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A Bandeira no Lanche Infantil

 

“Estou saindo!”

“Certifique-se de estar de volta até o horário de almoço!”

“Tudo bem!”

O clima está ótimo hoje!

Depois de me despedir de meus pais eu parti em direção a praça da cidade. Keel e os outros estavam esperando por mim lá.

“Ei,  você veio mesmo.”

“É claro.”

Keel agitou suas orelhas de cachorro enquanto esperava por mim.

As outras crianças já estavam lá.

“Eles disseram que não podemos ir até o oceano hoje porque Sadeena não está. Eu disse que ficaria tudo bem, mas mesmo assim…”

“Mas Keel, na última vez você quase se afogou.”

“Oh, cale-se! De qualquer forma, vamos brincar nos campos hoje.”

“Tudo bem.”

Todos assentiram.

“Certo, vamos. Fiquem próximos de mim para que vocês não se percam.”

“Com que você acha que está falando? Eu sou muito rápida!”

Nós apostamos uma corrida até os campos.

Eu realmente era muito rápida. Eu provavelmente era tão rápida quanto o Keel, e todos diziam que ele era o mais rápido.

Uma vez que eu comecei a correr, todos ficaram para trás.

“Você é realmente rápida!”

“Se você impulsionar seus braços para frente e pensar sobre correr mais rápido, você consegue aumentar sua velocidade.”

Eu estava dizendo a uma das crianças mais lentas como se corria rápido, e enquanto nós conversávamos sobre isso nós chegamos aos campos.

Meus pais tinham dito que precisávamos tomar cuidado porque haviam monstros, mas nós nunca encontramos nenhum tipo de perigo significativo.

“O que vocês querem fazer hoje?”

“Ah, droga! Eu perdi. Eu juro que vou te vencer na próxima vez!”

Keel me olhou de forma desagradável.

Heh,  heh. Hoje vai ser um dia bom.

“Vamos brincar de pega-pega!”

“Parece uma boa ideia!”

“É!”

Todos aceitaram a minha proposta.

“Eu vou ser o pegador!”

“Você não vai me alcançar!”

Keel odiava perder, mas essa era uma das melhores características dele.

“Hahahaha!”

“Espere!”

Keel aparentava estar realmente irritado. Ele corria somente atrás de mim.

Eventualmente, todos nós ficamos cansados e decidimos descansar.

“O que nós deveríamos fazer agora?”

“Todos ainda podem brincar, não é?”
“Eu não preciso ajudar em casa hoje, então eu ainda posso brincar.”

Por alguma razão, haviam momentos em que todos precisavam fazer determinadas tarefas em casa. Eu ajudava minha mãe a cozinhar.

“Vamos brincar de pega-pega de novo!”

“Mas eu estou tão cansada. Deixe-me descansar um pouco.”

Keel tinha energia demais. Suponho que todos os garotos sejam assim.

“Tanto faz. Então o restante de nós vai brincar sem você.”

“É!”

Todos os garotos se levantaram e foram brincar de pega-pega.

“Eles são realmente ativos.”

“Isso mesmo!”

A garota ao meu lado,  Rifana, concordou comigo. Nós duas sentamos e observamos os garotos brincarem.

“Ei, de quem você gosta?”

Todos nós estávamos perto da idade em que nós começamos a nos importar com amor e relacionamentos.

Começamos a conversar sobre quem estava namorando com quem, e quem nós achávamos que iriam se casar. Em pouco tempo estávamos em uma conversa animada.

“Talvez alguém parecido com o meu pai!”

“Isso não conta! Tem que ser alguém da mesma idade que você!”

“Hmm…”

Eu me virei para observar os garotos brincando.

Keel provavelmente era o mais legal entre eles. Ele tinha um rosto bonito. Mas, e eu sei que não deveria dizer coisas desse tipo, eu nunca gostei do meu próprio rosto quando o via no espelho.

Se nós fossemos até a cidade vizinha haveriam muitas garotas bonitas, e quanto mais velhos nós ficássemos mais óbvia a sua beleza se tornaria.

E a minha raça não era reconhecida pela sua beleza…

Mas meu pai era legal, e ele era bonito. Eu queria ser igual ao meu pai.

Todos diziam que minha mãe era linda. Ela era muito gentil também, e sabia cozinhar…

Eu me pergunto… se eu serei bonita quando crescer? Eu perguntei isso a minha mãe certa vez.

Ela sorriu e assentiu.

Então eu tinha certeza de que eu ficaria bonita quando crescesse.

Em outra ocasião, eu perguntei a ela como era se apaixonar por um homem. Era diferente da forma como você ama sua família?

Ela pareceu confusa.

Suponho que ela amava os homens de forma diferente da forma que ela me amava.

“Eu acho que existem formas diferentes de gostar das pessoas. Minha mãe me disse uma vez que ela me amava de uma forma diferente da forma como ela amava as outras pessoas.”

“Sim! Entendo. Mas eu quero me casar com alguém… Alguém parecido com o Lendário Herói do Escudo!”

