Perigo Iminente

Toda a descrença de Emma sobre a improvável ação dos membros da tal Menorá Áurea caiu por terra no mesmo instante em que ela se deu conta do que estava acontecendo. Os olhos oceânicos da mulher loira pareciam sufocar a jovem com o simples ato de encará-la, afogando-a no mar azul de suas íris.

A mente da garota preencheu-se de dúvidas sobre o que estava acontecendo e opções para contornar aquele problema, apesar de nada parecer fazer sentido para ela. A única coisa que pôde fazer foi se acalmar e tentar agir de forma sensata, não deixando a tensão prevalecer sobre sua mente.

— Não sei de quem está falando, por acaso me confundiu com outra pessoa? — disse, esforçando-se ao máximo para não gaguejar.

— Sua encenação é falha, Raposa. Vou dar-lhe mais uma chance para se redimir com a nossa causa — disse, estendendo a mão para a garota. — Venha, não precisa ser dessa forma.

A proposta parecia tentadora, pois Emma já não conseguia pensar em mais nenhum método de fuga viável e seguro. Com os olhos, sondou tudo ao seu redor e colocou sua mente ao máximo.

Diante de sua percepção, o tempo pareceu desacelerar aos poucos. Em um intervalo de poucos segundos, várias opções foram adicionadas e descartadas à lista mental da garota, até que ela notou algo. Esse algo, para alguém não acostumado à rotina da cidade grande, poderia significar nada. Mas, para Emma, significava sua salvação. Exatas 7:30 da manhã

— Ei, você sabe que horas são? — a garota questionou, relaxando o corpo para o que estava por vir.

A dama de preto virou-se, encarando o relógio digital com dúvida da pergunta repentina da garota.

— 7:31, por que?

Emma riu zombeteiramente, encarando a mulher de preto com um sorriso orgulhoso e confiante.

— É hora do show da manhã! — disse, andando um pouco para a direita da moça.

Enquanto tentava compreender o que aquela estranha afirmação significava, a desconhecida de preto notou que o fluxo de pessoas naquela rua estava aumentando gradativamente, e então ela entendeu tudo.

Antes que pudesse ver, Emma havia desaparecido entre as dezenas de pessoas passando ao mesmo tempo na rua. Ela fez uma varredura extensa, mas mesmo assim não a encontrou. Com uma das mãos, pegou o telefone que jazia em seu bolso e discou um número.

— Beija Flor, aqui é a Serpente. Mande qualquer agente pra cá, qualquer um! O horário dificultou as buscas, necessito de ajuda imediata. Desligo — concluiu, voltando a andar no mesmo momento.

A alguns metros dali, Emma ziguezagueava entre as pessoas, andando mais tranquilamente para se misturar à multidão. Assim que notou que havia despistado sua perseguidora, ela suspirou de alívio, e logo depois riu da própria situação. Alguns minutos mais tarde, ela enfim estava próxima do campus da universidade, e com vinte minutos de sobra.

No caminho, ponderou sobre os acontecimentos anteriores, tentando entender como aquilo tudo havia acontecido em tão pouco tempo, e logo depois dela ter feito a maior revelação do século XXIpara todo o globo. Aparentemente, o grupo que a perseguia, a Menorá Áurea, estava atrás dela por acreditar que ela os apoiaria, já que tinha revelado para todos o maior segredo do século XXI, o Projeto Re:Birth, que transferia a mente de pessoas mortas para um mundo digital, onde poderiam viver por toda a eternidade.

Ligando os pontos, ela pôde compreender que as consequências de seus atos poderiam ser ainda maiores do que ela estimou serem. Observou tudo ao seu redor e, mesmo acostumada com a vida da cidade grande, sentia-se um pouco sufocada por tudo aquilo. Por sorte, o planeta não estava em risco, já que os projetos ambientais do ano de 2022 tinham praticamente zerado a poluição em todo o mundo. Contudo, o avanço desenfreado do progresso afetou a sociedade humana, mudando-a profundamente. Nem tudo o que está enterrado deve ser trazido à tona… ela lembrou da frase que seu pai sempre dizia, acumulando um pouco de arrependimento por seus atos.

Foi banida de seus devaneios pelo badalar do sino digital da cidade, marcando o horário de 7:45 da manhã. Ao notar isso, andou o mais rápido que pôde para chegar a tempo em sua universidade.

Faltando dez minutos para que ela se atrasasse, ela enfim conseguiu chegar ao campus da Universidade de Columbia. No momento em que pisou no caminho que levava para as construções principais, sentiu-se muito aliviada e segura, como se tudo o que ela havia passado anteriormente não fosse mais que um sonho. As construções familiares abraçavam-na num aperto invisível, mas aconchegante.

Nas aulas, mal conseguiu se concentrar por conta das suposições que criava em sua cabeça. O pavor a dominou de tal forma que ela nem ao menos saiu da sala de aula durante o intervalo. O relógio estava desfavorável para a universitária, que desejava que aquelas oito horas dentro da instituição nunca acabassem.

Todavia, o tempo passou rápido e, antes que pudesse notar, já era hora de voltar para casa. O grandioso Sol já estava se pondo quando Emma saiu do campus cheia de incertezas e temores. Olhando ao redor, não havia nada de anormal, era a mesma cidade que ela tanto conhecia. As luzes neon já haviam começado a se materializar onde os raios do sol eram mais fracos, anunciando que o frenesi da tarde em breve começaria.

Mesmo assim, ela sabia que não poderia fugir para sempre. A única pessoa que poderia salvá-la era ela mesma, e sabia disso. Mais uma vez, respirou fundo e focou-se nas rotas alternativas que poderia usar para chegar em casa, traçando um mapa mental perfeito, com rotas de fuga e saídas caso necessário. Eu não vou perder essa luta, ela pensou, começando a caminhar.

