeira foi matando… sua fome. A segunda foi ela o salvando de ter seu braço todo queimado por Sergei. Mesmo quase borrando as calças de medo, ele tinha que fazer algo.

Carlos foi ate ela, acompanhado de mais dois capangas, todos homens. A soltaram, e depois algemaram-na e a levaram ate diante do trono de Sergei. Samira parecia já estar bem desperta, mas toda machucada, ensanguentada. John pode perceber que aquilo era obra de tortura, era obra de Silvio, o capanga mais sinistro de Sergei. Silvio sempre foi calado, mas de um jeito tímido e inocente e ao mesmo tempo frio e calculista. Silvio é um japonês de uns 80 quilos, cabelos pretos e olhos pretos. Carlos é americano, olhos castanhos escuros, age como um bandido pé de chinelo. Joane é brasileira, cabelo preso em rabo de cavalo, boa aparência, mas uma megera. John só sabia o nome desses capangas, os outros pareciam ser ex-militares.

  • Eu queria ouvir o que eles estão falando… – sussurrou Kyle.

Foi como ter sido acertado por uma bola de futebol no estomago, e tudo o que John conseguia pensar era. O quê!? Como assim Kyle não conseguia escutar, se John ouvia claramente o que os bandido estavam falando, tão bom como se ele estivesse ao lado dos bandidos. Não. Não. Não! O que estava acontecendo? Como ele conseguia ouvir aquela conversa? Aquilo não fazia sentido.

O que você esta fazendo aqui? John ouviu a voz de Samira, era como um sussurro, era apenas para ele ouvir.

Não faço ideia, John disse automaticamente em um sussurro.

  • Você disse alguma coisa? – perguntou Kyle.

  • Apenas pensando alto… – disse John.

  • Apenas não pense alto o suficiente para eles nos ouvir… – disse Kyle.

  • Pode deixar… – disse John; ambos estavam dizendo em sussurros.

Pegue o seu amigo, e saia daqui, disse Samira.

Por mais que cada fibra de meu corpo queira fazer isso, eu simplesmente não posso fugir e deixar você aqui, disse John se arrependendo cada vez mais de ter um senso de honra e justiça.

  • Aquela é a mulher que você disse? – perguntou Kyle o encarando; certamente estava se contendo para não chamar o hospício e dizer que seu melhor amigo estava falando sozinho.

John assentiu.

  • Sim, ela é Samira Gorvendell. E antes que você chame o hospício, eu estou falando com ela, de certa forma, acho que posso ouvir melhor que os outros, assim como ela, também estou ouvindo cada palavra que eles falam.

Por um momento, John achou que Kyle iria soltar o maior grito, e em seguida, ambos estariam iguais a queijo suíço, cheio de furos.

  • Não acredito que eu vou dizer isso mas… – disse Kyle, John podia ver em seu rosto como ele estava ultrapassando seus próprios limites de sanidade. – Ela tem algum plano?

Claro que eu tenho, disse Samira.

  • Agora eu a ouvi…! – disse Kyle tentando manter a voz calma e baixa.

  • Você esta ouvindo, por que eu estou controlando o som. – disse Samira; só agora John percebeu que ela não parecia preocupada com sua atual condição. – Mais dez minutos, e eu terei poder o suficiente para acabar com esses lixos.

  • A bela adormecida acordou? – Sergei estava bem sarcástico, mas também cheio de raiva.

  • Eu não sou bela, – disse Samira o fitando e fingindo que os dois não estavam ali. – Eu sou linda!

John e Kyle seguraram o riso. John pode sentir Sergei queimar de raiva, era quase literalmente. Calor parecia emanar do corpo do criminoso.

  • Ousada e arrogante… – cuspiu Sergei.

  • Não se esqueça do linda e poderosa. – claramente, ela queria irritar ele (e ela estava conseguindo).

  • Olhe como fales diante de Sergei! – disse Joane socando o rosto de Samira.

Samira cuspiu sangue ao se recompor e sorriu.

