Apenas Um

Re:Birth – Capítulo 11

A Garça olhou para as duas garotas com desgosto, sentindo-se furiosa por ter seu golpe defendido pelo escudo de Alex, arruinando seus planos de um assassinato rápido e ardiloso. Entretanto, a presença de duas combatentes não a abalou, pois sua determinação para matar Emma era maior do que qualquer sentimento que ela poderia sentir naquele momento.

As pessoas ao redor olharam a cena e se afastaram, observando de longe o combate que estava para começar. Durante alguns segundos que pareceram uma eternidade, elas apenas se encararam, esperando para ver quem daria o primeiro golpe. E o primeiro avanço veio da Garça, que driblou a tentativa de impedimento de Alex, passando direto pela garota e correndo na direção de Emma, que defendeu o poderoso golpe da mercenária com sua pequena faca.

A diferença de força entre as duas era sentida pela garota, que cada mais vez se sentia pressionada pela Garça. Observando uma brecha, Emma arriscou tirar a força de uma das mãos que empurrava sua adaga na direção contrária e desferiu um soco no rosto da loira, que recuou um pouco por conta do golpe enquanto segurava seu rosto.

Tentando aproveitar da oportunidade, Alex veio por trás da mulher e tentou acertar sua cabeça com o escudo, mas a vilã foi mais veloz, desviando do ataque e contra-atacando ao mesmo tempo, atingindo de raspão o braço da garota, que recebeu apenas um leve arranhão perto de seu cotovelo. Retrocedendo mais alguns passos, a Garça finalmente aceitou a verdade inegável de que, mesmo sendo mais forte que suas inimigas, a desvantagem numérica e de equipamentos fazia com que sua habilidade com a espada não houvesse tanto peso sobre a luta.

— Garça! Pare com isso já! Essa luta não vai levar a lugar algum! — Emma afirmou, ficando ao lado de Alex.

— Não! Eu não vou permitir que você escape daqui! Essa é a chance que eu tenho de provar meu valor para a organização, e eu não vou desperdiçá-la! — rebateu, entrando novamente em posição de combate.

— Olha, eu não sei o que aconteceu entre vocês duas, mas isso não pode ficar assim! — Alex disse, se metendo no meio da conversa — Se uma de vocês morrer, já era! Não tem mais volta!

— Não me diga algo que eu já sei, idiota! — gritou a Garça, avançando em Alex e preparando-se para um golpe na diagonal. Alex tentou defender o golpe, e Emma estava pronta para interceptar a mulher de preto, mas inesperadamente ela virou sua mira para Emma, desferindo um poderoso corte na diagonal no torso da garota de cabelos pretos que, se não fosse pelas duas camadas de roupa que estava vestindo, teria saído com muito mais do que um corte que ia de cima do quadril até um pouco abaixo dos seios.

A Garça tentou atacar mais uma vez, mas foi impedida por Alex, obrigando-a a recuar. Ela sorriu ao ver Emma tremer um pouco  por causa da dor, colocando a mão por cima da ferida que não sangrava tanto. Alex, olhando para a situação, se pôs na frente de sua amiga, com o escudo de frente para a assassina.

— Não se aproxime mais dela! Esse é o escudo mais forte que eu já produzi até hoje! — ela gritou, tentando ao máximo intimidar sua oponente.

— Alex, para com isso! Se você ficar aí com certeza vai se machucar! — Emma avisou, tentando ficar novamente ao lado dela. — Isso não é nada… eu ainda posso lutar. 

— Alex, não é? Eu acho que você deveria ouvir a garota um pouco! Se você ficar no meu caminho, eu vou ser obrigada a te matar também. Não que eu me importe, na verdade. Mesmo em maior número, basta ter uma boa estratégia pra acabar com vocês. — falou, olhando para elas com um sorriso desdenhoso.

— Não mesmo. Pode vir com tudo o que você tem! Eu não consegui proteger uma pessoa antes, mas agora eu não vou me render, nem se eu for morrer por isso.

— Você é persistente, mas isso não vai te levar à lugar algum. — Segurando o cabo de sua espada com força, ela ergueu sua mão e levantou um de seus dedos — Um golpe, é disso que eu preciso para quebrar o seu escudo — Ela respirou fundo e mentalizou um ponto específico que seria capaz de desestabilizar a defesa de Alex. Colocando uma de suas pernas para trás, ela se pôs em uma posição de avanço e olhou firmemente em seu alvo. — Lâmina Ascendente. — disse, fazendo a sua espada emitir um brilho alaranjado. Com isso, ela avançou na direção de Alex de forma célere, saltando no meio do caminho e erguendo a espada acima de sua cabeça.

