A Muralha de Areia

John havia tomado a sua decisão. Ele deu meia volta e correu, correu como se sua vida dependesse disso. Entrou no hotel e foi direto para o quarto, parou bruscamente na porta ao ouvir vozes vindo de dentro do quarto. Ele se espreitou sorrateiramente e espiou.

Uma mulher morena de cabelos castanhos claros, lisos ate o meio das costas, junta com dois homens, um deles, Lastiel, tinha olhos castanhos esverdeados, pele clara, cabelos castanhos claros, quase loiros, sua feição era macabra. Lastiel é um ser com uma personalidade psicopata, ele adora sangue, seus sorrisos são terrivelmente assustadores, cheios de sarcasmos e sedentos de sangue. O outro é Ariel, com seu cabelo de soldado, sua pele negra, olhos terra, e com uma personalidade obscura, demonstrando sempre estar calmo, raramente abre a boca para dizer algo, é um ser tão perigoso quanto Lastiel, talvez não quanto Lastiel, mas chega perto.

  • Você pode repetir? – perguntou Ariel.

  • Alguém que cresceu neste mundo onde não tem magia, uma mutante da Tribo do Tempo, sem ter conhecimento de seus poderes. Acabou ativando seu poder de ver o futuro, o mesmo futuro que eu venho tentando olhar a anos. Não sei ao certo qual é a visão que ela teve, mas sem sombras de duvidas a visão era sobre John Ryder e o nosso mestre, o Imperador das Trevas, Lúciferius, e sobre sua ascensão. Precisamos da vidente que olhou no futuro. – respondeu a mulher.

  • E usando seu poder superior de clarividência, você viu John Ryder neste quarto. Mas ele não esta aqui…! – disse Lastiel.

  • Não, mas ele esteve… – disse Ariel analisando o quarto. – Sinto fragmentos de metamorfose, alguém usando pedras da lua…

  • Ele já deve estar longe… Vamos atrás da vidente… – disse Lastiel com um sorriso psicopático.

  • Tudo bem… – disse a mulher. – Mas eu devo lembra-los, neste mundo não a magia, isso torna o uso de magia e poderes mutantes limitados. Se a carga de energia dos braceletes se esgotarem, levara 24 horas para carregar, neste meio tempo estaremos indefesos, pois seremos comuns, seremos iguais aos humanos, sem poder algum…

  • Sim. Sim. Entendi, devemos usar com moderação, assim nossas energias espirituais carregaram os braceletes no lugar dos poderes, não tão rápido, mas se usado com moderação, não ficaremos sem poderes… – disse Lastiel. – Agora posso matar o pequeno espião? – ele olhou para porta, John gelou.

  • Seja rápido… – disse Ariel.

Uma mão tampou a boca de John e outra segurou seu corpo, ele estava suando frio, reunindo a coragem necessária, ele olhou para trás hesitante. John sentiu um enorme peso sumir de cima dele, a diretora o tinha pego. Ela tirou a mão da boca de John e o soltou e disse baixo:

  • Tampe os ouvidos…

  • De novo não… – murmurou John, mas a obedeceu.

A diretora ficou de frente para a porta olhando os três.

  • Você é familiar… – disse Lastiel. – Eu te conheço?

  • Vamos ver se você se lembra disso… – disse a diretora abrindo a boca.

Lastiel pensou rápido e se envolveu em um casulo de areia do seu próprio corpo, sem tempo de reação aos outros, o grito sônico auto destrutivo da diretora os atingiu. Parte da areia do casulo se desmoronou. Enquanto Ariel e a mulher estavam de joelhos no chão, a diretora tocou o ombro de John. John sentiu seu corpo todo ficar leve; literalmente, a sensação não era das melhores, parecia que haviam jogado um balde de óleo nele, seu corpo todo estava deslizante e perdendo a consistência. A diretora fechou a boca, no mesmo instante, ela e John se transformaram em fumaça branca, espeça, dava a impressão de ser liquida. Em um único amontoado, os dois corpos de fumaça se juntaram e voaram em um tufão de fumaça branca pelo corredor imenso rumo a pequena janela, o tufão se chocou contra a janela a estilhaçando para fora, que chamou a atenção de quem estava na rua. O tufão passou pela janela e foi em direção as nuvens.

Lastiel desfez o casulo, a areia retornou para seu corpo e disse olhando para a porta com um sorriso sedento por sangue:

  • Agora eu me lembrei… Vocês dois vão atrás da vidente. Eu cuido da minha irmã, Samira…

Lastiel se envolveu em uma nuvem de areia e voou ferozmente contra a varanda destruindo tudo em seu caminho.

  • O que é isso!? O que diabos esta acontecendo? É o fim do mundo?

