Luvy, A Cidade Das Águas Cinzentas – Parte 1

O Sol da manhã iluminava o vasto mundo abaixo de si, dando luz àqueles que esperavam ansiosos a sua chegada. Ao redor da garota, a vida desabrochava com exuberância. Apesar de ser uma representação do mundo real, Yharag tinha a sua originalidade. A natureza era algo muito mais tátil ali, com plantas e animais em todo canto. Não que ela fosse arriscar tocar em um deles, claro. Suas experiências recentes com a fauna local já eram mais do que o suficiente para fazê-la duvidar de qualquer coisa que habitasse aquelas matas.

Os três jovens competiam por espaço na carroça que quase transbordava de produtos diversos que iam desde alimentos à ferramentas ou perfumes. Em Hermes, Emma abandonou a momentânea felicidade que teve nos poucos dias que ficou por lá, dando lugar para as preocupações que futuro trazia. Criar laços era algo que ela não desejava, mas até isso deixou de lado. Não sabia se o arrependimento era ou não real, mas isso não importava mais. O caminho que escolhera não tinha tempo para tais pensamentos.

Athert pendia de um lado para o outro, seguindo o ritmo turbulento da carroça na estrada improvisada numa tortuosa valsa. A ressaca era a cicatriz deixada pela bebedeira da noite anterior, e ele estava totalmente arrependido de ter dito que “só iria tomar um copo”. Afinal, nunca é só um copo.

Alex estava mais despreocupada, mas mal escondia o temor da viagem. Desde que saíram de Hermes, ela segurou o colar feito com a jóia vermelha que sua mãe se tornara. Fazer aquilo a deixava mais confortável e confiante, um sentimento que só ela era capaz de compreender.

Guiando a caravana, Gileon era acompanhado por três de seus homens a cavalo. Para ele, aquilo tudo também estava sendo uma novidade. Livres das garras do Demônio da Sussurros, mas preso às correntes de uma guerra que ele nem ao menos entendia completamente. E ele sabia que as coisas poderiam ficar piores muito em breve.

Nos minutos finais do percurso, todo o ambiente passou por uma transição de ares. Um cheiro fétido vinha das poças de água lamacentas que se tornavam cada vez mais presentes na paisagem, até se tornarem um só corpo d’água que inundava todo o solo mais abaixo da estrada. Plantas e árvores de muitos tipos emaranhavam-se acima do extenso charco, dando tonalidades mais escuras ao local, e apenas ouvia-se o som dos animais escondidos sob a água ou dentre as densas folhagens.

Em certo momento, a estrada de terra tornou-se uma extensa e larga ponte de pedra, indicando que, a partir dali, terra firme seria algo raro de se encontrar.  Alguns poucos postes iluminavam o caminho com lampiões moribundos, pois mesmo a luz do Sol tinha dificuldade para atravessar o grosso tapete verde escuro da copa das árvores. Depois de mais algum tempo de travessia, as primeiras construções puderam ser vistas ao final da estrada pétrea. 

O lugar era um conjunto de faixas de terra acima da água unidas por várias pontes iguais à que levava à cidade. Nesses terrenos irregulares, pequenas cabanas se apertavam para abrigar o máximo de pessoas possível, servindo todas as necessidades dos locais e viajantes que passavam pelo local. No centro do povoado, tinha uma grande construção erguida acima da água por grossos troncos e suportes de madeira. Apesar de parecer instável, ela mantinha-se de pé sem ao menos balançar. No meio entre o primeiro e o segundo andar, encontrava-se uma grande placa com o nome entalhado: “Wanderers Refuge”

E, antes de tudo isso, um grande arco na entrada da cidade com o seu nome escrito na pedra: “Luvy”. Abaixo desta construção, seis pessoas esperavam no fim da ponte, todas vestidas com roupas parecidas. Botas largas de couro, calças longas engolidas pelas botas e blusas listradas de cores variadas. Entre elas, uma ganhava destaque: uma mulher que, além do conjunto compartilhado com os outros, usava ainda um chapéu marrom com uma pena azul presa ao tecido e um cachecol branco.

