Segredos Ocultos

Após algum tempo andando na carroça, o grupo de ladrões chegou em Karnyamithl pelo amanhecer, sendo recebidos e escoltados até a parte da cidade controlada pelos Wyverns. Rapidamente, o carregamento de comida foi retirado da carroça aos festejos dos famintos homens que há muito não degustavam de algo. Enquanto as pessoas famintas abriam as caixas cheias de comida, Emma foi levada para uma enfermaria improvisada, construída nos domínios de Gyleon. Por sorte, ela não ficaria com qualquer tipo de problema adicional e, com o tratamento que foi disponibilizado, ela ficaria bem. No entanto, não poderia fazer algo por no mínimo 2 dias, o que deixava  Athert um pouco inquieto, já que ele não gostava nem um pouco de como as coisas aconteciam na cidade.

Enquanto ele esperava do lado de fora do quarto onde Emma estava, uma figura familiar se aproximou. Era Jyuv, com uma expressão séria no rosto.

– O que foi? Gyleon precisa de algo? – O demônio questionou, já associando a aparição do capanga ao líder dos bandidos.

– Correto. Mas, dessa vez, ele deseja ver somente você. – O Rapaz disse em resposta, confirmando as suspeitas de Athert.

– Só eu? O que aquele cara tá pensando?

– Não importa, apenas venha comigo.

Sem muitas opções, o garoto seguiu o empregado de Gyleon, que o levou até uma sala fechada, onde o chefe do cartel o esperava sentado, atrás de uma mesa, fumando um cigarro. Como a sala não tinha uma janela ou algo do tipo, o cheiro lá dentro era incomodo, mas nada que Athert não pudesse ignorar. Ele tomou seu lugar em uma cadeira próxima e olhou diretamente nos olhos do criminoso, que o fitava com indiferença.

– E então, pra que me chamou aqui? – Athert indagou.

– Você quer um chá? Quer saber, vou colocar aqui pra você, tome se quiser. – Gyleon disse, colocando um copo fumegante de chá sobre a mesa.

– Não respondeu minha pergunta…

– Ora, Athert, acalme-se. Vamos, beba o chá e relaxe.

– Eu não preciso relaxar, Gyleon. Só me fala o que você quer logo.

– Olha, eu só estava tentando te confortar um pouco antes de pedir o que eu vou pedir, mas já que você gosta de ir direto ao ponto, faremos do seu jeito. – Ele disse, apagando o cigarro com o dedo e o jogando longe. – Os Vipers… eles estão passando dos limites.

– Certo, e o que eu tenho a ver com isso?

– Cale a boca e me escute. Seguinte, tem alguém, uma pessoa muito poderosa, armando aqueles filhos da puta até os dentes. Se isso continuar, nem mesmo se eu me unisse aos Scorpions seria possível parar eles.

– E onde eu entro nisso?

– Quero que você entre no território dos Vipers e depois invada a base deles. Procure  documentos, carregamentos, símbolos, qualquer merda que mostre de onde esses desgraçados estão tirando suas armas.

– Opa, espera aí! Você quer que eu invada uma casa recheada de bandidos armados quando eu sou somente um sacerdote? Nem se eu estivesse com meu grupo completo eu concordaria com essa ideia!

– Eu sei que não, por isso me precavi. – Ele afirmou, colocando um estranho bloco brilhante na mesa.

– Um cubo de transmissão?

– O outro está escondido embaixo da cama da Emma. E esse cubo é do tipo armadilha. Acho que já deu pra entender, né?

Athert demorou um pouco para compreender as intenções de Gyleon, mas, quando o fez, ficou furioso.

– O que pensa que tá fazendo?! Seu filho da… – Ele iria dizer, mas foi interrompido com o homem colocando o dedo sobre o cubo, insinuando que iria apertar e ativá-lo.

– Me desculpe, Athert, mas você tem que entender! Centenas vão morrer se você não fizer isso!

Nesse momento, Athert andou até a mesa, batendo nela, derramando um pouco do chá e apontando o dedo na cara de Gyleon.

– Você não tem direito algum de falar sobre a vida, entendeu?! Você, assim como eu, somos criminosos! Tanto eu quanto você tiramos vidas! Então não vem me convencer com essas merdas! Eu não me importo com a vida de ninguém, além da minha!

– Isso não é verdade, não é? – Gyleon disse, surpreendentemente calmo. – Há uma pessoa para quem você dedicaria a sua vida totalmente, não estou certo?

Athert apenas abaixou a cabeça e se virou, indo para a porta.

– Você terá o que você quer feito. – Ele disse, abrindo a porta.

– Garoto, espere! – Gyleon disse, chamando a atenção do rapaz, que virou a cabeça em sua direção. – Quando isso acabar, eu te dou qualquer coisa, o bastante para você tocar a sua vida longe daqui.

o rapaz riu levemente, virando seu olhar para o corredor à sua frente.

– Sabe, Gyleon? Mesmo nesse inferno de mundo, mesmo sabendo quem eu era ou o que fiz, alguém ainda me aceitou ao seu lado. Não vou abandoná-la tão cedo. – Ele concluiu, saindo pela porta.

