Caminho Tempestuoso

O pequeno grupo de ladrões seguiu o caminho para o Forte Lacot por fora da estrada, já que eles estariam praticamente se entregando para as autoridades indo pelo caminho principal, então todos concordaram em passar longe da rota mais fácil. Segundo Gyleon, a caminhada até a fortificação duraria mais ou menos um dia, então eles tinham a esperança de chegar lá de noite para que a invasão fosse mais efetiva e retornassem à Karnyamithl logo no início da manhã.

Mesmo que em grupo, eles estavam bastantes separados, ficando em suas duplas “intimas”. Athert queria conversar com os irmãos elfos, mas sabia que, se tentasse, Emma iria ignora-lo pelo resto do dia ou simplesmente iria bater nele, como sempre fazia quando estava com raiva. E também tinha o fato de Elron odiá-lo. Achava que não tinham motivos para tal, e talvez estivesse certo, mas ele não sabia.

Na visão de Emma, no entanto, ela pouco se interessava em interagir com seus novos “companheiros”. Como sempre foi em sua vida antes de Yharag, ou seja, até alguns dias atrás, ela sempre evitou o contato com outras pessoas. Ela nunca pensou em quais benefícios socializar traria para o seu desenvolvimento, tanto como pessoa quanto aluna. Mesmo quando seus pais insistiram e pediram para ela arrumar pelo menos um amigo, não deu certo. De fato, seu único amigo foi o seu computador, que a acompanhou durante anos pela sua caminhada pelo mundo da programação e do Hack. Pensar nisso a fez querer de volta os dias pacíficos dentro de seu apartamento, dias que ela desejava não ter antigamente, mas faria de tudo para ter naquele momento.

De repente, o silêncio foi quebrado por um barulho alto vindo do céu. Todos olharam, e viram a imensidão azul se tornar cinza. Um raio cortou o céu e, segundos depois, a chuva começo a cair. Emma não se importou, continuando o caminho.

– Emma, tem certeza que quer continuar? – Athert questionou.

– É claro. Quanto mais cedo chegarmos ao forte melhor. – Ela respondeu, não parando de andar.

– Pois eu não vou! Nem eu nem minha irmã! – Elron gritou um pouco distante da garota.

Ela instantaneamente parou de andar, virando-se com uma cara de raiva que nem mesmo Athert tinha visto antes.

– Como é? – Emma falou, olhando com desdém para os dois irmãos.

– Eu já disse, eu e Adrielyel não vamos continuar com essa chuva! Adrielyel já não passa bem por conta de nossa viagem para Karnyamithl, se ela ficar nessa chuva pode ficar ainda pior! – Ele insistiu.

– Não… não discutam por minha causa, por favor… – A Elfa disse, recuando um pouco.

– Fique quieta irmã! Você sabe da sua situação. – Ele falou, encarando-a por um momento, mas logo depois voltando seu olhar para Emma, que retornava com um olhar furioso. – Enfim, é isso, não iremos até a chuva passar.

– Bom, se quisermos que a missão dê certo, deveríamos parar um pouco mesmo, já faz um bom tempo que estamos andando. – Athert disse, concordando.

– Isso não importa agora. – Emma falou, virando-se novamente para continuar o caminho. – Athert, vamos.

– M-Mas Emma, não podemos continuar sem eles! Se não tivermos o apoio deles, provavelmente não vamos conseguir fazer o roubo só nós dois. – O Demônio exclamou, tentando convencer a garota.

– Não precisamos de incompetentes no nosso grupo. Ou nós vamos agora, ou eu vou sozinha. 

– Sozinha? Não fala merda! Você mal conseguiu matar aqueles lobos sem minha ajuda, imagina invadir um forte sozinha! – O rapaz argumentou.

Emma suspirou. Ela sabia que não era certo fazer o que estava pensando em fazer, mas para pelo menos assustá-los um pouco e forçá-los a irem com ela, seria necessário.

– Muito bem, se é assim que vocês querem. – Emma disse, estalando os dedos e invocando sua arma, virando-se mais uma vez para encará-los. – Se eu não posso enfrentá-los sozinha, eu levo vocês comigo à força.

– Jesus… Você não pode tá falando sério né?! – Athert foi em direção à ela, ficando à sua frente. – Você não vai fazer isso, Emma. Eu sei que você não quer fazer isso.

