Recomeço

O Sol estava começando a desaparecer no horizonte, anunciando a chegada da noite em poucas horas. A floresta tropical que cercava Hermes havia começado a demonstrar seus sinais de vida noturna abundante, como o som dos animais, a melodia dos insetos e o cantar do vento sob a copa das árvores. E lá, naquela festa de vida selvagem, uma silhueta sombria se destacava. Ela não se movia, ficando de pé enquanto apreciava o show da natureza desabrochando ao seu redor.

Uma forte e rajada de vento ergueu os cabelos loiros que se estendiam até abaixo das orelhas, somente isso sobrou do ato de mudança imposto pela portadora do penteado. Ela ajeitou o recém corte com uma das mãos, deixando da maneira menos bagunçada possível. Depois disso, ela colocou-a na frente de seu rosto para tapar o forte brilho dourado, o que a fez notar algo.

Apesar do que ela pensava, as marcas em suas mãos nunca sumiram, mesmo após ter seu ser transformado em um avatar computadorizado. Aquelas eram lembranças de seu passado, algo que, mesmo após ter recuperado seu estado “original”, ela nunca esqueceria. Momentos variados que mesclavam várias emoções passaram em sua mente como um filme antigo um tanto degradado pelo tempo. Memórias que antes desejava manter, mas que no momento daria qualquer coisa para poder esquecer.

As cicatrizes da mente nunca se curam, eu acho. Pensou, cerrando o punho e o abaixando.

Pensar sobre seu passado não era algo que ela gostava de fazer, mas não podia evitar. Entretanto, naquele momento, naquele lugar, ela tinha a chance de largar tudo para trás, queimando tudo para deixar as areias do tempo carregarem as cinzas. Esther nunca conseguiria pagar o que a Menorá Áurea havia lhe dado: Um abrigo, comida, sua primeira família, educação e uma chance de viver a vida novamente. Contudo, não terminou da melhor forma.

A Garça sempre achou que pagar a dívida que tinha com seus salvadores era o seu objetivo, mas, ao passar por muitas coisas, ela começou a perceber que tudo aquilo não passava de um auto-engano para dar um propósito à sua vida. Pessoas que não escolhem um caminho acabam por se perder no mundo, podendo assumir qualquer coisa como propósito para satisfazer a si mesma. Mas, alguma hora, essa escolha acaba se voltando contra o indivíduo, levando-o novamente a se perder no caminho de sua vida.

O destino que Esther escolheu ao viver pelos outros para satisfazer as próprias emoções bagunçadas a levou a pagar um grande preço. Anos de sua vida que se foram e que nunca mais voltariam, anos cheios de dor e sofrimento. 

Um valor grande demais para ser quitado outra vez. Ponderou, virando seu olhar para os muros atrás dela.

Naquela cidade, atrás daquelas paredes, ela poderia recomeçar, ser alguém diferente. Ela não queria criar expectativas, mas não podia conter as emoções em seu coração. Mesmo que o medo do fracasso a perseguisse, ela não iria desistir de tentar. Num movimento rápido, ela enfim girou o corpo todo na direção de Hermes, começando a correr para dentro das muralhas.

Diante de seus olhos, ela teve o vislumbre rápido de vários momentos bons que teve com as pessoas da Menorá Áurea. Risadas, discussões engraçadas e muito mais coisas que ela teve o prazer de experienciar. De seus olho saudável, algumas lágrimas desceram por sua bochecha, sendo carregadas pelo vento quando caíam de seu rosto. Em sua mente, ela formulou um último pensamento antes de abandonar a sua vida antiga.

Eu nunca serei capaz de pagar a dívida que tive com vocês, pessoal. Vocês me transformaram em uma pessoa, e me deram uma vida a qual pude chamar de minha. Mas agora, eu finalmente encontrei algo que eu realmente quero seguir, um caminho no qual andar. Então, tudo o que posso fazer é pedir desculpas que nunca serão ouvidas, mas que tem o seu próprio significado. Essa… é a minha redenção, a minha nova vida do zero. Disse, falando sozinha em sua mente enquanto saltava para o seu novo destino.

