Vibração Negra

John abriu os olhos, bufou ao ver o teto do orfanato. De novo não. A sensação era a mesma, os apagões tinham voltado.

  • Como eu cheguei aqui? – disse John sentado na cama. – Tudo que eu me lembro é de estar pronto para apanhar de Alex e… uma voz…? Kyle…? Está tudo tão confuso… O que era aquela voz? Por quê eu não consigo me lembrar do que aconteceu depois? De como eu cheguei aqui?

A Sra. Mercy entrou no quarto com o chicote na mão.

  • Vejo que você já esta acordado… – disse a Sra. Mercy se forçando a dizer o nome dele. – John… – seguido pelo mesmo berro de sempre. – ATÉ QUANDO VOCÊS VÃO FICAR DORMINDO? SE LEVANTEM SEUS BASTARDOS!

Todos pularam da cama, John sem cerimonias, já havia começado a arrumar a cama, não estava afim de ter que aturar o mau humor da Sra. Mercy. Ele podia jurar que iria avançar nela se ela pegasse em seu pé. Terminou de arrumar a cama, foi ate o banheiro e abriu a torneira, encheu a palma de sua mão com água e jogou no rosto, não, ele não estava alucinando, tudo aquilo havia acontecido mesmo.

  • O que esta acontecendo? – perguntou John a si mesmo pressionando as duas mão em sua cabeça, pensou que se fizesse isso poderia espremer alguma resposta de sua cabeça.

John saiu do banheiro tentando parecer o mais normal possível, não podia contar pra ninguém, e pra quem ele iria contar? O único amigo que tinha, era ele mesmo, e pelo jeito nem isso mais. John estava sem amigos, ninguém com quem pudesse conversar, ele estava sozinho, sozinho desde que seu único e melhor amigo foi embora do orfanato 6 anos atrás. Se sentou na cama e esperou o tempo passar, aos poucos os outros órfãos foram deixando o quarto já arrumados para irem pra escola. Todos pegavam o ônibus para irem pra escola, John era diferente, gostava de ir sozinho, caminhando, afinal, era somente 30 minutos do orfanato ate a escola, não via necessidade de ir de ônibus, não quando os 30 minutos se transformavam em uma hora por causa do trânsito, é claro que ele não era o único a pensar deste jeito, algumas outras crianças também preferiam ir a pé. Depois de ficar sozinho no quarto, ele se levantou, pegou sua mochila embaixo da cama e foi para o corredor. Sra. Mercy havia dito que Kyle foi adotado por uma família muito rica, por isso ele não estava no quarto, teve que sair no domingo a tarde.

John parou por alguns segundos, ele olhou para o fim do corredor onde ficava o escritório da diretora do orfanato, reparou que a porta estava entre aberta, ele ouviu vozes vindo do escritório, mas não dava pra entender o que diziam. John virou-se para o outro lado do corredor onde ficava uma janela normal com vidros transparentes e sem cortinas, ficava do lado da escada, ele começou a andar em direção da escada, sentindo uma leve curiosidade em ouvir sobre o que falavam, continuou a andar passando a mão direita da parede do quarto das garotas.

Aconteceu de novo. Faltando apenas alguns passos da escada ele parou e virou-se subitamente ao ouvir alguém dizer claramente:

  • John Ryder…

Mas não havia ninguém atrás dele, então só poderia ter vindo da sala da diretora? Mas com quem a diretora estaria conversando sobre ele? E como ele conseguiu ouvir a essa distância? Se lembrou que isso já havia acontecido, ele podia ouvir claramente a distância. Ele começou a andar lentamente em direção ao escritório da diretora tentando ouvir a conversa, ate que ele ficou atrás da porta, próximo a parede pra que não pudesse ser visto.