A garota nada disse, apenas deu um belo soco na cara de Athert, que caiu para trás, incrédulo. Eldron, por outro lado, não esperou, pegando sua lança, preparando-se para o combate.

– Só pra deixar claro, eu não vou pegar leve com você por ser uma mulher. – Elron falou, entrando em posição de combate.

– E desde quando eu pedi para você pegar leve? Ou você luta com tudo, ou eu vou fazer você se arrepender por não ter vindo com todo o seu potencial. – Ela disse em resposta, preparando-se para a batalha.

– De qualquer jeito eu tô na merda então? – Ele indagou.

– É… mais ou menos isso.

Alguns instantes se passaram, e nenhum deles se mexeu. Adrielyel observava os dois. Não queria que aquilo estivesse acontecendo, mas como já estava, torcia para seu irmão. Athert não sabia para quem torcer, só queria que aquilo acabasse logo e de uma outra forma. No entanto, todos eles sabiam o que iria acontecer, mesmo que não quisessem, era algo inevitável.

Quando os céus trovejaram mais uma vez, ambos avançaram simultaneamente. Emma chegou mais rápido, tanto por conta de seus atributos quanto pelo fato do chão enlameado ajudar na mobilidade de um assassino. As armas se chocaram, criando faíscas. Apesar da diferença de força entre Emma e Elron, a garota não conseguiu empurrar a lança do rapaz, que a empurrava com vigor. Ela recuou um pouco, quase caindo no chão, devido ao chão deslizante. Elron não perdeu tempo, e partiu para cima de Emma. A Gema vermelha na arma começou a brilhar, e a ponta da lança se incendiou. Por centímetros, a lança não perfurou a barriga da jovem, que desviou para a direita. Aproveitando a abertura na defesa do rapaz, Emma socou-o na barriga, o que o fez dar um breve gemido de dor, mas seu olhar determinado não se extinguiu. Seus olhos brilhavam tanto quanto o fogo de sua arma. Emma percebeu as intenções de Elron, percebendo que aquela luta não iria ser tão fácil quanto ela pensou. Se era uma luta até um deles ir ao chão pelos ferimentos, assim seria.

Com um rápido desvio, Emma esquivou do poderoso ataque que Elron desferiu contra ela, mas não saiu sem um corte leve na perna. Elron era forte, mas não tão rápido quanto Emma, que aproveitou o momento e tentou acertá-lo com sua adaga, fazendo um pequeno corte em seu rosto. Ela tentou recuar, mas levou uma rasteira do garoto, fazendo-a cair no chão lamacento. Ele tentou empalá-la com um golpe direto, mas ela rolou, enfincando sua adaga na terra. Não sendo rápida o bastante para desviar mais uma vez, ela recebeu um chute no rosto, jogando-a um pouco longe. Apesar do bom momento para atacar, Elron ficou observando-a, com a mesma expressão determinada de antes.

– Acho que mesmo com atributos, o que vale no final é a experiencia no combate. – Ele falou, erguendo sua lança para o ataque final. – Você está desarmada. Se desistir agora, podemos parar com essa luta sem sentindo.

No entanto, Emma começou a rir alto, surpreendendo não só Elron, mas também os outros dois que estavam assistindo a luta, crentes do resultado certo.

– Não Elron, não é só experiência que conta. – Ela disse, encarando-o com um sorriso no rosto. – ela apontou para o chão embaixo do rapaz, que não entendeu muito bem o que ela estava fazendo. – Conhecimento também é poder!

Ele olhou para baixo, vendo a adaga de Emma enterrada na lama, assimilando na hora o que estava prestes à acontecer, não tendo tempo para reagir antes que ela o fizesse.

– Sinta o relâmpago, filho da puta! – Ela gritou, estalando os dedos.

No momento em que fez isso, um raio atravessou as nuvens cinzentas e atingiu as costas do rapaz, fazendo-o gritar de dor e derrubando-o no chão quase que instantaneamente. Athert e Adrielyel correram para ajudar Elron, que por sorte não morreu diretamente na hora da descarga atmosférica. Emma caiu de joelhos no chão, suspirando tanto de alívio quanto de cansaço. A luta pode ter sido breve, mas apesar disso ela estava cansada pela intensidade do combate. Mesmo não querendo admitir, Elron estava certo. Ela nunca tinha lutado contra nenhum jogador pra valer, então não sabia muito bem o que fazer. A única coisa que a fez ganhar foi sua arma divina, o que a fez se odiar por um momento por depender de uma arma para vencer. Além disso, se odiou por ter feito o que fez.

