O Sacerdote Deomoníaco

Após muito correrem, Emma e seu misterioso salvador pararam para descansar. Encharcados de suor e ofegantes, os dois pararam debaixo de uma árvore e sentaram-se um em cada canto. Depois de um longo período de silêncio, o outro decidiu interagir com Emma, que ainda estava tentando controlar o ritmo de sua respiração.

– Você…. Corre muito, né? – Ele disse, ofegante.

Finalmente lembrando do fato de que tinha alguém com ela, Emma rapidamente se levantou e se preparou para lutar.

– Qual foi? Veio tentar me matar também? – Emma questionou, mal conseguindo ficar de pé.

– Se eu pudesse, já teria feito. – A pessoa respondeu. – Toma aqui, acho que é seu. – Terminou jogando a adaga e as luvas para perto de Emma, que ficou encarando um pouco antes de finalmente se render ao cansaço e voltar a se sentar no chão, um pouco mais próxima de seu companheiro de fuga.

– Por que me salvou? Por acaso sabe quem você acabou de resgatar? -A garota perguntou, tentando olhar por debaixo do capuz dele.

– Sei. A mensagem foi enviada para todos, não foi?

– Então você realmente deve ser um idiota. – A jovem virou seu rosto, olhando para o longe, tentando ver se alguém se aproximava.

– Sim. Sou o idiota que acaba de salvar a sua pele, então deveria pelo menos agradecer um pouco. – Ele respondeu, dirigindo seu olhar para Emma.

– Certo…. Valeu….. – Ela disse, um pouco relutante. – Mas, por que me salvar? Com o mundo inteiro atrás de mim agora, por que se arriscar tanto por uma pessoa que provavelmente vai morrer daqui à pouco? – Indagou, curiosa.

– É por que você é como eu. 

– Um idiota? – Emma falou, virando seu olhar para os grandes olhos vermelhos escondidos na escuridão.

– Também. Mas principalmente, você é uma fugitiva, uma sobrevivente.

– Fugitiva é? Sinto cheiro de história para ser contada. – Respondeu, tentando ser cômica.

– E não está errada. Até porquê, todos nós temos nossas próprias histórias para serem contadas. No entanto, você não entendera nada do que eu disser se eu não te mostrar isso. – Ele disse, abaixando o capuz e revelando sua face.

 - Ele disse, abaixando o capuz e revelando sua face

– Na vida real, Kevin Parker. Em Yharag, sou Athert, um demônio das Terras Flamejantes de Gawold, ou era, se preferir com a minha situação atual. – O rapaz disse, tentando parecer o mais simpático possível.

– Obrigado pela descrição, ó grande demônio Athert, mas eu não perguntei nada sobre você. – Emma respondeu, com a expressão mais neutra que podia dar.

– E eu não preciso que pergunte para eu falar o que eu quero. Agora, se puder fazer o mínimo de manter o seu orgulho contido dentro de si, eu ficaria agradecido. – Athert falou, imitando a ignorância de Emma.

A garota apenas ficou calada, esperando o demônio começar a sua história.

– Bem, eu estou nesse mundo faz 2 semanas. Posso afirmar que vim parar aqui contra a minha vontade, já que meu pai pagou boa parte da fortuna dele pra me colocar aqui dentro. Apesar de não querer estar aqui inicialmente, achei tudo muito fantástico, e logo criei meu personagem para poder jogar de uma vez. Então, quando comecei a fazer as missões, eu investi todos os meus pontos em magia, defesa e velocidade, achando que resultaria num mago muito poderoso. Mas o resultado…. Foi esse. – Ele disse, estendendo seu braço vermelho, mostrando uma tatuagem de uma cruz.

– Uma cruz? O que isso significa? – Emma perguntou, não entendendo bem o que ele queria dizer.

– É cega por acaso? A cruz indica que eu sou um sacerdote! – Ele gritou, já um pouco frustrado.

– Um demônio sacerdote? Não acha que essas duas coisas não combinam? – Ela indagou, um pouco confusa.

– Eu sei que não, tá? É por isso que eu não posso ser mais parte da minha sociedade! Em Gawold, só são aceitos guerreiros, cavaleiros, assassinos e no máximo magos. Os sacerdotes e arqueiros que ocasionalmente surgem por lá, são deserdados e deixados à própria sorte nesse maldito mundo. E como eu não tinha nada, tive que roubar para sobreviver, o que fez meu nome ser caçado e bem, acabar chegando aqui e resgatando você. – Athert terminou de explicar, esperando alguma resposta de Emma.

