Luvy, A Cidade De Águas Cinzentas Parte 2

A fumaça do tabaco dançava pelo salão, preenchendo o lugar com o odor desagradável. O curto silêncio após o questionamento de Emma foi quebrado por Aurora, que se viu na responsabilidade de explicar a situação.

— Levi é um dos oficiais dos “Saqueadores do Pântano”, a gangue de criminosos de Ashton Sadler. Esses dois aí na cozinha são pai e irmão dele, Rudolff e Finn Von Krieg 

— Ele era um garçom, assim como Finn é agora. Era um bom rapaz, adorado por todo mundo da cidade — complementou, virando-se de costas para eles —  Quando o Ashton veio de Deus sabe onde, ele mudou. Meu filho foi seduzido pelas palavras daquele ladrão atroz, e assim saiu do caminho da virtude. Ele achava que, com as coisas que conquistava por Ashton, ele conseguiria dar uma condição de vida melhor para nós. Entretanto, ele inconscientemente estava sugando a vitalidade de toda a cidade para tentar nos ajudar. Quando isso se tornou insuportável, eu o expulsei de casa. Me odeio até hoje pelo que fiz, mas foi algo necessário —  finalizou, com um tom muito mais melancólico de voz.

Percebendo o quão desagradável a conversa era para a família de Levi, Emma se levantou da cadeira e, com um gesto, chamou todos os outros para o lado de fora. Eles a seguiram sem hesitar, deixando pai e filho no restaurante.

— Essa cidade é mais barra pesada do que eu imaginei —  Athert comentou, encostando-se na parede do edifício.

— Mas a gente pode mudar essa realidade! — Alex falou com total certeza e determinação.

— Não podemos fazer nada do jeito que estamos agora. Se o que a prefeita falou é verdade, vamos enfrentar muito mais do que só algumas pessoas —  Emma afirmou, direcionando seu olhar para Aurora, esperando uma resposta.

— Pelo que sei, o grupo do Ashton conta com vinte a trinta membros, sendo que a maioria deles chegou com ele à cidade — Explicou, tirando o cachecol do pescoço e o enrolando ao redor da cintura — Vou chutar que vocês nunca entraram em combate direto com seres humanos, estou certa? — Eles sinalizaram que sim com a cabeça — Diferente dos animais que vocês mataram até então, as pessoas são ardilosas, e não vão medir esforços para fazer de tudo para sobreviver. A maior arma da humanidade é o cérebro, então vocês vão precisar mais do que força para vencer esses desgraçados — Ela ajeitou o cinto no quadril, virando-se na direção oposta dos aventureiros — Vamos, vou levar vocês para um lugar bom para que vocês aprendam o básico.

Sem questionar, os três seguiram a prefeita pela cidade.

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Numa plataforma erguida sobre as águas no extremo oeste da cidade, os jovens encontravam-se de frente para a prefeita, que estava com um olhar bem mais sério do que antes. Estava claro em seu rosto que ela não estava querendo fazer aquilo, mais por conta da situação do que pela presença dos três. Atrás dela, um simpático e chamativo alvo esperava pacientemente enquanto a mulher não começava a lição.

— Bem, aqui em Yharag, você deve aprender no mínimo quatro coisas se quiser entrar em conflitos com pessoas. A primeira é que nesse mundo, existem dois elementos que modificam uma batalha: Magia e Aura de Combate — Deu uma pausa estendendo o braço para frente com o punho fechado — Se você não tem nenhum desses, bem, você é um azarado do cacete. — ergueu um dos dedos — Caso você tenha ao menos um desses, você é alguém com potencial — levantou os dois, lançando um sorriso sarcástico — Bom, se por algum acaso você tem os dois, considere-se sortudo, pois quem domina essas duas características tem um poder incrível numa luta.

— Athert, você não disse que iria nos ensinar essas coisas lá em Hermes? — Lembrando o que havia dito aquele dia, o rapaz percebeu que nunca cumprira o que falou, mas aquele momento era perfeito para uma escapatória inteligente.

