Labaredas da Alma – Parte 2

A criatura passou alguns segundos observando a tocha humana que se aproximava dela com a maior tranquilidade enquanto seus passos queimavam as plantas envolta de seus pés. O selvagem brilho das chamas de Esther chamaram a atenção da besta, que logo trocou de foco na batalha. Pensando que sua oponente estava despreparada, ela se impulsionou, ganhando uma tremenda velocidade para avançar sobre a humana. No meio da investida, ela ergueu um dos braços laminados para desferir um corte na horizontal assim que chegasse no inimigo.

Contudo, os gládios ósseos nunca chegaram à carne de Esther, pois a mesma usou de suas asas flamejantes para dar um grande salto, ficando brevemente na altura da fera. Com a vantagem do elemento surpresa, ela intensificou as chamas no punho direito e socou a face do monstro, que ficou levemente atordoado por alguns instantes.

Usando dessa brecha na defesa do animal, ela esperou cair no chão para fazer mais um movimento com as asas, dessa vez a jogando para frente. Tentou dar mais um soco, mas o Demônio da Sussurros reagiu, segurando a mão da mulher e utilizando sua força para esmagá-la e perfurá-la com as lâminas de osso na ponta dos dedos. Sabendo que competir forças com o réptil não lhe renderia uma vitória, Esther levou o fogo em sua mão ao limite, explodindo tanto parte do punho do monstro quando a sua própria mão.

O ser pálido recuou, libertando a lutadora que quase caiu no chão, mas manteve-se de pé ao firmar os pés no chão. Para a sua surpresa, sua mão ainda estava lá, mas gravemente ferida, com feridas expostas que não jorravam sangue, pois todas haviam sido cauterizadas pelas chamas agora extintas de seu punho. Além disso, também começou a sentir o caro preço da Sincronia Espiritual. Seu corpo fraquejou, mas a força de vontade que carregava consigo a manteve de pé. Entretanto, não sabia por quanto tempo conseguiria se manter assim.

Foi tirada subitamente de suas preocupações pelo monstro, que lançou uma sequência de golpes horizontais e verticais com as lâminas. Mesmo desviando da maioria, ela não pode impedir que alguns atravessassem seu sobretudo e alcançassem a sua pele de raspão. Ao tentar desviar de mais um ataque, teve seu movimento parado por uma árvore atrás de si. Aproveitando disso, o monstro lançou um ataque duplo em ambos os sentidos, encurralando a guerreira.

Para escapar dessa situação, ela usou as asas e as pernas para jogar-se para o lado, fugindo da morte certa. A árvore em que se encostara, no entanto, não teve a mesma sorte, sendo destruída pelo poder da criatura, que não perdeu tempo e foi atrás de sua oponente ainda no chão. Porém, antes que ela pudesse ser atacada novamente, os bandidos que foram jogados para os cantos se ergueram para lutar novamente, com exceção de Emma, que estava com dificuldades para tal.

Quando a garota recobrou a consciência, viu a situação de Esther e tentou se levantar de imediato, mas foi impedida por uma dor lancinante vinda de sua coxa. Um galho afiado havia atravessado de um lado ao outro, ficando preso ao membro. A dor a fez cair novamente no chão, o que só aumentou a dor. Percebendo a situação em que sua portadora estava, Âme se materializou ali mesmo para tentar ajudar de alguma forma.

Enquanto isso, os caçadores davam o seu máximo contra o Fantasma, golpeando onde houvesse espaço para cortar, dando tempo para que Esther conseguisse se levantar outra vez. À medida que suas chamas perdiam o calor, ela também sentia sua energia se esvaindo rapidamente. A breve oportunidade de descanso que os ladrões deram à ela se foi no momento em que ela viu no que a luta havia se tornado: um verdadeiro massacre.

A criatura balançava seus braços laminados cegamente, cortando de forma brutal muitos caçadores. Seus corpos tornavam-se luz e desapareciam logo depois, deixando os pequenos cristais para trás. Os gritos finais dos lutadores ecoaram pela cabeça da guerreira, que sabia que as vidas tiradas alí jamais voltariam, o que a deu forças para começar a se mover.