As pessoas na rua estavam apavoradas ao testemunharem um tufão de fumaça branca surgir em diagonal e voar como se tivesse vida própria e em seguida uma nuvem de areia agir da mesma forma. A nuvem não foi de imediato para as nuvens, ela foi para a rua e passou pelas pessoas violentamente, a areia foi se tingindo de vermelho e as pessoas foram caindo no chão mortas. Ela passou por cima da praia acumulando um pouco mais de areia e voou para as nuvens acima do mar. Em segundos, a nuvem já estava na cola do tufão branco.

  • Mas já…? – disse a voz da diretora. – Então não tenho escolha, não vamos conseguir chegar em Tóquio a tempo, vou ter que obrigar um portal a se abrir aqui mesmo…

  • Como assim…? – perguntou John.

  • Como esse mundo é restrito, condenado a viver sem magia, não posso lutar de igual pra igual contra Lastiel. E ao abrir este portal eu estarei quebrando regras, mas não tenho escolha… Lá vai, vou usar todo o poder que me resta neste mundo… EXHAURIUNT PORTUM!

Um círculo mágico azul-noite enorme se formou rapidamente a uns 5 metros a frente do tufão branco, e se desfez em poeira mágica criando um círculo da mesma cor e tamanho do círculo mágico, nuvens se acumularam ao redor do portal. E assim, a diretora abriu a Porta de Escape.

  • Espero que o atravessamos a tempo… – disse a diretora.

O tufão estava começando a se desfazer permitindo se ver rastros dos corpos dos dois.

  • Como sempre se arriscando, maninha… – disse a voz de Lastiel na nuvem de areia.

  • Maninha…? – repetiu John.

  • É uma longa história… – disse a diretora. – Aguente firme…!

Eles passaram o portal em alta velocidade, no mesmo instante em que o Esfumaçar se desfez. Esfumaçar é a habilidade que qualquer um com um bracelete mágico pode fazer, a pessoa transforma seu corpo em fumaça sem precisar invocar o feitiço, apenas com a força de vontade, e se transporta mais rápido que qualquer meio de transporte humano, mas no mundo humano, a velocidade diminui drasticamente, o que levaria menos de 5 segundos para dar a volta ao mundo, leva um pouco mais de 5 minutos.

John se viu entre as nuvens, literalmente, ele e a diretora estavam caindo a mais de 2 mil metros de altura. Mas a visão era magnifica, a terra verde, marrom, amarela, os rios e lagos azuis, as ilhas flutuantes próxima a eles, o sol no horizonte morrendo entre nuvens vermelhas, tudo era tão calmo, relaxante e lindo. Isso chamou a atenção de John por um instante, mas ele logo voltou para a realidade mortal que o aguardava se algo não fosse feito.

  • Sai da frigideira para cair no fogo…! – disse John.

  • Qual é…? Vamos! Recarregue… – disse a diretora olhando para o bracelete em seu pulso.

A diretora estava ansiosa, esperando que o bracelete voltasse a funcionar o mais rápido o possível, tudo estava dependendo dela. Ela virou seu corpo em pleno ar, agora ela estava caindo de costas, o portal estava se fechando, mas não antes da nuvem violenta de areia o atravessar. John virou seu corpo também para ver o que estava acontecendo acima dele, a diretora estava logo acima dele e bem alto estava Lastiel em forma de nuvem de areia voando em direção a eles.

  • Mas o que esta acontecendo? Já era para ter carregado… Se não vai na magia, vai no poder mesmo…

Ela abriu a boca e soltou aquele grito horrível, mortal a qualquer um. As nuvens foram se dissipando com as ondas sônicas, a nuvem de areia começou a vibrar e perder velocidade. A nuvem se acumulou e começou a tomar forma, em segundos Lastiel já estava diante deles. Parado em pleno ar, por um momento John achou que ele estivesse em pé em cima de algum vidro, Lastiel lançou sua mão aos lados criando um imenso círculo mágico violeta-obscuro, seu diâmetro era nada menos que 10 metros, e ele estava em pé a alguns centímetros do centro do círculo. As nuvens se escureceram e se acumularam em uma espiral ao redor do círculo, algo terrível estava por vir.

  • LASTIEL…! – gritou a diretora.

  • Mande um olá para o papai… – disse Lastiel com seu sorriso estampado no rosto. – No inferno…! ORCUS MORTUS! – gritou lançando a maldição aos dois.

A poeira mágica se acumulou em uma espiral indo em direção a eles e se transformou em um jato de raio verde-obscuro, a densidade era tão grande que dava a impressão de ser líquido.

  • É o fim… – murmurou John. – Mal comecei minha vida, e já estou morrendo…

A diretora sentiu uma enorme pressão em seu corpo.

  • Não, ainda não é o fim… – disse a diretora, ela levantou sua mão para o céu e gritou. – DIVINUM PROTECTION!