Reparou em tudo no caminho, não deixando um único detalhe passar. Nada de anormal foi capturado pelo seu campo de visão, o que a confortou um pouco. Desde que havia despistado a mulher de preto, nada estranho havia acontecido de novo. Desistiram de mim? Espero que sim…, afirmou em sua mente.

Os atalhos a levaram rapidamente até seu prédio, que brilhava em meio à paisagem crepuscular. Ao redor, a tão familiar aurora prismática já havia começado a mergulhar Nova York no mar fulgurante de luzes e clarões, o que deixou Emma com um pouco de saudades da simplicidade de seu antigo lar, como sempre acontecia.

Entrou no prédio e usou o elevador para subir até seu andar, sentindo-se confiante e segura por enfim chegar ao seu lar. Quando ficou de frente para a porta de seu apartamento, ela sorriu ligeiramente, feliz por estar em casa depois de tudo o que tinha acontecido naquele dia. Girou a maçaneta e entrou na residência, indo direto para o seu quarto, jogando a mochila em sua cama e tirando seu casaco.

Entretanto, ela percebeu algo que mudava tudo naquela situação. Algo simples e rotineiro que ela sempre fazia estava diferente. Infelizmente, já era tarde demais para correr.

— Eu… eu fechei a porta quando saí…

O som de passos começou a ficar cada vez mais próximo, até que parou na porta do quarto.

— Você se surpreenderia se soubesse a facilidade que é invadir apartamentos como esse hoje em dia — disse uma voz feminina por trás dela.

Emma virou-se rapidamente, encarando uma mulher alta, trajando-se com um sobretudo branco, que retribuiu o olhar com seus grandes e penetrantes olhos de cor âmbar. Possuía um curto cabelo prateado, diferente de tudo do que Emma já havia visto.

— Não se preocupe, não vou fazer mal à você — afirmou, tentando tranquilizar Emma.

— E quem é você primeiramente? Não lembro de ter convidado você para tomar um chá.

— Emma Adams, frequenta a Universidade de Columbia, é separada dos pais desde que entrou para a universidade. Tem o hack como hobbie, utilizando o nome de Raposa Branca quando praticando seus atos. Suas brincadeiras não vão funcionar comigo, desista.

Vendo que todas as suas chances de convencer a mulher à sua frente eram nulas, ela sentou em sua cama e começou a gargalhar, rindo da própria desgraça. Quando enfim parou de rir, ela encarou a dama de branco com um sorriso.

— Tudo bem, você me pegou, não tenho como me defender diante disso. E então, o que acontece agora? — questionou, um pouco mais tranquila por conta da aparência pacífica de sua hóspede indesejada.

— Como já deve ter percebido, nós estamos atrás de você pois queremos sua ajuda para realizar nossos ideais. A Menorá Áurea deseja frear o progresso abusivo da humanidade, custe o que custar. Tudo isso se liga no Projeto Re:Birth, e, ao mesmo tempo, se conecta à você.

— Então quer dizer que eu sou a culpada por tudo isso estar acontecendo? Só por dar a verdade para o povo? As pessoas merecem saber o que está acontecendo com esse projeto.

— No entanto, ao fazer isso, você acabou por iniciar uma guerra entre religiosos, cientistas e grande parte da população mundial. E com a Menorá Áurea não poderia ser diferente. É por isso que estou aqui, te pedindo ajuda.

— Ajuda? Por que eu ajudaria você? — indagou, deixando-se cair na cama logo em seguida.

— Não espero que ligue para as outras milhares de vidas em risco, mas acho que liga para a sua — falou num tom desdenhoso. — Eles são extremistas, se não ajudar eles, você vai morrer.

Quando a mulher de cabelos prateados falou isso, Emma engoliu em seco. Quis imaginar que aquilo não passava de um blefe para convencê-la, mas a seriedade na face da pessoa à sua frente descartou qualquer questionamento sobre tal.

— Eu pensei que você os apoiava, o que foi que mudou tanto? — perguntou, tentando parecer mais tranquila.

— Eu entrei na organização por motivos pessoais, mas, ao perceber que o que eles pregavam não era a paz, eu não pude ficar parada e esperar para ver pessoas morrendo. Mas não posso fazer isso sozinha — suspirou, apoiando-se no batente da porta. — E então, topa enfrentar uma organização cheia de zelotas violentos para salvar a humanidade? — propôs, num tom um pouco deprimido.

— Eu tenho escolha? — Emma inquiriu, tentando uma última chance, mesmo já prevendo a resposta.

— Se for a escolha da decoração do caixão… — respondeu, comicamente, sorrindo em seguida.

A tensão dentro da mente da garota se intensificou em níveis anormais, incontroláveis para alguém de mente fraca. No entanto, ela já não tinha mais opções nem meios para fugir. Era aceitar ou morrer, e a resposta era óbvia.

— Tá, eu aceito. Mas eu já aviso, se eu morrer, é melhor estar me esperando no inferno.

— Fico feliz que concordou. — Assim que terminou de falar, a mulher de branco retirou uma pistola de suas vestes, atirando diretamente no pescoço de Emma. Entretanto, a arma estava munida de um dardo tranquilizante, que faria a jovem dormir em alguns instantes.

— Que merda é essa?! — esbravejou, tentando se levantar da cama, mas caiu para trás por conta da perda progressiva dos sentidos.

— Configurei a máquina para que você surja bem longe dos outros membros, então o que acontece a partir de agora é por sua conta e risco. Nossos caminhos irão se cruzar novamente, Emma Adams — A dama de branco disse, antes que a garota perdesse totalmente a consciência.

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