Uma Dupla Por Acaso

Logo assim que Verônica anunciou a liberdade de caça para os jovens ladrões, eles se dividiram e foram caçar em áreas que eles haviam escolhido pelo olhar um pouco antes de serem permitidos para sair das explicações da bruxa. Emma foi para o leste, Elron foi para o oeste e Adrielyel e Athert ficaram ali, ambos olhando para o sul, já que o norte era onde ficava um dos afluentes do grande rio que cortava todo o Pântano Esquecido, e era óbvio que eles não entrariam na água sem nem mesmo saber que tipo de perigos poderiam estar à espreita abaixo da superfície.

Eles ficaram um bom tempo sem dizer nada, apenas trocando olhares e recuando logo em seguida. Verônica já estava ficando impaciente com a demora dos dois, batendo o pé no chão repetidamente como forma de aliviar o estresse.

– Qual é, vão ficar parados aí até quando? Não temos o dia todo, vão logo! – A bruxa disse, um pouco irritada.

Os dois se encararam uma última vez, dessa vez permanecendo com a visão um no outro.

– Bom… acho que não nos sobra muitas opções, não é? – Athert comentou, um tanto constrangido por não ter conseguido falar nada antes.

– É, verdade. Mas de qualquer forma, por que aqueles dois nos deixaram sozinhos? Isso não se faz! – A elfa disse, emburrada.

– Então, na verdade, acho que foi a gente que não foi atrás deles… – Athert disse, virando o rosto e encarando o caminho à sua frente, pensando no quão adorável e fofa a garota de orelhas pontudas ficava quando fazia aquela cara.

– Ah… M-Mas isso não importa agora! Vamos para o sul! – Adrielyel tomou a iniciativa, caminhando em direção a um conjunto de arbustos que se formaram não muito longe dali.

Athert nada disse, apenas acompanhou a garota, afastando-se da feiticeira, que sorriu ao ver os dois indo embora.

– Ah… Crianças. Gyleon, como você aguenta essas coisas? – Ela perguntou para si mesma, lembrando de seu velho amigo.

Alguns momentos depois, Athert e Adrielyel estavam escondidos atrás de uma antiga canoa revirada, encalhada e tomada pela natureza. Era uma superfície firme e confiável o bastante para que eles se ocultassem da vista dos animais que eles estavam caçando. Do outro lado da embarcação, não muito distante,  um grupo de 5 lagartos mais ou menos do tamanho de um cão estavam devorando uma espécie de veado, distraídos demais para notar a presença próxima dos dois.

– Ok, qual é o plano? – Adrielyel questionou, olhando para Athert na espera de uma resposta.

– Considerando que o nível dessas criaturas está no mínimo 1 ou 2 níveis abaixo do nosso, considero que a melhor coisa a se fazer é matar eles o mais rápido possível. O problema é que você é uma arqueira e eu sou um sacerdote, não tem como a gente eliminar todos eles mais rápido do que eles podem se virar contra nós.

– Eu sei… mas, não tem nada que possamos fazer contra isso?

– Se você conseguir disparar 5 flechas ao mesmo tempo e ao mesmo tempo acertar todas, você seria a pessoa mais sortuda desse jogo, o que acho que você não é a partir do momento em que você segue eu e a Emma.

Adrielyel sorriu e fez que sim com a cabeça. No início, Athert não compreendeu totalmente o que aquilo significava, até que a garota pegou mais 4 flechas em sua aljava e as juntou todas na corda, levantando-se no mesmo instante. Athert tentou pará-la, mas já era tarde. 

Ela então, aproximou todas as flechas e deixou o arco na horizontal, tentando maximizar a área de acerto. Por fim, puxou a corda do arco, deixando as flechas voarem em direção dos animais, acertando todos e dando uma boa quantidade de dano, matando 3 e deixando 2 feridos. Mesmo com flechas presas em seus corpos, os dois restantes partiram pra cima da garota, que recuou, desviando do ataque de um, mas não do outro, que conseguiu morder sua perna, retirando 25 pontos da sua barra de HP. 

Athert agiu tarde, levantando-se e chutando o lagarto que se prendia à perna da elfa com os dentes, empurrando-o longe, mas não causando muito dano. Nesse intervalo de tempo entre a mordida e o chute de Athert, Adrielyel pegou duas flechas e preparou uma delas, atirando no animal que havia sido jogado longe. O outro, logo foi abatido pela segunda flecha, que veio rápido demais para que ele pudesse sequer reagir.

Quando as coisas finalmente se acalmaram, Athert ajudou Adrielyel à se encostar na canoa encalhada e depois recolheu as flechas e os itens que caíram logo depois que os animais desapareceram do chão. Em seguida, ele se aproximou do lugar onde a garota havia sido mordida, analisando o ferimento minunciosamente.