Ele viu a diretora sentada em uma poltrona atrás de uma mesa de madeira antiga com compartimentos para gavetas, ao lado esquerdo da diretora havia uma janela grande com cortinas cor de vinho, atrás dela havia uma estante de madeira cheia de livros. Ele podia sentir o ar pesado que emanava do escritório. A diretora era morena, com o cabelo cacheado um pouco abaixo dos ombros, parecia meio nervosa. John não conseguia ver a outra pessoa que estava com ela.

  • Como eu disse… – disse uma voz de garota; pela voz, ele podia jurar que era de uma garota, não mais que 11 anos. A voz era calma e sombria ao mesmo tempo. – Eu vim buscar John Ryder…

  • Sim, é claro, mas… – disse a diretora com um falso sorriso. – Vocês devem entender a minha posição, eu não posso simplesmente deixar vocês levarem um interno sem uma autorização…

  • Nós entendemos – disse a voz de garota. – Aqui esta a minha autorização…

A diretora pulou da cadeira. John não conseguia ver quem eram as outras pessoas na sala, ele queria saber o que fizeram para deixar a diretora tão assustada.

  • M-Me desculpe, m-mas… – a diretora estava apavorada.

  • Mas o quê? – perguntou a voz.

  • V-Vocês… vão ter que esperar um pouco… – ela olhou em seu relógio no braço esquerdo e respirou fundo. – Ele só volta às quatorze horas.

  • Por quê somente às quatorze horas? – perguntou um homem se aproximando da mesa. John o podia ver perfeitamente, ele era careca, dava pra ver o reflexo da luz no alto de sua cabeça, era branco e tinha uma pele pálida, usava um terno preto. – Onde ele esta?

  • Ele esta na escola… – disse a diretora com uma recuperação surpreendente, era como se o medo tivesse evaporado.

Ele fez um movimento estranho com a cabeça; era como se estivesse cheirando o ar, buscando por um aroma especifico. O mais estranho foi que, parece que ele encontrou o que procurava. Ele olhou para trás com um olhar para seja quem fosse a outra pessoa, John podia jurar que ele havia dito. Ele esta aqui. Esta escutando atrás da porta.

  • Nós esperaremos… – disse a garota se aproximando da mesa.

Uma garota de uns nove anos afastou uma das cadeiras e sentou-se, ela tinha um cabelo preto, longo e liso que cobriam as suas costas, usava um vestido branco que servia em seu corpo de criança perfeitamente, ele lembrava um vestido de noiva, usava um tipo de sapatilhas pretas. John não conseguia ver o rosto da garota.

  • Só espero que você não esteja mentindo para mim! – disse a garota com uma voz sempre calma. – É muito cedo pra eu sujar as minhas mãos de sangue.

John se assustou com o que a garota disse, ele tomou cuidado pra não fazer nenhum barulho que o pudesse entregar. A diretora fez uma cara de medo.

  • Mas é claro que não…! – disse a diretora com um sorriso forçado. – Eu não mentiria pra você… Er… desculpe-me, mas… qual é o seu nome mesmo?

  • Já fui chamada de muitos nomes. Elisabeth, Catarina de Médici, Cleópatra, Pandora, e entre outros, mas atualmente sou conhecida como, Imperatrix… – respondeu a garota.

John engoliu seco. Era um absurdo, do jeito que Imperatrix (ou seja lá qual fosse o nome dela) disse, fez parecer que ela vive a mais de mil anos. Aquilo não podia ser verdade, então John assumiu que ela era uma garota com muita imaginação; uma garota macabra e esquisita, mas com muita imaginação.

  • Imperatrix… – repetiu a diretora com um suspiro. – A senhorita aceita tomar uma xícara de chá enquanto espera?

E o pior de tudo? A diretora parecia estar levando tudo numa boa.

  • Sim… – respondeu Imperatrix. – Sem açúcar!

  • Eu mandarei – disse a diretora levantando-se e indo em direção à porta. – Alguém trazer imediatamente…

John não sabia o que fazer, ela iria pegar ele no flagra. O que iria acontecer com ele se eles o pegassem? Coisa boa não podia ser. Encostado na parede apavorado, esperou algo o salvar.

