A Cidade dos Ladrões

Logo depois de retornarem para onde costumavam ficar na floresta, Emma e Athert abriram seus Status e aprimoraram seus atributos exatamente como queriam. Segundo o que Athert havia dito para Emma pouco tempo antes de chegarem em seu lugar de descanso, as habilidades seriam adquiridas aleatoriamente, não tendo um padrão certo de quando iriam se disponibilizar ou não. 

===[Status de Personagem]===

Nome: Emma Adams
Raça: Humana
Classe: Assassina

Nível: 7
XP: 0/2500

HP:1150/Regen de HP por sec: 50 de HP por sec
ATK: 195 {+}
SPD: 330 {+}
DEF: 175 {+}
INT: 200 {+}
MG: 150 {+}
CAC: 5% {+}
DAC: 5% {+}

Repetindo suas ações de alguns dias atrás, ela dividiu os 10 pontos do nível 7 em sua defesa e ataque pela metade, uma vez que tinha colocado todos os pontos do nível 6 em seu ataque. Depois de administrar seus pontos, Emma sentiu que finalmente poderia descansar um pouco. Os últimos dias que se passaram foram cansativos, e tudo o que ela queria era pelo menos um pouco de descanso. Mas não era isso que Athert tinha em mente.

– Emma, consegue me ouvir? – Athert falou, um pouco distante da garota.

– Consigo. O que é? – Emma questionou, dirigindo seu olhar para o rapaz.

– Eu sei o que eu disse sobre nunca mais irmos para uma cidade, mas o que acha de visitarmos uma? – Ele ofereceu, se levantando.

– E pra onde nós poderíamos ir que não seria perigoso? O mundo inteiro está atrás de nós, ou melhor, de mim. Tem certeza que daria certo?

– Relaxa, é um lugar que até mesmo nós podemos ir sem problemas, eu acho. – O demônio explicou.

– Você acha? – Ela suspirou, sabendo que coisa boa não poderia ser. – Enfim, onde é?

– Karnyamithl, a Cidade dos Ladrões.

– O nome é bem “convidativo”… – Emma falou, já perdendo as esperanças.

– Calma. Apesar do nome, Karnyamithl é uma cidade onde todos os fugitivos da lei podem ficar em paz sem serem pegos pelos NPC’s e jogadores que não são criminosos. No entanto, tudo é permitido lá dentro, desde roubos até assassinatos, é uma terra sem lei na qual não dá pra sair sem manchar suas mãos de sangue pelo menos uma vez. Apesar de tudo, é um ótimo lugar para fazermos trocas e melhorarmos algumas coisas.

– E você ainda me pede para ter calma? Você tá literalmente falando para irmos em uma cidade em que podemos ser mortos por bandidos a qualquer momento! 

– Eu sei que é arriscado, mas se quisermos ter qualquer chance de usar os itens que nós temos sem sermos atrapalhados por um bando de pessoas querendo nossas cabeças é pra lá que temos que ir.

– Se você diz. Tá bom! Vamos dar uma passadinha no inferno! – A garota falou, se levantando.

– Pra quem não queria ir você parece bem animada. – Athert falou, levantando-se também.

– Não estou animada, é que parecer triste ou desanimada só demonstra fraqueza. Como diriam algumas pessoas por aí, os mais fortes são aqueles capazes de sorrir até mesmo em momentos de desespero! – Ela falou, sorrindo.

– Você e suas falas clichês, mas pelo menos é uma fala boa. Enfim, vamos de uma vez, antes que a noite venha.

Seguindo os passos de Athert, Emma chegou ao lugar no início do entardecer. Não havia nada, era como uma simples parte da Floresta da Serpente, que se misturava às árvores. Não haviam construções, nem  mesmo qualquer sinal de vida humana vindo dali. Estava tudo quieto e calmo, muito diferente do esperado por Emma para uma “Capital do Crime”.

– E então? Cadê a cidade? Deveria estar aqui não é? – Emma questionou, impaciente.