Um círculo mágico azul-celeste saiu de sua mão e se foi afastando e aumentando de tamanho, já com 3 metros de diâmetro, o círculo se desfez em poeira mágica, as partículas da poeira se interligaram criando uma enorme camada acima dela, uma camada de luz cintilante, uma luz dourada em junção com uma prateada, uma luz divina, a diretora havia acabado de conjurar a “Proteção Divina”, a única forma conhecida ate o momento para se defender da maldição da morte, a “Morte Infernal”. A maldição da morte se chocou contra a proteção dos deuses liberando uma forte rajada de ar do impacto, as duas magias se cancelaram. A diretora se virou para John e gritou:

  • CATWALK

Uma passarela de luz se formou a baixo de John que não sofreu dano algum com a queda.

  • CORRA…! – gritou a diretora o ordenando.

Não precisou dizer duas vezes, John seguiu a passarela ate uma ilha flutuante próxima, ele olhou para trás. A diretora estava logo atrás dele e Lastiel logo atrás os perseguindo. Da cintura pra baixo, Lastiel era areia, isso o permitia voar livremente pelo ar, da cintura pra cima, era o corpo de Lastiel.

A passarela foi se desfazendo logo atrás da diretora, John se jogou para dentro da ilha e em seguida a diretora, a ilha era uma selva. A diretora correu ate John, ela se virou para trás ficando de costas para John. Lastiel entrou ferozmente na ilha, ela sorriu e tocou o ombro de John. Os dois voaram em linha reta para o céu na velocidade do som e ao mesmo tempo ela gritou:

  • PROTECTIONE NATURA

As árvores se fecharam para Lastiel, ele estava preso na ilha ate o feitiço que a diretora lançou se desfazer, o que levaria horas.

  • AAHHH…! – gritou Lastiel cheio de frustração e ódio.

Ao mesmo tempo, a diretora tocando o ombro de John, esfumaçou. John não viu nada, pois em um piscar de olhos ele estava acima da ilha e em seguida havia acabado de se chocar e materializar-se em um porto cheio de pessoas, navios, alguns no estilo pirata, outros bem luxuosos.

John se recompôs, ofegante, com medo, frustrado e com vontade de extravasar.

  • Você esta bem? – perguntou a diretora.

  • Claro… – respondeu John. – Tirando o fato de SERMOS PERSEGUIDO POR UM PSICOPATA… estou bem. Por quê não estaria?

  • Você esta irritado… – disse a diretora.

  • SIM…! – respondeu com um grito.

  • É compreensivo…

  • Claro que é… – pela primeira vez John havia se permitido perder a calma.

  • Mas agora estamos bem… eu sei que você tem muitas perguntas, no momento certo você terá suas respostas, por enquanto, vamos embarcar e ter uma boa noite de sono…

  • Tudo bem… – disse John se acalmando.

Ele olhou em volta e viu um mar imenso a sua frente, um céu já se rendendo a noite, casas no estilo medieval, pessoas em suas roupas medievais, principalmente os mais velhos, outros em suas roupas bruxas, chapéus pontudos e capas, também os mais velhos, e os mais jovens usavam roupas mais humanas e modernas, apesar de muitos nunca terem visto nada do mundo humano.

A diretora deixou John na fila para um enorme navio luxuoso e foi comprar as passagens. Na frente de John havia uma garota de longos cabelos escarlates, seu rosto era impossível de se ver da posição em que ele estava, em suas costas uma mochila avermelhada e pela posição que sua cabeça estava inclinada, parecia estar lendo um livro.

John estava aliviado de ter conseguido sobreviver aos ferozes ataques que ele sofreu nos últimos dias, mesmo não querendo admitir, estava feliz de ter a diretora como protetora, alguém tão forte como ela, era incrível, sensacional e isso o fez pensar se iria conseguir se tornar tão forte quanto ela, e por mais que ele pensasse sobre isso mais ele se sentia afobado, mal conseguia esperar a hora para ter seu bracelete e começar a usar magia. Talvez ele ate pudesse voltar para mundo humano depois de um tempo e transformar a Sra. Mercy em sapo ou ate mesmo fazer Sergei tomar do próprio remédio, John estava se sentido o todo poderoso, bem sapeca. Mas no fundo ele sabia que isso ele jamais faria, mesmo com Sergei, assim como ele ouviu da estória de um de seus super-heróis favoritos: “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, John jamais vai se tornar alguém sem moral. Isso o fez pensar sobre Lastiel e como alguém tão poderoso quanto ele se voltou ao mau e como ele poderia ser irmão da diretora. Seja como for, John havia acabado de atravessar uma muralha de areia.

(…)

[Próximo capítulo só terça. A partir de agora irei postar dois capítulos por semana: Terça e Quinta.]

 

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