Ventos de Mudança

A garota de repente encontra-se de pé em um oceano negro. Acima dela, um céu nublado permanece inerte. Ao finalmente ter sua mente conectada aquele estranho lugar, ela enfim sente que sua consciência está lá. Uma brisa fria e invisível dançava pelo ambiente, o que a fez se encolher um pouco. Ela tentou olhar ao redor, buscando se localizar, mas não encontrou nada além de um horizonte vazio.

Seus olhos procuravam algo que ela não entendia, mas ela o encontrou. Ao longe, uma figura humana flutuava acima do chão, com os braços estendidos para os lados. Seu corpo descia e subia em um ritmo tênue, ocasionando o movimento da aura esbranquiçada que a cercava. Ela parecia estar adormecida, como se apenas seu corpo estivesse preso aquele mundo.

Ela… se parece muito comigo. Pensou a garota, que piscou algumas vezes para ter certeza de que não estava vendo coisas.

Uma súbita vontade de seguir em frente chegou em seu coração, que a fez andar pelas águas do mar infinito. Pequenas ondulações formavam-se na superfície a cada passo que a garota dava, caminhando cada vez mais rápido. Ela sentia seu corpo muito leve, o que facilitava seu movimento célere.

Ela olhou para trás, contemplando a curiosa visão de que, dos céus, uma névoa branca começou a descer. O coração da menina disparou, por algum motivo que ela desconhecia. O único pensamento que ela teve foi correr até aquela cópia de si mesma, sentindo uma fagulha de esperança acender em sua alma. A neblina cada vez mais cobria o ambiente atrás dela, o que a incentivou a correr ainda mais rápido.

Quando estava prestes a alcançar a sua imagem espelhada, ela teve sua corrida abruptamente interrompida por uma colisão com algo invisível. Ela recuou alguns passos, mas logo voltou a correr para frente. Contudo, para seu desespero, ela foi novamente parada por uma parede invisível, separando-a de sua clone.

Ela batia freneticamente na barreira, com uma esperança que ia diminuindo cada vez. A névoa enfim chegou à ela, cobrindo-a lentamente.

De repente, algo saiu da cópia, uma espécie de brilho branco, saltando de sua cabeça e caindo ao chão. Sua forma logo se tornou algo semelhante a uma raposa branca com olhos azuis. O animal olhou para aquele estranho evento que estava acontecendo diante de seus olhos. Notando quem era a pessoa que estava sendo engolida pelo nevoeiro, ela pôde apenas dizer uma palavra.

— Emma? — questionou, lançando um olhar curioso para a pessoa, que logo depois de ouvir seu nome, sentiu sua consciência se desprendendo novamente de seu corpo. Ela não tinha mais controle de nada, e sua visão aos poucos foi tomada novamente pelas trevas.

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Logo no começo da tarde, a cidade dos ladrões irradiava calor humano. Pessoas se movimentando de um lado para o outro, fazendo diversas coisas. Para os três criminosos que haviam chegado recentemente, era algo novo. Nunca antes eles viram tantas pessoas aglomeradas em um único lugar naquele mundo. De repente, os cavalos frearam bruscamente um por um, parando perto da entrada aberta nos muros.

Aos poucos, eles desceram e se agruparam enquanto os membros do grupo de Gileon iam ao encontro dele. Os três jovens ficaram mais atrás, como se estivessem esperando por algo. Alex estava irritada por depender da ajuda de outros para ficar de pé, conquistando apenas falhas frustrantes cada vez que tentava andar sozinha. Athert não sabia muito bem o que fazer, pois ainda estava se adaptando aos acontecimentos recentes. Emma era quem estava dando apoio para Alex, caminhando lentamente na direção do líder dos ladrões enquanto era seguida pelo sacerdote.

A presença dele trazia incômodo à ela, pois um sentimento de desconfiança ainda perdurava entre ambos. Querendo resolver aquilo de forma rápida e direta, ela optou por discutir com ele sobre o assunto.

— E então, você já se resolveu sobre o que vai fazer a partir de agora? — questionou, tentando mandar ele sair de maneira educada.