— Bom, não é como se tivéssemos tido tempo para que eu as ensinasse, mas olha só que maravilhoso, temos alguém que entende de magia bem na nossa frente! Acho que no fim, todo mundo sai ganhando! — afirmou, forçando o sorriso mais convincente que podia.

A desculpa não bastava para nenhuma das duas, mas era inútil discutir sobre aquilo no momento. No fim, ambas só admitiram a derrota para a felicidade do sacerdote.

— Sem papo furado durante a minha explicação, se não vou começar a cobrar! — A ordem ganhou a atenção deles de imediato, não por conta da educação, mas sim por causa da última experiência que tiveram quando ficaram devendo à alguém — De qualquer forma, não é tão difícil saber se você tem ou não essas características. Pelo que parece, o jovenzinho aí já sabe usar magia, afinal, ele é um sacerdote. Mas e vocês duas? Já testaram?

O silêncio foi mais que necessário como resposta. Aurora suspirou insatisfeita, mas inegavelmente surpresa por dentro. Não fazia ideia de como Alex e principalmente Emma, com seu corpo esguio, haviam derrotado a fera que por muito aterrorizou os arredores. 

— Bem, vamos começar com algo simples então. Vocês duas, repitam os movimentos que eu fizer e tentem relaxar. A Aura de combate depende totalmente do quão estável e calmo você está durante um combate. Deixe seus sentimentos dominarem e ela não vai funcionar — a prefeita respirou fundo, esticou os braços e as pernas algumas vezes para relaxar os músculos, uniu os punhos e, então, fechou os olhos, tendo todos esses passos seguidos pelas aprendizes.

Emma teve um pouco de dificuldade em encontrar o equilíbrio com sua mente. Algo lá não parecia certo, como se ecos reverberantes invadissem sua cabeça, originando vozes distantes e  incompreensíveis. E nenhuma delas parecia com a voz de Âme.

— Agora, afastem seus punhos lentamente enquanto imaginam que uma chama cobre seus corpos e não a rejeitem. Deixem que o calor rodeie todo o seu ser e então… abram os olhos!

No mesmo instante em que concluíram a ativação, tanto Aurora quanto Alex obtiveram reação. De súbito, uma onda de luz vermelha circundou o corpo das duas, desaparecendo logo em seguida. Emma, pelo contrário, não sentiu nada de diferente.

Alex, que havia despertado sua Aura, sorriu surpresa e feliz ao perceber que havia conseguido. Ela atirou o punho aos seus em comemoração. Ao fazer isso, a luz vermelha surgiu novamente, rodopiando do seu ombro até a mão, explodindo em fagulhas escarlates de pura energia. Isso impressionou não só ela, como também seus amigos, que assistiam à cena fascinados.

A prefeita apenas riu da situação, lembrando que agiu parecido ao descobrir que também possuía aquele poder.

— Boa! — Aproximou-se de Alex e deu-lhe tapinhas no ombro como forma de parabenizá-la — No geral, as auras variam muito, podendo ou não se manifestar fisicamente, como é o caso da sua amiga. Umas dão mais força, outras mais velocidade, enfim, não há Aura específica, ela varia de cada usuário. Você também não precisa fazer todo esse procedimento que falei, basta ficar relaxada e sentir a aura vindo até você — Deu uma breve pausa para voltar ao lugar onde estava e tomar fôlego — No fim, ela acaba durando de cinco a quarenta minutos após a ativação, então, caso enfrentem um lutador com Aura, vençam-no pela mente ou pelo cansaço, entendido?

Eles fizeram que sim com a cabeça, sinalizando para que ela desse continuidade à explicação.

