O Que É Seu É Meu

 

O sol brilhava alto no céu quando eu acordei. Raphtalia estava esperando por mim.

“Nós vamos voltar para a cidade?”

“Sim.”

Ela havia voltado a tossir. Eu silenciosamente lhe entreguei mais remédio, que ela engoliu silenciosamente também.

Nós fomos até um boticário e tentamos vender nossas mercadorias.

“Bem, isto não está nada mal… Herói, você têm algum tipo de passado relacionado com o ramo da medicina?”

Ele agia como se já fossemos sócios enquanto observava os remédios que eu havia preparado.

“Não. Ontem foi a minha primeira tentativa. Seria mais rentável vender os medicamentos ou as ervas em si?”

“Essa é uma pergunta difícil. Os medicamentos, quando efetivos, são mais fáceis de serem usados e, logo, provavelmente mais fáceis de serem vendidos.”

O dono olhou para Raphtalia. Ele parecia calmo, até mesmo relaxado. Ele falava de forma direta e simples, como se soubesse que se víssemos seus olhos dardejando de um lado para o outro da sala imediatamente desconsideraríamos seus conselhos.

“No entanto, as profecias estão fazendo com que o preço dos medicamentos aumente, então deve ser mais lucrativo vendê-los prontos.”

“Hm.”

Dependeria do risco envolvido na fabricação, já que certa porcentagem das tentativas definitivamente falharia. Eu também não tinha a menor ideia do quanto seria gasto para adquirir as ferramentas necessárias para isso. Mas eu precisaria dessas ferramentas de um jeito ou de outro.

“Você têm algumas ferramentas de boticário que não use mais?”

“Eu pensei em mencionar isso para você duas semanas atrás, quando você veio vender aquelas ervas.”

O dono tinha em seu rosto uma expressão estranha, como um meio sorriso. Afinal, ele pegou as ervas como pagamento pelas instruções, comprou os medicamentos que eu fiz e meu deu algumas de suas ferramentas mais velhas e desgastadas.

Ele me deu um pilão e um almofariz, e mais alguns itens como uma balança, frascos e coisas do gênero. Eu acho que se eu tivesse comprado itens novos o preço seria muito alto.

“Eles são todos velhos e estão em mal estado, então não sei o quanto você vai conseguir aproveitar antes que eles quebrem.”

“Parece perfeito para um iniciante como eu.”

Independentemente, era equipamento o bastante para começar os experimentos com misturas e fabricação.

Agora só restava vendermos as peles dos balões que possuíamos.

Nós estávamos a caminho da loja de espólios quando uma criança que estava passando na rua capturou minha atenção. A criança estava brincando com um balão, quicando-o para cima e para baixo como uma bola.

“Ei, aquilo…”

“Hm?”

Eu apontei para a criança, que ainda brincava com a bola, e perguntei para o dono sobre isso.

“Sim, aquela bola foi feita com espólios de batalha. Peles de balões, para ser mais preciso.”

“Entendi. Pode me fazer um também? Você pode subtrair o custo da quantia de balões que vendemos a você.”

O dono calculou o custo, o subtraiu do total que nós havíamos vendido e então me deu ambos o dinheiro e a bola.

“Aqui.”

Eu joguei a bola para Raphtalia. Ela pegou a bola e a encarou, depois olhou para mim e finalmente voltou a olhar para a bola. Ela estava surpresa.

“O que? Você não quer?”

“Não é isso… Quero…”

Ela balançou a cabeça e sorriu.

Aquela foi a primeira vez que eu a vi sorrir.

… Tanto faz. Não importava. Ela era só uma criança.

“Quando terminarmos nosso trabalho você pode ir brincar com isso.”

“Yay!”

Ela parecia animada. Isso era bom.

Quando mais animada ela ficasse, mais dinheiro eu poderia fazer com ela.

Nós retornamos á floresta e começamos a coletar ervas e batalhar contra monstros. Visitamos todos os lugares cuja minha defesa atual pudesse aguentar.

Aparentemente havia uma cidade do outro lado da floresta, mas só de pensar no caminho que aquela mulher tinha sugerido anteriormente me deixava irritado, então eu decidi não ir até lá.

Nós estávamos indo muito bem e coletando muitos itens. Parecia que tínhamos entrado em um terreno um pouco mais alto, então decidi tomar o rumo das montanhas.

An? Um monstro que eu nunca vi antes surgiu.

Parecia algum tipo de ovo. Se eu tivesse que classifica-lo, eu diria que ele deve estar relacionado com os balões de alguma forma.

“Aquele monstro é novo. Eu irei à frente para verificar se está tudo bem. Se eu confirmar que está tudo bem, pode se aproximar e apunhala-lo.”