Firmando seus pés no chão, ela olhou para frente, determinada em sua decisão. Em pouco tempo, ela conseguiu encontrar Lucas, que estava de mãos dadas à um rapaz bem parecido com ele. Ambos tinham cabelos castanhos, mas seus olhos eram de cores diferentes. Enquanto o menor possuía olhos azuis, o maior tinha suas íris da cor preta. Logo imaginou que ele deveria ser o irmão que o garoto tanto falava, sentindo um certo alívio ao saber que Lucas estava bem acompanhado.

Sem muita pressa, ela começou a caminhar na direção do menino, que não demorou muito para notar a presença dela por ali. Mesmo que ela estivesse um tanto diferente, o jovem rapaz conseguia dizer com toda certeza quem ela era. Lucas acelerou o passo, surpreendendo o rapaz que o acompanhava pela sua força, capaz de carregá-lo consigo enquanto andava.

Ao se encontrarem, o garoto soltou-se do rapaz e foi correndo até Esther, recebendo-a com um abraço. Ele ergueu o rosto para encarar a mulher, que estava olhando para ele com um grande sorriso.

— E aí, garoto, foi mal ter sumido do nada. — agachando-se para poder ficar na altura dele.

— Pô, você me deu o maior susto! Achei que tinha se perdido enquanto eu ia falar com meu irmão! — Notando o que tinha falado, ele resolveu usar essa fala para apresentar aquela pessoa ao lado dele. — Esther, esse é o meu mano!

Ela direcionou seu olhar para o rapaz mais alto, percebendo que ele estava mais próximo do que antes, portando uma expressão um tanto desconfiada. Tentando causar uma boa impressão, a mulher de preto esboçou um sorriso simpático.

— Olá! Eu sou Esther, Esther Eisen. Seu irmão parece ter muito apego a você. — disse, buscando uma conversa mais casual.

— Harry Stafford. Você deve ser alguém bem interessante para que meu irmão não parasse de falar de você o tempo todo. E então, o que faz aqui em Hermes?

— Bem, eu… — Antes que pudesse terminar sua fala, Lucas interrompeu, colocando-se na frente da moça.

— A Esther quer um lugar pra morar! Podemos adotar ela, irmão? Diz que sim, vai! — ele gritou, fazendo até mesmo algumas pessoas que passavam por perto dirigirem seu olhar momentaneamente para eles. A situação deixou a Garça bem desconfortável, mas ela apenas fingiu uma risada acompanhada de um sorriso. 

— Não é bem assim… mas pode se dizer que sim. — respondeu, um pouco frustrada por não ter conseguido alcançar uma amizade maior com Harry antes de revelar suas intenções.

— Já falei que não se deve interromper os outros, seu pestinha — falou, agarrando o irmão mais novo e dando alguns cascudos fracos na cabeça dele. A união familiar deles era notável, deixando Esther com um pouco de inveja — Mas veja bem, moça. A grande maioria aqui na cidade mal consegue se sustentar direito, não vai ser nada fácil achar uma casa para ti. Quanto mais acolher você com a gente, mal posso nos manter bem com o dinheiro que recebo com os trabalhos do Gileon. Foi mal, mas não posso deixar algo assim.

Mesmo com essa resposta, Esther não desistiria tão facilmente, e estava pronta para rebater.

— Mas olhe só, não precisa ser exatamente na sua casa ou na de alguém, eu posso arrumar minha própria casa, talvez! E você não acha que seria interessante ter alguém para cuidar do Lucas enquanto você está fora? Mesmo que as pessoas aqui o conheçam, vai que algo acontece? E, se eu morasse na casa de vocês, todo o trabalho doméstico ficaria por minha conta, e eu não receberia nada por isso. — ofertou. Apesar de ter improvisado boa parte da fala, ela achou que tinha mandado bem.