— Pare com isso… — exigiu num sussurro seco, forçando um passo para frente. Suas pernas se negavam a andar mais rápido, mas a sua força de vontade a tornava imparável. Suas limitações já não importavam mais, nem mesmo os efeitos da transformação eram capazes de pará-la naquele momento. — Pare agora! — Esbravejou, partindo para cima da fera que estava ocupada demais com os bandidos para notar a veloz aproximação da flama humana em sua direção.

Usando da propulsão de pequenas explosões de fogo em seus pés e do bater de suas asas, Esther jogou-se para o alto, ficando na altura do monstro, que teve apenas o relance da chama escarlate pelo canto de seu olho. Sua única reação possível foi girar a parte superior do seu corpo e direcionar o seu braço musculoso para interceptar o ataque, buscando ainda olhar para a ameaça. E, ao fazer isso, contemplou a imagem no interior daquela labareda voraz e volátil. Entre o intenso brilho chamuscante, encontrava-se uma expressão de fúria decidida e selvagem, beirando a vontade pura de ajudar os outros e a raiva escaldante, tudo isso imbuído naquele coração envolto por chamas. Ela estendeu o braço que ainda lutava para se manter e projetou toda a sua energia remanescente ali, criando uma poderosa lança de fogo.

Mesmo com a defesa inimiga, ela não ousou hesitar. E apesar de seu péssimo controle daquilo, ela não ia errar um disparo à queima roupa. Com toda a determinação que ela podia reunir naquele momento de desespero, ela gritou:

— Arda em fogo, seu lagarto de merda!

A fala foi seguida de uma forte explosão alaranjada, que envolveu todo o corpo do monstro em segundos. Já Esther sentiu o efeito direto da onda de choque, tendo seu corpo jogado para trás e seu voo desgovernado parado violentamente por uma árvore no caminho. Antes de ficar completamente inconsciente, ela pôde ter o vislumbre de suas chamas começando a consumir seu formidável oponente.

Os caçadores se afastaram da besta, que se contorcia descontrolada, queimando algumas partes da grama abaixo de si. Ela se debateu por mais alguns instantes antes de ficar imóvel. Logo depois, o fogo se extinguiu, revelando o corpo queimado da fera. O cheiro da carne queimada era horrível, mas nem isso impediu os bandidos espantados de ficarem felizes. Era algo que muitos deles não conseguiam expressar, enquanto outros já estavam de joelhos no tapete verde às lágrimas por seus amigos caídos.

O breve silêncio deu lugar para urros vitoriosos e gritos esperançosos, vindos de homens e mulheres que sonhavam com aquele momento há mais tempo do que eles podiam se lembrar. Até mesmo alguns dos incapacitados pela névoa alucinógena estavam começando a se reerguer de seus pesadelos.

Emma arriscou um sorriso mesmo com a sua situação, contando os segundos em sua mente antes de arrancar de uma vez o galho atravessado em sua coxa. Uma dor excruciante percorreu todo o seu corpo, desencadeando um grito que chamou a atenção de alguns bandidos, que se prontificaram em ir ajudá-la, e outros faziam o mesmo com Esther, que não parecia muito melhor que ela. Sem Athert, curar aquelas feridas iria exigir uma longa espera, seja para voltar para Hermes ou esperar até que o sacerdote acordasse. Mesmo assim, tudo parecia melhor e mais alegre, como se aquela luta finalmente houvesse acabado.

Contudo, os festejos e comemorações dos caçadores foram interrompidos da pior maneira possível. Grunhidos fracos acompanhados de movimentos leves vindos da criatura tomaram toda a felicidade e alegria deles, que apenas observaram pasmos a criatura se levantar aos poucos. Exaustos, alguns até tentaram partir para cima do monstro para impedir que se levantasse, mas fora em vão. Mesmo os empurrões enfraquecidos do lagarto eram o bastante para afastar seus agressores de si. Ela se levantou, ficando de pé e rugindo para o alto, indicando que ela ainda estava apta a lutar.

