Aprendendo no Mundo Novo

O lobo cinzento corria em direção à Emma, indo pelos arbustos para tentar chegar despercebido. Quando chegou, pulou para atacar a garota, mas foi interceptado pela mesma, que já esperava  pelo ataque. Com um rápido golpe, a barriga do lobo foi cortada. Sangue espirrou no rosto de Emma, que fez uma cara de desgosto. O lobo caiu no chão, com seu corpo sumindo e deixando para trás sua pele e um de seus dentes. A aura dourada mais uma vez cobriu a jovem, que caiu de joelhos no chão, cansada e suada. Há horas estava matando lobos na Floresta da Serpente, o que não era sua ideia inicial, mas acabou sendo necessário para ela e seu novo companheiro de viagem.

– Athert…Qual era esse? – Ela disse, ofegante.

– Pelas minhas contas, esse é o número 20! – Ele disse, com empolgação. – Quer que eu recupere sua energia?

– Tá esperando o que? Vai de uma vez! – A garota gritou, se levantando com dificuldade.

– Certo. – Athert falou, pegando a pequena cruz no seu pescoço e segurando-a com as duas mãos. – Ó, Grandes Divindades, permitam-me usufruir de seus poderes para ajudar meus aliados! Luz Revigorante! – Ele proferiu.

Dizendo tais palavras, uma luz forte brilhou sobre o corpo de Emma, que logo se sentiu cheia de energia de novo.

– É por isso que eu disse que você era útil. Nem me imagino matando 20 dessas coisas e ter energia para continuar de pé. – Emma disse, dando um leve sorriso enquanto pegava os itens do chão e os entregava para Athert guarda-los.

– Apesar de você ter cortado a parte em que me chamou de louco, obrigado pelo “elogio”. – O garoto falou, colocando os itens em seu inventário. – Enfim, acho que pegamos drops o suficiente para conseguir uma boa grana na cidade mais próxima. O que acha de voltarmos? – Ele ofereceu.

– Hawic? Eu não volto pra lá nem fodendo. Sabe quantas pessoas estão me procurando pelos arredores daquela cidade?

– Não é Hawic, idiota. – Ele respondeu, pegando o mapa. – Estamos próximos da cidade de Daford. É uma área bem neutra, então acho que está tudo bem se entramos com nosso rostos cobertos. – Explicou enquanto guardava o mapa.

– Daford é? Me parece uma boa ideia. – Ela respondeu, se encostando numa árvore. – Mas primeiro, vou checar meus Status. Só nessa brincadeira de matar os lobos eu consegui subir dois níveis!

– Como eu já era nível 4, consegui chegar no nível 6, então acho que vou conseguir melhorar bastante.

– 1 nível acima de mim ou não, você ainda é o suporte da dupla. – Emma disse, abrindo a aba de Status. – Seu trabalho é me curar enquanto eu te protejo, só isso.

– E desde quando eu concordei em ser sua dupla?

– Pode até não ter concordado. Mas se não fosse por mim, você teria seguido esse mesmo caminho, chegado em um ponto de nascimento de lobos e teria sido no mínimo despedaçado. Então não desmerece, tá? Eu estou te fazendo um favor aqui.

– E você? Se não fosse por mim você teria virado um cadáver sangrento, mas sexy, naquela cruz. – Ele explicou, sentando-se no chão. – Então você deveria me agradecer mais um pouco e deixar de ser assim.

– Acaba de chamar uma garota como eu de Sexy, logo eu que tenho uma lâmina na mão? Não vou negar sua afirmação, mas você deveria tomar mais cuidado com suas palavras. – Emma disse, mostrando sua adaga.

– Ironia existe, sabia? – Ele disse, despreocupado.

Nesse momento, uma corrente de vento passou do lado de sua orelha. Quando olhou, viu que a adaga de Emma havia sido arremessada contra ele, mas por pouco não acertou sua cabeça.

– Se isso foi para acertar, você tem uma péssima mira. – Athert continuou provocando-a.

– Cala a boca, idiota. Vai logo pegar minha faca.

Vendo uma chance para se divertir um pouco, o garoto pegou a faca e atirou de volta, cortando uma mecha do cabelo de Emma.

– Acho que acertei. – Ele disse, dando uma leve risada.

Antes que pudesse se dar conta, Emma levantou e foi até ele, socando a sua face tão forte que o fez cair para trás.

– Que merda é essa?! Por que fez isso?! – Athert gritou, tentando limpar o sangue que escorria de seu nariz.

– Eu te disse que quando eu ficasse mais forte você iria levar um soco na cara. – Ela disse, voltando a se encostar na árvore. – Agora aproveite a dor e o sangue escorrendo do seu nariz.

– Nossa, você não tem noção do quanto eu te odeio! – Ele disse, usando um feitiço para curar seu ferimento.

– Digo o mesmo pra você! – A garota respondeu uma última vez, antes de se focar completamente em seus status.