  • Espere! – disse Imperatrix, a diretora já estava com a mão na porta pronta para sair, ela virou-se. – Por quê…

John não esperou para ouvir, ele correu o mais rápido que pode sem olhar para trás, foi direto para a escada, ele escutou a porta se abrir, mas continuou descendo a escada. Ele conseguiu, ninguém o tinha visto. Esse pensamento passou por sua cabeça ao abrir a porta da frente do orfanato. John sem prestar atenção pra onde ir bateu de frente com um homem, foi como dar de cara com uma parede. Foi tão desconfortável que John caiu no chão dentro do orfanato.

  • Vai a algum lugar? – perguntou o homem avançando em direção a John, o homem destruiu a porta a jogando na parede.

Era o mesmo homem que estava na sala da diretora junto com Imperatrix.

  • Volte aqui…! – ordenou o homem tentando agarrar John que estava subindo as escadas novamente.

John parou no meio da escada, a diretora estava parada no topo da escada, ela tinha um olhar sério. O homem estava no início da escada preparando-se para atacar como se fosse um animal selvagem preparando para atacar sua presa, o homem deu um salto em direção a John, parecia que ele estava voando, que de fato estava; no lugar das unhas da mão do homem apareceram garras, dentes selvagens e pontudos cresceram em sua boca e os caninos ficaram maiores que os outros, os olhos dele mudaram de cor, de preto ficou branco, um branco sem vida e ao mesmo tempo pareciam nuvens, um vampiro estava atacando-o.

  • ABAIXE-SE…! – gritou a diretora para John, ele a obedeceu sem hesitar. – E TAMPE OS OUVIDOS…!

Essa não, isso não podia ser coisa boa. Tampar os ouvidos? Ele já ouviu isso antes. A diretora respirou fundo, abriu a boca como se estivesse gritando. O mesmo e insuportável som que destruiu as janelas e arrancou o portão de aço da parede da antiga fábrica metalúrgica, surgiu da boca dela. Tudo parecia que iria desmoronar, as janelas foram se destruindo para fora do orfanato.

O vampiro parou no ar tampando os ouvidos para se livrar do barulho, mas era impossível, o grito da diretora era tão forte que estava fazendo o prédio tremer. O homem foi jogado com força escada abaixo, o impacto foi tão grande que o piso de madeira foi destruído. John sentiu uma pontada em seu coração, ele estava apavorado, ele estava pronto para fazer qualquer coisa que o ajudasse a se salvar, um sentimento familiar tomou conta dele, algo estranho estava acontecendo; o ódio estava aumentando.

A diretora parou de gritar, mas o perigo ainda não havia passado. Imperatrix estava atrás da diretora esticando a mão direita, em seu pulso: um familiar bracelete prata com símbolos místicos, a frente de sua mão: uma luz violeta-negra formava dois círculos, o maior era do tamanho de uma bola de basquete e o outro, dentro do círculo maior, era alguns centímetros menor, hieróglifos místicos, mas desconhecidos por John, se formavam entre os dois círculos os interligando, dentro do círculo menor se formou um pentagrama, e os dois círculos giravam em direções opostos, o maior no sentido horário e o menor no sentido anti-horário. John ficou abismado, ao mesmo tempo em que era lindo, magnífico e inacreditável, também era assustador e maligno aquele círculo. Aquilo era um círculo mágico. E aquilo não podia estar acontecendo.

Depois de completo, como um estalo, o círculo se transformou em poeira mágica, a poeira se acumulou a ponto de se formar uma esfera de energia violeta-negra, ela estava prestes a atacar a diretora. Imperatrix tinha um rosto branco e pálido, um rosto sombrio e medonho.

  • Me entregue o garoto… – disse Imperatrix.

John se sentiu acuado, tudo aquilo era loucura, ele só podia estar louco, nada daquilo podia estar acontecendo. Era um pesadelo, tinha que ser.

