Renascimento

Depois de muitos anos de estudo e avanços tecnológicos, a morte não era mais o fim, pelo menos para alguns. Com o mais avançado programa de imersão de realidade virtual, o Re:Birth, as pessoas que morriam poderiam ter suas mentes transportadas para vários mundos criados por computador e experimentar de uma nova e eterna vida dentro da máquina, enquanto seus antigos corpos apodreciam na Terra. Mas essa rede de vastos planos de existência não era pública, sendo gerenciada pelo governo de cada país que possuía um servidor, fazendo com que apenas as pessoas com dinheiro e influência na sociedade pudessem ser transportadas para desbravar os novos mundos. No entanto, o sistema só funcionava com a mente de pessoas já mortas, já que seria muito custoso manter um corpo sem consciência vivo por sabe-se lá quanto tempo. Era uma jornada apenas de ida, não teria uma maneira de voltar.

No início, a existência do projeto era confidencial por motivos óbvios: aqueles que não poderiam usufruir do sistema ficariam com vontade de poder usa-lo a qualquer custo, e se revoltariam contra os governantes.

 No entanto, um misterioso hacker, conhecido como White Fox, vazou as informações secretas sobre o Re:Birth por toda a internet, que se espalharam mais rápido do que o governo pôde controlar, causando revoltas e intrigas por todo o planeta. A maior parte da população se posicionou contra o controle excessivo dos administradores do projeto, exigindo a liberação para toda a população.

 Manifestações, debates e até mesmo casos de violência envolvendo o Re:Birth se propagaram por todos os lugares. Esse caos era satisfatório para a pessoa que tinha começado tudo isso, que via todas as notícias através de seu monitor. Ela lia cada artigo e assistia todas as reportagens, tudo com um sorriso de orgulho no rosto. Sabendo que a partir de agora seria mais caçada do que nunca, White Fox apenas decidiu desaparecer do mapa, seguindo a sua vida normalmente. O que ela não sabia, era que já haviam pessoas atrás dela.

Estados Unidos, Nova York, Manhattan

Emma acordou com os raios de sol que entravam pela janela de seu apartamento, penetrando sua retina. Ela piscou algumas vezes até que sua visão se ajustar ao brilho do quarto. Lutou contra a vontade de permanecer no abraço quente e confortável de seu cobertor e levantou-se de sua cama. Olhou para seu relógio, percebendo tarde demais que faltava pouco para que sua aula na universidade começasse. Todo o seu sono rapidamente foi substituído por um surto de adrenalina súbito, daqueles que as pessoas tem quando se veem em uma situação desesperadora. Colocou qualquer roupa, escovou os dentes, guardou um pacote de Doritos na mochila e pegou o casaco que sempre usava durante épocas mais frias e saiu correndo por sua casa, parando em frente da porta de entrada. Por um momento, olhou para sua máscara de raposa pregada à porta, e lembrou de seus antigos atos. Atos que ela jamais voltaria a fazer.

– Não mais, coleguinha. – Emma falou, saindo pela porta da frente.

Assim que se distanciou o bastante de sua residência, dois homens de terno surgiram de uma curva no corredor, andando até o apartamento de Emma e usando uma copia da chave para poderem entrar.

– Vasculhe tudo, precisamos de provas o suficiente para incrimina-la. – Um homem disse para o outro.

– E o que faremos quando conseguirmos as evidências? – O outro perguntou.

– Eliminamos ela silenciosamente e fazemos ela sumir, como se nunca tivesse existido. – O homem respondeu.

A alguns metros dali, a jovem corria com todas as suas energias para tentar chegar à sua universidade, que por sorte não ficava muito distante. Pelo caminho, viu vários outdoors noticiando mais protestos violentos que ocorreram por conta do projeto Re:Birth ainda não ter sido liberado para todos. Ela sabia que era a causadora daquilo, mas não sentia nenhuma culpa, nem mesmo se arrependia, pensando que o que fez foi apenas mostrar a verdade escondida por trás dos panos.

 Faltando cerca de 5 minutos para o início das aulas, Emma conseguiu chegar a tempo, erguendo os braços, vitoriosa e suada, mas pelo menos tinha conseguido alcançar o objetivo. Ela estudava na Universidade de Columbia, a mais prestigiada instituição de ensino de toda a grande Nova York e uma das mais bem vistas em todo o país, cursando na área da computação, mais especificamente na programação. Sempre foi uma menina muito inteligente, levando aos seus pais a gastarem rios de dinheiro anualmente para mante-la dentro da universidade.

 Aos seus 17 anos, se interessou pela programação, e com 19 anos, começou sua carreira como hacker. Agora, com seus 21 anos, o Hack para ela era mais um passatempo, se divertindo cada vez mais proporcionalmente ao grau de dificuldade de suas conquistas. Sua última e maior conquista foi adentrar o banco de dados do governo dos Estados Unidos e copiar o documento que falava sobre o projeto Re:Birth, causando os eventos caóticos da atualidade. Ela se orgulhava muito deste feito, tanto que por isso achou melhor parar com a sua vida de hacker, o que a levou até os momentos atuais.

