Novo Começo

Diante da cena repulsiva que estava diante dos seus olhos, Emma teve que se segurar para não vomitar ao sentir o cheiro putrefato dos corpos das galinhas mortas. Com a mão tapando a boca, ela rapidamente se virou na direção oposta dos arbustos e caminhou um pouco, tirando a mão de sua boca e puxando ar fresco para seus pulmões. Alguns instantes depois, sentiu que Alay e seu pai se aproximaram dela, o que a fez se virar para eles.

— Alay, que tipo de animal vocês costumam ter no seu quintal, além dos que você cria? — Ela perguntou, ainda um pouco enjoada por conta do forte odor.

— Nenhum ousado o bastante para invadir uma fazenda, pelo que eu saiba. Eu já brinquei no bosque perto da cidade, nunca vi nada perigoso lá, isso é novo até pra mim.

— Cacete, se não tem nada nessa floresta então eu sou uma freira! A coisa que comeu aquelas galinhas tem pelo menos o tamanho de um cão de grande porte, acho difícil que ninguém tenha visto uma coisa dessas.

— Na verdade, agora que você falou, eu acho que tenho uma ideia do que possa ser — disse, logo virando seu olhar para a casa. — Eu vou lá pegar uma coisa, fiquem por aí, mas não vão muito longe.

Ambos concordaram, acenando com a cabeça. Quando o pai do garoto se virou, Emma deixou-se cair no chão, sendo abraçada pela grama fresca e bem cuidada. Alay estranhou a ação da garota, que o retribuiu com um olhar de dúvida e curiosidade.

— O que é? Não vai deitar também? — Indagou, surpreendendo o jovem com a pergunta.

— Deitar? Por quê?

— A questão não é essa. Em momentos como esse, você deveria estar se perguntando: “Por que não?”. Anda, não vai te fazer mal.

Com um pouco de hesito, Alay se deitou na grama, sentindo o conforto da carícia suave e natural da relva, permitindo a sensação dominar o seu corpo. Um bom período de silêncio entre os dois havia passado, o que deixou o rapaz constrangido. Ele queria falar, mas não sabia do que falar. Assim que encontrou o primeiro assunto que veio em mente, ele deixou as palavras saírem de sua boca.

— Emma… o que você fazia antes de tudo isso? — as palavras voaram com a brisa calma, mas atingiram a garota em cheio, pois ela não esperava uma pergunta desse tipo.

Ela tentou mentalizar a resposta mais adequada, mas não encontrava nada que a satisfazia. Apesar de ser um simples questionamento, ele se tornou uma indagação profunda, que ecoou na mente de Emma como o badalar de um antigo sino há muito esquecido, despertando lembranças dormentes que estavam perdidas nas profundezas da mente dela.

Fechou os olhos e pode imaginar ela, junto de seus pais, tomando um café da manhã como qualquer outra família. Depois disso, apenas solidão, códigos e muitas horas perdidas de frente para o computador. A tecnologia do mundo em que ela vivia tomou muito de sua vida, e ela tinha consciência do que isso lhe custaria, mas só foi perceber o quão caro pagou quando abriu os olhos, e contemplou a imensidão do céu azul.

Rendendo-se aos seus sentimentos, ela deixou-se levar pelas emoções e escolheu falar o que ela pensava.

— Eu já fui alguém feliz antes, eu vivia com meus pais, ia pra escola cedo e voltava de tarde para ficar com eles. Entretanto, tudo isso mudou quando eu me mudei para Nova York, por conta da minha universidade. Pensei que eu estaria indo de encontro para um sonho, mas na verdade a cidade me mostrou suas garras e dentes, e eu, achando que não eram reais, me deixei ser estraçalhada aos poucos por ela — Deu uma pausa, suspirando e dirigindo seu olhar para o horizonte, onde encontrou a mesma cena exuberante de antes. — No fim, eu me tornei uma pessoa reclusa, desorganizada e preguiçosa, pois deixei que o falso conforto de uma rotina fácil me engolir por inteiro. E então… — Ao perceber que chegou no momento de falar sobre como havia chegado ali, inventou uma mentira qualquer. — Eu morri num acidente, fui atropelada por um carro, foi assim que acabei chegando aqui. — concluiu, olhando nos olhos do rapaz, que a encarava com um olhar de pena e de tristeza.

— Você… você está mentindo, não está?

Ao receber mais essa pergunta, ela definitivamente não sabia como responder, ficando sem reação.

— Como é?

— Você mentiu sobre sua morte, eu percebi. Quando você mente, você sorri, foi a mesma coisa quando você disse que era uma pessoa que ajudava as outras — Percebendo que estava encurralada, Emma continuou ouvindo, atônita. — Eu normalmente só ignoraria, mas não pude desta vez. Tudo, exceto a sua morte, foram reais, sei disso graças à sua clara expressão de melancolia e arrependimento. Acertei, não foi?