Ao redor, vários focos de incêndio tomavam forma por conta das chamas de Esther, tornando a atmosfera do local ainda mais hostil. O Demônio virou os seus grandes olhos âmbares para Emma, que devolveu o olhar com uma expressão de raiva e medo. Com passos lentos, a coisa começou a se mover na direção da garota.

Incerta do que fazer diante da situação, a mercenária não conseguia se mexer. O pavor de não saber como agir acompanhava a dor na torrente de pensamentos que invadiam a sua mente. Ela sabia que aquele era o pior momento para ficar indecisa, mas ela não conseguia evitar. Foi quando ela olhou para Esther, que estava sendo carregada por alguns bandidos para longe junto ao resto do bando, que recuava cada vez mais. Ao pensar que todo o esforço dela seria jogado fora se ela fugisse dali, um sorriso nervoso formou-se em seu rosto.

Vou me odiar mais se fugir ou me forçar a lutar com essa coisa? pensou, dando um passo à frente.

Ela entendeu o que devia fazer.

Âme, ao perceber o que se passava na mente da garota, pensou em intervir, mas sabia que de nada adiantaria. Com isso em mente, a raposa branca acompanhou sua portadora na dolorosa caminhada, até que ela parou não muito distante da fera

— Para alguém que pensa bastante em si mesma, você tem sido muito altruísta desde que chegou aqui. — Âme comentou, saltando para frente da garota.

— É, parece que esse lugar muda as pessoas. — respondeu, estendendo a mão para o animal. — Pronta?

— Eu que devia estar perguntando isso. Seja lá o que acontecer, a culpa não é minha. — concluiu, pulando para o braço da garota e entrando em seu corpo.

O monstro deu um passo forte, preparando-se para um ataque direto contra a garota, que apenas ficou parada esperando que o que viesse fosse salvá-la do golpe devastador. Quando a lâmina de osso do réptil estava prestes a cortar Emma ao meio, ela gritou:

— Sincronizar!

Ao dizer isso, Âme ativou seu gatilho, fundindo-se de vez à alma da garota. No mesmo momento, todos os fragmentos de seu espírito uniram-se de uma vez só, dando ainda mais potência.

Do lado de fora, uma onda de choque evitou a morte de Emma, empurrando o lagarto humanóide alguns metros para trás. Os bandidos pararam de recuar, sentindo-se inspirados novamente, pois sentiam a aura poderosa vindo da jovem.

Num instante, alguns fios de seu cabelo tornaram-se brancos semelhantes à pelagem de Âme. Além disso, outras características da raposa vieram com a transformação, como um rabo felpudo e garras no lugar das unhas. Por fim, suas íris tomaram as cores do arco-íris, representando as cores de sua alma.

Ela sentiu-se renovada, mas sua perna ferida ainda pesava sobre seu corpo, afinal,ainda era um buraco que atravessava a sua coxa. Mas ela não deixaria a dor lhe impedir. A energia dentro de si precisava sair de alguma forma, e ela conhecia a maneira exata de fazer isso.

Ao mesmo tempo, a fera já havia se recuperado do empurrão e de boa parte das queimaduras, dando-a liberdade para avançar sobre a garota. Com uma investida poderosa, ela preparou um ataque com a lâmina na vertical, desferindo-o assim que chegou perto o suficiente. Porém, Emma desviou com facilidade, tendo tempo para contra-atacar. Com a espada em mãos, ela segurou-a com as duas mãos e tentou cortar o braço do monstro com um único golpe. Mesmo sem muita força, a velocidade com que a lâmina desceu fez com que a mesma se enterrasse profundamente na carne da criatura, parando no denso osso que lutou para não quebrar. Entretanto, aquilo não afetou só o animal, pois a guerreira pôde sentir seus braços doerem de forma intensa.

