Guerra Declarada

Já no dia seguinte, Emma acordou no sofá da casa de Alex, não se lembrando direito do que havia acontecido após a promessa que fez com a garota. Ela ainda estava cansada pelas coisas que aconteceram no dia anterior. Lembranças aterrorizantes da morte da mãe de Alex passaram pela sua mente, mas ela logo as forçou a sumir.

Bocejou e levantou, sentando-se no sofá. A sala permaneceu igual à primeira vez que esteve lá, com exceção de algumas manchas de sangue no carpete que resistiram à pesada limpeza que Alex devia ter feito no local.

De repente, uma forte dor latejante atingiu sua cabeça, o que a fez ter o reflexo de colocar a mão na testa futilmente, já que a dor continuou a pulsar. Um pouco tonta, ela levantou-se com dificuldade e começou a caminhar em busca de algo que nem mesmo ela sabia o que era. Cacete, o que tá acontecendo comigo? Eu preciso encontrar uma maneira de parar essa dor.

Chegando ao corredor, um pulso de dor ainda mais forte a fez se encostar na parede. Era como se algo quisesse desesperadamente escapar de sua mente, forçando a saída pelo seu crânio. E então, da mesma forma rápida que chegou, a dor desapareceu, e Emma se sentia sua cabeça mais leve do que antes. Entretanto, algo parecia errado, ela sentiu como se não estivesse mais sozinha na sala.

Olhou ao seu redor, mas nada encontrou, dando um suspiro de alívio.

— Você acha que se livrou de mim? — uma voz feminina ecoou pela sala, nada parecida com algo que Emma já havia ouvido antes.

Assustada, ela olhou para a origem do som e encontrou uma raposa, completamente branca e com os olhos azuis encima do sofá, encarando a garota fixamente com um olhar curioso.

No início, Emma achou que fossem alucinações, mas logo notou que não importava quantas vezes ela piscava ou quantas vezes ela dava pequenos socos em sua cabeça, a criatura não sumia de sua visão.

— É sério? Você tá tentando fazer eu sumir? — questionou a criatura, pulando do sofá e indo em direção da garota. Seu corpo inteiro emitia uma aura azulada.

— E o que eu deveria fazer? Eu tô vendo a droga de uma raposa falante! — Emma respondeu, desistindo da fútil batalha com sua mente e encarando o animal.

— Você nem ao menos me ouviu, deixe-me explicar o que está acontecendo.

— Claro que eu não ouvi, você é uma raposa.

— Cala a boca, droga. Eu não saí da sua cabeça pra te ouvir falando baboseira.

— Espera aí… foi você que causou aquela dor de cabeça dos infernos?

— A própria! Eu tinha que arrumar uma forma de… o que você pretende fazer se aproximando de mim?

Sem nem responder, Emma tentou chutar a raposa, mas seu pé atravessou direto pelo corpo da criatura, como se ela nem mesmo existisse. Mas ela continuou parada na frente da garota. E, não bastava apenas ter errado o chute, outro pulso de dor atingiu a cabeça de Emma, que recuou devido à dor.

— Pera, é sério? Você realmente tentou me chutar?

— O que você é?! Um fantasma?! Sai da droga da minha cabeça!

— Olha, bem que eu queria, mas enquanto você tiver aquele chip atrás da sua orelha, nossas mentes estarão para sempre conectadas.

— O-O Chip?! — Com isso, Emma se lembrou da fala de Amber há alguns dias atrás, começando a entender as coisas que estavam acontecendo. A Inteligência Artificial inativa que a Amber falou… seria essa coisa?

— Isso, você tá começando a raciocinar, agora, se não quiser me chutar de novo e ter uma dor de cabeça, é melhor me escutar. — Vendo-se sem escolhas, a garota optou por fazer o que o animal falava. — Eu sou a inteligência artificial que jazia dormente no chip que você colocou antes de vir para cá. Quando ocorreu o processo de transferência do mundo real para o digital, nossas mentes se fundiram, mas eu fui arrastada para o fundo da sua mente, de onde eu tive de lutar para sair.