Claramente vencida, ela aceitou a derrota e sorriu para ele.

— É, você me pegou, não tenho como refutar. E dessa vez, esse sorriso é de verdade — ela riu, fazendo Alay rir também. — E você, como acabou chegando aqui?

— Bem, eu… — Ele tentou falar, mas logo foi interrompido pela aparição repentina de seu pai, que surgiu na frente deles com um livro bem velho e surrado.

— Interrompi vocês? — perguntou, lançando um sorriso para ambos. Apesar de ter um lado explosivo, Emma notou que o homem também podia ser um bom pai. Em suas mãos, ele carregava um livro sem título com uma capa velha de couro avermelhado.

— Não, só estávamos conversando enquanto você não chegava — Emma se sentou e colocou os braços ao redor dos joelhos. — E então, que tipo de livro você tem aí?

— Você me fez lembrar de uma coisa que eu comprei com um mercador nômade que visitou essa cidade há algumas semanas. É um livro com a fauna da região, é bom pra quem quer ser fazendeiro. — Com uma rápida virada de mão, ele mostrou as páginas do livro para os jovens. No papel, jazia um desenho rudemente traçado que parecia um tipo de lagarto grande com características distintas de qualquer coisa que Emma já havia visto em sua vida. — Chamam de Dragão Sabre, uma espécie dr réptil que caça de noite. Por ser raro de encontrar não tem muita informação sobre ele, mas o tamanho e o rastro de patas condiz com registros anteriores

— Um lagarto né? Acho que é menos perigoso do que lobos ou cães selvagens, mas ainda não sabemos o que é esse líquido que ele deixa por aí. — Alay comentou, tentando formular uma ideia em sua mente.

— Deve ser um tipo de gosma que ele usa pra ficar mais fácil de passar pela cerca, nosso amiguinho deve estar um pouco gordo por conta de suas últimas refeições — Emma cogitou, aproximando seu rosto do desenho para tentar enxergar mais detalhes. — Essa coisa tem espinhos também, além dessas presas enormes saindo da boca dele…

— Não deve passar de um lagarto grande, dá pra matar numa boa. — disse o Pai de Alay, não dando muita atenção para o desenho. — E então, senhorita Emma, você vai abatê-lo, não é?

Naquele instante, o tão esperado símbolo que indicava uma missão para ser aceita apareceu acima da cabeça do homem, emanando um suave brilho dourado. E, na frente de Emma, uma caixa de texto se abriu, perguntando se ela gostaria de aceitar a missão. Sem hesitar, ela selecionou a opção que dizia “sim”, desaparecendo com o holograma.

— Muito bem, tá feito! E então quanto ao meu pagamento…

— Já quer falar sobre a recompensa? Vocês, jovens de hoje em dia são realmente bem apressados. Mas enfim, qual o valor que você quer? Nós podemos negociar ou…

— Na verdade, eu gostaria de receber equipamento.

— Equipamento? De que tipo?

— Sabe, proteção e uma arma. Esse animal não deve ter dentes tão afiados, então acho que uma roupa mais grossa e uma faca devem servir.

— Bem… não sei se tenho isso, mas vou ver pra você após o jantar. Vamos esperar a noite chegar, não vai adiantar de nada procurar por essa coisa enquanto o sol ainda está no céu.

— Beleza, vou estar esperando aqui fora.

— Tem certeza? Você pode se juntar à gente se quiser.

— Tá tudo bem, eu não estou com fome.

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Enquanto a família de Alay jantava, Emma observava o Sol cada vez mais desaparecer no horizonte enquanto pensava não só na situação em que estava, mas também um pouco mais sobre ela mesma. Quanto mais os anos passavam, mais as areias do tempo carregavam as memórias da garota consigo, tornando o simples ato de se lembrar do que havia acontecido antes dos seus 18 anos em algo difícil.

Era como se ela mesma estivesse se privando do passado, trancafiando suas memórias com um cadeado cuja chave já havia sido perdida há muito tempo. De vez em quando, ela era capaz de ultrapassar os limites impostos sobre sua mente e recuperar alguns fragmentos de lembranças. Juntando os pedaços que conseguiu com o tempo, ela conseguiu reconstruir uma parte de seu passado, sua infância. Foi a melhor fase de sua vida, onde pôde brincar e fazer de tudo com seus pais e parentes, até mesmo tinha alguns amigos na escola. Tudo o que vinha depois disso estava coberto por uma densa névoa que a impedia de alcançar qualquer outra memória. Talvez isso mudasse com o tempo, era impossível de saber.

Antes que pudesse continuar a pensar sobre seu passado, Alay saiu pela porta da frente, carregando um prato com um pouco de comida e uma caneca.

