Labaredas da Alma – Parte 1

Faíscas se dispersaram ao choque do martelo no aço incandescente. Suor pingava do queixo do homem e caía no metal fulgurante, dando lugar à uma efêmera e pequena nuvem de vapor. Os golpes contra o molde da lâmina exibiam a longa experiência do ferreiro que a fabricava, que era conhecido por sua habilidade na confecção de equipamentos de alta qualidade.

De súbito, a porta do recinto foi aberta com violência, assustando o trabalhador que soltou seu martelo em reflexo. A luz do exterior trouxe claridade ao ambiente que era iluminado apenas pela luz do fogo da forja. A silhueta da frente entrou no cômodo, revelando ser Gileon, que carregava um sorriso animado. Logo depois dele, vieram Emma, Athert e por fim Alex.

— Hey Jeremy, como vai o trabalho? — o bandido perguntou, tendo como resposta imediata a expressão furiosa do homem.

— Cacete Gileon, quer me matar do coração porra?! — esbravejou, se levantando do banquinho em que estava sentado e pegando o seu martelo do chão.

— Foi mal ae, colega. É que eu e meus amigos aqui estamos com pressa. Precisamos sair essa tarde para…

— Eu sei o que vocês vão fazer, droga. — interrompeu, colocando a ferramenta ao lado de seu assento e voltando-se para seus visitantes. — Vieram pelas armas, correto?

— Não poderia ser diferente. — disse, mantendo a expressão sorridente.

Jeremy suspirou e tirou um maço de cigarro do bolso, pegando um do conjunto e acendendo na brasa da fornalha, botando nos lábios em seguida. Tragou a fumaça preguiçosamente, tossindo algumas vezes antes de se recompor.

— Sigam-me. — falou, tentando mascarar o seu óbvio descontentamento, mas não teve sucesso.

O cheiro de tabaco que o homem deixava pelo caminho incomodava os demais, mas Gileon havia aconselhado para que eles ficassem quietos enquanto lá dentro.

Enquanto isso, num quartinho escuro e empoeirado, um pequeno rato tateava a escuridão imunda de uma mesa de trabalho desgastada em busca de algo que sua programação incompleta nunca encontraria. Foi quando a porta da sala se abriu, erguendo uma breve nuvem de poeira e assustando o animal, que parou a sua busca sem sentido e foi se esconder nos resquícios de sombra intocados pela luz invasora.

Com uma das mãos, o ferreiro sinalizou para que os outros entrassem depois dele para que ele pudesse ter espaço.

— Há quanto tempo você não limpa esse lugar, Jeremy? — Gileon questionou, deixando o homem um tanto envergonhado.

— Eu ia limpar ontem, mas você decidiu me encher de trabalho — falou, limpando o suor da sua testa ao finalmente encontrar o que desejava — Mas isso também significa que você vai encher os meus bolsos de dinheiro. — Sorriu, virando-se para mostrar o achado ao bandido.

Quando ele atestou a qualidade dos produtos, chamou os três jovens para perto, onde puderam contemplar o trabalho de mestre daquele homem.

Num misto de beleza e letalidade, aqueles equipamentos eram a melhor coisa que Hermes poderia oferecer. E os presentes da cidade não decepcionaram nem um pouco.

Alex recebeu um grande escudo tingido nos tons de sua armadura acompanhado por uma machadinha feita inteiramente de um metal negro.

Athert recebeu um novo cetro, dessa vez com um orbe azul envolto por um arco de metal que se projetava do cabo abaixo. O sacerdote conseguiu sentir uma boa fluência de magia passando pelo aço gelado, reconhecendo assim que aquele era um bom item.

Já Emma recebeu uma espada no estilo da Europa medieval, com uma lâmina feita de algum material branco como a neve, além de ter uma pedra cerúlea no meio da empunhadura, e dela se estendiam várias linhas talhadas que formavam símbolos estranhos do guarda-mão até a ponta do equipamento.

— Por que essas linhas estão aqui?

— É uma espada rúnica, essas gravuras servem para fazer a magia do usuário fluir pela arma. — Jeremy explicou, um pouco surpreso por alguém não conhecer aquela variação de espada.

E por acaso eu tenho magia, seu careca idiota?

Foi quando teve esse pensamento que ela se lembrou do que Athert lhe “devia”. Ela não sentia nada diferente em si, mas não custava testar.

