Cardápio Infantil

 

“Ah, meu Deus…”

Nós tínhamos ido à loja de armas, e então o dono se inclinou sobre o balcão e suspirou ao me ver entrar ao lado de Raphtalia.

Exatamente. Eu queria poder ofensivo, só isso. Se eu não adquirisse algumas armas, nada disso teria tido propósito.

“Venda-me uma arma que esta garota possa usar. Mantenha o preço abaixo de seis peças de prata.”

“Hmph…” O dono da loja suspirou novamente. “Eu não sei se há algo de errado com este país, ou se foi você que apodreceu. Tanto faz. Seis peças de prata, correto? ”

“Sim. Você tem mais algumas roupas ou capas nos fundos da loja? ”

“…Claro. Pode ficar com elas de graça.”

O dono murmurou essa resposta silenciosa enquanto colocava algumas facas encima do balcão.

“Com base no seu orçamento, é isso.”

Da direita para a esquerda, havia uma faca de bronze, uma de aço e uma de ferro.

Aparentemente o preço mudava com base no tipo de cabo.

Eu fiz com que Raphtalia empunhasse todas e então escolhi a qual eu acreditei que se encaixava melhor com ela.

“Essa.”

Raphtalia, com a faca em mãos, estava pálida. Ela encarou o dono, e então a mim.

“E aqui estão suas roupas e capa.” O dono as jogou bruscamente em minha direção antes de nos levar para o vestiário.

Eu entreguei a Raphtalia a faca e as roupas e a enviei para dentro. Ela se agachou e entrou, tossindo o tempo todo enquanto se trocava.

“Nós provavelmente deveríamos te dar um banho.”

Havia um rio que fluía através dos campos. Esse rio, que corria pelo país, se dividia em outros três, e eu tinha avançado minha posição de caça até lá recentemente. Havia peixes na água, e se eu conseguisse capturar alguns eu pouparia certa quantia com o jantar.

Alguns peixes podiam ser pegos com as mãos nuas, algo que fiz uma vez e que também me levou a desbloquear o Escudo Peixe, e sua habilidade: Pescaria +1.

Raphtalia terminou de trocar de roupas em silencio e correu até mim. Ela sabia que desobedecer minhas ordens apenas resultaria no prolongamento de seu sofrimento, não é? Eu mantive os olhos nela, me sentei e comecei a falar.

“Certo, Raphtalia. Esta é a sua arma. Eu quero que você a use para matar monstros. Entende? ”

“…”

Ela manteve seus olhos aterrorizados fixados em mim e então assentiu.

“Certo então, estou lhe dando esta faca…”

Então eu abri minha capa para revelar os Balões Alaranjados contidos ali. Eu removi um e o aproximei de Raphtalia.

“Apunhale-o e o estoure.”

“Hã?! ”

Quando eu lhe mostrei o balão, ela deixou escapar um guincho de surpresa e pareceu tão perplexa que quase derrubou sua faca.

“Eu… an…”

“Isso é uma ordem. Obedeça.”

“Eu… Não.”

Ela balançou a cabeça obstinadamente. Mas ela era uma escrava, e havia uma magia para puni-la caso desobedecesse.

“Ugh…”

“Viu? Se você não atacar, será a única que vai se ferir.”

Ela tossiu, seu rosto distorcido pela dor e suas mãos tremendo. Ela melhorou seu aperto na faca.

“Seu…” Murmurou o dono que nos assistia do balcão.

Raphtalia tomou sua decisão, se preparou e apunhalou o balão por trás.

“Você é fraca! Faça com mais força! ”

“…?! Mas…! ”

Seu ultimo ataque tinha feito com que ela quicasse para trás. Após se recuperar, ela assumiu uma posição mais estável e se jogou a frente em um novo ataque.

O balão estourou com um barulho alto.

 

 EXP +1

 Raphtalia EXP +1

 

Estas palavras surgiram em minha frente, me informando de que um membro da minha equipe havia destruído um inimigo, o que me levou a questionar algo.

 Ela. Ela nunca tinha se juntado a minha equipe, ou seja, ela nunca teve sequer a mínima intenção de me ajudar.

“Bom trabalho.”

Eu cocei sua cabeça. Sua resposta foi disparar um olhar confuso para mim.

“Certo, próximo.”

O balão mais forte estava mastigando meu braço a uma semana. Eu o arranquei e o apontei para ela, como antes. Ele deve ter se enfraquecido de alguma forma, mantendo-se preso ao meu braço por uma semana sem qualquer tipo de alimentação ou bebida. Até mesmo uma garota franzina, de nível um, deveria ser capaz de estoura-lo.

Ela assentiu, determinada, e estreitou seus olhos antes de aferroar o balão pelas costas.

 

 EXP +1

 Raphtalia EXP +1

 

Ahn? Um ícone estava piscado no canto de minha visão.

“Parece que você está à altura. Vamos começar.”

