Vazio


A porta murmurou um rangido enquanto era empurrada, até ser parada por um pino de metal. Esforçando-se para parecer o mais natural possível, Emma entrou no recinto logo depois de Amber.

A iluminação da sala era um pouco mais intensa do que a do resto da instalação subterrânea, o que dificultava manter os olhos totalmente abertos. O cheiro de incenso pairava pelo ar, atiçando o nariz da jovem.

A decoração não era muito variada, contendo alguns vasos de plantas e estantes lotadas de livros com nomes que a garota não conseguia entender. No centro, uma grande mesa, onde haviam alguns livros abertos e uma menorá dourada com todos os seus braços acesos, adicionando um leve cheiro de vela queimada à mistura de ervas e madeira antiga.

Por fim, atrás da mesa, em uma cadeira, sentava-se um homem vestido completamente de preto, deixando seus cabelos grisalhos em destaque. Ele estava lendo uma cópia do que parecia ser uma bíblia, mas consideravelmente menor. Assim que notou a presença das duas, ergueu sua cabeça e sorriu.

— “No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o espírito de Deus se movia sobre a face das águas. E disse Deus: Haja Luz; e houve luz. E viu Deus que era boa a luz; e fez a separação entre a luz e as trevas.” — ele disse, com um tom emotivo na voz — Sabem de onde é esse versículo?

— Gênesis, do primeiro até o quinto versículo. — Amber respondeu, cruzando os braços.

— Isso mesmo — Se encostou na cadeira, e suspirou — Assim como é dito no Torá, quem fez tudo o que conhecemos hoje em dia foi Deus. O dia e noite marcaram a humanidade por eras como períodos distintos por razões óbvias. Entretanto, quando o ser humano criou a lâmpada, o mundo mudou e a escuridão umbral não era mais um problema. Desde então, o progresso da humanidade nunca mais parou, continuando num ritmo assustador e perigoso, ameaçando a ligação com o criador inúmeras vezes. E, mesmo assim, continuamos a coexistir com isso, vivendo e se adaptando às novas tecnologias. Entretanto, hoje, em 2025, a ameaça é muito maior do que sequer imaginamos um dia ser. As luzes vibrantes da noite mascaram a verdadeira escuridão que se esconde entre as fendas abissais do pecado. As trevas estão se juntando à luz outra vez, e isso é um presságio para algo muito maior. Se não fizermos nada, a terra será varrida pela conflagração flamejante da ira de Deus. É por isso que estamos aqui, para tentar fazer a diferença — Ele virou seu olhar para Emma, que se assustou com o ato súbito do homem, que agora estava muito mais sério. — Você entende isso, não é, senhorita Raposa?

Ela foi pega de surpresa pela pergunta repentina, mas não ia deixar se abalar por aquilo.

— Sim, eu compreendo. Com o que estamos prestes à fazer, espero que o resto do mundo perceba o perigo iminente que corre, senão tudo será em vão — disse, cruzando os braços. Nunca passou pela sua cabeça que o arquiteto de todo o plano em que ela havia entrado podia parecer uma pessoa tão normal e aparentemente simpática. Sinceramente, eu imaginava algo mais estereotipado que isso, pensou, segurando um riso. — Depois do que a senhorita Amber me revelou o caminho, me arrependi de ter sido tão infantil com o e-mail e de ter recusado a proposta da senhorita Garça.

— Não há problema algum nisso, minha filha — o tom de sua voz trazia uma sensação de conforto estranha, mas muito bem vinda — O arrependimento é perdoável, pois no fim você admitiu seu erro e veio para o caminho correto. Portanto, é um prazer tê-la aqui conosco, Emma. — estendeu a mão, sugerindo um aperto de mão.

Em resposta, Emma apertou a mão do senhor, sorrindo de volta.

— Amber, poderia guiar a Raposa até o refeitório? Considerando o tempo que passou de antes até agora, deve estar com fome, não é? — ofereceu, mais uma vez com o sorriso característico.

— Claro, posso sim. — Ela se virou e andou até o lado de fora, fazendo um gesto para chamar a garota, que a seguiu sem hesitar. Por fim, fecharam a porta.

Após se andarem um pouco e certificar que estavam sozinhas, ambas suspiraram de alívio pela tensão passar.

— Você também? Pensei que mentir já era natural pra você. — Emma disse para Amber, deixando escapar um sorriso.

— Dá um tempo, não é como se eu tivesse nervos de aço. — respondeu, sorrindo de volta.

