Investida Audaz

– Peçam desculpa, os dois! – Adrielyel disse, puxando Elron e Emma para que ficassem mais próximos.

– Foi mal… – Elron disse, ainda relutante com aquela ideia.

– É, desculpa… – Emma falou, virando o rosto para não ter que olhar nos olhos de Elron.

– Agora deem um aperto de mão, para podermos ir embora desse lugar! – A elfa continuou, com um grande sorriso no rosto.

Os dois apertaram as mãos brevemente, logo depois afastando-se novamente.

– Que fique bem claro que só isso não vai me fazer virar seu amigo. – O Elfo disse, indo para o lado de sua irmã. A diferença de tamanho entre os dois era clara.

– Digo o mesmo pra você. – A garota respondeu, não saindo do lugar em que estava.

– Se dermos sorte, conseguimos chegar no forte ainda hoje. Mas não vejo como poderíamos chegar lá tão rápido. – Athert afirmou, olhando para o horizonte distante.

– Deve ter alguma maneira… – Adrielyel pensou por alguns instantes, até que seu olhar se iluminou e ela começou a correr para dentro da mata.

– Irmã, onde tá indo?! – Elron gritou, indo logo atrás.

Athert olhou para Emma, que fez o mesmo, olhando para o rapaz.

– Você não quer ir, não é? – Athert perguntou, já prevendo a resposta.

– Não, mas que escolha eu tenho? – A garota respondeu, indo em direção à eles.

Athert, vendo-se sem opção, tentou acompanhar Emma, chegando no lugar onde os dois irmãos elfos estavam alguns momentos depois.

– Então, o que tá rolando? – O demônio indagou, sendo puxado para baixo quase que no mesmo instante por Elron. – Aí maluco, que merda é… – Ele ia continuar, mas foi interrompido por Elron, tapando a sua boca.

– Fala baixo caralho. – O Elfo sussurrou, tirando a mão do rosto do outro.

O rapaz viu que Emma e Elron estavam abaixados, mas ele não encontrava Adrielyel em lugar nenhum.

– Elron, cadê tua irmã? – Ele questionou.

O elfo apontou para cima trás dele, além dos arbustos que escondiam o grupo. Athert se levantou, vendo a elfa desarmada, se aproximando de um lobo maior do que o comum, uma espécie que Athert conhecia muito bem, pois já havia sido caçado na floresta por alguns deles.

– Puta merda, o que ela tá fazendo chegando perto deu um lobo gigante?! Vocês tem que tirar ela dali! – Ele exclamou o mais baixo que pôde.

– Relaxa, minha irmã adquiriu a habilidade de domar animais selvagens recentemente, ela vai conseguir. – Elron explicou, com confiança em sua fala.

– Mas essa habilidade não começa com a capacidade de domar animais menores? Aquela coisa é uma fera de nível médio, ela não vai conseguir domar aquilo nem fodendo!

– Cala a boca! Se você só vai reclamar, fica quieto e assista!

Athert ficou quieto, erguendo a cabeça um pouquinho para conseguir ver o que estava acontecendo. Adrielyel circulava o grande animal, que mostrava os dentes e rosnava. No entanto, a garota não ficava com medo, muito pelo contrário, seu olhar apenas expressava determinação e confiança, criando um impasse entre ela e o lobo. De repente, surgiram outros 2 lobos, que apenas encaravam a cena. Athert podia perceber que o lobo que Adrielyel enfrentava com o olhar era maior que os outros, indicando que ele provavelmente seria o alfa.

E então, o lobo partiu pra cima da elfa, que desviou e, com sua pouca força, aproveitou que o animal estava no ar e o empurrou no chão, pegando uma flecha da aljava presa em suas costas e pressionando a ponta no pescoço dele. Com a oportunidade tendo aparecido, Adrielyel fez um gesto com uma das mãos, fazendo seus olhos brilharem.

– Deuses da natureza, permitam-me fazer desta fera como minha serva até o dia em que um de nós nos tornemos espíritos vagantes! Domar! – Ela gritou, criando um círculo verde brilhante em baixo do animal, fazendo com que os olhos dele brilhassem também.

Assim, tão rápido quanto começou, o ritual para domar o lobo estava completo. A fera se levantou, esfregando-se em Adrielyel, que suspirou de alívio enquanto acariciava a cabeça do grande animal. Todos os outros do grupo se levantaram, também aliviados pelo sucesso da garota.

– Tá bom mas… só temos um lobo ainda, como pretende levar nós todos? – Athert perguntou, com um pouco de medo ao imaginar ele mesmo tentando domar uma daquelas coisas.

– Você acha que eu não sabia o que estava fazendo? Dominando o alfa, o controle do resto da alcateia é meu também. – A garota respondeu, chamando os outros dois lobos que estavam ali com um gesto. – Escolham aí.