— A magia já é um tanto diferente da Aura, já que esta possui três categorias específicas. Elementais, Especiais e Divinas. Infelizmente, você não escolhe com qual vai cair. Você pode ser um grande mago elemental ou acabar sendo um praticante das artes divinas, como o rapazinho aí — Athert ficou claramente incomodado com a fala, mas nada disse —  Não pretendo prolongar muito esse assunto muito, então só vou dizer que existem muitos tipos de magia dentro de cada uma dessas classes, o que importa no fim é o quão criativo e esforçado você é com a sua. Enfim, vamos logo para o teste! — falou com determinação, animando as garotas — É quase a mesma coisa que o teste de Aura. Primeiro, você une suas mãos abertas e se concentra neste ponto no meio de suas mãos. Pense que seu corpo é o receptáculo de pura fonte arcana, deixe a magia fluir até a palma de suas mãos e…

Emma nada sentia, simplesmente não conseguia notar vindo de si. Talvez fosse um pensamento precipitado, ao menos ela gostaria de pensar assim. Sua esperança ia desvanecendo com o passar dos segundos, até desaparecer por completo. Ela achava que aquilo era bobagem, que não era pra ela, estava pronta para desistir. Tentou separar suas mãos antes da hora, mas algo a impedia. Achou que tivesse hesitado por um momento, mas não era isso que havia acontecido. Algo estava diferente.

Subitamente, ela sentiu uma poderosa corrente de energia fluir por toda a extensão do seu corpo, circulando por ele diversas vezes antes que seu comando o fizesse manar para suas mãos. Um enorme poder pressionava suas mãos magras, mas ela não ia deixá-lo escapar. Esperando o último comando da sua tutora, ela não podia vacilar nem por um segundo.

— Separem suas mãos lentamente, o poder provavelmente já vai estar…  — Antes que pudesse terminar a fala, um forte brilho azulado acompanhado por sons de estalos consecutivos chamaram a sua atenção. Ao olhar a origem destas estranhas reações, foi surpreendida pela manifestação poderosa de Emma.

Entre as mãos da garota, uma corrente de energia azul fulgurante se formara, movendo-se de forma volátil e quase incontrolável. A mercenária lutava pelo controle do próprio poder, que queria forçar suas mãos para o lado oposto no qual ela puxava. Quanto mais distância ganhava, maior e mais poderosa era a torrente elétrica que fluía impetuosamente por seus dedos. Num último ato de força, ela cerrou os punhos e jogou seus braços um para cada lado, dando fim aos grilhões elétricos que explodiram em faíscas de mesma cor.

Ofegante e cansada, a jovem esboçou um sorriso satisfeito, dispensando comemorações. Olhou ao seu redor e viu tanto seus colegas quanto a prefeita a encarando-a notavelmente surpresos.

— O que foi? Nunca levaram um choque na vida? — zombou, rindo com os outros.

— Apesar de não ter dado a sorte de conseguir as duas, estou bem feliz com os resultados — Alex falou confiante, ainda sentindo o poder da aura de combate circundando o seu corpo.

— Pelo menos vocês conseguiram poderes legais… eu só consegui magia de luz — disse o sacerdote, decepcionado consigo mesmo e um tanto invejoso.

— Não se incomode com isso, rapaz — afirmou a prefeita, pondo a mão no ombro em forma de consolo — Magia de luz é ótima quando você treina muito bem, ao menos foi isso o que ouvi dizer.

— O que ouviu dizer…

— Ah, pare com isso, Athert! — Alex aproximou-se do rapaz e tentou dar-lhe um tapinha nas costas, mas ele pegou a mão dela antes que o atingisse.

— Não bata em mim por qualquer coisa, é irritante — reclamou, fazendo a loira recuar.

— Se você não gostava era só ter me dito, eu teria parado. Foi mal.

— Deixa pra lá, fui burro por não ter reclamado antes — concluiu, direcionando seu olhar para Aurora — E então, senhorita prefeita? Você ainda tem três lições para nos dar, lembra?