– Bom, acho que posso dizer que você é 45% sortuda, pois além de ter sido mordida por um monstro, você acabou com o efeito de veneno no seu corpo, por isso você está se sentindo cada vez mais fraca, seu HP tá diminuindo aos poucos. – Athert explicou, com uma expressão séria, mas possuindo um leve sorriso que passava a mensagem de que ficaria tudo bem.

– E-Eu vou morrer? – Adrielyel indagou, começando a ficar com medo.

– Morrer? Não, relaxa, o efeito do veneno vai passar naturalmente em cerca de 2 minutos, mas mesmo assim vou usar um feitiço de cura, vai restaurar um pouco do seu HP e provavelmente retirar o efeito do envenenamento. – Ele estendeu a mão e a colocou um pouco acima da ferida. – Oh, grandes deuses da vida, permitam-me por meio desta prece utilizar de vossa magia sagrada para curar meu aliado. Cura Sagrada! – A mão do rapaz brilhou em uma luz forte e rápida. Logo, a elfa se sentiu um pouco melhor, mas ainda precisava descansar um pouco.

– Athert…

– Diz aí. – Ele se encostou na canoa, espreguiçando-se.

– Agora que eu percebi, por que você não usou aquele seu cajado novo? Ele não é capaz de, além de cegar os inimigos com a luz, fazer com que eles fiquem hipnotizados? 

O demônio parou e pensou por um momento, olhando para seu cajado com a joia roxa com curiosidade e lembrando que tinha ele ali consigo. Ele bateu em seu rosto, escorregando a mão pela sua face.

– Meu Deus do céu, como pude ser tão idiota?! – Ele disse em voz alta, revoltado com si próprio.

– Calma, eu sei que você deve estar muito puto agora, mas não poderia se acalmar um pouco? – A elfa disse, rindo um pouco.

– Me acalmar?! Eu deixei você ser mordida de graça, isso é totalmente burrice! 

– Então você não está bravo por conta de eu ter me ferido, mas sim por ter sido descuidado?

– Claro! Eu não me importo com você se ferir, eu sou quase um médico, sabia?

– Se você diz, então eu acredito!

Athert suspirou, olhando para os lados para ver se não havia mais nenhum monstro se aproximando. Quando viu que não, apenas relaxou, ficando calmo mais uma vez.

– Assim que seu HP se recuperar por completo, a gente vai sair daqui e caçar mais. – Athert disse.

– Ue, você não pode usar o seu feitiço de novo?

– Essa cura consome mana demais pra mim que tenho pouca mana, quero pelo menos guardar um pouco pra caso eu precise usar um feitiço mais caro para conseguirmos fugir. Então não vamos sair daqui.

– O que? Mas assim vamos ficar muito atrás nos níveis!

– E isso importa? Se você morrer, os seus níveis não vão servir de nada.

– Só faltam 100 de EXP pra eu conseguir subir de nível! Aí eu vou ficar novinha em folha!

– Ok então, já que você insiste. Mas fique sabendo, se você morrer, a culpa é sua! – Ele disse, levantando-se e estendendo a mão para a elfa, que sorriu para ele.

– Já entendi, “doutor”. – Pegou a mão do rapaz, rindo levemente e se levantando, mancando um pouco.

– Vai conseguir andar?

– Vou sim. Não sou tão frágil como você pensa!

– Desculpa então, “Mulher-Maravilha”.

– Ah, para!

Os dois começaram a rir, mas a risada parou quando eles ouviram um quebrar de galhos se aproximando deles. Ambos entraram em alerta, esperando que o ser aparecesse. E então, correndo na direção deles, um grande javali apareceu, não muito distante, reduzindo a distancia entre eles à cada momento que se passava.

– Merda… sabia que tava bom demais pra ser verdade! – Athert disse, pegando seu cajado. – Seguinte Adrielyel, eu vou cegar esse bicho e a gente foge, ok?

– Não. – Ela falou, apoiando-se em um dos joelhos, preparando uma flecha.

– O que?! A gente vai morrer se ficar aqui!

– Oh, deuses da caça, emprestem-me teu poder avassalador para destruir meus inimigos. – A flecha começou a brilhar intensamente. – Disparo Letal! – Finalizou o feitiço, soltando a flecha.

Como se fosse um pequeno feixe de luz, a flecha voou pelo ar, acertando em cheio o olho do javali, desviando-o de seu caminho e fazendo-o tropeçar, caindo no chão, levantando uma pequena nuvem de poeira que logo se desfez. Alguns segundos depois, a aura brilhante familiar envolveu Adrielyel, revigorando-a e deixando-a novamente pronta para o combate. A garota sorriu, pulando de felicidade.

– E-Eu Consegui! Eu consegui! Você viu isso Athert? – A garota disse, animada.

– É incrível como sua personalidade muda de séria pra garota animada em uma velocidade mínima como esta. – Respondeu, sorrindo de volta pra ela.

– Hehe, pode crer!

– Enfim, agora você já está boa de novo, vamos botar pra quebrar!

– Bora!

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