– Preconceito até aqui, em um lugar que deveria ser uma “utopia” para a humanidade descansar? Chega a ser cômico. – Ela respondeu, deitando na grama.

– Acredite, esse lugar está mais para um inferno digital onde todos os gananciosos e “superiores” da sociedade vem parar. Aqueles que não seguem as regras, são destruídos pelo sistema. – O Jovem explicou, se encostando na árvore.

– Decidiram jogar os mais corruptos e mesquinhos da sociedade em um lugar onde poderiam aplicar seus desejos e pensamentos mais obscuros sem nenhuma consequência? Eu não chamaria de inferno digital, chamaria de paraíso dos loucos. – Emma comentou, rindo um pouco do próprio comentário.

– Paraíso dos loucos é? Nem todos aqui são assim, mesmo que a esmagadora maioria seja, não quer dizer que não hajam boas almas vagando perdidas nessa imensidão feita de pixels. Um exemplo sou eu. – O jovem retrucou.

– Você? Se toca, você é louco. Mas um louco diferente. É um louco prestativo eu diria. – Ela argumentou.

– E não somos todos loucos? – Ele disse.

– É, acho que está certo. – A garota se levantou, espreguiçando-se. – Certo, tem algum plano para o que fazer agora? – Perguntou.

– Eu deveria? Eu só estava vagando sem rumo até ver você sendo torturada por aquela maluca sádica.Quando vi o que estava fazendo, já não conseguia voltar atrás. No momento, eu só consigo pensar que estamos na merda.

– Está errado sobre não pensar em algo mas certo sobre nossa situação. – Tentando pensar em alguma coisa, Emma lembrou-se que ainda tinha coisas que ela não tinha visto por conta da interrupção de Wena. – Espere um minuto, vou pensar em algo. – Emma começou a deslizar o dedo para cima, no entanto, ela estava fazendo-o no nada.

– O que tá fazendo? É algum tipo de ritual próprio para fazer você pensar melhor? – Athert perguntou, rindo.

– Cala a boca! Eu só não sei como abrir a porra do meu status sozinha. – Ela respondeu com raiva, mas também envergonhada.

– Quer que eu te ensine? Não é tão difícil assim. – O garoto ofereceu, se controlando para não rir de Emma, que continuava a fazer o mesmo de várias formas diferentes.

– Nem ferrando! Prefiro ficar aqui o dia todo passando meu dedo no ar do que pedir sua ajuda! – Ela insistiu, tentando manter seu orgulho.

– Esse seu orgulho ainda vai te matar um dia. Enfim, deixe eu ver os meus status. – Ele disse em resposta, deslizando seu dedo no ar de uma certa forma e abrindo uma caixa de mensagens, mostrando seu Status de Personagem. – Uau! Olha só, eu consegui abrir meu status! Que coisa legal, não é Emma? – Dessa vez, ele não se controlou, rindo descaradamente na frente.

– Seu desgraçado! Como eu…. – Ela iria dizer, mas tapou sua boca antes que falasse.

– Como o que? – Athert se aproximou, colocando a mão atrás do ouvido. – Não escutei direito.

Emma, mesmo muito relutante, decidiu se render às provocações de Athert.

– Como eu….Abro meu status? – Ela perguntou, um pouco corada por conta da vergonha.

– É simples, você só tem que fazer um “R” com o seu dedo, aí vai abrir o seu status e em cima vão aparecer todas as opções.

Por um momento, Emma permaneceu com sua expressão normal, mas logo foi substituída por uma de extrema raiva.

– Mas que merda de técnica genérica de abrir um menu é essa?! Eu já joguei inúmeros jogos com esses sistema, mas nunca foi algo tão idiota assim! Sinceramente, eu esperava mais de um programa de última geração! – Ela exclamou, caindo para trás e socando o ar

– Tão simples que você não sabia como fazer! – Athert disse, rindo ainda mais.

– Eu juro que quando eu ficar forte eu vou dar um murrão na sua cara! De todo o modo, deixe-me ver o que tem para eu fazer.