  • Como é se apaixonar e saber que nunca vai ser correspondida? – perguntou Samira fitando Joane nos olhos. O rosto de Samira estava começando a mostrar sinais de pancadas.

Joane bufou ferozmente.

  • Como ousa!? – ela chutou o estomago de Samira.

  • Desse jeito, ela não vai durar nem dois minutos… – sussurrou Kyle.

  • Temos que fazer algo antes que ela acabe morrendo… – disse John.

  • Nem pensem nisso… – disse Samira; sua boca mal se moveu, ate parecia estar falando com eles por pensamento.

  • Mas… – tentou John.

  • Não se preocupe, eu já passei por coisa mil vez pior… – disse ela.

  • Já chega! – disse Sergei; Joane estava prestes a dar outro chute em Samira.

Joane precisou conter cada fibra de seu corpo para espancar Samira. Ela se afastou.

  • Samira… Gorvendell, nome interessante. – disse Sergei em pé diante de seu trono. – Será que eu posso saber o motivo de você ter atacado minha casa…?

  • Sua casa…? – disse Samira revirando os olhos em volta do local; certamente com deboche. – O motivo de eu ter te atacado? Deixe eu ver… Ah, é mesmo, o lixo deve ser destruído!

Carlos se agachou dando um soco no estomago dela. Samira se recompôs e ficou de pé depois de cuspir sangue.

  • Sério mesmo? Vocês só tem isso? – disse ela debochando dos bandidos.

Sergei continuou a fazer perguntas, mas ela não respondia, apenas os irritava mais, e ela apanhava mais.

  • O que ela esta fazendo? – perguntou John.

  • Acho que… ganhando tempo? – respondeu Kyle.

  • Tempo pra que? – perguntou John. – Se continuar assim, ela vai é morrer.

  • Acho que pra recuperar o tal poder dela… – respondeu Kyle.

  • Quanto mais ela precisa…? – perguntou John.

Dois minutos, respondeu Samira.

  • E você vai aguentar mais dois minutos? – perguntou John.

  • Como eu disse, já passei por coisa muito pior… – ela respondeu.

BUM, Kyle ao tentar ficar mais confortável, acabou derrubado um dos latões.

  • O QUE FOI ISSO!? – gritou Sergei.

Todos os bandidos olharam para o local, e lá estava os dois. John e Kyle engoliram seco quando foram abordados por dois bandidos armados.

  • Desculpe… – murmurou Kyle enquanto eram levados diante de Sergei.

John ficou ao lado de Samira e Kyle ao lado de John.

  • John, que bom que você veio, assim impediu que eu cruzasse a cidade atrás de você. – disse Sergei.

  • Você pode fazer o que quiser, mas eu estou fora. Não vou mais ser um de seus capachos.

John já havia decidido, agora não iria voltar atrás. Chega de Sergei. Mesmo que ele morresse, nada iria fazer ele voltar a vida de traficante.

  • John. John. John, acho que você se esqueceu de com quem você esta falando. – disse Sergei.

  • Acho que não… – disse John tentando parecer o mais confiante o possível, mas estava difícil.

Só de olhar para Sergei, já podia ver o ódio emanando de seu corpo.

  • John não trabalha mais pra você, seu… esquisito! – disse Kyle tentando fazer aquilo parecer o maior dos palavrões do mundo, e ao que parece, conseguiu.

  • Quem diabos é você? – perguntou Sergei irritado.

  • Kyle, melhor amigo de John. – disse Kyle cheio de orgulho.

Foi então que John percebeu, Kyle não estava com medo. Ele apenas estava fingindo estar com medo todo o tempo.

  • Interessante… – disse Sergei dando lentos passos em direção a eles. – Antes de John trabalhar para mim, ele teve um amigo. Esse amigo trabalhava para mim, John tentou bancar o herói, salvou o amigo, mas não se salvou, pois ele teve que trabalhar para mim. E agora, aonde esta esse amigo, John?