Com o tempo, as aulas se passaram e havia chegado a hora do almoço. Ela pegou o pacote de Doritos que havia trago consigo e se sentou em um canto isolado do campus. Já havia ponderado muito sobre o que faria se saísse de sua vida de Hacker, pensando se valia a pena ou não voltar à sua antiga vida comum e pacata. Emma não tinha amigos, muito menos estava em algum relacionamento, logo ela passava seus dias estudando e procurando desafios maiores para serem superados, até algumas semanas atrás. Lembrou-se de sempre olhar para a janela e ver aves voando pelo graciosamente pelo ar, como seres livres de preocupações, apesar de ela achar que a sobrevivência seria uma gigantesca preocupação para todos os animais que não podiam ir no mercado da esquina e comprar uma embalagem de Cup Noodles.

 Mais do que tudo, o seu hobbie proporcionava diversão e o melhor de tudo: liberdade. Ela adorava se sentir livre, como um peixe solto pelo vasto oceano, e foi por isso que sempre quis chegar além, ser mais do que suas capacidades poderiam aguentar. Para quebrar suas correntes, ela precisou fazer muita força, mas no fim, acabou se entregando a elas de novo sem resistir, entrando novamente num estado de estagnação.

– Talvez, quando eu voltar para casa, eu dê uma brincada em algum site desprotegido. – Ela sorriu levemente, soltando um suspiro logo em seguida. – É, talvez…. – Concluiu para si mesma, sabendo que ninguém a ouviria.

A hora do intervalo se foi, e o tempo levou o resto das aulas com ela. Emma atravessou os portões da faculdade e olhou para o céu cinzento, que anunciava chuva. Teria que ser rápida se quisesse comprar o “jantar” da noite antes que começasse a chover, já que não tinha pego seu guarda chuva na pressa de ir embora. No caminho para o mercado, olhou para a vitrine de uma loja de eletrônicos e viu um de seus maiores desejos há algum tempo atrás: um computador de última geração, que tinha uma das melhores configurações e peças do mercado. Ela sabia que nunca chegaria nem perto de ter aquilo, já que o pouco que seus pais eram capazes de mandar servia para comprar seus mantimentos mensais. A chuva finalmente havia começado, para a tristeza de Emma, que correu toda molhada até o mercado, comprando um pacote grande de Doritos e duas latas de Monster, achando que aquilo a alimentaria pelo resto da noite. Quando terminou suas compras, voltou a correr pelas ruas molhadas de Manhattan.

Chegando ao seu prédio, sentiu a estranha sensação de estar sendo observada, mas ignorou, sabendo que se ficasse mais na chuva suas chances de ficar gripada aumentariam. Entrou no edifício e subiu as escadas até chegar em seu andar. Mais uma vez, sentiu a sensação de que estava sendo vigiada, no entanto ignorou mais uma vez, indo diretamente até sua casa. Tentou destrancar a porta, mas ela já estava aberta.

– Ué, eu esqueci de trancar a porta hoje mais cedo? – Ela disse, entrando na residência e acendendo as luzes.

No momento em que fez isso, foi agarrada por trás, tendo seu pescoço fechado por dois braços fortes que vinham do homem atrás dela. À sua frente, outro homem apareceu, segurando uma faca.

– Acho que sabe o por que de estarmos aqui, não é, White Fox? Ou melhor, Emma Adams. – O homem de terno disse, acusando-a.

– D-D-o que você tá falando?! Não sou eu! – Emma falou com dificuldade.

– O seu computador não nos mostrou isso! – O homem insistiu.

O homem então foi se aproximando dela com a faca, pronto para terminar aquilo. Com sua mão, o homem que a agarrava por trás tapou sua boca, para que não gritasse. Com um rápido movimento, ela levantou suas pernas e chutou a barriga do homem com a faca. Depois, mordeu a mão de seu agressor e deu uma cotovelada em seu estomago, atordoando-o brevemente. Logo em seguida, saiu em disparada para fora do apartamento, correndo à sua velocidade máxima.

– Chamem reforços! O alvo está escapando! – Um dos homens disse pelo rádio.

Com rapidez, Emma desceu as escadas e foi para a rua, continuando a sua fuga pelos corredores estreitos da cidade. Como seu condicionamento físico não era dos melhores, seus passos foram ficando cada vez mais lentos, até que ela parou e encostou em uma das paredes, deslizando até cair sentada no chão molhado. Estava ofegante e suada, mas não mudou muito já que estava tomando um banho de chuva. Ela colocou a mão em sua face, sentindo sua testa esquentar gradualmente.

– Eu sabia que uma hora iria chegar nesse ponto, mas não sabia que seria tão rápido! – Ela disse para si mesma.