Instantes depois, todo o comboio parou, e eles puderam enfim descer da carroça. O grupo de Emma se dirigiu até Gileon enquanto os seus ajudantes descarregavam a mercadoria, sentindo a mudança repentina da temperatura. Mais a frente, Gileon conversava com a mulher de chapéu plumado.

— Faz um bom tempo que não nos vemos, Senhorita Pilgrim — Ele afirmou, com um sorriso surpreso no rosto.

— Foram só 6 meses, Gilbert, mas você parece ainda mais velho do que antes. — respondeu em deboche.

— E você mais mal educada, Aurora. — retrucou, apertando a mão dela e dando uma breve risada.

Enquanto eles se cumprimentavam, os três se aproximaram, ganhando a atenção da notória conhecida de Gileon. Sua pele era morena e seu cabelo cacheado, compartilhando de tons castanhos com seus olhos, aparentando ter entre 30 e 35 anos. Ela então dirigiu seu olhar para os jovens, nutrindo um certo interesse.

— Quem são? Não parecem ser do seu grupo. — perguntou, se aproximando deles.

— Somos aventureiros — Emma inventou, pois não sabia de um termo melhor. — Viemos para treinar nossas habilidades de combate. Eu sou Emma, aquela ali é a Alex e o trevoso alí é o Athert.

— Espera, por que você me chamou de…

— Só aceita, gótico. — Vendo que discutir não ia adiantar, o rapaz desistiu de argumentar.

— Aurora Pilgrim, prefeita de Luvy. — Se apresentou, erguendo um pouco do chapéu para mostrar melhor o seu rosto. — Adoraria receber vocês num bom momento, mas estamos com dificuldades recentemente. Uns desgraçados estão tentando monopolizar as áreas de caça, até mesmo fundaram uma base mais ao sul.

— A galera do Ashton? Jurava que aqueles caras eram só um bando de promessas vazias. — Gileon indagou.

— Todo mundo pensou, até que os idiotas começaram a expulsar as pessoas das faixas de terra e água rasa fora dos limites da cidade. E bem, você deve saber que nós não temos pessoal o suficiente para lidar com esses babacas. — Nesse instante, os jovens se entreolharam e, mesmo tendo o mesmo pensamento em mente, suas opiniões sobre o mesmo divergiam.

Apesar disso, com uma rápida troca de olhares e gestos, todos concluíram que eles deviam se meter naquela situação. Afinal, já bastava o conflito com a Menorá Áurea para aquele mundo. Dessa forma, Athert tomou um passo à frente.

— Com licença, senhorita prefeita, acho que nós poderíamos ajudar. — disse, dando um brilho ao olhar de Aurora.

— Vocês? Claro, não vou negar ajuda, mas vocês tem certeza? Esses caras não são moleza.  — questionou, lançando um olhar surpreso.

— Não soube? Foram eles que ajudaram a pôr um fim no Demônio da Sussurros.  — um dos homens de Gileon comentou enquanto passava com um carregamento. A face já surpresa de Aurora tornou-se uma expressão desacreditada.

— O que?! Foram eles que mataram aquela coisa?! — Antes mesmo de obter a confirmação, ela se virou e pegou ambas as mãos de Athert. Seus olhos brilhavam com admiração e agradecimento. — Eu tenho tanto a agradecer pra vocês! Com essa mercadoria, Luvy vai finalmente começar a crescer!

— Na verdade nós mais dormimos do que ajudamos. — Alex explicou portando um sorriso desanimado. — As que mais lutaram, segundo o que ouvi, foram a Emma e a Esther, mas ela ficou em Hermes.

— Mas isso não tira o mérito de vocês. — Emma afirmou. — Foi graças a vocês que muitas vidas foram salvas, inclusive a minha.

— O passado ficou para trás, jovens. Não importa quem participou mais ou não, o que importa é que todos nós lutamos pelo mesmo objetivo e vencemos. O futuro de New Heaven é o que importa.