===[Status de Personagem]===

Nome: Emma Adams
Raça: Humana
Classe: Assassina

Nível: 5
EXP: 0/1000

HP: 1000/Regen de HP por sec: 50 HP por sec {+}
ATK: 30 {+}
SPD: 30 {+}
DEF: 20 {+}
INT: 50 {+}
MG: 0 {+}
CAC: 5% {+}
DAC: 5% {+}

Já que da última vez, quando subiu para o nível 4, colocou todos os seus 10 pontos de atributos, Emma tentou equilibrar um pouco as coisas, colocando 5 de seus pontos no ataque e os outros 5 na defesa. Achava que não precisava melhorar sua inteligência, já que conhecia o quanto era inteligente. E a magia, não pensava de que forma poderia utiliza-la em sua classe. Uma outra aba foi aberta à sua frente, dessa vez a de habilidades. Não pensou que iria conseguir uma outra habilidade tão cedo, mas o que viesse estava bom. As mesmas habilidades nas quais ela não tinha escolhido antes permaneciam lá, confirmando suas suspeitas de que novas habilidades só apareceriam se ela escolhesse as que estavam disponíveis.

===[Habilidades]===

Caminho do Errante:

Passos do Caçador {+} (Novo!)
Efeito Passivo: Seus passos tornam-se -10% audíveis e rastreáveis.

Caminho do Assassino:

Golpe Preciso {+}
Efeito Ativo: Aperte fortemente o cabo de sua arma e, quando a lâmina começar a brilhar, golpeie seu adversário para causar um acerto crítico com chances de 25% de causar efeito de Sangramento: 20 de DMG por sec durante 5 sec

Caminho do Oculto:

Vestes das Sombras {+}
Efeito Passivo: Quando equipado(a) com uma máscara, ou com um manto, torna-se -10% perceptível, mas anda 5% mais devagar. (Efeito é desativado quando visto por elementos hostis)

Dessa vez, optou pela habilidade “Golpe Certeiro”, já que pressentia que suas lutas começariam à ficar cada vez mais violentas. Olhou para a sua adaga e viu que já estava bem desgastada. Já estava na hora de comprar uma nova.

– Athert, esse jogo tem sistema de durabilidade? – Emma perguntou.

– Tem, mas é um pouco diferente do habitual. – Ele começou a explicar. – Normalmente nesse tipo de jogo, a durabilidade vai descendo conforme você utiliza a arma. No entanto, em Yharag, se uma arma está se desgastando na sua mão, tem duas opções: Ou você já esta forte demais para a arma, então ela vai naturalmente se desfazer sozinha. Ou então, é uma arma de raridade comum ou incomum. No seu caso, acho que são os dois fatores, o que deve ter desgastado a sua arma bem mais rápido que o normal.

– Então até um sistema de raridade existe? Poderia me explicar melhor? – A garota questionou, agora mais curiosa.

– As raridades vão de comum à divinas, sendo o que há entre elas as classes: incomum, raro, super-raro, épico, lendário e por fim, as divinas. Itens de classe comum e incomum se desgastam rapidamente, enquanto as raridades acima deles nunca vão se desgastar. Pensei que tivesse aprendido tudo isso enquanto ainda não era procurada.

– Eu só fiquei livre por algumas horas. No mesmo dia que cheguei fui sequestrada por aquela sádica da Wena. Mas, isso quer dizer que caçados não recebem dicas?

– Não. Só recebemos dicas se nossos nomes estiverem limpos. Se não estiverem, o jogo não te dá mais elas, o que faz total sentido.

– Se é assim, como você sabe tanto desse mundo?  – Ela continuou a perguntar.

– Eu sei porque quando estava em Gawold, pude aprender quase tudo sobre Yharag antes do meu exílio. Então qualquer coisa, é só me perguntar.

– É, quem sabe eu pergunte. – Ela falou, desencostando-se da árvore. – E então, o que faremos agora? Quer ir pra Daford de uma vez? – Ela perguntou.

– Te ofereci isso desde o início, mas tudo bem, vamos sair logo dessa floresta. – Athert respondeu.

E assim, os dois foram para Daford, seguindo uma estrada de terra. Por sorte, não foram percebidos logo de cara, e conseguiram vender os seus itens por 20 moedas de prata, o que era bastante para eles. Passando pelas ruas lotadas de barracas mercantis da cidade, Emma percebeu que a vigia estava ainda mais reforçada, com soldados de nível 15 por todo lugar. Enquanto se distraía olhando para os guardas, Athert puxou a manga do manto da garota, que se assustou com o ato súbito dele.

– Que merda você tá pensando em fazer? Quase me mata de susto! – Ela sussurrou.

– Relaxa, olha aqui, tenho uma coisa para te mostrar! – Ele comentou, puxando-a para uma das barracas.

Era uma barraca modesta, com um grande artefato mágico no centro.

– Ora, ora, o que temos aqui? Dois jovens aventureiros? Como posso ajuda-los? – O NPC disse.

– Tá, qual é a desse cara? – Emma perguntou, mais séria do que antes.

– A coisas não é ele, e sim o que está atrás dele! – Athert disse, apontando para o grande aparelho mágico. – Aquilo é uma roda da fortuna!

– Roda da fortuna? Tipo aqueles programas genéricos que passam na TV? – Emma disse, não perdendo a seriedade.