— Mas olha só, parece que alguém sabe sorrir! — afirmou, apontando para a face da mulher.

— Também não é como se eu fosse um robô.

— Mas assim, para um cara mal, ele me pareceu bem normal.

— Lobo em pele de cordeiro, combina com o codinome. — Deu uma pausa para respirar, recompondo-se totalmente do momento anterior e retomando a sua expressão séria. — Enfim, vamos logo, quero aproveitar que os outros estão no culto para conversarmos algumas coisas importantes.

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Já sentadas em uma cadeira, Emma observava com olhos famintos o prato à sua frente.

Se tratava de uma lasanha de frango, a comida favorita de Emma. Ela apressadamente pegou o talher e retirou um pedaço, comendo-o logo em seguida. O sabor a lembrava de sua infância, quando sua mãe retirava a lasanha do forno. Sem conseguir manter sua expressão séria, seu rosto cedeu ao sorriso da felicidade e do prazer. Involuntariamente, Amber também sorriu. A expressão da garota à lembrava de uma outra pessoa, alguém que ela já não via há algum tempo.

— Qual foi a do sorriso? — Emma questionou. Assim que notou sua expressão, a mulher se recompôs e retomou sua expressão habitual.

— Um deslize, nada demais — Deu uma pausa para pegar a xícara de chá fumegante que jazia sobre a mesa e dar um gole longo, quase tomando todo o líquido. Assim que terminou, ela sentiu suas energias se restabelecerem. — Primeiro, você tem que entender que não temos muito tempo para decidir o que fazer. Em resumo, vamos entrar junto com eles em Yharag, ficaremos fortes, reuniremos um exército e acabamos com eles, assim, salvando o mundo.

— Tá, mas, primeiramente, como é que vamos entrar no Re:Birth? Para chegar lá nós teríamos que ter um maquinário de ponta e ainda um jeito de ligar essa ramificação ao servidor principal, além de morrer, é claro. — Mais uma garfada, dessa vez maior do que a primeira. Em uma sequência rápida de movimentos, a jovem esfomeada acabou com a lasanha rapidamente.

— Por Deus… tenha modos. — pediu, com uma cara de desgosto. A única resposta que teve foram palavras incompreensíveis.

— Foi mal, eu realmente tava com fome. — disse, após engolir com voracidade.

— Voltando ao assunto… melhor não subestimar as pessoas dessa organização, principalmente os membros da elite. Eles tem contatos nas camadas mais altas da sociedade, até mesmo com pessoas envolvidas diretamente no projeto Re:Birth.

— Você não quer dizer que… — Não pôde completar a frase, pois o temor havia lhe tomado as palavras.

— Sim, nós temos uma forma de entrar — completou, causando um choque ainda maior na garota. — E não é só isso. Como você já deve saber, é preciso morrer pra entrar no Re:Birth, mas não é o único meio. Mortos podem entrar pois a atividade em seus cérebros é praticamente nula, restando apenas alguns resquícios da mente, o que facilita o trabalho da máquina.

— Se você está insinuando que pessoas vivas podem entrar, não acho que seja verdade. Eu li os documentos do Projeto, já testaram em humanos vivos. O resultado… foi no mínimo catastrófico. — disse, sentindo-se um pouco enjoada ao lembrar da imagem que estava anexada ao arquivo.

— Bom, não deixa de ser verdade. Isso se deve ao fato da atividade cerebral de seres vivos interfere nas ondas da máquina, que sobrecarregam e bom, literalmente explode a cabeça de quem está ligado ao aparelho. — A expressão de Emma se alternou para uma de desgosto, evidenciando que ela mentalizou a imagem. — Por isso que conseguimos isto. — Com certa dificuldade, ela retirou um chip que se encontrava atrás de sua orelha e o colocou perto do rosto da garota, para que ela visse.

— Um microchip removível? Isso aí não é exclusividade do exército?

— Como eu disse anteriormente, o membros da elite tem muitos contatos. Como você disse, isto é um chip de aprimoramento removível, um pequeno aparelho capaz de melhorar certas capacidades dos seres humanos. Este chip que tenho em mãos contém uma mente artificial inativa e um GPS que, além de conter as coordenadas do seu surgimento no mundo, divide a tensão criada pelas ondas da máquina, protegendo seu cérebro. No máximo, você sentir uma dor bem forte na hora, mas não vai morrer. Um detalhe, eu alterei as suas coordenadas no chip que vão te dar, então você vai ter tempo para ficar forte até que te encontrem. Tem mais, existe um código que… — Antes que pudesse falar, Amber notou a aproximação de duas pessoas vindo em direção delas. — Bom, isso eu vou te contar depois, ou você mesma vai descobrir, o que vier primeiro.