Rifana era a minha melhor amiga na vila. Ela era mais feminina do que eu, e ela adorava falar sobre amor e garotos. Ela gostava especialmente de falar sobre os Registros das Quatro Armas Celestiais, porque lá estava escrito que o Herói do Escudo era amável com os demi-humanos.

“Bem, eu…”

Mas naquele instante…

Até aquele momento eu nunca teria imaginado que a minha vida seria qualquer coisa além de uma sequência de dias pacíficos. Eu realmente acreditava nisso.

Um som agudo ecoou através dos campos.

Enquanto eu estava começando a imaginar o que era isso o ar começou a tremer, e um vento poderoso e repentino soprou.

“Ah!”

“Mas o quê?”

Todos nós caímos no chão e esperamos que o vento parasse.

Um instante depois o vento se dissipou. Tudo estava quieto.

“O que foi isso?”

“Ei, olhem para aquilo.”

Keel apontava para os céus.

Eu olhei para onde ele apontava e meu atordoamento me levou ao silêncio.

O céu parecia ter sido rasgado com uma faca. Ele estava coberto por fissuras carmesim parecidas com o casco de uma tartaruga. Era estranho.

“O que devemos fazer?”

“Meus pais me disseram para voltar para a vila caso algo acontecesse.”
“Se nós não verificarmos agora, podemos nunca mais ter outra chance.”

“Não!  Keel!”

As outras crianças e eu seguramos Keel e voltamos para a vila juntos.

 

“Raphtalia!”

“Papai!”

Meu pai tinha voltado da cidade vizinha. Eu corri até ele.

“Você está bem? Eu estava tão preocupado!”

“Eu estou bem. Você disse para que eu voltasse caso algo acontecesse, então eu corri de volta para cá.”

“Boa garota.”

Ele acariciou minha cabeça.

Hee hee hee…

Meu pai começou a conversar com todos os outros adultos.

“Escutem todos. Eu acabei de conversar com o senhor destas terras. Ele disse que aquelas rachaduras no céu levam até o solo e que grandes grupos de monstros estão saindo delas.

“Isso significa que teremos que lutar contra eles?”

“Creio que sim.”

Um uivo aterrorizante saiu das fendas no céu.

Minha cauda começou a açoitar agressivamente ao ouvir o uivo. Era tão assustador.

“Nós ficaremos bem?”

“Hm…”

“E… Ei! Estamos com problemas! Os monstros já inundaram a cidade! Está um inferno lá fora!”

Um velho da vila veio correndo para anunciar as notícias. Seu rosto estava pálido.

“Mas… como? Como eles chegaram aqui tão rápido?!”

“O senhor ordenou que nós evacuássemos a cidade o mais rápido possível! Ele já pediu apoio para o castelo!”

“O que aconteceu com o senhor?”

“Eu não sei, mas ele disse que todos deveriam evacuar o mais rápido possível!”

Os adultos pareciam muito perturbados enquanto conversavam.

“Sadeena está ausente, e todos os caçadores estão pescando…”

“Também há uma grande tempestade no oceano. Eles conseguirão voltar com segurança?”

O céu parecia ficar cada vez pior.

Naquele momento houve um som alto e incomum. Todos se viraram para ver do que se tratava.

“O que… é aquilo?!”

Alguma coisa estava ali, algo… como uma pessoa feita apenas de ossos. A coisa tropeçava e arrastava seus pés enquanto caminhava em nossa direção.

Carregava algo parecido com uma arma em suas mãos, e ela emitia um brilho fosco.

Eu estava com medo. Assustada até os ossos.

Era um monstro.

Esta era a única palavra que poderia ser utilizada para descrever aquilo, e se encaixava perfeitamente.

Os adultos começaram a gritar e correr.

O restante dos aldeões começou a gritar também.

Meu pai pulou na frente do monstro para que eles pudessem fugir.

“Eu ordeno a própria raiz do poder: Luz! Destrua o monstro diante de mim!”

“Princípio Sagrado!”

Uma esfera de luz brilhante disparou da palma das mãos de meu pai e o monstro de ossos tombou.

“Todos, por favor acalmem-se e escutem a mim. Nós precisamos evacuar a cidade o mais rápido possível. Mesmo que nossa tribo possua muito poder, não podemos enfrentar uma quantia tão grande de inimigos.”

“Você tem razão.”

Minha mãe arremessou um machado em um esqueleto enquanto concordava com o meu pai.

Mas ainda havia um grande número de esqueletos indo em direção a vila.

“Nós ficaremos aqui e tentaremos comprar tempo. O restante de vocês…”

“Uh… Certo.”

“Se vocês têm certeza…”

Todos suspiraram profundamente antes de começarem a evacuação.

Eles decidiram partir para uma cidade portuária. Mesmo com uma tempestade, talvez eles ainda fossem capazes de escapar para o mar usando os barcos.

“AHHHHH!”

Mas as coisas não ocorreram como o esperado.

“Malditos sejam esses monstros!”

Uma besta enorme com três cabeças estava atravessando a vila.