— Pra falar a verdade eu não pensei muito sobre isso. As últimas horas foram tão intensas que eu nem cheguei a digerir tudo o que está acontecendo. — respondeu, um tanto despreocupado.

— Mas você vai continuar a nos seguir? Tipo, eu sinceramente não acho que você vai querer se arriscar continuando ao nosso lado. O que passamos lá em Wast não vai acabar ali, provavelmente vão ter muitos mais perigos a frente.

Quando ela terminou a fala, Athert esboçou uma expressão de curiosidade, mas logo ela se tornou cômica, tendo como companhia as risadas do curandeiro. As duas garotas não estavam entendendo o motivo da gargalhada, então apenas observaram enquanto ele ria. Com o término de sua diversão, o garoto apontou o dedo para Emma, carregando no rosto uma expressão zombeteira.

— Já entendi, você está tentando se livrar de mim de uma forma mais educada. Sério, qual o problema que você tem comigo?

Mesmo com seu plano descoberto, Emma de certa forma já esperava essa situação. Vendo que fingir não a levaria a lugar algum, ela decidiu dar uma explicação mais convincente.

— Pra falar a verdade, eu não tenho problema nenhum, é que eu não queria envolver mais pessoas nisso, pois eu me sinto mal quando as pessoas se ferem por algo em que eu as envolvi. Se você se envolver com a gente, pode acabar com muito mais do que um corte no torso ou uma perna quebrada. 

A garota esperava convencê-lo com o discurso, mas de nada adiantou. Athert suspirou e a encarou. Um olhar sério moldou-se em sua face, indicando que algo havia mudado.

— Desde que cheguei a este mundo, eu conheci muitas pessoas, e todas elas me pareceram iguais: todas possuem a vontade de ficar em paz por aqui. Eu sei que é idiotice, mas me senti muito entediado aqui, igual a vida real. — ele deu uma pausa para buscar algo em um bolso escondido. Do local, ele retirou uma moeda dourada. — Em vida eu era um daqueles caras que adorava se exibir por aí com roupas caras, mostrar que eu tinha a grana e tudo o que queria. É, eu era um verdadeiro babaca. Contudo, como praticamente tudo na vida, isso também ficou chato e tedioso, pois as pessoas só passaram e me ignorar. Pode não parecer, mas o tédio é algo muito ruim. No fim, possuir tudo me deu desgosto com tudo o que eu tinha. É por isso que eu vim para Yharag, buscar um recomeço, uma nova e divertida vida. Por um momento, tudo aqui parecia chato, até que vocês apareceram — Ele afirmou, se abaixando e colocando sua mão ao redor da perna ferida de Alex. A garota recuou instintivamente, mas a dor a fez parar de desistir. O rapaz sussurrou algumas palavras e sua mão foi coberta por uma aura dourada que permeou pelos seus dedos até o membro ferido da jovem. Alguns instantes depois, a dor aguda que percorria todo o seu corpo se foi, desaparecendo ao toque do sacerdote.

Ao notar que sua perna foi curada, Alex logo se soltou dos braços de Emma, dando vários saltos enquanto estendia seu punho para o céu, feliz por estar de volta a ativa.

Essa magia de novo… como é que ele faz? Emma questionou-se, lançando um olhar surpreso para a amiga. Athert, notando a expressão da mercenária, sorriu de canto ao perceber que podia usar isso ao seu favor.

— Valeu cara! Eu realmente não aguentava mais ser carregada por aí! — Alex agradeceu, pegando a mão do rapaz e a balançando de cima para baixo.

— Ah… não precisa agradecer. — respondeu, um tanto desconfortável com a situação.

Com o término do aperto de mãos, ele chamou a atenção das duas batendo palmas, logo retomando com sua história.

— Vocês duas são as primeiras pessoas que encontrei fazendo algo mais do que sentar a bunda em uma cadeira e ficar bebendo ou conversando o dia todo em uma cidade. Podem me chamar de supersticioso, mas eu acredito que o destino uniu nós três para que eu as ajudasse. Com minha cura e suas habilidades de combate, nós vamos fazer o que quisermos nesse mundo! E então, o que me dizem? Eu posso até ensinar algo de magia para vocês. — disse, jogando os dados na mesa e apostando tudo o que tinha na jogada.