— Ah, claro! As outras lições, não é como se eu pudesse esquecer — falou, rindo forçadamente para disfarçar seu erro. Outra vez, ela se pôs na frente dos aventureiros para falar — Bom, a parte mais longa da explicação já foi, de agora em diante as coisas vão ser mais tranquilas de entender. Como eu disse anteriormente, as pessoas costumam usar truques sujos ou qualquer coisa à disposição para ganhar uma batalha. Usem isso ao seu favor, acabem com os planos deles e a moral dos inimigos é perdida. Nem sempre se vence uma batalha na espada, as mentes mais espertas fazem das palavras as suas lâminas. Mas isso não quer dizer que vocês não podem usar do que for para vencer. Não há restrições para que armas podem ser usadas nesse lugar, qualquer um pode empunhar a arma que preferir. No meu caso, eu uso essas belezinhas aqui — falou, exibindo seus revólveres — Consegui elas de um comerciante de coisas raras que passou pela cidade há alguns meses.

— E até hoje as balas não acabaram? — Emma perguntou, realmente curiosa sobre a natureza das armas de fogo.

— É bem fácil criar a munição delas, só preciso de um pouco de metal e um bom ferreiro, por sorte, tenho ambos a minha disposição.

— Nossos inimigos têm esse tipo de armamento também? — Athert questionou, preocupado ao ter uma visão melhor do armamento.

— Ouvi dizer que alguns dos homens do Ashton foram vistos carregando armas de fogo como estas, mas se esses boatos são verdade, poucos tem. Armas de fogo não existem aqui em New Heaven, todas que estão aqui vieram ilegalmente pela cadeia de montanhas que separa a região do resto do continente. Mas isso é assunto para outra hora! Vamos terminar logo com isso.

— Mas… você que começou a falar dessas armas.

— É… bem, esquece isso! Vamos para o terceiro princípio — esquivou-se do assunto, deixando-os um tanto curiosos quanto ao resto da história — Para demonstrar este princípio, vou demonstrar algo. Estão vendo aquele alvo ali? — indagou, apontando para o boneco de palha com círculos de diferentes tamanhos desenhados por todo o seu corpo. Antes que pudessem responder, a prefeita se virou rapidamente, sacando suas armas e dando dois disparos com cada arma. O som se alastrou pela região, assustando alguns pássaros que fugiram de seu escondiam-se entre as árvores.

Para a surpresa do grupo, todos os disparos que Aurora fez acertaram apenas as pernas e braços do alvo. A princípio, pensaram que ela havia errado de propósito, mas Aurora tinha a resposta para isso.

— O terceiro princípio em Yharag é: não mate ninguém, somente se for extremamente necessário — falou, virando-se novamente para eles — Todos que estamos aqui vivenciamos a morte uma vez, mas recebemos uma segunda chance para recomeçar. E aqui, apesar de vivermos na lama, seguimos regras. Não se tira a chance de ninguém. Por isso, ao lutarem, façam o alvo perder a capacidade de se mover, assim ele deixa de se tornar uma pedra no seu caminho.

Todos eles concordaram de imediato, mesmo com pensamentos distintos, todos entenderam a mensagem que ela desejava passar.

Aurora abriu a boca para falar, mas foi surpreendida ao ver Finn correndo até a plataforma de treino. Vendo o seu olhar desesperado, ela correu até ele de imediato, até encontrá-lo num melancólico abraço.

— Q-Qual o problema, Finn?!

— A… Ashton… — murmurou ofegante.

A face de aurora tingiu-se de medo, tensão e raiva assim que ouviu aquele nome. Um nome que ela jamais gostaria de ouvir perto de sua cidade. Como prefeita e protetora de Luvy, ela sabia o que deveria ser feito. Colocou seu chapéu na cabeça de Finn e o confortou com um breve sorriso. Após isso, começou a caminhar na direção da cidade

— Vocês três, comigo! Temos problemas!

Sem entender direito o que acontecia, eles hesitaram por um momento, mas logo compreenderam a seriedade do que estava prestes a acontecer. Eles foram de encontro à Senhorita Pilgrim, acompanhando-a na corrida até Luvy.

— Prefeita, eu sei que não é um bom momento para perguntar, mas qual é o último princípio? — Alex questionou. A prefeita fitou-os com um olhar determinado e inspirador.

— O quarto princípio? Não morra! — respondeu, rindo e virando-se para a direção oposta.

— Ah, claro, muito educativo! — Athert ironizou.

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