Meus pais lutavam com todo o seu poder, mas ainda não era o bastante. A criatura era rápida demais, ela continuava esquivando-se das magias de meu pai e dos machados de minha mãe.

A criatura atacou violentamente com as garras de sua pata, fazendo com que meu pai e outro aldeão fossem arremessados. Ambos caíram no chão, suas juntas torcidas.

Huh? O que?

Eu não conseguia acreditar…

“AHHHHH!”

Os aldeões entraram em pânico e começaram a correr o mais rápido que eles conseguiam.

Eles ignoraram os pedidos de ordem de meu pai e correram em direção ao oceano.

Os aldeões desorientados me empurraram, e eu caí no chão.

“Esperem um pouco!”

“Você está bem?”

Minha mãe estava lá, me abraçando.

Mas seu rosto estava pálido.

O cão de três cabeças estava perseguindo os aldeões, atacando-os com suas garras e presas.

“Eu… estou com medo…”

Minha mãe alisou meus cabelos com seus dedos.

“Está tudo bem. Vamos ficar bem, então não se preocupe.”

Se minha mãe estava dizendo que nós ficaríamos bem… então nós ficaríamos… Certo?

“Estamos indo.”

Meu pai começou a correr atrás dos outros aldeões. Minha mãe e eu o seguimos de perto.

Os aldeões alcançaram um penhasco próximo ao mar e começaram a pular no oceano.

O cão estava no encalço deles. E então, eu não podia acreditar no que estava vendo! O cão pulou no oceano e começou a devorar os aldeões que estavam nadando.

O mar tornou-se vermelho.

“Droga, chegamos tarde demais!”

Meu pai gritou. Ele e minha mãe correram para atacar o cão e defender os aldeões restantes. Eu me escondi atrás deles.

O imenso cão de três cabeças saltou para fora do oceano e se virou em nossa direção. Ele uivou e nos encurralou contra o penhasco, para que não tivéssemos para onde correr.

E então a criatura saltou contra nós, suas garras expostas.

Meu pai conseguiu rebater as garras com sua magia, mas então um jato de sangue espirrou de seu ombro.

Huh?

“Querido, você está bem?”

“Eu estou bem… Mas…”

Nós estávamos contra o penhasco. Os outros aldeões já estavam no oceano, mas mais da metade deles tinha sido… Tinha sido…

“Ahh…”

Eu estava tão assustada. Eu abracei as costas da minha mãe.

Todos os que estavam abaixo nadavam para salvar suas próprias vidas, porém a correnteza estava muito forte e eles estavam sendo arrastados para o mar. Eles iriam se afogar.

“Se não cuidarmos desta coisa, ele vai seguir os aldeões até o mar e vai matá-los todos.”

“Eu sei…”

“Me desculpe, querida.”

“Eu estava preparada.”

Eles terminaram de conversar e olharam para mim.

“Raphtalia.”

“O… O quê?”

Ela estava acariciando minhas costas, tentando me acalmar.

“Não se esqueça de sorrir. Seja gentil para com os outros.”

“Sua mãe tem razão. Quando você sorri, todos sorriem.”

Papai acariciou minha cabeça.

“Raphtalia… As coisas vão ser difíceis para você. Se você não se cuidar, pode até mesmo acabar morrendo.”

“Mas… Ainda assim,  Raphtalia, nós queremos que você viva. Então, por favor, perdoe-nos por nosso egoísmo.”

Meu coração começou a palpitar muito rápido… Era como… Era como se eu nunca mais fosse vê-los novamente.

“Não! Mamãe! Papai!”

Eu não queria abandoná-los.

Minha mãe me empurrou com força e eu caí do penhasco para o oceano.

Tudo o que eu conseguia enxergar eram bolhas eclodindo violentamente por todos os lados. Apressadamente, eu coloquei minha cabeça para fora da água.

E então, eu vi. Eu vi o momento exato em que o cão de três cabeças pulou nos meus pais.

“NÃÃÃÃÃÃOOOO!”

A correnteza me arrastou, mas eu me debati durante todo o trajeto.

 

Quando eu finalmente acordei na praia, o céu já estava escuro.

Tinham outros sobreviventes da vila aqui. Mas alguns dos aldeões mortos acabaram na praia também.

O céu já tinha retornado a sua cor normal.

Eu não fazia ideia do que tinha acontecido.

Mas eu queria ver meus pais novamente mais do que qualquer coisa. Eu corri de volta para o penhasco onde eu havia os deixado.

Haviam ossos no solo. Parecia que os reforços tinham vindo do castelo para ajudar no combate aos monstros.

Quando eu cheguei eu encontrei pedaços de carne e o esqueleto daquele monstro. Alguns cavaleiros e aventureiros estavam carregando-o.

Eu consegui entender o que tinha acontecido.

“Bem, para a nossa sorte essa coisa já tinha sido espancada…”

“Sim, ou nós provavelmente não teríamos a vencido.”

Os cavaleiros e aventureiros estavam ridicularizando a situação quando perceberam a minha presença.

“Quem é essa pirralha?  Deveríamos capturá-la?”

“Espere. Estamos em território demi-humano.”