– Relaxa, apressadinha. Você acha que uma cidade cheia de criminosos estaria exposta assim no meio da floresta? Diferente do que você pode ter pensado, não é como se existisse um tratado ou algo assim que impeça a invasão de qualquer exército ou jogadores aqui. Foi simplesmente um lugar fundado para abrigar todos aqueles que infligiram a lei e estão fugindo das autoridades. – Athert explicou.

– Certo, mas isso ainda não explicou onde a cidade deveria estar! Me mostra esse negócio de uma vez! – A garota ordenou.

– Beleza. – Ele se virou para a direção oposta da jovem. – Corre, e me segue! – O demônio disse, correndo

– Pera, o-o que?! – A garota não teve muito tempo para pensar, apenas vendo o garoto continuar a correr para frente e logo depois simplesmente desaparecer, como se tivesse sido engolido pelo nada. – Mas o que?! Athert! Athert cadê você?! – Ela gritou, na esperança de receber uma resposta que nunca veio.

Sem muitas opções e não sabendo o que fazer, Emma correu na direção onde Athert tinha desaparecido. Quando finalmente chegou no ponto onde ele tinha sumido, sentiu seu corpo atravessar uma parede espessa de algum material frio e gelatinoso, mas logo a sensação passou e ela chegou ao outro lado. Quando recompôs sua postura, viu Athert a encarando, e atrás dele, uma grande cidade murada, com estruturas disformes, com algumas sendo maiores que o próprio muro.

– Madame, bem vinda à Karnyamithl, a Cidade dos Ladrões!. – Athert falou, abrindo os braços como se estivesse mostrando toda a cidade.

– Então esse é o “segredo” da cidade? Um campo ilusório? – Emma indagou, curiosa.

– Sim, e dos melhores! Além de ser ilusório, a entrada não é possível para aqueles cujo o nome não está sendo caçado. Ou seja, é praticamente impenetrável!

– Praticamente?

– Vai saber. Feitiços de Ilusão podem ser desfeitos por feitiços ainda mais fortes, então não deve ser impossível quebrar essa barreira. De qualquer jeito, chega de papo furado e vamos explorar essa cidade! E eu recomendo que coloque sua máscara. – Ele falou, levantando o capuz e cobrindo a cabeça.

Emma rapidamente colocou o acessório e seguiu o rapaz para dentro da cidade. Adentrando o lugar, os olhares foram todos direcionados para Emma, que possuía uma roupa incomum em comparação às vestes surradas e rasgadas da maioria dos bandidos. Logo, um grande grupo cercou os dois.

– Ei, onde você comprou essa roupa? Se não comprou, onde achou? – Um dos bandidos falou, analisando minunciosamente as vestes brancas da garota.

– Por quanto está disposta à pagar por esse conjunto?! Se quiser, eu dou uma, não, duas moedas de ouro! – Outro malfeitor ofereceu.

Um turbilhão de ofertas e questionamentos circulou Emma, que já estava ficando irritada. No entanto, antes que pudesse partir para a violência, a baderna foi acalmada por um homem, acompanhado de duas mulheres que pareciam assassinas, assim como Emma. Sussurros e murmúrios escapavam das bocas da multidão ao redor deles, que não se calava por um instante.

– White Fox, bem vinda à Karnyamithl! – O homem falou, com um olhar simpático no rosto.

– Athert, quem é o sujeito? – Emma sussurrou no ouvido do rapaz.

– Eu não sei! Mas provavelmente é encrenca! – Ele sussurrou de volta, encarando a pessoa à sua frente.

– Obrigado, eu acho. – Emma disse, tentando parecer calma e confiante. – Mas então, quem seria o senhor?

– Ora, vejo que não me conhece, o que contradiz com a minha fama! Mas em suma, sou Gideon Spencer, ou também Gyleon, se preferir. Sou chefe do Cartel dos Wyvern, uma das três facções dominantes de Karnyamithl. – Ele disse, estendendo a mão.