Raphtalia tossiu novamente. Eu lhe disse para que embainhasse sua arma, e ela assim o fez.

“Ah é, eu me esqueci.”

“O que foi? ”

O dono da loja me encarava com raiva.

“Você terá uma vida difícil, e morrerá de forma miserável.”

“Obrigado por avisar.”

Eu respondi seu sarcasmo com uma boa dose do meu próprio.

Saímos da loja e partimos para os campos. Enquanto caminhava pela rua principal, Raphtalia parecia atônita com todas as lojas. Sua mão segurava a minha enquanto seu olhar disparava de um lado para o outro. Em meio a nosso percurso, ambos fomos detidos por um cheiro delicioso que pairava no ar.

Eu ainda tinha… Três peças de prata. Parando para pensar, eu estava com um pouco de fome.

Eu conseguia ouvir o estômago de Raphtalia roncar junto ao meu.

Eu olhei para ela e…

“Ah! ”

Ela rapidamente balançou a cabeça de um lado para o outro, tentando negar sua fome. Por que tentar esconder?

Eu precisava de uma Raphtalia forte se eu quisesse conseguir dinheiro. Não há razão para comprar uma faca se você não tiver a intenção de mantê-la afiada. Se ela estivesse com fome, não poderia lutar usando o seu melhor. Eu olhei ao redor em busca de um local rápido e barato para comermos. Eu escolhi um e, ao entrarmos…

“Podem entrar! ”

O lugar era meio surrado, e a garçonete aparentava confusão enquanto nos levava até nossos lugares. Em nosso caminho até a mesa, Raphtalia contemplou uma família que comia do outro lado da sala. Seu olhar se prendeu neles. As crianças estavam comendo um lanche infantil, algo que Raphtalia encarava com inveja.

Então era isso que ela queria. Nos sentamos em nossos lugares e eu fiz meu pedido antes que a garçonete tivesse uma chance de escapar.

“Eu gostaria de sua refeição mais barata. Essa daqui quer o que quer que seja que aquela criança ali está comendo.”

“Que?! ”

Raphtalia se virou para mim com uma expressão chocada. Eu não consegui entender o que havia de tão surpreendente nisso.

“Muito bem, senhor. Serão nove peças de bronze.”

Eu dei a ela uma peça de prata e ela me devolveu o restante em troco.

Nós aguardamos enquanto nossa comida era preparada, e Raphtalia observou o restaurante todo. Eu também percebi que alguns clientes me encaravam enquanto sussurravam algo entre eles.

Eu odiava este mundo inteiro.

“P… Por quê? ”

“Hm? ”

Raphtalia havia dito algo, então me virei para encara-la. Ela estava me olhando, e aquele olhar confuso havia retornado ao seu rosto. Suponho que ela havia pensado que eu não lhe alimentaria com comida de verdade porque que ela era uma escrava.

“Você aparentava querer comer aquilo. Quer algo diferente? ”

Ela balançou a cabeça.

“Por que você… Está me dando comida? ”

“Eu já disse… Você parecia estar com fome.”

“Mas…”

Ela era realmente insistente.

“De qualquer forma, só coma e se fortaleça. Se você continuar magra assim, pode acabar morrendo.”

Mesmo se ela morresse, eu poderia usar o dinheiro que eu conseguiria com ela para comprar outro escravo.

“Aqui está.” Disse a garçonete enquanto entregava nossa comida. Ela colocou diante de Raphtalia um lanche infantil, e diante de mim uma refeição de bacon. Não tinha gosto. Por que a comida desse mundo tinha um gosto tão vazio? Todos no restaurante pareciam estar apreciando seus pratos, mas eles deviam ter preferencias estranhas.

“…”

Raphtalia estava encarando sua comida.

“Você não vai comer? ”

“… Eu posso? ”

“Sim, você pode. Coma logo.”

Após ouvir minha ordem ela pareceu relaxar um pouco.

“Tudo bem.”

Ela pareceu hesitar por um momento antes de finalmente começar a comer vorazmente com as mãos nuas.

Afinal, ela ainda era uma escrava. Eu não deveria ter esperanças de que ela tivesse bons modos à mesa.

Eu percebi que os sussurros ao nosso redor estavam se tornando mais animados, mas não era nada com o que se preocupar.

Raphtalia removeu a pequena bandeirinha que estava entre seu frango e arroz e a segurou delicadamente enquanto comia o restante dos alimentos.

“Como está? ”

“Delicioso! ”

Eu acho que eu era o único que não gostava muito da comida. Ou talvez ela estivesse aliada com o resto dos clientes? No entanto, escravos não são capazes de mentir… Devido à magia que se mantêm sobre eles. Mas e se fosse tudo falso? E se ela nem mesmo fosse uma escrava? Eu não fazia a menor ideia de onde começar a especular.

De qualquer forma, eu almocei com a minha escrava enquanto pensava em qual seria nossa próxima ação.

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