— Claro que está! Não é, Emma? — Alex falou, encurralando Emma ainda mais naquela situação.

Parecia uma troca justa, algo que Emma certamente aceitaria sem pensar duas vezes, se não envolvesse muito mais do que eles achavam que era. A garota se sentiu culpada por estar levando eles para um destino incerto, mas simplesmente aceitou que se preocupar para sempre apenas a frustraria mais. Ela suspirou e se virou na direção oposta, olhando para Gileon, que já os aguardava.

— Ok, faça o que quiser, só venham logo, não podemos perder muito tempo. — disse, deixando a culpa e o ressentimento de lado.

Os que ficaram para trás trocaram olhares e apertaram as mãos em sinal de gratidão mútua. Após isso, eles tomaram lugar ao lado de Emma, que caminhava em direção ao homem.

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A tentativa de ataque de Esther não havia passado despercebida, o que resultou em várias pessoas a encarando com reações variadas. Uns já estavam com as mãos prontas para tirar as espadas da bainha, enquanto outros apenas a fitavam com um olhar intimidante. Sentindo-se pressionada, ela foi recuando aos poucos, até que o medo tomou conta de suas pernas e ela saiu correndo da cidade, acabando por tropeçar em uma raiz no lado de fora dos muros.

A parada abrupta a fez perder o ritmo de sua respiração, o que resultou em uma crise de tosses que durou até que sua respiração voltasse ao normal. Usando os braços como apoio, ela se ergueu do chão, ficando ajoelhada e olhando para baixo, vendo seu reflexo numa poça de água suja.

O que foi isso? Como eu obti esse poder? Perguntou em sua mente, oberservando a curiosa movimentação de seu reflexo na superfície da água. Trêmula, ela se aproximou um pouco para sanar as suas dúvidas sobre a veracidade daquilo. 

Como resposta, seu reflexo a encarou de volta, perfeitamente normal. Entretanto, sua própria voz ecoou em sua mente.

Por que parou o ataque? Se tivesse acertado, teríamos nos livrado daquele estorvo

— Eu não sou uma assassina… eu nunca machucaria alguém de verdade. — Afirmou em voz alta, ainda olhando para o seu reflexo na água.

O recomeço que tanto desejamos não será possível enquanto aquela garota estiver viva. Nós precisamos nos livrar dela.

— Não. Eu vou conquistar uma vida nova sem derramamento de sangue, isso é uma promessa para mim mesma.

O passado vai nos assombrar para sempre se seguirmos o caminho da paz. A vitória é obtida por aqueles com poder. Agora que temos o poder, temos a chance de acabar com isso de uma vez por todas!

— Eu já disse que não! — esbravejou, socando a terra ao lado da poça, o que fez pequenas ondas viajarem pela superfície — Esse poder e o meu passado, eu renego ambos!. Não sou mais alguém perdida na linha do destino. Mesmo que os fantasmas do passado me persigam, eu nunca vou me render novamente ao caminho que escolhi uma vez.

As ondas na água cessaram, revelando que a expressão do reflexo dela na poça estava diferente, com um aspecto de desprezo e desaprovamento. A boca dela então se mexeu e o som na mente dela ficou ainda mais real.

— A determinação e a esperança que carrega em sua alma apenas lhe trará a ruína.

Com raiva e aterrorizada por aquela cena, a única reação da Garça foi dar um murro em seu próprio reflexo, afundando metade de sua mão na água rasa. Seu coração acelerava enquanto sua mente ficava confusa e nebulosa. A incerteza do futuro e se ela era forte o bastante para mudar a própria história assolavam sua alma, que já estava fragilizada pela recente fusão de seus fragmentos. Entretanto, mesmo exausta mentalmente, ela se pôs de pé, disposta a continuar.

No chão, ela avistou uma pedra afiada. Com calma, ela se agachou e pegou a rocha, analisando-a de ponta a ponta. Olhou mais uma vez para o seu reflexo na água, não gostando do que via.

— Minha mudança começa aqui. — disse para si mesma, agarrando uma parte de seu cabelo e pondo o lado afiado da pedra sobre ele.

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