“Certo!”

Boa resposta.

Eu corri na direção do monstro. Ao perceber que eu estava me aproximando a criatura imediatamente pôs á mostra suas presas.

Ele me mordeu, mas não doeu nem um pouco. Eu lutei com ele por alguns segundos para que Raphtalia tivesse uma boa ideia de como ele era.

Raphtalia atacou o monstro com um entusiasmo muito maior do que aquele que ela havia demonstrado no dia anterior.

Eggug era o nome da criatura.

O Eggug quebrou-se com um estalo alto e seu interior amarelo escorreu para o chão.

“Ah! Nojento!”

Seria possível vender a casca? Parecia um desperdício apenas deixa-la ali. Mas ela cheirava como algo podre, então provavelmente não era muito bom para comer.

Meu escudo absorveu as cascas de ovo.

Pouco tempo depois, um grande número de Eggugs surgiu, mas Raphtalia acabou com eles.

 

 Escudo Ovo: Requisitos Atendidos

 

 Escudo Ovo

 Habilidade Bloqueada.

 Bônus de Equipamento – Cozinhar +1

 

Parece que eu consegui mais uma nova habilidade.

E esta estava relacionada ao ato de cozinhar.

Logo em seguida, mais inimigos apareceram. No entanto, estes não passavam de variações do mesmo tema: Eggugs de varias cores diferentes. Nós passamos um tempo caçando eles.

 

 Escudo Ovo Azul: Requisitos Atendidos

 Escudo Ovo Do Céu: Requisitos Atendidos

 

 Escudo Ovo Azul

 Habilidade Bloqueada

 Bônus de Equipamento – Visão +1

 

 Escudo Ovo do Céu

 Habilidade Bloqueada

 Bônus de Equipamento – Receitas Simples

 

Por que eu estou sempre adquirindo habilidades de artesanato?

Eu ponderei se isso estava ligado aos tipos de inimigo que eu vinha enfrentando. De qualquer forma, com o passar do dia nós encontramos diversos tipos de novas ervas medicinais. Eu cuidadosamente recolhi o maior número possível delas.

O sol ameaçava mergulhar no horizonte. Era muito tarde para começar a ir em direção as montanhas. Além do mais, eu não tinha certeza de que o equipamento de Raphtalia estava á altura.

Então, o que conquistamos neste dia?

 

Eu alcancei o nível oito.

Raphtalia alcançou o nível sete.

Ela estava me alcançando rapidamente.

Fazia sentido, afinal, era ela quem estava derrotando os monstros.

Aparentemente os pontos de experiência iam, em maior quantia, para aquele que desse o último ataque no monstro. Isso explicaria a razão da rápida progressão dos níveis de Raphtalia.

“Estou com fome…”

O estomago dela estava roncando. Ela olhou para mim com uma expressão preocupada.

“Tudo bem. Vamos voltar e jantar.”

Nós cessamos nosso trabalho por enquanto e voltamos para a Cidade do Castelo.

No momento em que entramos na cidade eu fui em direção a loja de espólios. As cascas de Eggug não podiam ser usadas em misturas, então decidi apenas vende-las.

Juntamente com as vendas que eu realizei mais cedo nesse mesmo dia, nós ganhamos nove peças de prata.

Eu não conseguia sequer imaginar para o que eles utilizariam as cascas, mas eles pagaram um bom dinheiro por elas, então eu decidi não questionar muito. Nossas ervas e nossos medicamentos também venderam bem. Então, o que deveríamos fazer para o jantar?

… É o que eu estava pensando, mas Raphtalia já tinha seus olhos fixados em um carrinho de comida[1], e estava babando em antecipação.  Eu não queria mima-la, mas o preço parecia justo. Acho que está tudo bem.

“Você quer comer aquilo?”

“Hm? Sério?”

“Você quer comer, não quer?”

Ela assentiu rapidamente.

Ela agora respondia a todas as minhas perguntas de forma muito rápida.

No entanto, ela ainda estava tossindo…

Eu silenciosamente lhe entreguei mais um pouco de remédio e então fiz o pedido para o atendente. Eles estavam vendendo algo parecido com batatas amassadas, que subsequentemente eram moldadas em formato esférico e então espetadas.

“Aqui está. Bom trabalho hoje.”

Eu lhe entreguei um espeto e, após terminar de engolir o remédio, ela o pegou e sorriu.

“Obrigado!”

“Oh… An…”

Ela parecia genuinamente feliz.

Ela mastigava as batatas enquanto andávamos pela cidade, procurando algum lugar para ficar.

“Você quer passar a noite aqui?”

“Pode ser.”