Em reação, a garota levantou seu escudo, com fé de que o equipamento aguentaria o impacto. Com toda a força que tinha, a Garça golpeou o escudo, causando um alto barulho de metal se chocando e produzindo faíscas. Poucos instantes após o choque das armas, Emma pegou sua faca e correu na direção da Garça, que, ao ver isso, rapidamente desviou do golpe e se afastou, olhando para o escudo rachado se desfazer e cair aos pedaços no chão.

— O que?! — Alex indagou, incrédula perante a força da Garça. Instintivamente, ela deu alguns passos para trás, puxando Emma pelo braço enquanto andava. — Ok, você tem algum plano agora?

— Se eu tivesse, já teria dito alguma coisa. Acho que só nos resta correr. — respondeu, procurando no fundo de sua mente alguma coisa que as pudesse salvar. 

Foi quando ela percebeu que algo estava errado ao seu redor. Enquanto elas estavam totalmente focadas na batalha, nenhuma delas percebeu a aproximação de estranhas pessoas ao redor deles. Todas estavam usando um conjunto completo de armadura branca com ornamentos dourados, carregando consigo uma lança e um escudo cada. Em um dos indivíduos, o elmo se destacava por ter a forma da cabeça de um dragão, fazendo Emma pensar que aquele seria uma espécie de comandante dos demais. Antes que ela pudesse ver, elas já se encontravam cercadas pelos soldados de armadura branca.

— Atenção! Larguem as armas e ponham as mãos para cima! Vocês estão presas por infringir a lei imperial de não agressão em locais públicos! — disse o homem com elmo de dragão.

— Como é que é?! — todas as três falaram, quase que ao mesmo tempo. virando-se para encarar os soldados.

— Só vou repetir mais uma vez! Nós somos soldados da Ordem Imperial de Defesa Civil! Larguem suas armas e cessem as agressões Imediatamente! 

— E-Emma, o que a gente faz? 

— Nós não temos condição alguma de lutar com esses caras — afirmou, largando sua faca e erguendo suas mãos — Ser presa deve ser melhor que morrer, imagino.

Sem muito o que fazer, logo Alex também se entregou.

Diferente do que Emma imaginou, a Garça se rendeu prontamente, o que causou dúvidas para a jovem. Os soldados então amarraram todas as três e pegaram suas armas, colocando-as em fila para ir na direção de duas carroças paradas não muito longe do altar.

— Senhorita de preto, você vai me acompanhar até a carroça da frente. — disse o homem com elmo de dragão, virando-se para outro soldado atrás dele. — Yxia, leve as garotas para a carroça de trás, lá o Athert vai poder cuidar do ferimento da jovem de cabelo preto. Os outros, comigo!

— Sim senhor! 

Assim, Emma e Alex foram guiadas para dentro do vagão da carroça pela soldado, que entrou junto à elas na carroça. No fim da mesma, encontrava-se um garoto, vestindo um manto com as mesmas cores que as armaduras dos soldados e com a cabeça descoberta, carregando consigo um cajado prateado com uma gema azul na ponta.

— Aí novato, cuide desse corte na garota, vai ser bom pra treinar o seu potencial! — falou a soldada, tomando um dos assentos para si. O rapaz continuou calado.

Bem, ao menos eles vão fazer a gentileza de cuidar de mim, Emma pensou, indo para perto do jovem.

— Ah, olá. — disse o garoto, dando uma olhada no corte, que já havia parado de sangrar — Caramba, que problemão você arranjou aí, hein? Por pouco você não sai dessa cidade num saco preto.

— Cedo demais pra morrer, ainda tenho muita coisa pra fazer nesse mundo. — Emma respondeu, rindo da própria situação.

— Muitas pessoas pra bater, imagino — disse, rindo junto com ela, colocando a ponta do cajado sobre a ferida — Técnica de Cura: Cicatrização. — recitou, fazendo com que a ferida aberta começasse a brilhar e logo se fechar, surpreendendo Emma — Bem, isso deve resolver. Não vai tirar a dor, mas já ajuda bastante.

Logo depois de ser curada, o condutor da carroça recebeu o sinal do comandante na da frente, seguindo o movimento da principal para fora da vila. Emma ainda não sabia para onde estava indo, mas pensou que poderia tirar algumas informações do curandeiro. Vendo mais de perto, Emma pode ver como ele era. Seus olhos verdes combinavam com seu curto cabelo preto, e ele aparentava ter a mesma idade que ela.