— A questão é que eu ainda não poderia pagar por você. Todos aqui pagamos um preço alto pela importação de comida e quase tudo que tem, pois mal conseguimos aproveitar os recursos da floresta. Alguns dizem que há um demônio entre as árvores, que poderia matar qualquer um que tentasse se opor a ele, mas eu duvido muito dessas histórias. De qualquer forma, se você se oferecesse para trabalhar, a ideia de cuidar do Lucas iria por água abaixo, não é?

Ela já tinha a noção de que a falta de conhecimento sobre a região poderia dificultar a sua negociação, mas não esperava ficar encurralada. Sem muito o que dizer, ela falou a primeira coisa que veio em mente.

— E se eu desse um jeito na criatura na floresta? Isso iria permitir o aproveitamento da floresta por vocês de um jeito bem mais fácil. — afirmou, fazendo a sua jogada final.

A expressão calma e neutra do rapaz logo se transformou em uma face surpresa, o que deu o sinal de que ela tinha uma chance.

— Você quer matar a criatura da floresta? Como você vai em busca de algo que nem tem prova de que existe? — questionou, ainda incrédulo pela oferta ousada da moça.

— Alguém deve ter uma pista sobre o paradeiro desse bixo, duvido que seja tão difícil encontrar algo que é tão temido por tanta gente. E, se eu conseguir derrotar a coisa, eu vou ter influência e dinheiro o suficiente nessa cidade para poder melhorar e muito o nosso estilo de vida. Assim, você não precisaria mais ficar sem ver o Lucas durante um bom tempo. E então, temos um acordo? — concluiu, estendo sua mão para o rapaz.

Apesar dos riscos e incertezas, algo o fazia ter uma certa confiança de que aquela mulher seria capaz de mudar não só sua vida, como também a de todos naquela cidade. Contrariando o seu princípio de sempre seguir a lógica, ele apertou a mão de Esther, não por ele, mas por seu irmão.

— Então temos um trato!

No horizonte, o sol estava quase sumindo, marcando não só o início de uma nova noite, como também o início de uma nova vida para os três.

☉☉☉☉

Com a ascensão da lua no céu noturno, a farra no bar tornava-se cada vez mais notória e evidente. Contudo, a festança já estava em seu fim, com a maioria dos seus participantes ou encontravam-se bêbados no chão ou já tinham saído da bebedeira há algum tempo. E não podia ser diferente para os dois duelistas.

Eles repousavam serenamente no chão em um estado que beirava o acordar com a sonolência, olhando para o teto enquanto balbuciavam palavras aleatórias. Enquanto isso, Emma e Alex observavam aquela zona sentadas em suas respectivas cadeiras totalmente sóbrias. Não sabiam se riam da cena ou se faziam alguma coisa para mudar aquilo.

— Eu já estava esperando um final assim, mas não tão alcoólico como eu imaginava. —  Alex afirmou, rindo um pouco.

— Seria trágico se não fosse cômico. —  Emma disse em resposta, decepcionada consigo mesma por ter deixado as coisas chegarem àquele ponto, mas rindo da situação.

—  Já tá de noite, deveríamos achar algum lugar pra dormir. —  Ela olhou para o líder dos ladrões, tagalerando alguma coisa sobre seus princípios, como se estivesse em uma conversa com alguém —  Acha que deveríamos perguntar pro Gileon se tem algum lugar assim?

— Você quer perguntar logo pra ele? O cara que tá na beira de um coma alcóolico?

— Não custa tentar né?

Quando viu o que estava prestes a fazer, Emma lembrou de algo que ela havia visto uma vez. Ela já sabia que aquilo provavelmente não resultaria em nada, mas ela tinha que tentar pelo próprio divertimento.

— Bem, eu vou pelo menos testar algo que eu aprendi a fazer uma vez… Vá cuidar desse bêbado, eu já volto. —  Falou, caminhando tranquilamente entre o mar de pessoas adormecidas no chão, tomando cuidado para não pisar em ninguém.

Alex, sem entender o que sua parceira fora fazer, simplesmente se dirigiu ao homem caído. Ao chegar bem próximo dele, ela se ajoelhou e colocou seus braços nas costas pesadas do ladrão, levantando-o e o mantendo firme no ar. Sua ação não passou despercebida, ganhando a atenção do bêbado, que olhou para ela com um olhar curioso.