— Gilbert está certo, e, graças a todos vocês nós podemos mudar a dura realidade que vivemos neste lugar abandonado. Enfim, não acho que vocês vieram para me ouvir falar o tempo todo, não é? Eu vou estar ocupada no momento, então podem esperar no Wanderers. Caso estejam com fome, peçam algo e digam que “é por conta da Pilgrim”.

Eles balançaram a cabeça em sinal de entendimento e tomaram seu rumo além do caminho pedregoso. Contudo, antes que pudessem pisar em terra, Gileon os chamou uma última vez.

— Jovens! — gritou, chamando a atenção dos três e jogando algo para eles.

Emma segurou e então abriu a mão para ver do que se tratava. Era um pequeno broche em formato de disco com o símbolo da cidade dos ladrões. Com um sorriso melancólico, ele concluiu:

— Para vocês lembrarem do velho Gileon. E saibam que vocês estão me devendo essa viagem de carroça!

Nenhum deles sabia se voltariam a ver o líder dos ladrões algum dia, mas esperavam que, quando o dia chegasse, toda o conflito já teria se encerrado. Todos tinham algo para falar, um último adeus antes da despedida, mas no fim optaram por ficar calados, afinal, sabiam que continuar apenas traria mais tristeza ao momento.

Assim, eles se viraram para o caminho à sua frente e tomaram o seu rumo na jornada.

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Caminhando pelas numerosas pontes entre os terrenos, o grupo encontrava pessoas de diversos tipos. Pescadores, catadores das águas rasas, armadilheiros, açougueiros e muitos outros que se aproveitavam da abundante natureza da região para ganhar a vida. Dos animais que eram trazidos para a superfície, muitos eram peixes curtos e gordos, outros eram variações de répteis, que iam desde serpentes a seres que pareciam crocodilos menores e mais achatados. Nenhuma espécie era dispensada, dada a escassa produção de vegetais em virtude do solo inundado e pouco espaço para plantio. Pelas ruas de pedra e terra, sangue era espalhado e jogado ao charco, aumentando ainda mais o fedor pútrido do ambiente, mas chamando a atenção de mais animais.

Depois de encontrarem o caminho pelo labirinto de pontes e canais, eles finalmente chegaram ao destino. O Wanderers Refuge era maior do que parecia, se comparado às construções locais. De longe, podia-se sentir o cheiro de carne temperada e preparada das mais diversas formas que aquele mundo permitia. Atraídos pelo aroma forte, foram a passos apressados para o suposto restaurante.

Ao chegarem lá, o local muito lembrava o bar que eles iam em Hermes, mas muito maior e um pouco mais bagunçado. As pessoas comiam, bebiam, conversavam e jogavam, tudo isso ao som da melodia tocada pela banda que ficava num palco especial no estabelecimento.

Eles entraram sem alarde, não chamando muito a atenção das pessoas, que estavam se divertindo demais para se importar com a chegada dos três. Assim, eles foram até o balcão, guiados pelo apetite. Sentaram-se sem delongas, esperando ansiosamente para serem atendidos. A frente da mesa, havia um grande espaço com uma estante cheia de garrafas diferentes. No meio do vitral alcoólico, um corredor levava até a origem do cheiro: a cozinha. Da bancada, dava para ver um grande homem calvo vestindo roupas curtas e um avental. Ele estava de lado, preparando alguma coisa que não podia ser vista daquele ângulo. Emma, que assistia o preparo do alimento, teve sua visão interrompida de súbito por uma silhueta.

Um garoto se pôs na frente dela, mas não parecia ser de propósito. Seu olhar estava direcionado à um prato em sua mão, no qual ele esfregava com um pano. Sua expressão estava carregada de angústia, expressão essa que ele escondeu prontamente ao perceber que estava sendo observado pela mercenária. Naturalmente, ele deixou o prato em uma pia e jogou o pano por cima do ombro, e deu passos lentos na direção da garota. Entretanto, algo o fez parar, deixando-o paralisado com um rosto cheio de tensão e raiva.