— Aí Athert, como eu faço para saber se eu tenho magia?

— Ah, sobre isso…

— Agora não, mocinha. Preciso que você vá na casa do Stafford para chamá-lo para o que vem por aí. Fica a duas ruas de distância daqui, siga até encontrar uma casa marrom um tanto decaída. — O bandido interrompeu, fazendo uma expressão mais séria do que o comum.

— Mas por que eu?

— E por que não?

Velho desgraçado…

— Tá… eu vou — disse, tomando seu rumo para fora do estabelecimento. Antes de ir, virou-se para encarar Gileon com uma expressão de raiva. — E meu nome é Emma, não “mocinha”. — finalizou, indo embora e deixando para trás o clima tenso.

Apesar do ar pesado, o líder dos ladrões soltou um sorriso involuntário, logo percebido pelos outros dois do grupo, que não entenderam o que aquilo queria dizer.

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O aroma temperado do cozido de Harry inundou as narinas de Esther, que já imaginava o sabor que aquilo teria. Ela segurava o garfo com incerteza, pois não queria abandonar o cheiro, mesmo que fosse para vir algo ainda melhor em seguida. Sem mais hesitar, ela lançou a comida garganta abaixo, deleitando-se na explosão de sabores que aquilo tinha. Talvez fosse tão bom por conta dela não ter comido nada fazia algum tempo, mas ela não se importava em saber. Tudo o que ela precisava estava a sua frente, e ela nunca mais queria se afastar daquela sensação.

— Pelo sorriso no seu rosto, posso dizer que mandei bem, certo?

— Com toda a certeza! Isso aqui tá muito bom!

— Fico feliz que tenha gostado. A partir de hoje, vamos ter muito mais disso. O seu plano de caçar o Demônio da Sussurros coincide com o plano do Gileon. Ele já deve estar vindo a uma hora dessas… — falou, como se esperasse uma batida na porta. Mas ela não veio.

— Eu quero lutar no seu lugar. — a mulher afirmou, surpreendendo um pouco o rapaz.

— O que? Mas… esse também é o meu trabalho!

— Depois de ver a sua relação com o Lucas, não posso deixar que algo aconteça a você. — deu uma pausa para comer mais um pouco da refeição. — Considere isso como o primeiro pagamento por me deixar viver com vocês.

— Bom… se é assim, não acho que posso recusar.

— Relaxa, eu sei me virar… — três batidas na porta ecoaram por dentro da casa, chamando a atenção deles. — sozinha.

— Acho que é o pessoal. Eu vou lá abrir a porta. — Antes que pudesse levantar, a Garça ergueu-se da cadeira e deu um leve soco na mesa para chamar a atenção do rapaz.

— Deixa que eu faço isso. — disse, carregando um sorriso simpático no rosto.

Nutrindo um estranho pressentimento de que algo não estava certo, ela fez seu caminho pela cozinha até chegar próxima da porta.

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Cacete… o Gileon considera isso “um pouco decaída”? Essa casa tá quase caindo aos pedaços!

Com impaciência, a garota se preparou para dar mais algumas batidas na porta. Foi quando a mesma estalou, para em seguida se abrir vagarosamente para o lado interior da casa. A luz iluminou a face da pessoa na frente dela aos poucos, mas ela logo pôde ver quem a encarava. Assim como a mulher também percebeu quem estava de frente para ela.

As duas recuaram alguns passos para trás, ambas com seus rostos tomados pelo pavor e uma grande surpresa. Contudo, Esther se recompôs mais rápido do que a garota, forçando um sorriso.

— Não faz muito tempo desde a última vez, não é? — falou, tentando iniciar uma conversa casual.

— Pouco mais que um dia… — Emma respondeu, se esforçando para retornar à calma.

— Você… tem medo de mim?

— Considerando que eu acabei de ver um fantasma, é, eu tô com medo.

Um silêncio surgiu em seguida, deixando as duas sem saber o que falar por instantes que pareceram durar uma eternidade. E assim continuou, até que Emma decidiu que não podia ficar daquele jeito.

— Eu… te vi cair no rio. Pensei que estava morta no começo, mas depois eu comecei a suspeitar que não era o caso. Mesmo assim, te ver aqui agora é como olhar para alguém que já morreu.

— Pensei a mesma coisa quando senti a água gelada cobrindo meu corpo como o abraço da morte, mas eu ainda estou aqui.