— Isso não faz sentido… esse lance de fusão de mentes e tudo mais.

— Bem, acho que quem me idealizou não teve a gentileza de mandar um manual de instruções pra saber como eu funciono.

— Você não acha estranho? Ter sua mente na posse de outra pessoa, ao mesmo tempo em que você tem a mente desta pessoa em suas mãos?

— Neste ponto, você errou. Não há mais a sua e a minha mente, ambas se tornaram um. No momento, nossos pensamentos, objetivos, e memórias estão todas compartilhadas entre nós. Entretanto, não somos a mesma pessoa, só pra deixar claro.

— Bem, se você é outra pessoa, você precisa de um nome, vai ficar mais fácil eu te chamar, se eu precisar de algo — tal comentário chamou a atenção da raposa, que começou a balançar sua cauda. — Acho que vou te chamar de Âme.

— Âme? É um nome interessante, pra dizer o mínimo — respondeu, fazendo uma expressão que se assemelhava a um sorriso — Bem, agora eu tenho que ir, custa bastante de mim me manifestar em forma física. Eu vou estar procurando O Núcleo, então provavelmente não vou poder conversar com você de dentro, mas, qualquer coisa, me chame, eu vou ver o que posso fazer. — Âme ficou em uma posição estranha e então começou a correr na direção de Emma, pulando na garota e desaparecendo enquanto entrava em seu corpo.

Assim que desapareceu, Emma continuou a duvidar se tudo aquilo era real ou não, sendo tirada de seus pensamentos pelo som de passos se aproximando.

De uma porta que ficava no meio do corredor, Alex apareceu, trajada com uma calça marrom grossa que ia até um pouco em cima de suas botas de couro. Além disso, a regata do dia anterior foi substituída por uma blusa de manga longa. Ela portava um olhar cansado e o fato de seu cabelo estar todo solto e bagunçado indicava que ela tinha acabado de acordar.

— E-Emma? Com quem você tava conversando? — questionou, bocejando logo em seguida.

— Ah… acho que você estava sonhando. Eu acabei de acordar também. — afirmou, não querendo explicar o que havia acabado de acontecer.

— Sério? Bem, deve ter sido mesmo… eu não dormi muito bem essa noite — Alex tirou do bolso de sua calça um prendedor de cabelo e rapidamente juntou seu longo cabelo em um rabo de cavalo. — Eu vou fazer o café da manhã, nós podemos conversar sobre o que fazer a seguir enquanto comemos. Você pode ir adquirir a sua ocupação no altar enquanto eu cuido das coisas aqui, só não demore! Caso contrário, eu mesma vou atrás. — disse, lançando um sorriso para a garota e indo em direção da cozinha, que não ficava muito longe de onde ela estava.

— Pode deixar. — Emma falou, retribuindo o sorriso e indo para o lado oposto, em direção à saída.

Já do lado de fora, Emma ficou feliz ao perceber que a chuva do dia anterior havia passado, dando lugar ao resplendor dourado do Sol, banhando todo o mundo com sua luz. Tudo parecia perfeitamente normal, assim como quando ela chegou na vila: pessoas andando de um lado para o outro, crianças brincando na rua, algumas carroças entrando e saindo do povoado. Porém, havia algo incomodando a jovem, algo que ela não conseguia ver nem ouvir naquela paisagem cotidiana, mas que estava lá. Sentiu-se como se estivesse sendo observada constantemente por uma ameaça invisível, quase o mesmo sentimento de alerta que sentiu ao ser perseguida nas ruas de Nova York.

Com passos rápidos, ela caminhou até o altar, olhando para todos os lados enquanto andava, mas não percebeu nada apesar do sentimento que a assombrava.

Chegando ao círculo rodeado por pilares, ela entrou na estrutura e foi até seu centro, onde o cristal flutuante permanecia girando no ar. Ao se aproximar dele, a mensagem que antes estava ali havia sido trocada por outra.