Enquanto Elron se aproximou do lobo marrom, Emma aproximou-se do lobo branco, que a encarou com curiosidade. Ela passou a mão em sua cabeça, sentindo o prazer que era o tapete de pelos macios na cabeça do animal.

– Acho que ele gostou de você. – Athert disse, se aproximando.

– Quer andar no lobo? – Emma indagou, olhando para ele.

– Nem fodendo. Se eu tentar andar nisso aí provavelmente ele come meu braço. – Athert respondeu.

– Tá bom, medroso. – A garota falou, subindo no lobo. – Vem, sobe logo, antes que eu tenha que descer e te dar uma porrada.

Athert subiu, um pouco hesitante e iria colocar os braços ao redor da barriga de Emma, mas foi interrompido pela mesma.

– Não vai encostar em mim não, se vira aí.

Sem muitas escolhas, o rapaz agarrou-se nos pelos do animal, rezando para que não caísse.

Assim, todos eles seguiram seu caminho para o Forte Lacot pelas planícies verdejantes. Quando finalmente avistaram a grande construção no pé de uma alta montanha, começaram à reduzir a velocidade na qual caminhavam até parem próximos aos muros do castelo. Todos desceram dos lobos, preparando-se para a missão.

– Certo, qual é o plano? – Elron questionou.

– Temos que tentar ser os mais furtivos possível, então eu e Adrielyel iremos cuidar de qualquer pessoa que possa nos ser um incomodo silenciosamente.

– Você quer dizer… matar alguém? – A garota questionou, tremendo um pouco.

– O que? Vai dizer que tá com medo de matar uma pessoa? Nós já somos criminosos, não importa se tirarmos vidas agora, já estamos na merda.

– Eu sei, mas… – Ela iria continuar, mas foi interrompida.

– Olha aqui, você domou a porra de um lobo selvagem com a maior coragem, então não tem essa de não querer matar pessoas. E também, eles são NPC’s, não são pessoas de verdade. Então se você tiver que matar alguém, você vai. Entendeu?

Ela apenas concordou, balançando a cabeça. Logo depois, Elron retirou uma corda do bolso e a amarrou numa das flechas de sua irmã, que em seguida foi atirada na muralha para que eles pudessem subir.

Já dentro das muralhas, eles tomaram cuidado e se precaveram para que ninguém os visse chegando, se escondendo atrás de uma pilha de barris.

– Certo, se eu fosse um guarda, onde eu esconderia um carregamento de comida? – Emma murmurou para si mesma, observando tudo o que tinha pela construção principal, até encontrar uma construção adjacente, com um guarda vigiando a entrada.

Ela chamou todos com um gesto e apontou para o suposto local onde as comidas estariam. Todos confirmaram com a cabeça e seguiram seu caminho furtivamente pelo forte. Apesar de estarem em 4, e o forte ser bem vigiado, eles não foram percebidos  enquanto caminhavam até a porta dos fundos que levava para dentro do forte. Eles entraram, abrindo a porta e chegando ao cômodo.

– Ok, já chegamos até aqui, e agora? – Athert sussurrou, checando em todos os cantos para ter certeza de que nada os estaria esperando ali.

– Agora nós seremos ainda mais silenciosos. Estamos dentro do forte, então não dá pra fugir caso dê merda. – Ela falou, indo direção à porta seguinte – Então sigam-me, e façam silêncio. 

No entanto, quando ia abrir a porta, a mesma caiu no chão, soltando-se do que a prendia à porta, despencando no chão no chão e emitindo um barulho alto. Logo, as vozes dos soldados e seus passo3s apressados tornaram-se audíveis, e eles perceberam o tamanho do problema em que se meteram.

– Corre! – Emma disse baixo, ainda tentando ser silenciosa.

Todo o grupo se movimentou rapidamente até o próximo cômodo, e o próximo e assim por diante, até chegar em um local onde aparentemente não havia saída.

– Conseguimos escapar? – Emma perguntou, respirando um pouco mais rápido que o normal.

– Acho que sim… Mas foi sorte termos conseguido isso. – Elron disse, também ofegante.

– Eh, pessoal? Onde que a gente tá? – Athert indagou, olhando ao seu redor.

Todos os outros também pararam para observar, vendo que estavam num lugar cheio de caixas. Para verificar, eles abriram uma, e de lá caiu diversos legumes e frutas, que poderiam servir de alimento para os homens de Gyleon por muito tempo, ou apenas o suficiente para a batalha contra os Vipers.

– Quanto disso tudo a gente tem que levar? – Emma questionou, já imaginando o quão difícil seria levar muitas daquelas caixas.

– Não faço a menor ideia. Só sei que não podemos levar tanto, atrapalharia na hora de fugir. – Elron afirmou, tentando levantar uma das caixas apenas para fazer um teste, confirmando sua teoria do quão pesadas elas eram.