— E o que mudou? A Garça que eu conheço já teria partido pra cima de mim assim que me visse.

— A Garça que você conhecia morreu nas margens lamacentas daquele rio. Agora, eu sou uma outra pessoa, ou ao menos tento ser. — afirmou, olhando para trás de si, onde Lucas tentava se esconder para ouvir a conversa. Ela não conteve o sorriso.

— Mas vai ficar assim? A Menorá Áurea não vai ir atrás de você também?

— Não se pensarem que eu estou morta. — essa afirmação pegou Emma de surpresa. — Sei que não pretende ficar muito tempo por aqui. E também sei que não tenho o direito de te pedir nada depois de tudo o que aconteceu, mas por favor, caso encontre algum depois, diga que eu morri. Não quero que eles venham destruir tudo o que estou tentando fazer.

Mesmo que a lógica da garota a fizesse desconfiar de toda aquela situação, ela não podia ignorar o olhar sincero e praticamente mudado da pessoa que um dia já lhe fez tanto mal. Aos poucos, as percepções dela sobre as pessoas também mudava.

Maldito coração mole… Olha o que você vai me fazer falar!

Âme assistia tudo aquilo com certa incerteza, mas sabia que ficaria tudo bem.

— Tá… eu vou dizer isso pra eles. Mas nunca vou te perdoar pelo que você me fez passar. — Ela suspirou, frustrada consigo mesma. Porém, ao dizer tais palavras, ela sentiu como se um enorme peso saísse de suas costas.

— Eu nunca vou poder agradecer o bastante por isso. Obrigado, de coração.

— Mas não vai achando que tudo vai acabar assim não! Não é como se fossemos amigas ou algo do tipo. Somos conhecidas, no máximo. — afirmou, tentando parecer durona, mas Esther percebeu a gentileza no coração da garota.

— Bem, de qualquer forma, você veio aqui para buscar o Harry, não é?

— Stafford? Se for, é ele mesmo.

— Eu irei no lugar dele. Tenho que pagar alguns favores que ele me fez.

— Você devia aprender o mais cedo possível que não se pode fazer dívidas nesta cidade. Eu aprendi e ainda aprendo com o maldito do Gileon.

— Valeu pelo conselho.

— É… vamos logo, eu não sou boa pra esse tipo de situação. — disse, virando-se para o lado oposto de Esther. Por suas costas, a antiga cultista deu mais um grande sorriso.

— Harry, Lucas, eu voltarei logo, ok?

— Beleza!

— Vê se volta logo, estaremos esperando por você!

E assim, ela saiu e fechou a porta atrás de si. Emma a esperava um pouco mais a frente, escondendo as mãos nos bolsos do sobretudo. Esther se aproximou até ficar perto dela.

— Sabe… eu acho que você daria uma ótima mãe. — Emma deixou o comentário escapar, tomando seu rumo logo em seguida. Não sentindo que sua acompanhante a seguia, ela se virou para trás, encarando a Garça com um enorme sorriso no rosto.

— E você seria uma péssima filha. Por Deus, já viu como você fala? Sem mencionar o seu quarto. Amber quase teve um infarto ao ver aquela bagunça. — brincou, conseguindo arrancar um sorriso da garota.

— Fazer o que, é o meu jeito de viver.

Sem saberem mais o que dizer, elas simplesmente continuaram a caminhar rumo ao objetivo final. Ambas não sabiam como aquele dia iria acabar, mas tinham certeza de que depois dele, muita coisa iria mudar.

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Uma hora e meia mais tarde, Gileon, Emma, Esther, Alex, Athert e o resto dos bandidos se reuniram do lado de fora dos portões da cidade, recebendo incentivos e gritos dos cidadãos que assistiam todos os caçadores. A partir dali, a coisa seria mais séria, e todos eles sabiam disso. Emma estava com o coração na mão, mas se esforçou para manter a calma. Em organização triângular, com Gileon na ponta da formação, eles estavam prontos para começar a operação.

— Senhores, sei que o que estamos fazendo pode parecer loucura, mas peço que acreditem na minha palavra. O que estamos prestes a fazer é diferente de todas as empreitadas em que já nos metemos até hoje. Por isso, quero que façam o máximo de si. Lutem até cair, procurem até cansar e jamais desistam. Avante, ladrões

E assim, a maior caçada da história de New Heaven havia começado.