Mesmo com a ferida, seu adversário não perdeu tempo, e tentou lançar mais um ataque rápido, dessa vez usando sua mão para agarrar Emma por traz. Em resposta, ela firmou a perna boa no chão, pegando impulso para um desvio menos preciso, o que fez suas costas serem arranhadas pelas lâminas ósseas no braço da criatura. Aproveitando a proximidade ganha com o avanço, ela girou seu corpo e acertou em cheio com sua arma numa das pernas do inimigo, que só não foi decepada por conta da resistência do osso.

Ao fazer isso, ela se surpreendeu ao sentir outra forte dor nos braços, o que a desestabilizou, abrindo espaço para que o oponente desse uma joelhada em sua barriga, jogando-a para trás. Mais uma vez, Emma foi ao chão, mas ela se obrigou a levantar. Seu todo doía, em especial suas pernas e braços. Pelo que ela imaginou, a força criada por sua tremenda agilidade era demais para seu corpo manejar de forma precisa, o que refletia em fortes dores musculares.

Mal teve tempo para continuar tentando entender, pois assim que se levantou, viu o punho do Espectro quase a alcançando. Devido à necessidade de reagir de imediato, tudo o que pode pensar em fazer foi devolver o ataque com toda a força que podia reunir naquele instante.

Numa surpreendente demonstração de poder, ela conseguiu parar o golpe, mas essa ação teve um alto preço: a força da besta e a força de reação à sua velocidade quebraram os ossos do membro de maneira brutal, expondo alguns que rasgaram além da pele.

A dor era algo indescritível, diferente de tudo o que ela já sentira em toda a sua vida. Mas ela não podia parar para chorar ou gritar, caso contrário, ela morreria. Em retaliação, usou seu único braço funcional para acabar de vez com o membro do oponente, atravessando o osso e cortando-o de vez. Sangue jorrou para todos os lados. O chamuscado recuou, berrando de dor. Os gritos dele terminaram de acordar todos os caçadores outrora alucinados. Vendo que aquela era a oportunidade perfeita para retomar o avanço, os ladrões retomaram sua coragem e atacaram o monstro todos juntos.

— Foi mal por te deixarmos esperando! — Alex disse, passando por Emma correndo para defender os ataques desesperados da fera e, consequentemente, salvando várias vidas.

— É o seu momento! Mate esse filho da pu… — Athert gritou enquanto curava os feridos, mas teve o resto de sua fala interrompido por Gileon.

— Emma! Vai! Dê um fim nisso de uma vez por todas! — esbravejou, dando à ela a vontade para levantar mais uma vez.

Com toda sua energia restante, ela correu numa velocidade absurdamente grande, não se importando com a dor em suas pernas. Segurando a espada em mãos, ela saltou, erguendo a espada acima de si. Então, para finalizar aquilo, ela canalizou toda seu poder restante no braço e desferiu um golpe na vertical diretamente na cabeça do lagarto, atravessando o crânio de uma só vez e dividindo-o em dois.

Assim, os gritos da criatura que aterrorizou a Floresta dos Sussurros por tanto tempo enfim cessaram. De repente, o céu ficou escuro e a chuva logo veio, acabando com o fogo antes que ele se espalhasse por toda a mata. Por alguns segundos, nenhum outro som foi ouvido além da chuva salpicando o mundo abaixo dela. E, após o começo da chuva, o cadáver do Demônio da Sussurros tornou-se partículas de luz logo carregadas pelo vento e cumprindo sua vida efêmera, desaparecendo em poucos instantes. Emma jazia no chão, desmaiada e com muitas feridas espalhadas pelo corpo.

— Nós… conseguimos? — Alex arriscou, não sabendo se já poderia ficar alegre.

— Sim… — um dos caçadores respondeu, caindo de joelhos no chão e erguendo o punho para cima. — Nós conseguimos!

Em seguida, muitos outros comemoraram, dessa vez com a certeza de que tudo havia acabado. Entre tristezas e alegrias, aquele seria um dia a ser lembrado por muito tempo, e eles poderiam enfim descansar.