“Parabéns! Você concluiu as duas missões necessárias para a determinação de sua ocupação. Por favor, aproxime-se do cristal e toque nele. A análise será feita com base nas decisões que foram tomadas e de que forma você resolveu a situação.”

Dessa forma, como foi pedido, Emma encostou sua mão na pedra, que parou de girar em torno de si mesma e começou a brilhar e a zumbir de maneira anormal. Alguns segundos depois, o brilho e o zunido se foram, indicando o fim do processo de leitura. Uma outra mensagem apareceu no suporte abaixo da pedra, um pouco mais longa que as outras.

“Baseado no decorrer das duas missões que você cumpriu, acreditamos que a ocupação que melhor combina com você é: Mercenária.

Na busca por recompensas e experiência, você é a primeira a aparecer para oferecer seus serviços em troca de algo. Seja lutando ou debatendo, você sempre está pronta para resolver os problemas que surgem no seu caminho.”

Eu já me denominava como mercenária antes, então eu acho que isso era mais do que esperado, no fim. Emma pensou, satisfeita com o resultado. Com sua ocupação definida, ela estava pronta para voltar para a casa de Alex e tomar um café. Entretanto, assim que se virou, seus olhos encontraram uma visão muito familiar: vestida com roupas pretas e ocultando o rosto com um chapéu tão negro quanto suas vestes, o indivíduo lentamente ergueu a frente do chapéu, revelando um olhar malicioso esculpido nas íris oceânicas da mulher. Seu rosto esbanjava um sorriso desdenhoso.

— Eae, Raposa. Já ouviu falar em Deja Vu?. — disse a Garça, levantando sua cabeça de vez e olhando diretamente para Emma.

Naquele instante, a garota congelou, sentindo-se encurralada pelo inimigo. Não havia distrações, não havia meios de fugir, não havia saída. A única coisa que Emma pôde fazer foi forçar um sorriso alegre, esperando por algum milagre acontecer, não que ela acreditasse em milagres.

— Eae, Garça.

— Sabe, nosso último encontro foi um pouco complicado, nós começamos com o pé esquerdo. Agora que somos colegas, eu acho que deveríamos esquecer tudo o que aconteceu e continuarmos a nossa vida normalmente, que tal? — A loira ofereceu, se aproximando da garota.

— Você não parece ser alguém que faz acordos de paz.

— Agora que estamos aqui, não precisamos carregar rixas do outro mundo para este, e também, a ordem que me foi dada foi enfatizada na parte em que dizia para retornar com você viva, não é como se eu tivesse muita escolha, entende? Mas sério, como diabos você veio parar nesse fim de mundo? Eu tive que andar pra caramba pra te encontrar.

— Vai saber, não acho que isso importe de verdade. Como você disse, o importante é me levar de volta para onde quer que vocês estejam.

— Isso aí! Você tá começando a pegar o espírito da coisa! — ela estendeu a mão para Emma, que viu aquele movimento com desconfiança. — Vamos logo, o pessoal tá esperando por nós numa cidade à alguns dias de distância, temos que nos apressar antes que briguem com a gente por chegar tarde. — afirmou, lançando um sorriso convidativo.

Emma não podia negar, a Garça parecia ser uma pessoa boa. Alguém que, se não fosse aquela situação, ela gostaria de fazer amizade. Diante daquilo, ela não tinha outra opção a não ser arriscar tudo numa jogada ousada, que tinha altas chances de acabar num desastre, mas ela tinha que tentar.

— Na verdade, eu não quero voltar — Essa fala tornou o sorriso simpático da Garça em uma expressão de extrema dúvida — Eu planejei isso sozinha, antes mesmo de me entregar para vocês. Eu decidi que eu vou derrubar a Menorá Áurea. Quer se juntar à mim nessa cruzada impossível? — ofereceu, lançando um clima de tensão no ar.

A expressão duvidosa no rosto da mulher se transformou em uma sorriso melancólico, deixando seu braço cair e voltar para perto de si.