E assim, a maior caçada da história de New Heaven havia começado

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Já distantes da cidade e com o sol se pondo, o grupo marchava pela densa floresta fazia algumas horas. Até então, nada de anormal havia sido notado. O calor e a umidade aumentavam a crescente fadiga dos caçadores, que já pediam a Gileon para um descanso. Mesmo que achasse muito cedo para parar, ele viu-se obrigado a montar um acampamento improvisado, pois não queria que seus combatentes lutassem sem energia. Todavia, ele sabia que as construções, mesmo rudimentares, iriam atrair a criatura.

Para evitar um ataque surpresa, ele colocou alguns dos menos cansados para vigiar, entre eles, estavam Alex, Emma e Esther. Tudo parecia muito calmo. Os pássaros com sua melodia, o farfalhar de alguns arbustos e sons de alguns animais que estavam distantes demais para serem reconhecidos.

Calmo até demais… Emma notou, estranhando aquele clima exageradamente pacífico.

Foi quando ela viu que algo estava realmente acontecendo. Após alguns instantes, nem mesmo o canto dos passáros permaneceram no ambiente. Tudo o que ficou foi um fantasmagórico e mórbido silêncio.

De repente, ela viu algo. Muito mais rápido do que qualquer coisa que ela já havia visto antes e muito maior do que ela estava acostumada. Mesmo que por pouco menos de um segundo, ela testemunhou um vulto pálido correr entre as árvores.

Não se importava se tinha certeza ou não, ela tinha que avisar a alguém.

Quando se virou para correr até Gileon, deu de cara com uma cópia de si mesma a olhando com olhos totalmente negros. Ela caiu no chão instantaneamente, rastejando para trás enquanto sua clone caminhava sem pressa até ela. Procurando saber se aquilo era ou não real, ela pegou um punhado de terra e atirou na coisa. Assim que o fez, a coisa desapareceu, sendo substituída por Gileon, que estava notavelmente confuso.

— O que foi, Emma? Parece que viu um fantasma.

— É… eu acho que vi sim.

— Vem cá, deixa que eu te ajudo. — falou, estendendo a mão para a garota.

Quando estava prestes a apertar a mão dele, Emma lembrou de um pequeno detalhe. Algo que nunca pareceu muito importante, mas que ela sabia que era verdade. Como num passe de mágica, sua expressão assustada se alterou para uma de fúria.

Numa velocidade que nem ela sabia que era capaz de ter, ela sacou a espada e desferiu um poderoso golpe contra ele. Entretanto, o ataque foi parado pela mão do bandido, que olhou para a garota totalmente inexpressivo.

— O Gileon é um babaca, ele nunca aceitaria o meu pedido de me chamar pelo nome, muito menos se ofereceria para me ajudar! — gritou alto o bastante para que alguns bandidos não muito distantes a ouvissem.

E então a forma de “Gileon” foi se distorcendo lentamente, e aquilo foi tomando a sua verdadeira forma. Diante de Emma, estava uma criatura totalmente diferente de tudo o que ela já conhecera. Uma forma humanoide esguia de no mínimo 2,5 metros de altura, totalmente pálido e com os membros, em especial os braços, extremamente desenvolvidos. Apesar de parecer humano, a criatura também aparentava ter traços reptilianos, com uma longa cauda, escamas e olhos âmbares crocodilianos. Acima dos membros superiores, lâminas ósseas se projetavam desde o antebraço até os dedos, onde se dividia em várias lâminas menores.

Sem fazer muito esforço, ele jogou a arma da garota para longe dela e, com a outra mão, preparou-se para golpeá-la com muita força.

Entretanto, antes que pudesse matar a garota, uma saraivada de flechas acertou as costas da criatura que grunhiu de dor. Virou-se para encarar os seus agressores, vendo os vários caçadores apontando seus arcos e outros se preparando para avançar para cima dela. Na frente de todos eles, encontravam-se rostos familiares para Emma.

— Olha só, parece que achamos o bicho papão! — Esther falou, sorrindo e cerrando os punhos que aos poucos se enchiam de chamas.

— E ele é feio pra caralho… — Athert completou, apontando seu cetro para a criatura.

— Vamos acabar com a raça desse calango super-desenvolvido! — Alex incentivou, dando mais ânimo para os seus colegas.