Athert fechou a porta atrás dele, encostando-se e suspirando. Ele olhou para a sua mão avermelhada, calejada e suja, mãos dignas de um maltrapilho como ele.

– Bom, acho que tenho que fazer isso, não é? – Ele disse para si mesmo, retomando seu caminho

Com determinação, ele saiu do local, rumo ao seu destino.

Quando ultrapassou os limites da área Wyvern, ele notou a extrema diferença entre os habitantes dos dois lados. Muitos do outro lado tinham a cara machucada, ou pareciam mais agressivos e briguentos, diferente do que tinha pensado. Todos o olhavam com curiosidade e desconfiança, provavelmente porque ele não se parecia nada com o estereótipo adotado por aquela parte da cidade. Obviamente, ele não sabia onde a base dos Vipers ficava, e não era como se ele pudesse simplesmente sair perguntando por aí.

No entanto, achar a construção foi mais fácil do que ele havia pensado. Dentre as várias construções disformes e irregulares, havia uma que se distanciava daquele padrão: um casarão, com várias bandeiras negras com cobras estampadas. Ele se pegou rindo daquilo, mas não podia se culpar, realmente chegava à ser cômico. Ele estava parado diante de seu objetivo, mas não sabia como entraria naquele lugar. O portão? Descartado imediatamente. Pular o muro que ficava envolta da casa? Mais uma ideia pro lixo…

Ele ficou pensando por um tempo, tanto que não percebeu quando um bando de ladrões o cercou, incluindo os que estavam de guarda no portão.

– Qual é o lance, carinha? – Um dos bandidos perguntou, tirando Athert de seus devaneios e o retornando para a realidade.

– Ah, o que foi? Eu só estou aqui parado, pensando… – Ele respondeu, colocando as duas mãos em sua cruz.

– Pensando sobre o que? – Outro criminoso questionou, dessa vez se aproximando lentamente.

– Oh, deuses do alvorecer, deem-me poder para atordoar meus inimigos com seus poderes sagrados… – Ele começou a recitar algo, muito baixo para qualquer um deles ouvir, mas chamando atenção pelo mexer de sua boca.

– Aí, qual foi?! – Um deles falou, se aproximando rapidamente, tocando o ombro de Athert.

– Luz Purificadora! – Ele gritou, emitindo uma luz cegante, que paralisou todos os que estavam olhando para ele momentaneamente.

Athert aproveitou do momento e, sem pensar duas vezes, correu e atravessou o portão principal, que estava desprotegido. Passando pelo portão, ele procurou qualquer outro meio para se esconder, e o encontrou quando se escondeu atrás de uma pilha de caixas, despistando os marginais.

– Pelo menos o que eles tem músculo eles não tem de cérebro… – Ele murmurou, recuperando o ritmo normal de sua respiração, que estava acelerada. 

Após ter certeza de que ninguém estava por perto, ele saiu de seu esconderijo e entrou no casarão pela porta dos fundos, que por sorte não havia ninguém vigiando o lado de dentro. Lá dentro,  ele pôde perceber dois caminhos distintos: um que levava para mais fundo na casa e outro que seguia um caminho diferente. Como não queria ser pego de surpresa, ele espiou a porta, vendo um grande salão. Lá, sentados, estavam um homem com uma cobra tatuada no pescoço, provavelmente o líder dos Vipers e mais um indivíduo, que usava uma estranha máscara verde de cobra. A voz era feminina, mas nada que  Athert poderia se lembrar. Como aquele caminho estava bloqueado, seguiu pelo outro, que se aprofundava no subsolo escuro da casa. Ele usou um pouco de sua magia e a concentrou em sua cruz, usando-a como uma espécie de lanterna. No subsolo, ele encontrou uma porta já aberta.

Entrando com cuidado, ele viu um monte de caixas abertas, lotadas de armas e, na frente, uma grande mesa de pedra, com muitos documentos espalhados. Entre eles, um se destacava, estando em cima dos demais

– ”Tratado entre os Vipers e a ₢”… – Ele começou a ler, em voz baixa

De início, nada era muito importante, até chegar na parte final.

– “E, como única exigência, pedimos que cacem e nos tragam a Raposa que se esconde em sua toca. Feito isso, os daremos tudo o que desejarem. Assinado: ₢”. – Ele terminou de ler, associando o termo “Raposa” à Emma. 

Ele já tinha o que precisava, só restava sair daquele lugar. No entanto, no momento em que iria se virar, sentiu uma dor latejante em suas costas. Logo, seu corpo já não era capaz de se mover, ficando totalmente mole e indo diretamente para o chão. Ele forçou os olhos  para cima, vendo que, do seu lado, a mesma figura mascarada que ele havia visto antes estava parada, perto dele. Ela se agachou, mostrando sua máscara com olhos vermelho vibrantes, mas ainda humanos.

– Nunca te ensinaram à nunca mexer no que é dos outros? – A voz feminina um tanto distorcida zombou, levantando-se em seguida.

– Quem… é… você? – Athert falou com dificuldade, sentindo sua boca paralisando aos poucos.

– Eu? Sou apenas uma cobra… e você? É só mais um rato irritante! – Ela disse, antes de chutar a face de Athert com tudo, fazendo-o perder a consciência.

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