Espreitando nas Sombras

A aurora lunar dava ainda mais destaque para a garota, que se distinguia de todas as outras coisas presentes na paisagem noturna. A ventania amena levantou os não tão longos cabelos negros dela, dando notoriedade para seus olhos azuis, que brilhavam como o resplendor cósmico das estrelas no céu acima. Alay se surpreendeu ao ver o quão bem as roupas ficaram em Emma, mesmo que a intenção não fosse essa. Ela tá tão… bonita, Alay pensou.

Com passos apressados, a jovem se aproximou dele e de seu pai, que ainda estavam na varanda da casa. Seu olhar transmitia confiança e determinação, e Alay já entendia o que ela estava querendo que ele fizesse.

— Você vem, não é? — Emma perguntou, mesmo que, no fundo, já soubesse a resposta.

— Sim, eu vou! Eu não quero ter mais medo, vou matar essa coisa e me tornar mais forte! — Ele respondeu, atendendo com as expectativas da garota, que sorriu ao ouvir.

— É assim que se fala! Vai logo se arrumar, não podemos demorar muito. — Em resposta, ele foi correndo para dentro de casa, deixando apenas a garota e seu pai do lado de fora. Quando ele olhou para Emma, ela estava o encarando, como se quisesse dizer algo. 

— Quando isso acabar, eu gostaria que você tratasse o Alay de uma forma melhor, eu não acho que ele vai ficar bem desse jeito que está agora — falou, pegando o homem de surpresa com a sugestão.

— O que quer dizer com isso? Meu filho está muito bem, ele não precisa de nada mais.

— Você está enganado. Naquela hora que você o abraçou, pensei que tivesse percebido o quão excessivamente violento você estava sendo com ele, por isso pediu desculpas. Posso não ter um filho, mas sei o quão mal isso pode ser para uma pessoa. Exigir demais de alguém que dá tudo de si para melhorar é algo muito ruim. Por isso estou sugerindo a mudança.

— E por que está dizendo isso? Se você diz isso, o que estaria faltando para nós?

— Compreensão. Você está colocando pressão demais nele, deixe-o fazer as coisas do jeito dele, ele vai conseguir alcançar os sonhos e objetivos que tem se permitir. O Alay é uma pessoa boa, pude perceber isso pelo pouco tempo que passei aqui. E eu sei que você quer o melhor para o seu filho, todo pai quer isso. Então, como uma simplória pessoa que aqui passou, digo que ele deve ser livre para melhorar no seu próprio ritmo. — Emma não era do tipo sentimental, mas podia sentir o forte vínculo que aquela família tinha, e que ele deveria ser preservado. Talvez esse sentimento veio de algum lugar do seu passado enevoado, mas ela não podia dizer com certeza.

Ao menos conseguiu o que queria, deixando Paul sem palavras e pensativo. O homem adotou uma expressão melancólica, cruzando os braços e olhando para o interior de sua residência, observando sua família com um sorriso discreto.

— Eu só queria que eles se sentissem incentivados a se tornarem pessoas melhores, que lutassem para isso,  perceber o quão dura a realidade pode ser. Eu fui criado por um pai militar, e eu apanhei e lutei muito pra conseguir formar minha personalidade. Por fora, eu odiava o velho, mas foi só quando eu o perdi que percebi o quanto ele fazia falta — Pequenas gotas de água deslizaram pela sua face, limpando-as logo em seguida. — Pra ser sincero, ainda há muito de meu pai em mim, um homem que finge ser forte e durão, mas na verdade é alguém com um bom coração — Ele olhou diretamente para a garota, com o arrependimento estampado na face. — Você acha que eu posso mudar?

— Relaxa, ainda há tempo de mudar. Vai por mim, você vai ver como isso vai melhorar a sua relação não só com ele, mas com toda a sua família e quem sabe com as outras pessoas da aldeia. — Assim que terminou de dizer, Alay atravessou a porta carregando a sua lança e vestindo seu peitoral e botas de couro com um sorriso no rosto.

— Tá pronto pra ir? Não dá pra voltar atrás agora hein?

— Eu ainda estou um pouco receoso com tudo isso, mas não tem motivo para desistirmos agora — Ergueu o braço e apontou para a floresta — Vamos a caça!