“Do que você está falando? O senhor destas terras está morto. Você não sabia?”

“Ah é?”
“De qualquer forma, deixe-a em paz. Você sabe o que aconteceria.”

Eles se dividiram e abriram espaço para que eu pudesse passar.

Então eu fui até a ponta do penhasco e vi o que restou dos meus pais. Eu comecei a tremer e a soluçar.

“NÃÃÃÃÃOOOOO!”

 

Quanto tempo já tinha se passado?

Quando eu percebi o que estava fazendo, eu já tinha enterrado meus pais.

“Não se esqueça de sorrir. Seja gentil com os outros.”

“Sua mãe tem razão. Quando você sorri, todos sorriem.”

“Certo…”

Eles tinham sacrificado suas vidas para salvar os outros aldeões, e eles tinham confiado os sobreviventes a mim.

Eu provaria para eles… Eu seria gentil com todos! Eu não permitiria que suas mortes fossem em vão.

Se eu apenas ficasse ali chorando, meus pais ficariam tristes.

“Eu não vou mais chorar. Estou indo…”

Eu comecei a caminhar de volta para a vila.

“Papai… Mamãe…”

Os aldeões que tinham corrido em direção ao oceano formaram uma multidão. Havia muito mais crianças do que adultos.

“Aquela é a Raphtalia?”

“Sim.”

“Seus pais sobreviveram?”

Perguntou um velho que tinha sido nosso vizinho. Ele parecia preocupado.

Eu tentei fazer o possível para não chorar. Eu balancei minha cabeça negativamente.

“Ah… Isso…”

Ele fora incapaz de encontrar quaisquer palavras. Ele devia estar ciente de que qualquer coisa que ele dissesse me faria chorar.

“Está tudo bem. Meus pais me disseram para animar a todos.”
“Disseram? Você é uma garota tão forte.”

“Hee,  hee.”

Eu estava rindo?

Tudo bem. Se eu chorasse, meus pais ficariam tristes.

“Pessoal!”

Eu gritei para atrair a atenção de todos, e subitamente os olhos de todas as crianças estavam em mim.

“Eu sei que vocês todos estão tristes. Eu também estou. Mas nossos pais e irmãos e amigos gostariam que nós ficássemos aqui chorando?”

Todos pareceram incomodados pelas minhas palavras. Seus rostos se contorceram.

Eu coloquei minha mão sobre meu coração e dei um passo à frente.

“Para todos vocês que acreditam que nossos amados não morreram, eu lhes pergunto: como vocês acham que eles se sentiriam se retornassem a vila e a encontrassem assim?”

Certo. Esta vila era de todos. Nós não podíamos apenas abandoná-la como estava.

Meu pai, e o senhor, sempre diziam que a vila era uma família que nós construíamos juntos.

“Eu entendo sua tristeza. Acreditem, eu entendo. Mas isto é apenas mais um motivo para reconstruir. Quer dizer, somos uma família!”

Sim, meu pai sempre dizia isso. Ele me ensinou a tratar o resto da vila como se fossem de nossa família.

Então eu o faria. Eu cuidaria de todos eles, como meu pai me disse.

“Certo? Por favor?”

Eu me esforcei para invocar um sorriso.

“Raphtalia…”

“Raphtalia, você não esta triste?”

“Por que você está sorrindo? Seu pai morreu!”

Meu sorriso enfraqueceu-se diante de suas palavras.

Eu não iria chorar… Se eu começasse a chorar, eu não seria capaz de parar…

“Certo… Eu… não… estou… triste…”

Eu não podia chorar. Se eu começasse a chorar, ninguém iria me consolar.

“Oh…”

“Olhem o quanto essa garota está se esforçando! Vamos, pessoal. Se ela consegue, nós também podemos!”

“Sim!”

“Certo!”

“Você tem razão,  Raphtalia! Eu vou me esforçar também!”

Keel estivera chorando, mas ele se virou em minha direção, revigorado.

“Sim!”

O senhor tinha dado a nossa vila uma bandeira. Tinha sido um presente, um símbolo da cidade. Naquele momento ela flutuou pelo ar e caiu diante de mim. Era como se ela estivesse concordando comigo.

Era isso. Isso foi um sinal, um sinal de que meus pais estavam nos observando.

Eu recolhi a bandeira, e os outros aldeões trouxeram um mastro para ela. Nós anexamos a bandeira no mastro.

“Trata-se de um sinal dos céus! Vamos trabalhar na reconstrução da vila!”

“Sim!”

E então todos decidiram tentar reconstruir a vila.

 

“NÃÃÃÃÕOO!”

Eu acordei imediatamente. Eu estava dentro da tenda que nós tínhamos armado.

Minha casa tinha sido completamente queimada – a maioria das casas foi. Então alguns de nós estavam dormindo juntos em uma tenda grande.

Eu acho que eu estava sonhando.

“Ei, vocês ouviram essa voz?”
Um velho tinha corrido em minha direção.

“Raphtalia, você estava gritando.”

“Eu estava?”

Eu precisava sorrir. Se eu não sorrisse eu iria preocupar os outros.