Assim que terminou de falar, dois cultistas pararam ao lado da mesas, ficando de frente para eles.

— Senhorita Amber, está na hora.

— Muito bem — disse, levantando da cadeira. — Vamos, Emma!

Atendendo à ordem da mulher de cabelos prateados, a garota a seguiu pelos corredores brancos até pararem em frente de uma porta, onde vários outros membros da organização aguardavam a chegada delas. Dentre eles, a mulher loira que abordou Emma mais cedo e o Lobo eram destaque para Emma, que tentou parecer o mais natural possível na presença deles. De repente, o Lobo deu um passo para a frente, ganhando a atenção do povo.

— Irmãos, é chegada a hora de fazermos o que nos preparamos por tanto tempo: invadir Yharag, o reino digital que tenta imitar o paraíso. Lembrem-se, não vamos fazer nada de errado, apenas vamos colocar nossos irmãos perdidos no caminho certo outra vez. Como diz em Salmos, versículo 119 e capítulo 30: “Escolhi o caminho da verdade; propus-me a seguir os teus juízos”. Esse é o caminho da verdade, o caminho em que salvaremos as pessoas reféns de um conforto ilusório. Todos comigo?

Em sequência, todos os membros bateram palmas e gritavam mensagens de apoio e de fé, exceto pela elite, que mantinham-se reservados. E então, as portas se abriram, revelando uma sala gigantesca, repleta de mesas de ferro com vários aparelhos interligados à uma gigantesca máquina no centro, que brilhava e pulsava num brilho cerúleo. Ao mesmo tempo em que Emma ficou maravilhada com tamanha grandeza do maquinário, também ficou aterrorizada pela aura fria e invisível que ela emitia. Ela também percebeu que várias pessoas já estavam deitadas e ligadas à aparelhagem, o que indicava que os testes iniciais haviam sido um sucesso.

— A partir do momento em que sentirem suas mentes se separando do corpo, vocês não terão qualquer tipo de contato com o lado de fora, além de que, uma vez lá dentro, não será possível voltar até que eu permita, ou seja, até conseguirmos vencer. Que deus abençoe a nossa jornada.

O Lobo então gesticulou para que os membros formassem uma fila única, para evitar confusão e baderna. Quando chegou a vez de Emma ir para a sua mesa, o Lobo deu à ela um dos chips que Amber havia citado anteriormente e colocou a mão sobre seu ombro

— Bem vinda à nossa família, Emma.

Como resposta, Emma apenas sorriu e sussurrou um “obrigado”, colocando o chip na parte de trás da orelha e indo em direção da cama mais próxima.

Em sua cabeça, vários pensamentos corriam por sua mente. No que eu me meti? Será que eu vou conseguir parar essas pessoas? Como será que meus pais estão? e outros mais. Entretanto, mesmo com todas essas incertezas e desconfianças, ela permaneceu confiante. Apesar de nunca ter ligado muito para os outros, ela podia sentir o peso de milhares de vidas em seus ombros, e isso só a encheu de mais preocupações, mas ela se forçou a se manter calma e séria.

Ela se deitou na mesa de metal frio e foi auxiliada por uma pessoa a ligar os dispositivos ao seu corpo, logo depois sendo presa à mesma. O medo e a tensão predominavam em seus pensamentos, mas ela não queria perder pra seus próprios devaneios. Ela tinha que vencer, não só por ela, mas por todo o mundo.

Assim que todas as pessoas já estavam conectadas ao equipamento, a grande máquina começou a zunir e a brilhar mais intensamente. E então, o processo começou. Uma dor intensa atingiu o corpo inteiro de Emma, como se milhares de agulhas injetassem ferro fundido em seu sangue. A dor foi ficando cada vez mais forte, até que ela parou de repente. Emma parou de sentir dor, e em seguida foi perdendo todos os sentidos aos poucos, até não sentir mais nada.

Sua visão foi tomada por trevas, sendo recebida pela fronteira entre a vida e a morte.

Apesar de estar sem sua sensibilidade, ela estava acordada, sentindo como se sua consciência viajasse pelo vazio existencial.

O que mais a assustou, no entanto, não foi saber que não estava mais na terra. Foi perceber que ela estava completamente sozinha no infinito vazio.

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