⥏☉☉✡☉☉⥑

Emma viu-se de pé sobre a superfície inerte de um grande mar. No horizonte, uma única porta aberta erguia-se em meio à imensidão azul. Curiosa, ela andou sobre as águas calmamente, se aproximando do estranho marco. Quanto mais perto ficava, mais vozes era capaz de ouvir dentro de sua cabeça. Todas elas eram estranhamente familiares, mas ela não sabia dizer a quem pertenciam. Eram como sussurros fantasmagóricos que ecoavam sem rumo pela paisagem vazia, dizendo palavras confusas que misturavam-se entre si.

Ficando de frente para a porta, ela enfim conseguiu ver o que havia do outro lado. Uma sala escura, iluminada apenas por uma fogueira de chamas azuis que ficava logo abaixo de uma curiosa estrutura flutuante, cercada por seis estranhos fragmentos que giravam ao seu redor. Dentre as inúmeras frases que as vozes diziam, ela conseguiu distinguir uma:

Uma vez separadas, agora unidas. Seis mortas, duas vivas.

— Isso ao menos significa algo? — perguntou a si mesma, tentando relacionar a frase àquela estranha situação.

De repente, ela foi puxada para baixo por algo. Quando olhou para ver o que era, não havia nada. Tentou resistir, mas seus esforços foram inúteis. Em pouco tempo, estava com o pescoço para fora da água. Quando sua cabeça foi-se de vez, fechou os olhos por um instante e, quando abriu, viu-se em um lugar completamente diferente daquele, movendo-se rapidamente no que parecia ser um carro. E ela conhecia aquele lugar muito bem.

— Golden Gate Bridge…? — disse, sem entender o que estava acontecendo. Ao ouvir sua voz mais fina do que o comum, olhou para as suas mãos e para seu corpo. Por algum motivo, ela voltou a ser uma criança, não devia ter mais de 6 anos.

— Filha? — uma voz feminina questionou. Ao olhar a origem da voz, Emma se deparou com alguém que ela não via há muito tempo. Ela estava mais jovem do que ela podia se lembrar também. Era uma bela mulher de olhos cerúleos e de cabelos negros ondulados, vestindo uma blusa branca e usando seu típico óculos. — Vejo que acordou, minha princesa. — falou com um grande sorriso no rosto.

Ela olhou para os cantos e pôde ver seu pai dirigindo, não prestando muita atenção no diálogo entre as duas. Era um homem de cabelos castanhos curtos e de olhos negros, e estava usando sua camisa polo favorita. Ao menos, era o que ela conseguia lembrar naquele momento.

Lembranças da minha infância? Isso não é normal. Será um daqueles fragmentos de memória?

Antes que pudesse pensar mais sobre aquilo, a força invisível a puxou novamente, dessa vez para trás. De alguma forma, o banco não a segurou, e ela passou direto, afundando na escuridão do desconhecido.

⥏☉☉✡☉☉⥑

A garota acordou ofegante e suada, um pouco assustada por conta do que ela acreditava ter sido um pesadelo. O lugar em que estava era um quarto empoeirado com uma única janela, que estava aberta. O céu azul e brilhante indicava que devia ser cedo. No pé da cama, algumas flores e moedas espalhadas, não tendo registro de quem poderia tê-las enviado.

Eles acharam que eu morri? Por quanto tempo eu dormi?

Olhou para seus braços antes de tentar mexê-los, vendo-os enfaixados e aparentemente normais. Arriscou levantar o braço mais ferido e, ao conseguir, suspirou de alívio por sentir apenas um resquício de dor. O outro também estava normal. Depois, foi a vez das pernas, que também funcionavam normalmente. Ao levantar o cobertor para vê-las melhor, viu que também estavam enroladas em tiras de papel e pano.

Suas vestes eram as mesmas, com exceção do sobretudo, que estava jogado sobre uma escrivaninha próxima.