— Vocês ouviram eles pessoal, vamos acabar com essa história de uma vez por todas! Atacar! — Gileon concluiu, dando início à batalha.

Antes de se preocupar em combater os caçadores, a criatura tentou golpear Emma, esperando que ela ainda estivesse atrás de si, mas a mercenária já havia corrido para a mata e pego sua espada, correndo para o seu agrupamento.

Se vendo sem opções, a fera deu uma pisada que fez tremer o chão e rugiu em fúria, correndo numa velocidade assustadora na direção dos caçadores, que corriam na direção dela.

O primeiro ataque veio da besta, que tentou varrer uma seção dos bandidos com apenas um corte horizontal de suas armas naturais, mas Alex entrou na frente com seu escudo, que tentou se manter de pé firmando seus pés no chão. A força foi tanta que a ferreira foi jogada para trás, mas permaneceu de pé e conseguiu bloquear o golpe.

— Não esqueça de mim! — Gileon disse, balançando seu corpo e utilizando o peso da própria espada ao seu favor para lançar um golpe à esquerda, decepando um dos dedos ossudos do monstro.

Ela soltou um alto berro e tentou agarrar o ladrão com a mão.

— Técnica Arcana de Aprisionamento: Paralisar! — Athert gritou, ativando o feitiço que fez com que a mão da criatura simplesmente travasse, salvando Gileon do golpe. — Eu também tenho meus truques, desgraçado!

A criatura aos poucos estava sendo sufocada pela onda de ataques, recebendo uma boa quantia dos golpes. Contudo, não ficou assim por muito tempo. Com uma tremenda força, o monstro abriu espaço com os braços, empurrando vários bandidos para longe, incluindo Esther e Emma.

Ao obter o espaço que queria, a fera abriu a boca e cuspiu uma enorme quantidade de um gás branco, confundindo os atacantes e os deixando alucinados ao respirar a névoa. Todos que foram afetados pela neblina psicótica caíram ao chão, se contorcendo e tendo terríveis pesadelos.

No mesmo momento, Esther se levantou ainda um pouco tonta. Por ter sido jogada para longe, não foi afetada pelo gás. Sangue pingava de sua testa e ela estava arranhada em vários pontos. Seu corpo todo estava dolorido, mas ela ainda se manteve de pé.

Parece que você está perdendo… isso só prova o quão patética você é

Ao invés de rebater, Esther apenas riu da afirmação de sua outra parte, que ficou confusa com a reação dela.

O que… você está fazendo?

— Estou rindo da sua cara.

Mas… por que? Era para você se sentir terrível por ser uma falha!

— Eu já sei que sou, você não precisa me dizer mais isso.

O que?!

— Depois que eu tirei o peso dos ombros ao conversar com a Emma e conviver um tempo com os Stafford, eu entendi. Eu não preciso fingir ser quem eu não sou para mudar a minha vida. Só preciso ser eu mesma e seguir com a minha vida do meu jeito. É por isso que eu vou derrotar essa coisa!

Decidindo não se conter mais, deixou o calor ardente de sua alma tomar o seu corpo e caminhou na direção do monstro.

— E é por isso, por todas essas pessoas, que eu vou lutar! — Ela estendeu a mão para os céus e suplicou mentalmente para que Deus a desse forças, e, aparentemente, ele ouviu o pedido. — Eu já fui Garça, agora mostrarei que sou Fênix! Sincronização Espiritual!

Ah merd…

A voz de Esther ecoou por toda a floresta, e todo o seu corpo foi engolido por um vórtice de chamas que se estendeu até acima da copa das árvores. O evento chamou a atenção da criatura, que não estava entendendo nada do que estava acontecendo. Neste momento, Emma acordou e contemplou o nascimento de algo. Não, o renascimento de algo.

Tão rápido quanto surgiu, o furacão de fogo se dissipou, revelando uma silhueta erguida em meio à fumaça que persistia em ficar. A bruma negra foi jogada de lado por duas grandes asas incandescentes e majestosas. O cabelo loiro de Esther agora estava em chamas, e seus olhos estavam com as íris de duas cores, que eram o azul e o laranja. Seus punhos e pés estavam totalmente envolto em labaredas voláteis, deixando o resto do corpo do jeito que estava. Ela então fechou um punho no outro e, com um sorriso maldoso, disse:

— Menu de hoje: Churrasco de calango.

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