“Eu estou bem! Foi apenas um pesadelo.”

“Certo… Bem… Não se esforce demais.”

“Eu estou bem! Mas, muito obrigado.”

Pai. Mãe.

Eu estou fazendo o meu melhor, eu juro…

 

Na manhã seguinte nós decidimos deixar as casas que foram completamente destruídas como estavam e concentrar nossos reparos nas casas em que poderíamos viver logo.

Nós também deixamos algumas pessoas encarregadas de fazerem os túmulos para os corpos que desaguaram na praia.

Os adultos estavam todos concentrados na reconstrução da cidade, e as crianças estavam fazendo o que podiam para ajudar.

Mas nós estávamos ficando preocupados com os suprimentos alimentícios. Eles podem não durar.

Nós debatemos a ideia de enviar barcos pesqueiros para conseguir mais comida, mas o mar estava muito violento então nós decidimos esperar até mais tarde

Nós contamos os sobreviventes.

Havia apenas um quarto da vila restante.

Ainda assim, um dos homens mais velhos disse que nós nos saímos tão bem quanto se poderia esperar.

“É como a Raphtalia disse. Pelo menos nós ainda estamos vivos.”

“É!”

O que eu não sabia na época era que todos os nossos esforços seriam desperdiçados sem qualquer tipo de misericórdia.

“Ei! O que vocês estão fazendo?!”

Haviam alguns homens de aparência assustadora andando pela vila, e eles apontavam suas espadas para um grupo de adultos.

“Ei!”

“Quem são vocês?!”
“Hahaha! Eu tinha ouvido dizer que ainda haviam demi-humanos vivos por aqui. Então era verdade!”

“Sim, e esta área não é protegida! Podemos ganhar um bom dinheiro!”

“Sim!”

Um dos homens mais velhos deu um passo à frente e gritou com os homens.

“O senhor destas terras jamais perdoará este tipo de comportamento! Ainda tem cavaleiros do castelo na área também!”

Os homens horripilantes sorriram todos de uma vez.

“Você acha que nós nos importamos se o seu senhor morto ficar furioso?  Além disso…”

Aconteceu mais rápido do que eu conseguia enxergar, antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo.

O estômago do velho se abriu. Um dos homens maus o cortou com sua espada.

“O quê…”

“Hahaha!”

“Vocês não nos reconhecem?  Nós somos os cavaleiros do castelo!”

“Eles ainda não entenderam, não é, Chefe?”
“Não!”

“HAHAHAHAHA!”

O velho tombou em meio a uma poça de sangue. Ele não se contorceu sequer uma vez.

A poça de sangue estava se espalhando. Em pouco tempo ela tinha alcançado os meus dedos.

“Ah! AHHHHHHHHHH!”

Inesperadamente, todos entraram em pânico. Eu não sabia o que fazer, então eu corri.

“Não permita que eles escapem! Matem os mais velhos! Podemos vender as mulheres e as crianças, então não as execute!”

Eu não consigo me lembrar muito bem do que aconteceu depois disso.

“Não!”

“Quieta! Tome isto!”

“Ugh…”

Alguém me segurou pelos cabelos. Eu senti algo me atingir, e depois nada.

 

Uma semana se passou. Eu continuei tendo sonhos sobre as mortes dos meus pais.

Eles me capturaram, e me venderam como escrava.

O primeiro dono parecia amável. Ele só queria que eu agisse como uma serva, mas então ele me vendeu, e eu ainda não sei o porquê.

O próximo dono…

“Tome isto!”

“Ugh…”

Por quê? Por que eles me tratavam assim?

Ele era um homem gordo e parecia ser uma pessoa ruim. Ele me mantinha no porão de uma casa em uma cidade cujo nome eu nunca tinha ouvido falar. Haviam animais lá. Eles eram tratados da mesma forma que eu… Ugh… Aparentemente este homem tinha comprado a Rifana antes de mim.

Todos os dias, quando ele sentia vontade, ele me pendurava no teto usando correntes e me espancava com um chicote. Ele me batia até que eu estivesse completamente ensanguentada. E então ele continuava me batendo.

Todas as vezes em que eu tentava impedi-lo ou reclamar a maldição dos escravos em meu peito me queimava. A dor do chicote estava me enlouquecendo.

Mas eu não iria desistir.

Eu aguentaria, pelos meus pais e por todos os membros da vila que não tinham sobrevivido.

Então eu não desistiria.

“Raphtalia…”

Rifana disse, tossindo.

“Está tudo bem… Está tudo bem. Nós vamos voltar para a vila.”

Quando eu me encontrei com a Rifana ela já estava doente. Ainda assim, o homem não parava de espancá-la.

“Sim… Nós… Nós vamos… conseguir…”

O que este homem queria de nós? Ele simplesmente achava divertido nos açoitar com um chicote?

“Ha! Vocês ainda nutrem esperanças de uma vida melhor?”

Ele me bateu de novo, e eu senti o sangue escorrer em minhas costas.

Eu senti lágrimas se formarem graças a dor.