— Alay, eu já disse que não… — Iria continuar, mas foi interrompida pelo rapaz.

— Você sorriu de novo naquela hora, logo mentiu. — disse, sorrindo timidamente.

— Quem você acha que é pra ficar me lendo assim? — indagou, suspirando e virando seu olhar pra ele.

— Ninguém de importância, mas eu não iria deixar você passar fome só porque quer se fazer de forte.

— Cala a boca, idiota… — Após, ficar calada por mais alguns segundos, ela se rendeu ao cheiro da carne e legumes cozidos e tomou o prato junto com os talheres e a caneca da mão de Alay e começou a comer a comida.

— Viu? É mais fácil falar a verdade do que enganar a si mesmo

Como resposta, apenas obteve palavras incompreensíveis, que, julgando virem da boca de Emma, provavelmente eram insultos e xingamentos. Com um sorriso no rosto, ele se sentou no chão perto dela.

— Nós não morremos de fome neste mundo, mas a sensação não vai embora até saciarmos ela. — falou, entregando a caneca para a garota, que a pegou calmamente e tomou um gole.

— E tem como morrer? O propósito dessa realidade não é exatamente viver para sempre?

— É, mas por enquanto esse lugar é só um protótipo. — disse, dirigindo seu olhar para as primeiras estrelas que haviam começado a aparecer no céu — Pode não parecer, mas esse mundo ainda não está completo. Aqui é Yharag Alpha, o primeiro estágio de desenvolvimento do Re:Birth. Enquanto eles não terminam a passagem para o próximo estágio, nós estamos sujeitos a erros e bugs desse lugar. Isso inclui a morte, que não está cancelada. Se você morrer aqui, os dados sobre você são apagados do servidor, ou seja, acabou de vez.

— É uma empreitada bem arriscada, para dizer no mínimo. Mas acho que, se tratando da própria vida e a de seus parentes, os seres humanos ignoram qualquer risco e escolhem dar um tiro no escuro. — Emma afirmou, pensando se alguém faria o mesmo por ela, não chegando à uma resposta, voltando a prestar atenção em seu prato, que estava quase no fim.

— É a nossa natureza, fazer o que, não é?

— Mas não precisa ser. Eu nunca me deixo levar pelo sentimento, sempre tento ser a mais racional possível para ter êxito em tudo o que faço.

— Desse jeito a vida fica sem graça. Tudo é muito mais divertido e emocionante quando você age sem pensar, se guiando apenas pelo sentimento.

— Mas continua sendo o jeito mais burro de se resolver as coisas. — disse, terminando de comer.

— Você nunca tentou, como pode saber? Sem experiência fica difícil saber ou não como é.

Antes que a discussão continuasse, o Pai de Alay saiu pela porta carregando uma caixa de madeira e indo em direção deles.

— A hora chegou, pessoal. — disse, com uma expressão séria. — Você disse que queria sua recompensa pelo trabalho em forma de equipamento, senhorita Adams. Bom, aqui está ele. — falou, abrindo a caixa com cuidado.

Ansiosa, a garota se aproximou e viu uma roupa preta e outra branca dobradas ao lado de uma faca serrilhada.

— Eu comprei isso para minha mulher caso ela precisasse ir pra cidade grande, mas ela nunca teve que usar, então, pra não jogar dinheiro fora, vou dar ela pra você.

Pegando a veste branca e desdobrando-a, revelou-se ser um sobretudo branco feito de algum tipo de tecido mais grosso, que deveria oferecer uma proteção mais adequada do que uma simples roupa de camponês. Acompanhado dela, estava uma calça preta feita do mesmo tecido. Por fim, Emma analisou a arma que lhe foi dada, e confirmou sua qualidade aparente.

— Vai servir por enquanto. Obrigado, senhor.

— Não precisa ficar me chamando assim, faz me sentir velho. Meu nome é Paul, Paul Morgan.

— Tá bom então. Valeu, senhor Paul.

— E eu acabei de dizer que… Ah, enfim! vá logo provar as roupas!

Sem dizer mais nada, Emma pediu licença e foi para dentro da residência, voltando de lá alguns minutos depois, bem diferente do que ela era antes.

Ela passava um ar misterioso e ameaçador, quase como se tivesse se tornado um predador noturno. Talvez fosse por conta do contraste entre suas vestes, ou poderia ser a intensa cor azul de seus olhos brilhando na noite, que era banhada pela luz da lua. Pegando a faca, ela golpeou o ar, dando várias sequências de ataques para praticar. Sentindo-se confiante e preparada, ela olhou para Alay e seu pai e deu um sorriso determinado.

— Dessa vez, o caçador virou a caça! Vamos matar aquela coisa!

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