— Sinceramente, por que as coisas sempre acabam assim? — ela se perguntou, dirigindo seu olhar para o céu — Todas as pessoas que eu tento me aproximar decidem se afastar… deve ser alguma maldição. — Desceu seu olhar novamente, olhando para a garota. — Há muito tempo, existia uma garota cuja família a deixou para morrer nas ruas imundas de uma cidade Neon. Essa garota sobreviveu comendo lixo, roubando, fazendo o impensável para sobreviver, movida por um instinto selvagem inabalável. Um dia, uma pessoa encontrou essa garota, um homem idoso simpático e alegre. A garota não compreendia o porquê do homem sorrir constantemente, nem ao menos porque ele quis salvar sua vida. Ele adotou essa garota, a envolveu em um grupo para gente que nem ela: pessoas sem casa, sem lugar no mundo, sem vida. Foi nesse grupo que a garota entendeu o que era a felicidade, e todos os sentimentos que ela precisava para ser feliz. Um dia, essa garota foi adotada por uma outra família recebendo um nome pela primeira vez, e então ela seguiu sua vida normalmente, nunca esquecendo de seus salvadores. Quando essa garota tinha 23 anos, já na universidade, ela chegou em casa e recebeu a terrível notícia de que seus pais adotivos se envolveram num acidente de carro. Ambos morreram na hora. Nesse momento, ela sentiu o fantasma do abandono voltando para atormentá-la, e consigo ele trouxe sentimentos gananciosos e invejosos, afundando a garota no submundo da cidade uma segunda vez. E então, nesse submundo, aquele mesmo homem apareceu novamente, chamando-a pelo seu nome e dizendo que, se ela o ajudasse numa missão dada por Deus, ele daria a ela tudo o que quisesse.

— E essa garota era você. — Emma respondeu, mas não tendo confirmação por parte da Garça.

— Na Menorá Áurea, muitos me conhecem por ser uma mercenária qualquer, que faz qualquer coisa pelo dinheiro. Mas sabe qual a verdade? O dinheiro é só um brinde diante minhas verdadeiras intenções. Eu sempre quis fugir daquela realidade opressora, que pode facilmente destruir a mente de uma pessoa quando a mesma perde tudo o que cuidadosamente construiu e pôde chamar de seu. No dia em que meus pais morreram, Esther Eisen, a garota que habitava esse corpo, se foi junto com eles, dando lugar ao espírito despedaçado que sempre foi o verdadeiro dono deste ser. Uma alma gananciosa, medrosa e instintiva, mas que preserva bem as memórias. E eu sei muito bem quem é o homem que me tirou das ruas, e quem foram as pessoas que me ensinaram a ser quem eu sou hoje. E é por isso que, mesmo com a ordem que me foi dada, eu não posso deixar você sair dessa cidade com vida. — concluiu, deixando uma espada curta deslizar pelo interior da manga de seu sobretudo, pegando-a pelo cabo e correndo na direção de Emma à uma velocidade surpreendente, não dando chance para ela reagir.

Entretanto, no momento em que o golpe acertaria o corpo da garota, ela foi empurrada para trás por Alex, que carregava um escudo em seu braço esquerdo, defendendo o golpe da Garça. O choque entre os equipamentos resultou em faíscas, que voaram por todo lado. Ao perceber que seu ataque foi repelido, a mulher recuou, ficando em posição de combate.

— Alex! — Emma gritou, ficando feliz ao ver sua parceira aparecendo para ajudá-la.

— Eu disse que iria atrás de você caso demorasse! — respondeu, dando um sorriso determinado para ela. Além do escudo no braço esquerdo, ela possuía uma espécie de placa de metal afiada no braço direito, que provavelmente serviria tanto para o ataque quanto para defesa. Também estava equipada com um par de ombreiras feitas de algum metal que Emma desconhecia — E então, quem é sua amiga?

— Eu não chamaria isso de amizade, mas é uma pessoa que não tem a melhor das intenções.

— Uma parceira? Eu estou realmente surpresa por você ter uma, mas isso não vai mudar o resultado desta batalha. Eu espero que você esteja pronta para o que está por vir, Raposa!

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