“Sim! Grite!”
“Ahhhh!”

Depois disso, as coisas pioraram. Ele começou a nos torturar.

Eu estava finalmente livre, e em farrapos, mas eu me arrastei pelo chão barrento para cuidar da Rifana.

Ele nos trouxe uma tigela de sopa fedida. Tinha gosto de barro. Era o nosso único alimento diário.

Eu lentamente dei a sopa para Rifana. Isso lhe garantiria mais um dia de vida.

Ficaria tudo bem. Nós precisávamos voltar para a vila. Todos estavam esperando por nós.

“Aguente… Eu juro que vou lhe ajudar.”

Haviam barras de ferro gradeado que iam quase até o chão. Eu percebi que se eu arrancasse uma das pedras da parede e a usasse para cavar o alicerce debaixo das barras, então nós poderíamos nos contorcer entre elas e escapar! Isso tinha que funcionar.

“Obrigado.”

“Sim! Nós vamos nos encontrar com todos os outros!”

Minha mãe e meu pai tinham me encarregado de tomar conta de todos.

Os outros aldeões definitivamente nos ajudariam.

Sadeena com certeza agruparia os outros e viria nos salvar. Tudo o que nós precisávamos fazer era sobreviver por tempo o bastante.

“Você… Se lembra daquele… Dia?  Raph… Ta… Lia…”

Rifana estava tremendo. Ela esticou suas mãos em direção ao teto.

“Você se lembra… da… bandeira… do senhor?”

“Sim… Sim!”

Eu agarrei suas mãos e as apertei com força.

Eu lembrava. Aquela bandeira tinha nos dado esperança.

Eu sentia falta daqueles dias quietos… Os dias em que nada estava errado.

Mas aqueles dias se foram.

Então eu precisava trazê-los de volta. Esse era o meu dever.

Rifana tossiu novamente.

 

Três dias se passaram.

Eu conseguia ouvir seus passos se aproximando.

“Raphtalia…”

O momento terrível estava para começar novamente. Eu tinha sido infectada com a gripe de Rifana. Mas eu ficaria bem.

Eu deslizei uma pilha de palha molhada para dentro do buraco que eu estava lascando debaixo das barras.

“…”

Rifana não estava me respondendo.

“Rifana?”

O homem abriu a porta para o estabulo onde ela estava e tocou seu corpo.

“Suponho que ela esteja morta. Que droga.”

Ele apoiou o corpo dela no seu ombro e murmurou consigo mesmo.

Rifana permaneceu pendurada, seus olhos frios e vazios.

“Droga, e estava quase na hora de devolvê-la. Isso é uma quebra de contrato!”

Então ele chutou o seu corpo, como se ela fosse algum tipo de brinquedo.

Na época eu não sabia, mas eu descobri mais tarde. Aparentemente existe uma classe de pessoas que se entretém por meio da compra e da tortura de escravos demi-humanos.

Era isso o que nós éramos, apenas escravas compradas para satisfazer os desejos daquele homem.

O quê?  Rifana?

Não… Não pode ser.

Eu estendi minha mão trêmula e a toquei.

Ela estava fria, tão fria! Eu não conseguia acreditar.

Não… Rifana!

Eu estava triste, furiosa, aterrorizada… Desesperada.

Eu tinha tantas emoções diferentes em movimento dentro de mim.

Por quê?  Rifana não tinha feito nada de errado

“Isso aconteceu porque você não parava de chorar a noite! Ela não conseguia dormir! Isso é culpa SUA!”

“Não… Ugh… Rifana…”

O homem me pendurou e começou a me açoitar. Ele me bateu durante mais tempo do que o normal naquele dia.

Mas eu mantive meus olhos na Rifana o tempo todo, e nem mesmo sentia a dor.

“Ah é, você está sempre falando sobre uma vila, não é?”

“…”

Eu não precisava respondê-lo. Todos estavam esperando por mim.

“Aparentemente aquela vila foi destruída alguns dias atrás. Eu tenho provas.”

Ele ergueu uma bola de cristal.

Um raio de luz saiu da bola de cristal e projetou na parede a imagem da vila.

Estava pior do que a vila que eu conhecia. Estava completamente destruída e não havia ninguém lá.

A bandeira estava esfarrapada e queimada, e o solo estava cheio de ossos.

“Ah, eu ouvi você dizendo que era a pessoa que ajudava a todos naquela vila. Aparentemente todos abandonaram a vila e fugiram.”

“Ah…”

O homem sorriu. Ele nunca tinha me visto chorar, nem ao menos piscar. Ele estava adorando isso.

Algo dentro de mim se partiu.

Eu não aguentava mais.

Minha mãe e meu pai confiaram a vila a mim, mas não restou ninguém.

Então o que eu deveria fazer?

Não havia mais nada para mim.

“Chore! Chore mais!”

A dor era tão intensa que eu pensei que iria enlouquecer.

Os sonhos que eu tinha toda noite estavam começando a deteriorar o meu cérebro.

Eles eram sobre a última vez que eu vi meus pais. E estavam ficando piores.