  • Até quando? – perguntou a voz dentro de John, a mesma voz que ele ouviu um dia atrás, a mesma voz de Kyle. – Até quando você vai fugir?

  • Kyle? Quem é você? Quem esta falando? – perguntou John choramingando.

  • John…? – chamou a diretora.

Imperatrix o olhou friamente.

  • Eu sou você e você sou eu. Antes eu era Kyle, mas agora eu sou Kai. Diferente de antes, eu não sou seu amigo, eu sou você.

  • Mas… – tentou John, mas ele sabia, aquele não era o Kyle que ele conhecia, a voz era ele, mas também não era ele. A voz era Kai. E Kai não era seu amigo. – O que você quer de mim? – perguntou John com os olhos fechados.

  • Quero que você pare de chorar e se levante e lute…! – respondeu a voz.

  • Não dá, isso é impossível. EU SOU SÓ UM GAROTO NORMAL…!

Tudo ficou em pleno silêncio, John ficou em plena escuridão, o medo o estava consumindo, seu espirito estava se afundando nas trevas.

  • Quem disse?

John sentiu uma pontada imensa em seu coração, era como se ele acabasse de ser ressuscitado por uma maquina de choque cardíaco.

  • Tudo bem, você cresceu sem saber quem é, isso lhe dá um desconto. Já que o seu bem é de meu interesse, eu lhe empresto o meu poder…

John viu uma luz branca se ascender distante, como a luz no fim do túnel, a luz se aproximou ferozmente, ao ser tocado por ela, se viu cair em um sono profundo.

Os olhos de John se abriram novamente, os olhos azuis de John haviam sido trocados pelos olhos negros da noite, por olhos pretos, os olhos de Kai.

Apoiou sua mão na escada e se levantou, Imperatrix estava prestes a lançar a maldição, a diretora estava indefesa, olhou para Imperatrix que o olhava sem expressão alguma. A diretora virou a cabeça e viu John totalmente diferente. Imperatrix lançou a maldição na diretora, mas antes que a esfera a atingisse, John sumiu e reapareceu na frente da diretora.

Ele redirecionou a maldição com a mão esquerda, a esfera mudou de cor ao ser tocada por John, agora era uma esfera de fogo. A maldição acertou o vampiro caído no chão, e ao ser atingido, ele pegou fogo e se transformou em brasas e depois em cinzas.

John estendeu a mão direita no rosto de Imperatrix e disse:

  • Eu lhe desafio a me derrotar…

Imperatrix foi lançada longe com um tipo de força magnética invisível, ela bateu contra a porta do escritório da diretora. Ela se levantou e olhou friamente para John que a retribuiu com o mesmo olhar. Os órfãos que ainda estavam no orfanato começaram a aparecer no andar de baixo para ver o que estava acontecendo junto com as funcionarias do orfanato. A diretora se levantou e ordenou para que as funcionárias retirassem os órfãos para fora.

  • RETIREM ELES DAQUI AGORA! – gritou a diretora. – VÃO TODOS PARA FORA! AGORA…!

As funcionárias e os órfãos obedeceram sem fazerem perguntas. John estendeu o braço e abriu a palma da mão em direção a Imperatrix, uma esfera de energia negra se formou na palma da mão de John, quando a esfera atingiu certo tamanho de massa, um pouco maior que a mão dele, ele disse lançando a esfera em direção a Imperatrix:

  • Vibração Negra.

Imperatrix se transformou em uma fumaça negra, a esfera passou por ela, acertou a porta a destruindo. Imperatrix na forma de fumaça foi em direção a John, passou por ele e a diretora, desceu a escada e saiu pela porta rapidamente. Os órfãos e as funcionárias ficaram espantados ao ver um tufão de fumaça negra sair pela porta do orfanato e subir rapidamente ate as nuvens e sumir entre elas.

A diretora se aproximou de John, ele estava de costas pra ela, ela o tocou e disse:

  • Carcer Anima. – John caiu nos braços dela desmaiado. – Bom trabalho, Kai…

 

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