Assim. Eles começaram a caminhar na direção das árvores escuras que ficava nas redondezas da vila. Da varanda, Paul olhava para seu filho, conseguindo enxergar um reflexo de si quando mais novo. Com esses pensamentos, ele riu e entrou em sua casa. Estamos esperando você, Alay, disse para si mesmo, fechando a porta atrás de si.

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Tendo uma visão melhor do caminho que deviam seguir, eles perceberam que o trajeto não era tão longe quanto eles pensavam ser. Se corressem para chegar mais rápido, acabariam por gastar muita energia, coisa que seria essencial para a batalha que estava por vir.

Alay, que estava atrás de Emma, podia sentir que, desde a chegada daquela misteriosa viajante em busca de missões, sua vida havia cursado um caminho dentre as muitas curvas do destino. Ele sentia que, se a seguisse, poderia se tornar uma pessoa mais virtuosa e que ajudava os outros, mas ainda desconfiava do passado da garota, que ainda não tinha lhe contado a verdade.

Enquanto isso, Emma ponderava sobre o que faria depois da missão. Não fazia nem um dia que ela tinha chegado no novo mundo, mas sua preocupação com o tempo que tinha para ficar forte e derrotar os outros membros da Menorá Áurea apenas crescia em função das horas que decorriam. Sua sorte, que já não era tão grande assim, não estava ao seu favor, apesar de ter conseguido equipamento rápido e ter a chance de concluir uma missão que a daria experiência de combate real. Como será que a Amber está? Tomara que bem, se não eu vim até aqui a toa, pensou, notando que eles enfim haviam chegado perto da floresta.

De lá, sons de origem desconhecida se combinavam ao uivo gelado do vento noturno criavam um soneto que ecoava por toda a mata umbral, como um hino selvagem da floresta. Diferente das árvores de folhas roxas que Emma encontrou mais cedo naquele dia, estas eram árvores normais, típicas do Central Park em Nova York.

A pouca iluminação dentre as árvores vinha de alguns feixes de luz lunar que conseguiam atravessar o denso tapete verde e de algumas plantas e insetos com bioluminescência. Mesmo que ela procurasse com os olhos, não encontrava um fim da extensão das árvores. Não havia sinal de pegadas da criatura que eles estavam perseguindo a partir dali, o que os deixavam sem rastro algum para seguir.

Ela tirou a faca do bolso e olhou para Alay, que já havia adotado uma postura mais cautelosa e apontando a lança para frente.

— Não temos nada para seguir agora, cada passo que vamos dar dentro daquela floresta vai ser uma aposta, ou seja, fique atento à qualquer coisa que se mexa ou faça um barulho estranho, entendido? — Emma questionou, sendo respondida com um joinha de Alay.

Assim, eles ficaram mais próximos um do outro e entraram na floresta tranquilamente, procurando não chamar atenção desnecessária das criaturas que ali viviam, tentando se misturar ao ambiente.

A medida que eles entravam no bosque, mais parecia que eles estavam sendo observados, tendo vários pares de olhos invisíveis para eles encarando com curiosidade os invasores de seu lar. Felizmente, nenhum parecia querer intervir ou aparecer para os dois, permanecendo em seus esconderijos naturais.

Em um certo momento, Alay percebeu algo de estranho no solo ao seu lado. Uma estranha gosma brilhante com cores vívidas espalhada como um rastro até chegar a um aglomerado de arbustos manchados pela mesma.

— Emma! Olha alí! — sussurrou, apontando para o suposto novo rastro que ele havia encontrado.

A garota logo se virou e olhou para o local onde o rapaz estava apontando e fez um gesto para orientá-lo a seguir em frente, enquanto ela se aproximava logo atrás dele. Chegando mais perto da gosma, Alay cutucou a terra com a ponta da lança e retirou uma fração da substância de cores similares ao neon, levando-a até perto de seus rostos.

A coisa não parecia ter nenhuma característica marcante, além da fluorescência natural e de um forte cheiro férreo. Sem conseguir se conter, Emma levou a ponta de um de seus dedos até o líquido brilhante, esfregando-o para retirar ainda mais fragmentos do estranho material. A consistência beirava o líquido e o gelatinoso como se o líquido tivesse se coagulado. Cheiro de ferro, consistência dividida… como se estivesse coagulado…, a jovem se perguntou, assemelhando aquilo à uma possível resposta logo depois, mas que ela não gostaria que fosse a certa.