  • Espero que feliz… – respondeu John sinceramente. – Você pode dizer o que quiser, mas eu não me arrependo de ter salvado ele, só me arrependo de não ter me salvado também. Mas agora basta, não vou cometer o mesmo erro.

  • Finalmente… – disse Kyle o olhando nos olhos.

John pode ver orgulho nos olhos de Kyle, mas o jeito como ele falou.

  • Como assim? – perguntou John. – Ate parece que… você sempre… soube…? – saiu mais como uma pergunta.

Kyle assentiu.

  • Sim, eu sempre soube. Na verdade, fiquei cansado de ver você se deixar ser humilhado por esses meros… mortais… – disse Kyle com desprezo olhando para Sergei.

  • Do que você esta falando? – perguntou John sentindo uma vibração poderosa saindo de Kyle.

  • Logo, logo você descobrira o que eu quero dizer. Meu tempo aqui terminou, no momento em que você tomou coragem, minha missão terminou. Agora eu posso ser quem eu realmente sou.

John engoliu seco, não queria perguntar, mas mesmo assim perguntou.

  • Quem é você?

Kyle olhou para John, deu um passo a frente, olhou todos ao redor. Todo mundo estava tentando digerir o que Kyle estava dizendo, ate mesmo Samira estava confusa. Ele olhou para John e disse:

  • Eu sou… você…

John sentiu um formigamento em todo o seu corpo. Uma sensação de vazio e ao mesmo tempo completo. Ele tentou entender tudo. Forçou sua cabeça a se lembrar do que aconteceu cinco anos atrás, o mesmo dia em que Kyle chegou no orfanato.

Era uma segunda feira, por volta das duas da tarde. Já tinha saído da escola, e como não queria voltar tão cedo para o orfanato, ele passou no fliperama. Usou as poucas moedas que tinha para jogar alguns jogos eletrônicos. Ficou ate as quatro da tarde jogando. Por volta das cinco, ele chegou no orfanato. Subiu as escadas e foi direto para o quarto. A cama ao lado da dele que antes estava vazia, agora tinha alguém sentado sob ela. Quando ele se aproximou da cama, o menino se apresentou:

– Oi, me chamo Kyle.

Essas quatro palavras fizeram o dia de John. Pela segunda vez, alguém naquele orfanato foi amigável com ele, e uma amizade surgiu entre os dois. E agora, Kyle vem dizer que os dois são só um? O que isso quer dizer? Confuso era o mínimo que John se sentia.

Por mais que John perguntasse o que aquilo queria dizer, Kyle somente sorria e dizia:

  • Sempre estive com você e sempre estarei, pois somos uma única pessoa.

E ao mesmo tempo seu corpo estava perdendo a intensidade, a cada segundo, Kyle estava ficando transparente e em poucos segundos ele iria sumir.

  • O que esta acontecendo? Que história é essa de sermos a mesma pessoa? – indagou John tentando tocar o amigo, sua mão atravessou o corpo de Kyle.

Kyle parecia um fantasma, um fantasma que esta desaparecendo deste mundo.

  • O que diabos é isso? – perguntou Sergei quase sentindo medo.

Seus capangas deram um passo para trás, apavorados, exceto Silvio que continuava observando tudo com seu olhar frio e calculista.

  • O seu fim… – disse Kyle.

Neste exato momento, Silvio agiu, em um único passo, ele já estava ao lado de Kyle, com uma espada japonesa atravessando o pescoço de Kyle.

  • NÃO! – gritou John imaginando que o amigo tinha acabado de ser assassinado.