— Athert, não é? Vem cá, pra onde a gente tá indo? — ela perguntou, olhando para ele.

— Prisão Sentinela Férrea, fica depois dos planaltos que estão perto da Floresta das ilusões e próximos dos rios. Acho que vocês deram sorte, não devem ficar mais que alguns dias lá dentro. Já a sua amiga na carroça da frente, por ter feito esse corte em você, provavelmente não vai ter a mesma sorte.

— Tem alguma forma de fazer os seus amigos soldados mudarem de ideia quanto à nós? Eu e minha parceira apenas agimos em legítima defesa, foi a mulher de preto que começou! — Alex falou, tentando ajudar Emma com a busca por informações.

— Bem difícil, as leis não foram desenvolvidas o bastante aqui, provavelmente quando terminarem o estágio Alpha as coisas comecem a se estabilizar de verdade.

— Athert, não fale com as prisioneiras! Vai acabar deixando uma informação importante escapar. — Yxia disse num tom autoritário, fazendo o rapaz engolir em seco.

— Bem madames, vocês ouviram a Yxia, é bom eu ficar quieto antes que eu também acabe preso.

— Mas…

— Foi mal, mas agora minha boca é um túmulo.

Com a chance de obter mais detalhes sobre aquele mundo zeradas, Emma apenas desistiu e decidiu esperar chegar na prisão para pensar no que fazer.

☉☉☉☉

Algumas horas depois, Emma acordou com a cabeça virada para baixo. Ela se sentia cansada e um pouco dolorida por ter passado muito tempo sentada. Onde… onde eu estou? Pensou, virando seu olhar para Alex, que também estava dormindo. 

— Bom dia flor do dia. Sentindo-se bem? — Athert perguntou ao perceber que a garota havia acordado.

— Pensei que não pudesse falar comigo.

— Só perguntei se estava bem, pra saber se meu trabalho foi bem feito.

Ignorando a pergunta do rapaz, Emma olhou ao seu redor e notou que as duas carroças estavam seguindo por um estreito caminho ao lado de uma encosta rochosa no lado direito e uma queda direto para o grande rio que Emma viu ao chegar em Yharag. no lado esquerdo. A visão bela e mortal do penhasco fez o coração de Emma acelerar, com medo apenas de olhar para ele. Nas margens do rio, uma densa floresta de aparência tropical se estendia pelo horizonte até onde não se podia mais ver.

— É falta de educação ignorar os outros, sabia? — Athert insistiu, tentando chamar a atenção da garota.

— Você vai responder às minhas perguntas se eu te der atenção? — falou, já com a paciência no limite.

— Eh… — Ele olhou para Yxia, que o encarava com uma expressão que claramente dizia “não”.

— Ótimo, então cala a sua boca.

Com a conversa finalizada, Emma retomou o seu reconhecimento do ambiente. Mesmo que aquilo não servisse muito naquele momento, conhecer o mundo à sua volta era essencial, ao menos, era isso o que ela pensava. Contudo, seus pensamentos foram interrompidos pela parada súbita da carroça, fazendo todos no vagão olharem para frente.

Um pouco distante deles, a carroça da frente havia parado por alguma razão, e alguns soldados começaram a descer da mesma para investigar o que estava acontecendo. Yxia prontamente pegou sua lança e escudo, pulando para fora da carroça de trás.

— Athert, vigie as duas, não deixe-as escapar! — falou, correndo na direção do agrupamento de soldados.

Focando um pouco a visão, Emma conseguiu ver que parte da encosta havia desmoronado no meio do caminho, impedindo a passagem. Voltar e procurar outro caminho custaria muito tempo, então os soldados começaram a retirar as pedras da estrada para ver se continuar era possível. Todavia, Emma notou que mais algo estava acontecendo. Algumas pedras ainda caíam do topo da encosta, mas não em grandes quantidades.

Olhando para cima, Emma viu vários vultos pretos correndo de um lado para o outro. E antes que ela pudesse pensar ou ver qualquer coisa a mais, uma grande esfera alaranjada foi atirada perto da carroça da frente, explodindo em chamas e virando a carroça de lado. Logo, o caos não demorou muito para se espalhar entre todos alí presentes. Os cavalos da carroça onde Emma estava se assustaram, começando a correr desesperadamente, fazendo com que o vagão desgovernasse e batesse na parede rochosa, arremessando Athert, Emma e Alex para o chão.