De repente, toda a euforia do restaurante cessou, dando lugar ao som periódico de passos de pesadas botas de couro logo atrás dela. Uma gargalhada zombeteira ecoou pelo salão, até parar bem próxima dos três. Talvez fosse precaução ou mesmo medo, mas nenhum deles queria se virar.

— Guten Tag! Estou de volta, Irmão, Pai. — zombou, dando mais alguns passos para frente. A face do rapaz à frente se torceu ainda mais em raiva.

— Achei que tinha dito para você nunca mais voltar, Levi. — disse o homem na cozinha, se dirigindo até a área do balcão. De perto, ele parecia ainda maior e mais intimidante. Sua face estava imbuída de ódio e repúdio, mas a pessoa atrás parecia não se importar.

— Um filho sempre retorna à sua casa, meu velho. E então, como vão as coisas? — continuou, não dando qualquer importância para toda a situação que iniciou.

Alguns clientes pensavam em ir para cima do invasor, mas, mesmo em vantagem numérica, algo os impedia de atacar.

— Vá embora, Levi. V-Você não é bem vindo aqui. — o rapaz hesitou, quase cedendo à pressão que seu irmão lhe causava.

— Qual o problema, Finn? Por acaso tem medo de que eu faça alguma coisa à esse lugar? — indagou, tomando lugar ao lado de Emma e debruçando-se sobre o balcão. Naquela posição, ela e Alex puderam ter uma visão mais clara de quem era o causador de toda aquela confusão. 

Eles eram gêmeos idênticos, mas Levi tinha uma expressão muito mais má que seu irmão. Do que dava para ver, ele estava vestindo um casaco marrom com uma blusa azul por baixo, usando longas calças que ele dobrava no encontro da vestimenta e do calçado. Deslizou a mão pela madeira enquanto suspirava e formava um sorriso melancólico no rosto.

— Eu nunca iria machucar o Wanderers Regufe, afinal, no fim, ele é minha casa também. E, mesmo que vocês não me querem aqui, eu sempre… — antes que pudesse terminar, as portas de empurrar foram abertas violentamente. Da entrada, Aurora irrompeu pelo salão, deslizando pelo piso e apontando duas armas que lembravam um revólveres compactos.

— Levi Von Krieg! Nem mais um passo ou eu vou… — Ao perceber a movimentação do rapaz, ela nem hesitou em disparar no chão, como um aviso para que ele parasse de se mover. Todavia, o jovem encontrou uma brecha entre as mesas, saltando sobre uma e depois pulando a janela.

A prefeita tentou persegui-lo do lado de fora, mas o fugitivo não estava mais lá. Ela deu mais algumas voltas pelo exterior do restaurante, mas não havia nem sinal de Levi.

Ao notar que toda a confusão havia chegado a um fim, todos dentro do salão suspiraram num misto de alívio e tristeza. A diversão e tranquilidade não voltaram, e todos resolveram sair do local, deixando a situação ainda mais estranha para os recém chegados. Eles se olharam, como procurassem uma resposta para todo aquele drama familiar.

Aurora mais uma vez entrou no local, mas dessa vez cansada e estressada.

— Me perdoe pela confusão, senhor Von Krieg. Eu vim o mais rápido que pude quando o vi caminhando pela cidade.

— A culpa não é sua, Senhorita Pilgrim. Nós também não fizemos nada contra ele, mesmo desarmado.

— É compreensível, ele é parte da família de vocês. —Sentou-se numa cadeira vazia, tateou o bolso e encontrou um cigarro, que acendeu e levou-o até a boca. Tragou a fumaça profundamente para aliviar. — Além do mais, toda a cidade gostava dele antes do Ashton.

— Eh… com licença. — Emma arriscou, se levantando para chamar a atenção dos presentes. — Eu sei que chegamos há pouco tempo, mas não posso evitar de perguntar. O que diabos tá acontecendo nessa cidade?

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