Ouviu barulhos altos vindos do lado de fora, decidindo dar uma olhada. Pôs os pés no chão com receio, mas sentiu-se bem ao ver que conseguia se manter de pé. Contudo, sua caminhada estava um pouco mais lenta que o comum, pois suas pernas estavam meio torpes por conta da última batalha. Pela janela, ela viu a cotidiana multidão de Hermes, mas, dessa vez, caravanas com brasões diferentes estavam por todo o canto. Havia mais gente que o comum nas ruas. Ao imaginar que aquilo era consequência de seus atos, deixou um sorriso tímido se formar em seu rosto.

— É bonito, não é? — a voz de Gileon chamou a sua atenção novamente para dentro do quarto. O homem estava encostado no batente da porta, carregando consigo uma caneca de cerâmica com o que parecia ser água.

— Nós fizemos isso acontecer?

— Bom, você e aquela outra mulher fizeram a maior parte do serviço… mas sim. Com o Demônio da Sussurros morto, as rotas comerciais entre Hermes e Luvy finalmente puderam ser criadas. — se aproximou da garota, oferecendo-lhe a caneca. Ela aceitou, dando um longo gole para molhar a garganta.

— Por quantos dias eu dormi?

— Dois dias. — Ao notar a expressão de espanto no rosto da jovem, o homem riu. — O que foi? Não gosta de receber flores?

— Só os mortos recebem flores… e eu estou bem viva.

— Graças ao Athert. O rapaz tratou de você com tudo o que tinha, fez praticamente tudo sozinho, mas o Damian ficou te vigiando enquanto dormia pra ter certeza de que estava tudo bem.

— E a Alex?

— Ficou chorando igual uma criança pensando que você podia morrer. — emma riu. Estava feliz, não entendendia direito o porque, mas ela não se importava.

— Isso é bem a cara dela mesmo. — de uma outra pausa para terminar de beber o líquido, deixando a caneca na escrivaninha e sentando na cama. — E a Esther? Como ela está?

— Está preocupada com a mulher que tentou te matar? Você realmente tem um coração maior do que eu imaginava.

— Como você…

— A Loirinha contou tudo para nós, mas nem mesmo ela sabe de tudo sobre você. Eu não me importo muito com o seu motivo de estar aqui ou algo assim, mas acho que você deveria explicar para aqueles dois o que está acontecendo.

— E a minha pergunta?

— Não tente mudar de assunto tão descaradamente, é falta de educação — suspirou, desistindo da pergunta que fez. — Ela está bem. Teve ferimentos mais leves que você e por isso voltou para casa ontem de noite. Com a fama e o novo título de “Fênix Guerreira”, ela tá fazendo uma grana boa cumprindo missões por si mesma. É a primeira vez em meses que a casa dos Stafford recebe uma reforma geral. — riu com o próprio comentário, mas Emma não fez o mesmo. Apenas sorriu sem mais preocupações.

De súbito, sons de passos ecoaram do lado de fora do quarto. Gileon olhou para trás e sorriu ao ver de quem eram.

— Vou deixar você com eles. — disse, saindo do quarto e dando espaço para que Alex e Athert entrassem.

A ferreira veio correndo, pulando nos braços de Emma e a abraçando, enquanto o sacerdote se encostou numa parede próxima.

— Eu tava tão preocupada com você droga! — Alex disse, apertando sua companheira. — Nunca mais faça esse tipo de coisa com a gente!

— Idiota, não a aperte tanto. Ela acabou de se recuperar de uma briga feia.

— Obrigado, Athert. Sem o seu socorro imediato, eu podia ter morrido naquela floresta. — O sorriso agradecido da jovem fez o coração do jovem palpitar. Virou o olhar paradisfarçar a vergonha.

— É… eu sou o melhor mesmo, eu sei. — falou no seu tom desdenhoso de sempre, mas toda a imagem que ele queria construir desmoronou com suas bochechas rosadas.