Mas ao invés de ter a cabeça rolando no chão, Kyle simplesmente se dissipou no ar e sumiu. Por outro lado, John se sentiu estranho, seu corpo formigou eletricamente. Uma força absoluta passou pelo seu corpo. Seus olhos lacrimejantes, sentindo a perda do amigo, e irritado com tudo, sem saber o que estava acontecendo, ele caiu de joelhos no chão. Não queria chorar. Não agora. Agora ele queria uma única coisa. Matar. Mas ele não é assim. Por que ele estava se sentindo desse jeito? Esse sentimento novo, porém familiar. Ele já havia se sentido assim antes, mas quando? Ele se lembrou. Antes de Kyle aparecer cinco anos atrás, ele vivia se sentindo assim a quase todo momento. E agora que Kyle se foi, ele começou a se sentir assim novamente. O que ele sentia era ódio, ódio absoluto daquele que o irritou, Sergei e seus capangas. Mas também se sentiu com menos medo do mundo, mais confiante. Agora ele entendia. Apesar de todos poderem ver Kyle, ele era como um amigo imaginário, mas real. Kyle e John eram o mesmo. De alguma forma, John materializou Kyle no mundo, onde todos o podiam ver, onde todos acharam que ele também fosse um simples órfão. E agora John sabia, ele não era simples, não era comum. Ele era especial, diferente.

  • John, se proteja… – disse Samira normalmente.

John olhou para cima, quase chorando e viu. Todos os cortes e machucados em Samira estava desaparecendo como… mágica. Ainda com as mãos algemadas, ela olhou para Sergei e disse:

  • Eu não sei o que aconteceu, só sei que, Kyle conseguiu o tempo que eu precisava para recarregar.

Silvio deu um passo e já estava atrás de Samira. John só conseguiu ver um vulto.

  • Você é rápido… – disse Samira atrás de Silvio, John não conseguiu ver nem o vulto dela. – Mas a velocidade do som é mais…

Silvio se virou para ela.

  • Se eu fosse você, tamparia o ouvido… – ela disse e ao mesmo tempo abriu a boca.

Como um grito de águia misturada com vários ventos, ela gritou. Era o mesmo som que John tinha ouvido no sábado, quando o portão de aço se desprendeu da parede. John não soube se ela tinha dito para ele ou para o Silvio, só soube que tinha que tampar o ouvido e assim fez. Não havia janelas, pois todas já haviam sido destruídas no outro dia. Sergei e todos os bandidos tentavam tampar os ouvidos, mas o som já os tinham pego. John se levantou com as mãos nos ouvidos, mas sabia que não precisava, pois Samira havia dito que controla o som, então ele estava a salvo do grito bizarro da mulher estranha. Ele suspirou fundo, tomou coragem e tirou as mãos dos ouvidos, tinha razão, ele estava a salvo do grito dela. Ele olhou para Sergei, que estava no chão tentando tampar os ouvidos e ao mesmo tempo furioso com John e Samira. Mas John não estava com medo, pois se alguém tinha que ficar furioso, era ele. E ele estava furioso, tão furioso que tomou coragem e correu ate Sergei. Com a mão fechado, John socou o rosto do criminoso que caiu para trás e acabou destampando os ouvidos. Samira parou de gritar assim que os bandidos caíram ao chão quase inconsciente. Enquanto Samira dava uma surra nos bandidos; claramente se vingando deles pela surra que ela levou, Sergei se levantou para enfrentar John.

  • Como ousa… – disse Sergei evidentemente cheio de raiva.

  • É algo que eu já devia ter feito a muito tempo…

  • Você vai pagar por essa humilhação, John Ryder… – Sergei cuspiu cheio de ódio.

  • Talvez, mas não hoje… – disse Samira lá atrás.

John se virou. Ela tinha dado uma surra nos bandidos. Samira estendeu o braço direito ao céu, John viu o bracelete prateado em seu pulso. Com a palma da mão aberta, ela gritou:

  • REBELLIO!

Algo incrível aconteceu diante dos olhos de John. Acima dela, uma luz azul-negro surgiu e começou a tomar forma, em segundos um círculo mágico se formou acima dela e se desfez em poeira mágica. A poeira mágica se acumulou em uma compressão de energia, e logo em seguida explodiu lançando energia destrutiva em todo lugar, fazendo tudo desmoronar. John tentou se proteger da intensidade da luz e da explosão, tudo o que ele viu foi Samira desaparecer na velocidade do som. Ela o pegou em seus braços e o retirou do local na velocidade do som, e em seguida perdeu a consciência.

 

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