{R}

===[Status de Personagem]===

Nome: Emma Adams
Raça: Humana
Classe: Assassina

Nível: 3
XP: 75/500

HP: 600 / Regen de Hp por sec: 30 por sec {+}
ATK: 20 {+}
SPD: 27 {+}
DEF: 13 {+}
INT: 50 {+}
MG: 0 {+}
Novos atributos!: Chance de Acerto Crítico (CAC); Dano de Acerto Crítico (DAC)
CAC: 5% {+}
DAC: 5% {+}

Em busca de balancear um pouco seus status, Emma investiu 7 pontos em sua defesa e os 3 restantes na velocidade, ficando mais rápida e resistente. Observando mais um pouco, viu uma nova aba desbloqueada, chamada “Habilidades”. Curiosa, ela tocou a tela, abrindo uma grande árvore de habilidades. Dentre elas, uma de 3 poderia ser escolhida.

===[Habilidades]===

Ímpeto do Assassino {+}
Efeito Passivo: Quando fugindo ou se esgueirando, sua velocidade aumenta em 2%

Golpe Preciso {+}
Efeito Ativo: Aperte fortemente o cabo de sua arma e, quando a lâmina começar a brilhar, golpeie seu adversário para causar um acerto crítico com chances de 25% de causar efeito de Sangramento: 20 de DMG por sec durante 5 sec

Vestes das Sombras {+}
Efeito Passivo: Quando equipado(a) com uma máscara, ou com um manto, torna-se -10% perceptível, mas anda 5% mais devagar. (Efeito é desativado quando visto por elementos hostis)

Com certa indecisão, ela analisou sua situação e decidiu optar pelo “Ímpeto do Assassino”, já que iria começar a correr com muito mais frequência do que o normal.

===[Aviso]===

Parabéns, Você adquiriu: Ímpeto do Assassino, + 1 item de classe.

Fechar aba(s)?: {*}

Não entendendo o porquê continuava recebendo itens de sua classe por simplesmente subir de nível ou conseguir uma habilidade, Emma estranhou o que estava acontecendo.

– Athert, você recebeu algum item de classe quando fez alguma coisa envolvendo níveis e habilidades? – Ela questionou, curiosa.

– Não. Nenhum de nós recebe algo assim aqui. Por quê? – Ele perguntou.

Antes que pudesse perguntar algo novamente, uma nova aba apareceu na frente de Emma.

===[aVIsO]===

VOcÊ adQuIriU toDos os ItENs pARa o ConJuNTO: Morte Branca.

Prosseguir para a próxima aba: {>}

===[Mensagem]===

-> Aproveite enquanto pode, White Fox.

De: B.W

Prosseguir para a aba de Inventário?: {>}

Um pouco receosa, ela tocou na seta.

===[Inventário]===

2 novos itens adquiridos.
Equipar?: {*}

– Mas por que a pergunta? Você conseguiu alguma coisa boa aí? – Ele perguntou, dirigindo seu olhar para ela, que por sua vez olhava outra coisa em seu inventário, com uma expressão séria. – Tá tudo bem, Emma? 

Ela tocou para fechar o inventário, e assim que o fez, uma roupa branca começou a se formar pelo seu corpo. Era um manto, que ia da sua cabeça até perto dos pés e das mãos, estendendo-se, formando uma capa que quase ia até o chão. E em suas mãos, uma estranha máscara havia se formado. Emma logo colocou a máscara, e olhou diretamente nos olhos surpresos de Athert. Era uma máscara de raposa.

– Não é mais Emma, Athert. – Ela disse, fazendo o nome vermelho indicando que era fugitiva desaparecer. – É White Fox. – Falou, enquanto seu nome era substituído por seu “novo” apelido. Seus olhos azuis brilharam com a escuridão da noite, parecendo duas safiras

– Maneiro pra caralho. – Ele disse, se levantando e se aproximando dela.

– Você acha? Já usei esse tipo de máscara antes, mas esse tipo de manto não. – A jovem respondeu, analisando suas novas vestes.

– Relaxa, uma hora você se acostuma com essas roupas. – Ele disse, colocando o capuz de volta. – E então, o que fazemos agora, White Fox?

Ela pisou no cabo de sua adaga, alavancando-a para cima e a pegando com a mão.

– Vamos subir uns níveis! – Ela disse, animada.

E assim, a grande jornada de Emma Adams, ou White Fox pelo gigantesco mundo de Yharag, estava prestes à começar. Uma lenda que se espalharia por todo o continente.

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