— Só por hoje, amanhã eu voltou a te chamar de babaca. — disse em resposta, deixando-o feliz pela normalidade. — E valeu por se preocupar comigo, Alex.

— Era o mínimo que eu podia fazer! Eu mal ajudei na luta… fiquei tendo pesadelos horríveis por causa daquele maldito gás do calango mutante.

— Bom, o que importa é que tudo acabou bem. Mesmo que alguns tenham morrido… as coisas melhoraram para toda a cidade.

— E agora? Vamos fazer o que? — Athert fez a pergunta que Emma não queria ouvir, mas ela não tinha como escapar agora. Ela suspirou e tirou Alex de cima de si.

— Primeiro, eu devo algumas explicações para vocês. Depois de tudo o que fizeram por mim, vocês merecem saber quem eu sou e porque eu estou aqui.

⥏☉☉✡☉☉⥑

Ao final da história, ambos estavam chocados, sem saber o que dizer diante daquilo.

— E então, vocês querem continuar a me seguir? Mesmo sabendo de todos os riscos? — Ela perguntou, já imaginando a resposta.

— Eu já disse… não importa o que for, eu irei seguir você. — Alex respondeu, deixando apenas Athert frustrado por não saber o que dizer.

— Eu… — Antes que ele pudesse falar, Gileon interrompeu, entrando no cômodo.

— Eu ouvi vocês. — a aparição dele surpreendeu por alguns instantes, mas Emma logo se recompôs. — Espero que você tivesse a intenção de me contar isso mais tarde, jovenzinha.

— Eu tinha, acredite em mim. Você ter ouvido apenas adiantou para o meu lado. Quanto mais pessoas souberem disso e se mobilizarem contra a Menorá Áurea, mais chances temos de vencer a guerra antes mesmo que ela comece.

— Então vocês precisam ir para Luvy. A cidade fica no meio de um pântano cheio de monstros para matar, ou seja, dinheiro e experiência, o que mais um aventureiro poderia querer?

— Isso não é uma aventura… mas eu vou usar esse termo.

— Uma caravana minha parte amanhã para Luvy, pode deixar que eu levo vocês de graça. Pra pagar a dívida que fiz ao fazer vocês passarem por tudo aquilo. Por hoje, bebam e se divirtam à vontade, aproveitem o melhor de Hermes! Eu, infelizmente, tenho muito trabalho a fazer. Vejo vocês amanhã, meus caros amigos. — concluiu, despedindo-se com um sorriso no rosto.

Um curto silêncio perdurou no cômodo, até que Athert enfim resolveu falar.

— Eu vou com vocês. Não posso deixar as duas pessoas mais idiotas e corajosas desse mundo sozinhas. Afinal, ter um suporte é sempre bom. — Falou, dando oportunidade para todos ali sorrirem.

Após isso, Emma foi para o bar com seus dois novos amigos, descansar de tudo o que passou, e se preparar para tudo o que viria. Seis dias se passaram desde que ela chegou a Yharag, e muita coisa aconteceu nesse meio tempo.

Contudo, ainda há muito para se conhecer e enfrentar nessa grandiosa jornada pela redenção. Inimigos formidáveis, um assombroso passado e uma guerra sem limites. Todo começo tem um fim, e todo fim tem um recomeço. E este, é só começo dessa longa batalha.

Arco 1 (Cruzada no outro mundo) – Fim

/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/

Muito obrigado a todos que acompanharam a história até aqui. Sério, vocês são incríveis. Como a própria história mostra, recomeçar do zero não é nada fácil, e eu tive de reescrever essa história do zero, e bem, ficou muito melhor!

Agradeço a paciência de vocês que aguentaram longos períodos sem capítulos porque o autor aqui é preguiçoso na maioria das vezes, mas eu prometo tentar mudar isso com o tempo!

No mais, fiquem no aguardo do novo arco de Re:Birth, que sai semana que vem. Novamente, obrigado por tudo!

Próximo Arco: (Sombras do Charco)

– Saya

Comentários