Uma nuvem de poeira se levantou, atrapalhando a visão de qualquer coisa a mais de dois metros de distância de Emma. Ela logo avistou Alex, que estava com dificuldades pra se levantar. A garota correu até sua amiga enquanto ouvia o som de gritos e metal se chocando fora do seu campo de visão.

— Alex! Você tá bem? — Emma perguntou, abaixando-se.

— Eu acho que fraturei minha perna… droga, eu não consigo me levantar.

— Vem cá, eu te ajudo. — Disse, ajudando ela a se levantar.

Assim que o fez, a poeira baixou e revelou que, mais a frente, várias pessoas encapuzadas estavam descendo do topo do paredão por cordas e lutando contra os soldados, que ainda estavam atordoados com o ataque repentino.

Enquanto a batalha acontecia, o olhar de Emma estava voltado para outra coisa: a Garça não havia aparecido desde que a carroça virou. O pensamento de que ela poderia estar em algum local em que ela não poderia ver a incomodava e muito. Nesse meio tempo, Athert se aproximou e ficou atrás delas, com medo de se envolver no combate.

— E-Então, o que acha da gente fazer uma parceria e fugir daqui? — ele falou, temendo por sua vida.

— Espere, tem algo que eu preciso chegar antes. Cuide da Alex pra mim! — falou, correndo na direção da carroça virada.

Entrando no meio da luta e desviando de todos, Emma chegou à carroça para ver que a Garça não estava lá, muito menos perto dali. A incerteza e o medo começaram a tomar conta da garota, até que ela pensou no mais improvável de ter acontecido, e decidiu chegar. Se aproximando da beira do penhasco, sua teoria foi confirmada. A Garça estava à beira de cair nas águas turbulentas do rio abaixo, segurando-se em uma beirada que estava quase cedendo por conta de seu peso. Quando o olhar das duas se encontraram, ambas ficaram sem saber o que fazer.

Por um impulso que Emma não entendia, ela se abaixou e estendeu sua mão para a Garça, que olhou incrédula para aquele ato.

— O que você pensa que está fazendo? Se você for tão inteligente quanto aparenta ser, com certeza me deixaria cair! 

— Eu posso ser inteligente, mas eu não sou fria o bastante pra deixar alguém morrer. Segura logo a minha mão sua idiota!

Mesmo odiando o fato de ter que ser salva por uma inimiga, a Garça deixou o orgulho de lado e ergueu uma das mãos para pegar a de Emma. Entretanto, ao fazer isso, o tênue equilíbrio que ela criou ao se apoiar em duas mãos foi quebrado, e o seu peso mal distribuído fez com que a beirada sedimentar se quebrasse. Com os olhos arregalados, Emma assistiu a Garça cair do penhasco de uma altura considerável e bater o rosto numa rocha do paredão, ficando inconsciente e caindo na água, sendo levada pela correnteza.

Chocada e triste com a incapacidade de fazer qualquer coisa naquele momento, Emma optou por parar de olhar o corpo de sua inimiga e voltar seu olhar para trás. Quando o fez, viu-se  encurralada por dezenas de espadas ensanguentadas apontadas para si. A pessoa no centro retirou o capuz da cabeça e se revelou.

— É… paz? — ela falou, esperando um resultado pacífico.

Assim, todos riram e abaixaram suas espadas. O homem no centro estendeu sua mão e com um sorriso no rosto, disse:

— Sim, paz!

☉☉☉☉

Nas margens do grande rio, muito distante de onde Emma se encontrava., a Garça se arrastava pela margem lamacenta, buscando terra firme. Mesmo exausta, ela usava desesperadamente de todas as suas forças para continuar andando pela lama. Quando toda a energia de seu ser se exauriu, ela virou-se para o céu, deitando no chão. Seu olho direito não mais funcionava, pois foi danificado ao bater a face na rocha. Ela se sentia pesada, com os pulmões à beira do colapso e mal sentia seu corpo. E para piorar, uma forte dor de cabeça a assolava, mas não havia nada que ela pudesse fazer quanto à isso.

Seu olhar se mantinha fixo para o céu, encarando a imensidão azul com olhos cansados e desesperançosos, em busca de algo para se apoiar.

O Lobo… o pessoal sempre disse que, nesses momentos, Deus chega para nos socorrer e alimentar o fogo em nossa alma. Mas eu me sinto fria… vazia. Eles realmente se importavam comigo?

E então, a dor de cabeça passou, e ela começou a se sentir mais leve.

— Liberte-se. — disse uma voz com um tom que ela jamais havia ouvido antes.