Eu era uma criança má por não ter salvo a vila. Eles esperavam que eu nunca mais sorrisse novamente. Eu não tinha mais o direito de viver.

Eles continuavam sussurrando: morra,  morra…

Eles estavam… certos. Eu jamais iria sorrir novamente.

Eu não queria.

Porque eu… Porque eu quebrei a minha promessa…

 

O homem finalmente me vendeu.

Ou isso, ou o limite de tempo para o seu jogo de tortura havia acabado.

“Isso é horrível. É muito menos do que ela vale. Droga.”

“Vamos lá, ela está à beira da morte. Eu não posso usá-la nestas condições, então vou ter que subtrair do preço o tempo perdido.”

“Entendo. Sim.”

Um homem velho vestindo um bom terno me comprou. Ele era diferente do último negociante de escravos.

Como seria o meu próximo dono?

“Tenho certeza de que ela poderia ter sido tratada um pouco melhor…”

O novo dono me deu medicamentos e comida.

“Eu não creio que ela vá durar muito tempo.”

O dono disse enquanto me colocava em uma jaula.

Então… Eu finalmente não valia nada para ninguém.

Meus pais se foram, e minha vila se foi. Era como se o mundo estivesse me dizendo para morrer.

Doía. Eu queria morrer. Eu queria que fosse rápido.

Eu não sabia quanto tempo havia se passado. Eu estava apenas olhando através das grades de minha cela. Muitas pessoas vinham e iam.

E então…

“Estes são os escravos mais baratos que eu posso lhe oferecer hoje, senhor.”

O negociante de escravos levou um jovem homem até a minha cela.

“Da direita para a esquerda, eles são: uma espécie de coelho com uma desordem genética, uma espécie de guaxinim que sofre de ataques de pânico e um mestiço, o homem lagarto.”

“Todos eles parecem ter problemas severos.”

O jovem estava negociando com o comerciante de escravos. Seus olhos se encontraram com os meus por um instante.

Seus olhos eram afiados o bastante para matar alguém. Ele parecia furioso.

Eu me sobressaltei.

Seus olhos desviaram-se para os outros dois escravos. Seu olhar era assustador.

Ele estava preenchido por ódio, muito mais ódio do que o homem que me açoitava.

Parecia que ele odiava o mundo inteiro.

Se ele me comprasse, eu provavelmente morreria em um dia ou dois.

“Ela tem ataques de pânico durante a noite. É muito trabalhoso cuidar dela…”

Eles estavam falando sobre mim? Eu não conseguia discernir.

Mas afinal, o jovem me comprou.

A maldição para registrar um escravo sempre doía. Eu a odiava.

Mas eu tinha certeza de que este seria o meu último dono.

Porque eu… Eu não tinha muito tempo sobrando.

 

Certo tempo depois, meu novo dono me deu uma faca e me forçou a matar um monstro.

Era tão assustador, mas se eu não fizesse isso a marca no meu peito queimava.

Nós saímos da loja de armas, e meu estômago começou a roncar.

Ele iria gritar comigo! Eu balancei minha cabeça; eu queria lhe dizer que eu estava bem. Eu estava bem! Eu só queria que ele não ficasse bravo comigo! E que não me açoitasse!

Ele apenas suspirou.

Ele estava com raiva?

Ele apenas saiu caminhando e me levou até outra loja. Eles vendiam comida lá.

Eu acho que eu tinha visto essa loja anteriormente na cidade.

“Eu vou querer a sua refeição mais barata, e ela vai querer o que quer que seja que aquela criança ali esteja comendo.”

“O quê?!”

Eu estive encarando invejosamente a refeição que uma outra criança estava comendo. E então meu novo dono a comprou para mim? Eu não conseguia acreditar no que meus ouvidos escutavam.

Todos aqueles fora da minha vila eram malignos, não eram?

“P… Por quê?”

“Hm?”

“Você aparentava querer comer aquilo. Qual é o problema? Você quer algo diferente?”

Eu balancei minha cabeça.

“Por que você está me alimentando?”

Desde que eu me tornei uma escrava, ninguém me tratou desta forma.

“Eu já disse… Você parecia estar com fome.”

“Mas…”

“Apenas coma e se fortaleça. Se você continuar magra assim, pode acabar morrendo.”

Morrer…? Eu morreria. Eu definitivamente morreria… Igual a Rifana. Eu morreria graças a mesma doença.

“Aqui está.”

A garçonete colocou uma refeição grande e elaborada na minha frente. Tinha uma bandeira encima dela.

Agora eu possuía aquilo do que eu tinha inveja apenas alguns minutos atrás. Eu hesitei. Eu estava certa de que, quando eu fosse começar a comer, o jovem arremessaria a comida no chão e zombaria de mim.

“Você não vai comer?”

Ele me olhou confuso.

“Eu posso?”

“Sim, apresse-se.”

Sim, ele provavelmente iria destruir tudo.  Eu estiquei minha mão lentamente.

Eu olhei para ele.

Não parecia que ele ia fazer qualquer coisa. Eu toquei a comida.