— Alay, aponta essa lança pra frente e empurre os arbustos, eu cuido da suas costas. — Emma disse e o garoto assentiu com a cabeça, aproximando-se lentamente da folhagem cheio daquela coisa.

Com um rápido movimento, ele usou a lança para dividir o arbusto ao meio, revelando o que havia do outro lado. No chão, banhado no mesmo líquido brilhante que eles haviam encontrado antes, jazia o corpo de algum animal que se assemelhava à um cervo destroçado, embebido no que eles logo compreenderam ser o sangue do mamífero, algo que eles nunca haviam visto antes. Emma rapidamente notou que as marcas de mordida no cadáver eram idênticas às encontradas nos restos das galinhas que eles acharam mais cedo naquele dia.

Eles se entreolharam, aumentando ainda mais o próprio temor ao perceber que o outro também estava com medo.

— A-Acho que a gente deveria sair daqui, vai que o que matou essa coisa ainda está… — Antes que pudesse completar, um rugido selvagem irrompeu pela mata, acompanhado por um enorme réptil que pulou dos arbustos ao lado e mordeu um dos braços de Alay, que ainda estavam estendidos com a lança.

O rapaz gritou em resposta à dor lancinante que percorria todo o seu braço direito, onde a criatura havia saltado e abocanhado seu membro. Ao perceber a ação da fera, Emma ergueu sua adaga e a desceu com toda a força que ela conseguiu juntar, perfurando em cheio o olho da criatura, que urrou de dor, produzindo um som bestial e horrendo, soltando o braço do garoto e correndo desesperadamente para o interior negro do matagal.

Dada a momentânea oportunidade, Alay quase caiu no chão, deixando um de seus joelhos ceder enquanto se apoiava no outro. O local da mordida fora o meio do antebraço, de onde rios escarlates despencavam como cachoeiras no chão, banhando o solo com sangue. Sem pensar muito, Emma usou a faca ensanguentada para cortar tiras de sua roupa no intuito de parar o sangramento. Ela não tinha muito conhecimento médico, mas sabia o básico para fazer um torniquete rudimentar.

Se ajoelhando, ela encontrou o que buscava no chão. Um galho, perfeito!, pensou, aproximando-se do rapaz. Primeiramente, fez um nó na parte anterior à ferida, depois, colocou o galho sobre o nó e amarrou novamente com um nó firme, fazendo o garoto grunhir de dor. Usando o galho como uma manivela, ela rodou-o com o nó para apertar a atadura, consequentemente causando ainda mais dor em Alay. Quando viu que a ferida enfim havia parado de sangrar, ela respirou fundo e se levantou, estendendo sua mão para o braço sadio do rapaz, que usou-o como apoio para se levantar.

— Isso… isso é incrível — disse, referindo-se ao torniquete improvisado. — Como você sabia fazer isso?

— Não duvide dos programas de televisão, meu caro — respondeu, desabando com a admiração de Alay, que apenas riu com a resposta. — Bom, o pior já passou, agora temos que terminar oque começamos.

— Você quer continuar caçando essa coisa? Não acha que tá na hora da gente voltar?

— Se voltarmos, nós seremos a presa da vez. O bicho deixou um rastro de sangue fluorescente para trás, é a nossa melhor chance de acabar com isso. E eu não vou deixar você voltar sozinho, vai saber o que os animais fazem com você se te virem ferido andando sozinho pela mata.

Alay preferiu ficar em silêncio, já que não tinha um plano melhor.

— E além do mais, você ainda tem um braço saudável, são um par e meio de braços funcionais contra uma boca cheia de dentes daquele troço, estamos em vantagem aqui. 

— É… acho que tem razão.

— Então é isso, vamos atrás dessa coisa e acabar com ela de uma vez por todas!

Com a adrenalina correndo no sangue de ambos, Alay e Emma prosseguiram seu caminho pela floresta sombria, perseguindo o grande Dragão Sabre que havia os atacado, seguindo-o pelo rastro de sangue brilhante que deixara quando fugiu ferido.

 O jogo de gato e rato enfim caminhava para seu fim, mas a verdadeira batalha estava apenas começando

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