Sua atenção foi retomada, e ela começou a sentir que estava começando a retomar as forças.

— Quem… quem está falando? — ela se perguntou.

— A sua própria mente. Vamos, olhe para dentro de si. Feche os olhos e entre.

Seguindo às instruções da voz, ela fechou os olhos e se focou, tentando de alguma forma adentrar nas profundezas de sua mente. De repente, tudo ficou silencioso, e a escuridão tomou conta.

☉☉☉☉

Instantes depois, ela acordou, ofegante, levantando num pulo e ficando sentada. Ao seu redor, apenas o vazio e a escuridão. Mas, do nada, uma forte luz inundou todo o espaço, transformando-o num mar infinito onde ela podia se manter. Acima dela, o céu com nuvens.

— Então você enfim chegou. — dessa vez, a voz lembrava mais a sua própria voz, o que a assustou.

Olhando para a origem da voz, ela encontrou um reflexo de si mesma alguns anos mais jovem. Aquela era ela mesma antes de tudo acontecer. 

— O que? Como isso pôde…

— Acontecer? Bom, ocorreram muitas coisas até eu chegar aqui. Mas é bom te ver de novo, Outro Eu.

— Não! Você está morta! Você morreu naquele dia!

— Eu morri? Não… você simplesmente tomou o controle que era meu. Nossa vida sempre foi assim, não é? Uma luta interminável pelo controle. Uma alma fragmentada em duas, o espírito da paz, e o do caos.

Ela se levantou, andando até seu Outro eu e ficando de frente para ele.

— Isso não é verdade. O controle sempre foi meu, nunca existiu nós duas, apenas eu. Você… foi apenas uma ilusão nascida de uma vida que não existe mais.

— Uma ilusão muito real, você não acha?

— Não importa, eu quero saber o que diabos você está fazendo aqui.

— Você já deveria saber — ela falou, colocando o dedo atrás da orelha — O chip, a inteligência artificial armazenada nele. Quando vocês entraram neste mundo, ela começou a procurar uma saída das profundezas da sua mente, mas o que ela acabou encontrando, foi eu. E quando isso aconteceu, nós nos tornamos um. — Logo depois que falou, duas grandes asas se abriram em suas costas, dando à ela uma imagem angelical.

— Não! Você não deveria estar aqui! Você nem mesmo existe!

— Fala isso pois tem medo de admitir que você já foi alguém, preferindo se passar por alguém que você não é. Eu vou te fazer uma pergunta, e você tem que responder com a verdade, não o que você acha.

— Então faça!

Ela sorriu, e olhou no fundo dos olhos de sua outra face.

— Qual de nós duas é a original?

Ao mesmo tempo em que a resposta parecia estar na ponta da língua, ela parecia não existir. Não havia uma resposta coerente em sua mente, nada parecia certo. Rendendo-se à tensão, ela caiu de joelhos no chão aquoso fitou o vazio abaixo dela.

— A resposta é: Nenhuma de nós — falou a Garça mais jovem, chamando a atenção da mais velha — Quando fomos abandonadas, nossa alma se dividiu em duas para tentar se proteger. Nos primeiros anos, você controlou enquanto eu fiquei dormente, até o dia em que fomos adotadas. Nesse momento, eu pude florescer e experimentar tudo o que o mundo poderia oferecer. Mas aí, veio outro momento fatídico em nossa vida, algo que te deu o controle novamente. Agora… neste mundo… nessa situação, nós não podemos ficar separadas. Nós temos que nos unir, para que a verdadeira Esther Eisen possa nascer — disse, estendendo a mão para a mais velha. — Venha, vamos unir a paz e o caos para criar algo totalmente novo.

Seduzida pelas palavras de sua cópia mais jovem, a Garça colocou sua mão trêmula sobre a mão da outra, fazendo com que tudo fosse tomado pelas trevas novamente.

☉☉☉☉

—  Ei! Ei! — disse uma voz masculina, acordando a Garça.

Naquele instante, ela se viu novamente em Yharag, sentindo-se revigorada. Assustada, ela levantou, assustando o rapaz ao lado dela.

— Caramba, você me assustou! Mas pelo menos você está viva, apesar de estar com esse machucado no rosto…

Ela virou o rosto para encarar o garoto, que tinha um sorriso simpático no rosto jovial.

— E então, qual o seu nome?

Ela olhou para a própria mão e, dessa vez, a resposta era mais clara do que nunca.

— Eu sou Esther, Esther Eisen.

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