Eu arranquei a pequena bandeira, e parecia que eu tinha acabado de conquistar algo. Eu senti como se, enquanto eu tivesse a bandeira, eu não precisasse de nada e de ninguém. Eu senti como se estivesse de volta a minha vila. Eu senti como se fosse a mesma bandeira, aquela que perdemos.

Eu segurei a bandeira com força enquanto comia. Estava tão delicioso que eu senti lagrimas escorrerem pelo meu rosto.

Se eu chorasse, eu tenho certeza de que ele gritaria comigo. Eu tentei limpar as lagrimas sem que ele percebesse.

“Como está?”

“Delicioso!”

Não! Eu acidentalmente respondi a ele, e ele viu que eu estava feliz. Ele me puniria com certeza.

“Que bom.”

Isso foi tudo o que ele disse. Eu não conseguia entender.

Eu apertei a bandeira. Eu senti como se ela estivesse cheia de… alguma coisa.

Comparada com a bandeira que o nosso senhor havia nos presenteado, esta era muito pequena e muito ordinária, mas parecia que ela carregava tudo aquilo o que eu perdi. Eu senti como se ela quisesse que eu me lembrasse de algo importante.

Eu me virei para o jovem.

Ele parecia tão furioso quanto antes, mas algo estava diferente.

Mas o que era? Seu rosto e a sua voz eram assustadores, mas ele era uma pessoa boa?

Eu tinha tantas dúvidas.

 

Muitas coisas aconteceram naquele dia. Ele me deu medicamentos e me fez andar até todos os tipos de lugares.

Mas havia uma diferença.

O sonho que me assombrava estava diferente.

“Raphtalia…”

Meus pais estavam na beira do penhasco.

“Pai! Mãe!”

Eu corri até eles com toda a minha determinação.

Eu queria vê-los, eu queria ficar com eles.

Eu não deveria. Eu sei que não deveria, não na frente deles, mas eu senti as lagrimas se formando em meus olhos.

“Está tudo bem… Está tudo bem…”

“Não chore. Seja forte.”

“Ugh… Mas….”

Eu continuei chorando, e meus pais apenas me abraçaram e acariciaram minha cabeça.

“Nós estamos sempre cuidando de você.”
“Sim. Por favor, seja feliz.”

“Mas…”

“Você ficará bem com ele…”

Então eu acordei.

Eu não conseguia acreditar. Meu novo dono estava me segurando e acariciando a minha cabeça.

Ele não era uma pessoa má. Ele não se divertiria as minhas custas,  nem me machucaria.

Ele era desajeitado e rude, mas ele era uma boa pessoa.

Ele não tinha dinheiro, mas ele ainda me deu medicamentos, comprou comida para mim e deu prioridade ao meu equipamento ao invés do seu próprio.

Então, eu finalmente descobri quem ele realmente era.

Seus olhos eram escuros e cheios de ira e tristeza.

Ele era violento, colérico e vulgar. Ele era assustador.

Mas ele entendia a dor, e seu coração era gentil.

Sim, era ele a pessoa pela qual Rifana e eu ansiávamos… O Herói do Escudo.

O Herói do Escudo comprou diversos tipos de coisas para mim.

Eu tinha perdido tudo, mas agora estava cercada de tesouros.

O Herói me deu uma bolsa, e eu sorri enquanto guardava nela todos os tesouros que ele havia me dado.

Havia a bola. Havia a faca quebrada. Haviam muitas coisas. Mas a mais importante era a bandeira.

E também tinham muitas coisas impossíveis de serem guardadas na bolsa.

Eu me sentia mais saudável, melhor e mais forte.

“Aqui, coma.”

“Certo!”

Rifana, você pode me ouvir?

Eu estou lutando ao lado do Herói do Escudo.

Você jamais acreditaria.

Naquela noite eu tive um sonho também… Um sonho bom.

Rifana estava parada bem na minha frente. Ela estava sorrindo. Eu disse a ela tudo o que havia ocorrido. Nós conversamos sobre todo o tipo de coisas.

“Raphtalia, mantenha seu queixo erguido!”

“Eu vou.”

“Como você é sortuda! Lutando ao lado do Herói do Escudo!”

“Heh,  heh… Está com inveja?”

“Hahaha! Um pouco!”

Em meu sonho, ela parecia feliz e serena. Ela sorria para mim.

“Eu vou cuidar de você.”

“Eu sei.”

“Vamos voltar para a nossa vila, onde a bandeira está.”

“Sim! Eu me encontrarei com você lá!”

Eu esperava que meus pais estivesse me observando de onde quer que estivessem. Eu queria que eles me vissem reconstruir tudo.

Eu precisava de força. Eu queria ser forte o bastante para acabar com as pessoas ruins que queriam nos ferir.

O mundo era tão cruel e difícil. Era um mundo cheio de escuridão e mal, mas eu não iria desistir.

Eu não queria perder mais ninguém.

Eu vou ficar mais forte, forte o bastante para proteger meus pais e Rifana. Sim, e também para proteger o Sr. Naofumi.

Eu conseguiria. E então eu segui em frente.

 

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