Eu queria um lugar onde fosse possível evitar os ataques de terror noturno da Raphtalia, e eu também estava cansando de lutar contra os balões. Nós entramos na estalagem. O dono fez uma expressão incomum ao me ver, algo similar a raiva, mas quando nos aproximamos do balcão ele mudou para um sorriso de negócios.

“Minha amiga aqui pode gritar um pouco a noite, mas podemos ficar aqui?”

Eu não tinha a intenção de ameaça-lo diretamente, mas eu balancei um pouco minha capa para que ele obtivesse um bom vislumbre dos balões que estavam lá dentro.

“Isto… Isto é…”

“Está tudo bem, certo? Vamos tentar ser silenciosos.”

“S…Sim.”

Desde que eu cheguei neste mundo eu percebi que certa quantia de tenacidade era necessária para conduzir negociações. Todas as pessoas deste país não hesitavam em me ridicularizar, mas se qualquer coisa lhes acontecesse elas iriam delatar imediatamente ao rei.

E mesmo que elas o fizessem não havia opção se não a de me deixar fazer o que quisesse.

Ah, mas que mundo…

Eu paguei pelo quarto, fui até lá e comecei a tirar minhas coisas das malas.

Raphtalia estava segurando sua bola e seus olhos estavam brilhando.

“Volte antes do escurecer. E mantenha-se próxima a estalagem, certo?”

“Certo!”

Mas que criança.

Aparentemente demi-humanos eram sujeitos a uma boa quantia de perseguição por parte da sociedade, mas eu imaginei que, por ser uma aventureira, ela seria deixada em paz.

Eu a assisti brincar com a bola na rua através da janela por alguns instantes, e então voltei minha atenção para o estudo das misturas.

Cerca de vinte minutos se passaram. Então eu comecei a ouvir gritos de crianças.

“Por que uma demi-humana está brincando no nosso lugar?!”

Mas que diabos? Eu olhei pela janela. Lá em baixo na rua havia um grupo de crianças, obviamente apenas um monte de pirralhos, e eles estavam se aproximando de Raphtalia como se a chamassem para uma briga. Não importa para que mundo você fosse, sempre haveria pessoas desse tipo.

“Ah, parece que ela tem algo interessante! Dê-me isso!”

“Eu… An…”

Raphtalia entendia que demi-humanos pertenciam a uma classe inferior na sociedade. Não parecia que ela iria lutar contra eles.

…Eu deixei o quarto para trás e corri escadas abaixo.

“Dê-me isso! Você não está escutando?!”

“Mas eu… An…”

Ela parecia fraca, e assustada, e eu via claramente que aqueles fedelhos iam tirar a bola dela a força. Eles formaram um círculo ao redor dela.

“Esperem um pouco, seus pirralhos.”

“Mas que diabos? Quem é o velhote?”

Q…Que? Velhote? Eu tinha vinte anos. Quem sabe qual idade era considerada madura nesse lugar? Eu acho que eu era um ‘velhote’ para eles então.

“Por que estão tentando roubar o brinquedo dela?”

“Por que você se importaria? Não é seu.”

“Na verdade, É meu. Eu apenas emprestei para ela. Se vocês roubarem dela, estarão roubando de mim.”

“Do que você está falando?”

Eu não me importava com o fato de eles serem crianças. Eu não iria pegar leve com eles. Se eles sentiam vontade de quebrar as regras, seriam punidos por isso.

“Tudo bem.  Deixe-me lhes emprestar outra bola que eu tenho.”

Raphtalia olhou para mim, chocada. Ela virou para os garotos parecendo pronta para gritar.

“Corram!”

Mas eles não correram. Eles olharam diretamente para mim.

Eu sorri e peguei um dos balões por debaixo de minha capa.

“AAAAII!”

Eu permiti que o balão mordesse o garoto antes de guarda-lo de imediato.

“E agora… Ainda querem brincar com a minha bola?”

“Ai!”

“Do que você está falando? Você é louco!”

“Morra! AAI!”

“Até parece que eu me importo, seus fedelhos!”

Eles correram para longe, e eu continuei os insultando por alguns instantes antes de voltar para dentro.

“An… Eu…”

Raphtalia estava segurando minha capa.

“Cuidado, você sabe que tem balões aí em baixo.”

Ela rapidamente soltou a capa, surpresa. Ela estava tremendo de medo, mas lentamente levantou o rosto e sorriu.

“Obrigado.”

O que foi agora?

“…Certo.”

Eu acariciei sua cabeça, e seu rosto ficou extremamente vermelho, segundos antes de ela se virar.

[1] N/T: Com ‘Carrinho de Comida’ (no original ‘Food cart’) Naofumi se refere aos veículos que saem pelas ruas vendendo alimentos mais simples como pipoca ou outras guloseimas.

 

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