De repente, ouviu o barulho de passos se aproximando, incentivando-a a continuar correndo. Ela esbarrava em todas as pessoas pela calçada, tentando ao máximo despistar os homens que a perseguiam. Seus pulmões estavam a todo vapor, e sentia que suas pernas iriam parar de correr a qualquer momento. Enquanto corria, ouviu um barulho alto, seguido pelo grito da multidão e depois por uma intensa dor em sua barriga, fazendo-a cair bruscamente contra o chão, na frente da loja de eletrônicos. Deu uma olhada rápida e viu o buraco de saída da bala que tinha acabado de atravessa-la, jorrando sangue sem parar. Ela gritou de dor, e começou a chorar, não por sua morte, mas porque deixaria seus pais para trás, e toda a sua vida até agora teria sido apenas um incomodo na vida deles. Ela não queria morrer, definitivamente queria continuar viva.

Então, todos os computadores da vitrine começaram a piscar freneticamente, iluminando a sua face pálida. Códigos estranhos e sem sentido passaram rapidamente, como um flash por todas as telas, que juntas, formavam a frase: “você não quer morrer?”

– Sim…. – Emma disse, se arrastando até a parede de vidro.

Os agentes estavam se aproximando cada vez mais, porém uma outra frase surgiu: “você recomeçaria a sua vida do zero para ter uma nova chance?”

– Sim. – Ela disse, se apoiando no vidro.

A última frase brilhou com uma intensidade tão forte que quase podia cegar Emma, mas ela conseguiu lê-la perfeitamente: “você quer viver novamente?”

–  Sim! – A garota gritou com todas as suas forças que ainda estavam com ela.

Nesse momento, as telas aumentaram seu brilho ainda mais, e subitamente o corpo de Emma começou a se transformar em linhas de códigos, que foram todos absorvidos pelo computador principal exposto na vitrine. Ela havia sumido, escapado do alcance dos agentes, para um lugar desconhecido.

Emma acordou, mergulhada em um mar de escuridão, flutuando livremente pelo lugar. Não sentia mais dor alguma, na verdade não conseguia sentir nada. Ao menos, sabia que estava tudo bem com ela, mas certamente não fazia a menor ideia de onde estava.

Repentinamente, a escuridão tomou uma cor azulada, e uma voz robótica surgiu ao fundo.

– Bem vinda-a-a ao Re-Re-Re:Birth! – A voz disse, falhando um pouco.

– Olá?! Onde eu estou? – Emma gritou, na esperança de ser ouvida.

– Seu mu-mu-mundo seleciona-na-na-nado foi: Yharag, o mundo ma-mágico! – A Locutora misteriosa continuou.

– Eu não escolhi mundo algum! Que merda tá rolando aqui?! – A garota exclamou.

– Teletransporte imediato. Prepare-se! – A voz ecoou uma última vez, antes de sumir completamente.

No mesmo instante, Emma perdeu a consciência novamente.

Quando acordou novamente, sentiu que estava deitada em alguma coisa suave, além do vento batendo em seu rosto. Se sentou onde estava, e viu que estava em uma grande planície gramada, com algumas árvores ao seu redor. Percebeu que estava com as mesmas vestes de antes de ir parar ali. o Sol brilhava fortemente, dificultando uma vista plena da região. De súbito, uma mensagem apareceu na frente de Emma, como se fosse um holograma.

===[Mensagem do Sistema]===

Bem vinda, Senhorita Emma Adams! Você está em Yharag, um mundo baseado no sistema de jogos RPG, cheio de monstros, magia e muito mais!

A seguir, será mostrado o seu inventário, junto com os seus status de personagem!

De: Administrador I.A

===[Inventário]===

Cabeça: (Espaço vazio)
Torso: (Espaço vazio)
Pernas: (Espaço vazio)
Pés: (Espaço vazio)
Mãos: (Espaço vazio)
Arma/Escudo: (Espaço vazio)
Acessórios: (Espaço vazio)

Clique aqui para continuar: {>}

Sem muita escolha, Emma pressionou o botão na tela, que prosseguiu para a página seguinte.

===[Status do Personagem]===

Nome: Emma Adams
Raça: Humana
Classe: Não escolhida

Nível: 1
XP: 0
HP: 200/Regen de HP por sec: 10 de HP por sec
ATK: 15
SPD: 25
DEF: 10
INT: 50
MG: 0

Efeitos especiais: A Renascida
Tempo: Indeterminado
Efeito Único

Efeitos: 25% de XP a mais de todas as fontes
Defeitos: Diferente dos outros jogadores, você não irá ressuscitar. Morte no jogo = Morte para sempre.

Fechar abas? {*}

Depois de ver tudo o que lhe foi exibido, Emma tinha uma noção do que estava acontecendo. Aparentemente, ela tinha morrido, ou pelo menos sido transportada ainda viva para o Re:Birth, de alguma forma que ela desconhecia. Tudo que ela sabia era que ela precisava achar um jeito de conhecer o mundo à sua volta, para evitar a sua morte, já que, se morresse, dessa vez seria para sempre. Ela olhou para o horizonte à sua frente, e viu uma cidade no estilo medieval, seu próximo objetivo. Começou a caminhar em direção à cidade, contemplando o belo mundo à sua volta.

A partir daquele momento, ela construíria a sua história novamente, vivendo cada momento como se fosse único, lutando para permanecer viva e sair daquele estranho novo mundo. Recomeçando a vida do zero.

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