— L-Loirinha? O que tu tá fazendo… aqui? — questionou, deixando escapar o seu forte hálito.

—  Gileon, sou eu, a Alex. Sabe onde está e o que aconteceu?

Quando questionado, ele começou a rir com um intervalo entre suas gargalhadas.

— Eu bebi pra cacete… —  falou num tom orgulhoso.

— É, de forma resumida, foi isso mesmo. — De súbito, ela ouviu passos vindos de onde Emma fora buscar algo. Ela levantou a cabeça e observou a sua amiga caminhar até eles carregando um copo d´água com uma garrafa do mesmo líquido na outra mão. — Eh… pra que servem essas coisas?

Sem responder, Emma ficou de frente para Gileon e agachou-se, soltando um leve sorriso malicioso antes de executar seu ato vil. Com nenhum tipo de aviso prévio, ela jogou toda a água do copo na face do homem, encharcando-o e o deixando mais alerta.

—  O que diabos você tá tentando fazer? —  a ferreira indagou, vendo o claro exagero naquela situação.

— Eu já vi vários filmes em que quando pegam alguém bêbado e precisam que essa pessoa fique mais acordada e atenta, jogam água na cara do sujeito. Agora é hora da parte divertida, bancar o interrogador mal!

Eu tenho dúvidas sobre a qualidade dos filmes que ela assistiu…

— Qual é irmão? Vai falar pra gente qual é a parada ou vai ficar nas nuvens? —  Emma perguntou, mudando o tom de sua voz quase que totalmente.

— Q-Que tipo de p-piada de mal gosto é essa? Do que você tá fa-falando?

Não obtendo a resposta que desejava, a garota encheu mais um copo com água e atirou todo o líquido novamente no rosto de Gileon. Ele tossiu algumas vezes por engolir a água muito rápido, mas isso não impediu o interrogatório “brutal” da garota, que cada vez mais demonstrava um lado oculto de sua personalidade.

— Eu perguntei qual é a parada, entende? Quero saber onde fica o teu cafofo, se não vai levar mais água na cara, morô?

— Tá bem! Tá bem! Eu falo tudo! Só para de jogar essa merda na m-minha cara, droga! —  Ele soluçou um pouco, voltando a falar em seguida. — Eu tenho uma casa, fica na frente da praça principal, é só procurar no lugar mais bonito da cidade!

— Muito bem! É assim que eu gosto! — concluiu, levantando-se e indo na direção de Athert, parando no meio do caminho e direcionando seu olhar para Alex. Ela estava notavelmente envergonhada com o que tinha acabado de fazer, mas portava um sorriso indiscreto que expressava sua falta de arrependimentos.

— Pode ser que eu tenha exagerado… só um pouquinho.

— “Só um pouquinho?” — Alex perguntou ironicamente, esboçando um sorriso despreocupado. — Vamos logo, não temos a noite toda pra procurar uma casa na cidade cheia de ladrões.

— É… claro. Só não conta pra ele que isso aconteceu. Se ele perguntar, vamos dizer que ele deve ter sonhado coisas estranhas por causa do álcool. Combinado?

— Só dessa vez, hein? 

— Valeu!

Depois desse curto diálogo, as duas apoiaram os dois bêbados eu seus ombros e saíram do bar, buscando um lugar para fugir dos olhos estelares que observavam acima no véu noturno.

Aquela seria uma longa noite…

☉☉☉☉

Enquanto tudo isso acontecia, algo estava ocorrendo dentro da mente de Emma. Âme estava encarando de frente algo que ela não sabia descrever, mas ela podia sentir a aura daquele lugar, uma aura nada simpática e convidativa.

De frente para a raposa, encontrava-se uma porta distorcida, erguendo-se num batente rachado. Sua própria existência era corrompida, já que, em alguns momentos, ela fragmentava-se e se reconstruia sozinha, ou até mesmo tendo suas cores alteradas num flash de alucinações visuais fantasmagóricas.

Aquele lugar nada mais era do que a entrada do Núcleo de Emma.

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