– Para um criminoso, você é bem simpático. – Emma falou, dando um tapa na mão do homem, recusando o aperto. – Mas, mesmo assim, não engana ninguém com esse seu jeitinho de certinho. Esqueceu que somos todos foras da lei aqui?

– Do que está falando?! Eu posso ser um criminoso, mas nunca faria mal à ninguém! – Ele disse, tentando se explicar.

– Deixe de mentiras, você finge tão mal que chega a ser ridículo. Acha que eu não vi o punhal debaixo da manga do seu casaco? – Ela argumentou, apontando para uma pequena e quase imperceptível ponta reluzente que saia de suas vestes.

Gyleon sorriu maliciosamente, voltando seu braço e colocando sua mão no bolso do casaco.

– É, você está certa. Quem diabos estou tentando enganar? – Ele falou, caindo na gargalhada.

– Qual a graça? Não tô vendo nada de engraçado para rir. – A garota continuou a confrontar o homem, tentando parecer a mais ameaçadora possível.

– Você também deveria parar de mentir. Está dando uma de durona mas na verdade deve estar se borrando de medo.

– Medo? O que eu tenho a temer? – Ela insistiu em sua provocação.

– Não vou continuar com esse joguinho de mentiras. Enfim, tenho uma proposta para fazer.

– Diga de uma vez. Não quero perder meu tempo ouvindo palavras de um tolo.

– É o seguinte, eu sei que tem uma recompensa gigantesca para te matar, mas, como somos todos criminosos, como você disse, vamos resolver as coisas no estilo do Cartel Wyver. Topa? – Gyleon falou, entrelaçando os dedos.

– Claro, me exercitar um pouco não faz mal. – A jovem falou, se alongando, já que esperava uma luta árdua.

Gyleon bateu palmas, e a roda de pessoas se abriu, dando espaço para pessoas trazendo uma mesa, bancos, cartas de poker, canecas e um grande barril de cerveja.

– Vamos fazer assim, se você ganhar, eu te ajudo de alguma maneira, mas se perder, sua cabeça vai estar rolando nos becos sujos e escuros dessa cidade imunda. Fechado?

– Fechado… – Emma disse, agora um pouco preocupada.

Eles sentaram-se à mesa e o jogo começou.

Alguns longos minutos e várias canecas de cerveja depois…

– Eu ga-ganhei…caralho! – Emma falou, jogando as cartas na mesa e caindo de sua cadeira, indo pro chão.

– Ah…puta que pariu! – O homem gritou, levantando-se e cambaleando para trás, caindo sentado no chão. – Merda, minha bunda!

Emma começou a gargalhar descontroladamente, apontando diretamente para Gyleon, que ainda estava desnorteado por conta da bebida. Logo em seguida, um homem apareceu e, vendo o estado deplorável de Gyleon, ajudou-o a levantar.

– Chefe…quantas vezes vou precisar dizer pro senhor não jogar mais essas partidas de poker com cerveja? – O rapaz misterioso falou.

– Cale a boca, Jyuv! Eu faço…o que eu quiser! – Gyleon rebateu, resistindo à ajuda de Jyuv.

Athert se aproximou de Emma, que olhou para a cara dele e ficou raivosa de repente.

– Tá esperando o que…idiota?! Me ajuda a levantar! – Emma disse, tentando se sentar, mas quase caiu, se não fosse por Athert.

– Tudo bem…Depois dessa você nunca mais bebe uma gota de álcool na vida. – Athert afirmou.

– Nem ferrando! Eu vou beber ainda mais com meu parceiro Gyleon…Não é, Gyleon?! – Ela exclamou, dirigindo-se ao seu oponente no jogo.

– Pode crer! – Ele disse em resposta.

Como os dois não estavam em condições de discutir sobre a vitória, esperou-se o efeito do álcool passar, o que demorou mais ou menos até o dia seguinte.

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