– É quase isso. Só que aqui, ganhamos itens ao invés de dinheiro. Podemos até mesmo ganhar armas divinas!

– Certo, qual o preço pra girar? 

– 1 moeda de prata.

– Tá louco? Eu não matei 20 lobos cinzentos para gastarmos nosso dinheiro em um jogo de azar! Tô fora!

– Espera! Deixa eu gastar só uma moeda, por favor! Se vier algo bom, você tenta, se não, você faz o que você quiser comigo!

Emma pensou, e logo um sorriso sádico se formou em seu rosto.

– Qualquer coisa? – Ela indagou, pensando nas diversas formas que poderia socar a cara de Athert.

– É… qualquer coisa. – Ele disse, pegando uma moeda com receio.

Deu a moeda para o NPC, que logo ativou a máquina. Alguns segundos depois, o item que havia caído para Athert era um peitoral de ferro raro, que o concebia 200 pontos de vida.

– Viu? Agora, como combinado, tenta você! – Athert disse, um pouco animado.

– Bem, acho que não tenho escolha… – Emma disse, pegando uma moeda e dando-a para o NPC. – Mas já digo, se vier merda eu não quero nem saber, vou vender o item. – Ela disse, se virando para Athert

Alguns instantes depois, e a expressão no rosto de Athert tinha mudado. Era uma de extrema surpresa ao mesmo tempo que feliz.

– O que foi? Eu ganhei algo bom? – Emma perguntou, se virando, dando de cara com o NPC

– Parabéns, senhorita! Você acaba de ganhar a Abatedora Relâmpago, um item divino! – Ele disse, entregando dois anéis para a garota.

– O que é isso, uma piada? Cadê o item?! – Ela disse, ficando com raiva.

– Calma, senhorita. Coloque um deles em seu dedo do meio e o outro no polegar, e então estale os dedos!

Não entendo muito o que iria acontecer, mas curiosa, Emma estalou os dedos. Repentinamente, um raio caiu do céu bem na mão da garota, que não sentiu dor alguma. Porém, o que havia em sua mão foi o que mais a surpreendeu.

 Porém, o que havia em sua mão foi o que mais a surpreendeu

– Abatedora Relâmpago… – Ela disse, não conseguindo expressar sua reação.

– Nem fodendo! Isso aí não aconteceu até hoje na história desse jogo! Você tem ideia do valor que essa arma tem?! – Athert falou, muito ansioso.

– Puta merda, Athert! Se eu não te odiasse eu juro que eu te dava um abraço! – Ela gritou, pulando de alegria.

No entanto, enquanto pulava, sua máscara caiu no chão, revelando para todos o seu nome em vermelho para todos os que estavam ao redor. O momento de felicidade se transformou em um instante de horror.

– Merda, Corre! – Athert disse, começando a correr.

Não demorou muito para Emma fazer o mesmo, pegando sua máscara no chão e saindo em disparada pela cidade. Todos os jogadores e soldados estavam atrás deles, usando magias, habilidades e tudo o que poderiam fazer para tentar mata-los. Por ainda serem de nível consideravelmente baixo, eles logo seriam alcançados. Quando um grupo de soldados ficou na frente deles, tudo parecia perdido. Até que Emma, com toda a sua inteligência, pensasse em uma forma de ultrapassar o bloqueio. Com toda sua força, ela arremessou a sua nova arma divina em um dos soldados, acertando-o em cheio. Depois, estalou os dedos de novo, fazendo outro raio cair, dessa vez encima de todos os soldados. Os que não morreram na hora, ficaram paralisados ou incapacitados. Novamente, ela estalou os dedos e a adaga voltou para sua mão em outra descarga atmosférica.

– Isso foi inteligente, mas mesmo assim eles vão nos alcançar! Não tem outro plano?! – Athert gritou.

Enquanto Emma usava todo o seu cérebro para pensar, uma forte corrente de energia passou pelo corpo da garota, dando-a muita velocidade. Com o tempo, passou Athert, mas logo voltou para busca-lo.

– É incrível como esse jogo quer e não quer que você morra! – Athert disse, antes de Emma pegar em sua mão e puxa-lo com ela pela cidade.

Depois de muito correrem, os dois finalmente conseguiram escapar, entrando na Floresta da Serpente mais uma vez.

Athert estava exausto, e Emma ainda mais, com sues corpos doloridos e suados.

– Me lembre… de nunca mais… dar a ideia… de irmos… para uma cidade. – Athert disse, tentando recuperar o ritmo de sua respiração.

– Pode… deixar… – Emma disse com dificuldade.

Athert caiu sentando no chão, muito cansado para se manter de pé.

– Por que não pensou… em jogar a adaga nos caras nos perseguindo? – O garoto falou, ainda muito ofegante.

– Foi mal… eu não pensei… na hora… – A jovem falou, deitando no chão e recuperando o ritmo de sua respiração.

– De boa… pelo menos estamos vivos. – O Demônio disse, regulando sua respiração.

– É, pelo menos isso…

E agora, o que a gente faz? – Ele questionou.

– Por enquanto, vamos descansar.

– É, é uma boa ideia.

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