– No máximo duas… – Athert respondeu, desanimado.

– Só duas?! Não podemos levar só isso! – A garota afirmou, começando a elevar o tom de sua voz.

– Mas é impossível levar mais do que isso! – O demônio disse em resposta, acompanhando o volume de voz de sua companheira.

– Ou é isso ou nós estamos na merda! – Ela gritou, começando a preocupar os irmãos elfos.

– A gente já tá na merda! É cega por acaso?! – Athert gritou junto, ainda mais alto do que ela.

– Parem já, os dois! – Elron disse o mais baixo que podia, tentando evitar o pior. – A gente vai estar na merda se eles nos descobrirem aqui, então calem a boca!

No entanto, antes que os ânimos pudessem se acalmar, a porta por onde eles entraram foi derrubada, e um monte de soldados saiu de lá. O grupo, inevitavelmente, começou a lutar.

Enquanto Elron ajudava Athert que estava na pior, Adrielyel se viu indefesa, apenas fugindo dos soldados, até que foi encurralada por um deles.

– A sua hora chegou, mocinha! – Ele gritou, erguendo sua espada.

A Elfa se abaixou, esperando o pior, mas passou-se alguns segundos, e ela ainda estava viva. Abriu os olhos, e viu Emma, com a espada do homem fincada em seu braço, quase atravessando o osso. Sangue escorria e caía no chão, assustando ainda mais a garota.

Com a mão que lhe restava, Emma decepou a cabeça do soldado, que caiu morto no mesmo instante.

– É por isso… Que você deve matar as pessoas, caralho! – Emma gritou, segurando o braço e grunhindo de dor.

Mesmo ferida, ela ainda podia pensar, e lançou sua adaga na parede, logo em seguida estalou os dedos, abrindo uma passagem para eles fugirem. Não precisou dizer, todos a acompanharam até a saída recém-criada. Logo em seguida, estalou os dedos novamente, voltando sua arma para a mão ainda boa. Athert visualizou uma carroça com uma carga coberta por um pano, mas ainda com espaço para eles, gritando para que todos corressem até lá. Com certa dificuldade, os 4 entraram, e a carroça começou a se mover. Atrás, uma horda de soldados furiosos, na frente, um gigantesco portão de madeira reforçada com aço, protegida por algum tipo de estátua de pedra grande que se movimentava, com uma joia azul brilhando em seu peito.

– Merda, é um guardião! – Athert gritou. – Rápido, coloquem suas armas juntas! – Ele gritou para eles. – Se conseguirem acertar o núcleo, teremos uma chance de sair!

– E o que devemos dizer para invocar seja lá qual poder for?! – Elron questionou, não faltando muito tempo para que tudo fosse por água a baixo.

– Apenas coloquem suas armas juntas cacete! – O rapaz gritou, já estressado.

Sem muitas opções, os três uniram suas armas que, para a surpresa deles, começaram a brilhar juntas.

– Deuses ancestrais, pelo poder que me conceberam, eu ordeno a junção de magia elemental para destruir meus inimigos! Flecha Tempestuosa! – Athert gritou.

Quando completou o encantamento, Adrielyel já tinha ideia do que fazer. Sua flecha estava incendiada ao mesmo tempo que soltava faíscas periodicamente. E então, atirou a flecha, que voou como um raio pelo ar, acertando em cheio o núcleo do guardião, que explodiu e levou a porta consigo, dando a chance de passar que eles precisavam. Com isso, finalmente conseguiram escapar, deixando um bando de soldados furiosos para trás. Logo depois, os lobos de Adrielyel apareceram, seguindo a carroça.

– Nós… Nós conseguimos! – Adrielyel gritou.

– Mas não temos comida! – Emma gritou, tentando parar o sangramento em seu braço.

– Acho que não! Tirem o pano dessas coisas aí atrás! – Athert gritou, com certa felicidade em sua voz.

Eles retiraram o pano cuidadosamente, revelando 5 caixas iguais às de comida que eles tinham deixado pra trás no forte.

– Nem ferrando! – Elron gritou feliz.

– Pois é, eu sou foda, pode admitir. – Athert disse, se vangloriando.

– Você não fez merda nenhuma, elas estavam aqui por acaso… Ah merda! – Emma falou, gritando de dor logo em seguida.

Athert pediu para Elron cuidar das rédeas do cavalo, e enquanto trocava de posição, foi até Emma e usou uma magia de cura para parar o sangramento, e logo depois usou uma poção de cura, derramando-a sobre o braço da garota para fechar o ferimento, fazendo-a gemer de dor rapidamente.

– Não é o melhor tratamento, mas serve. – Athert falou, sorrindo.

– Ah, valeu… – Emma disse como resposta.

E assim, a primeira de muitas missões do grupo havia sido completada com sucesso. Era apenas o início da grande jornada de todos eles.


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