– Emma, você é louca caralho?! Podia ter matado ele! – Athert gritou, enquanto curava o Elfo.

Ela apenas manteve sua cabeça baixa, não dizendo uma única palavra.

Momentos depois, todos eles concordaram em se abrigar da chuva em uma caverna próxima. A chuva não parava, e todos eles estavam bem cansados depois de andarem e lutarem, então todos foram dormir por um tempinho, decidindo que partiriam ao entardecer. Apesar do céu ainda estar escuro, sabiam que ainda era de tarde, pois saíram um pouco cedo da cidade. No entanto, esse não era o plano de todos eles.

Emma acordou com o barulho de algo sendo atingido, como se uma pedra estivesse sendo arremessada contra uma árvore. Olhou ao seu redor, vendo que Adrielyel não estava ali. Ela saiu da caverna aos tropeços por conta de estar um pouco sonolenta ainda. A chuva não havia parado, mas mesmo assim,  a Elfa estava do lado de fora, segurando seu arco, tentando acertar um alvo que ela mesmo fez, arranhando a casca da árvore com a ponta de uma das flechas. Ela não sabia se queria ou não se aproximar, já que ainda estava sentida pelo que fez com Elron mais cedo naquele dia. No entanto, Adrielyel conseguiu ver a garota, sorrindo quando seus olhares se encontraram.

– Não conseguiu dormir? – Ela questionou.

– E você? Decidiu pegar um resfriado? – Emma perguntou, se aproximando da garota e ignorando a chuva.

– Se acontecer, é uma consequência por eu ter sido tão idiota.

– O que quer dizer com isso?

– Se eu tivesse impedido meu irmão, nada disso teria acontecido, e vocês dois estariam bem agora.

O silêncio caiu sobre o lugar, ficando ali por um tempo, até que Emma decidiu quebrá-lo.

– Olha, sobre o que rolou hoje mais cedo… me desculpa. Eu não queria que tivesse chegado naquele ponto, apesar de eu ter ficado animada durante a luta.

– Nah, não tem problema. – Adrielyel respondeu.

– Como assim? Não liga de eu ter quase matado seu irmão?

– Eu ligo, claro que ligo. Mas isso também tem parte de culpa minha. – Ela começou a explicar, abaixando seu arco. – Mesmo antes daqui, ele sempre cuidou de mim, desde o nosso nascimento até a nossa morte. E agora, ele continua fazendo isso, e eu sempre me deixei ser cuidada por ele. – Sua expressão mudou para uma de frustração. – E por isso, por não ser forte o bastante para levantar minha voz, que isso aconteceu com ele. E é por isso. – Ela continuou, erguendo seu arco novamente. – Que eu vou fazer de tudo para me tornar independente dele. – Terminou, soltando a flecha, que acertou o centro do alvo.

Sua expressão logo mudou novamente para uma de alegria, que foi transmitida para Emma, que se viu sorrindo involuntariamente logo em seguida. Ela finalmente viu algo naqueles dois. Ambos tinham uma forte determinação. Um queria ser forte para proteger a outra, e a outra queria ser forte para deixar de depender dele. Ela olhou para o céu, que se abriu, revelando um céu alaranjado devido ao por do sol que estava acontecendo.

– É, acho que não é tão ruim conhecer as pessoas melhor. – Emma murmurou para si mesma, sentindo-se um pouco mais leve, como se um enorme peso tivesse saído de suas costas.

Era uma liberdade diferente, divergindo de tudo o que ela já havia visto ou ouvido antes. Yharag poderia ser um lugar maluco, mas também era um lugar em que ela se sentia mais livre e capaz de fazer mais do que só viver uma vida tranquila em um apartamento na movimentada cidade de Nova York. Dentre todo o movimento, ela era uma das coisas que se rebelava, insistindo em permanecer em repouso, contrariando o ritmo da cidade.

Os dias pacatos não faziam tanta falta agora.

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