Tirando Uma Vida

 

Nós atravessamos os campos e sediamos nossas operações nas florestas e nas montanhas.

Estávamos lutando muito melhor do que antes. Acho que finalmente entendemos como isso funciona.

Também estávamos bem no quesito de ervas. Não demorou muito tempo para que nossas malas estivessem cheias de ervas e espólios.

Foi então que aconteceu.

Nós tínhamos batalhado contra monstros que, em sua maioria, lembravam objetos inanimados. Mas finalmente, um monstro que lembrava um animal surgiu.

Era como um coelho marrom e… gigante?

Usapil

Nome estranho, se você me perguntar.

O Usapil nos encarou por um ou dois segundos antes de correr em nossa direção com seus enormes dentes frontais a mostra.

“Cuidado!”

Provavelmente pensando que ele parecia fraco, Raphtalia já estava preparada. Então eu corri e fiquei em sua frente para proporcionar a defesa.

O Usapil afundou seus dentes em mim, mas da mesma forma que ocorrera antes, não doeu nem um pouco. Aparentemente o nível de minha defesa era realmente alto.

“Ele está preso! Ataque-o!”

“Ahh… Eu…”

“O que foi?”

“Ele está vivo… e ele… ele vai sangrar!”

Eu tentei entender o que ela estava dizendo.

“Apenas lide com isso. Nós vamos ter que enfrentar muitas coisas vivas.”

“Mas… Mas…”

O Usapil continuou me mordendo, de novo e de novo.

“Ataque-o logo! Se você não o fizer, eu posso não estar mais aqui para lhe proteger.”

Claro, nós havíamos passado uma boa quantia de tempo juntos e tínhamos ficado mais próximos. Mas eu ainda precisava que ela lutasse por mim. Se ela não conseguisse fazer isso, eu teria que levá-la de volta e conseguir um novo escravo, um que pudesse lutar.

Raphtalia emitiu um grito infantil e esfaqueou o Usapil várias vezes nas costas.

Quando ela puxou a faca, sangue espirrou.

O Usapil desabou no chão e rolou de um lado ao outro. Raphtalia o assistiu e então olhou continuamente para o sangue em sua faca. A cor deixou seu rosto, e parecia que ela iria correr para longe.

Mas não havia tempo para compaixão. Nós teríamos que repetir isso centenas, se não milhares de vezes.

Outro Usapil surgiu do matagal e avançou em direção a Raphtalia com os dentes arreganhados.

Eu corri para o meio dos dois e desviei o ataque do Usapil.

“Me desculpe. Eu sei que esta responsabilidade é minha, mas eu não possa fazer nada além de proteger os outros. É por isso que você deve fazê-lo.”

O Usapil enterrou os dentes em meu braço enquanto eu falava.

“Eu preciso ficar mais forte. E preciso que você me ajude.”

Se eu não me tornasse mais forte, eu jamais sobreviveria o que estava por vir. O momento exato já fora definido. A onda de destruição chegaria em pouco mais de uma semana.

Se eu tivesse que enfrentá-la em meu nível atual, eu não estava certo de que seria capaz de sobreviver.

“…Mas…”

“Em pouco mais de uma semana uma grande onda de destruição vai banhar o mundo.”

“O quê?!”

“É por isso que eu tenho que ficar mais forte. Antes que a onda chegue, eu devo me tornar forte o bastante para confrontá-la.”

Raphtalia ouvia em silêncio mas estava tremendo de medo.

“Você vai lutar contra a onda?”

“Sim. É para isso que eu estou aqui. Não estou fazendo isso por diversão… Se você parar para refletir, eu e você somos muito similares. Não que eu esteja em posição que possa afirmar tal coisa, já que estou te forçando a fazer essas coisas.”

“…”

“Então não me dê motivos para levá-la de volta.”

Eu não queria. Não faria bem a ninguém colocá-la de volta na gaiola naquela tenda.

Eu não tinha dinheiro algum. Se eu não a vendesse, eu não poderia comprar um novo escravo.

“Eu entendo… mestre. Eu… vou lutar.”

A cor lentamente retornou ao seu rosto pálido. Ela assentiu. Então ela virou-se para o Usapil e o apunhalou com sua faca sangrenta.

Subitamente, ela pareceu determinada. Seus olhos estavam imóveis.

O Usapil rolava aos seus pés. Ela olhou para ele e lentamente fechou os olhos. Então deu um passo a frente, corrigindo a forma com que ela segurava a faca. Ela iria dissecá-lo.

“Eu cuido disso. Nem tudo é de sua responsabilidade.”

“Certo.”

Eu peguei uma faca de dissecar na mala e comecei o trabalho.

Isso era realidade, não um jogo. Se eu pudesse, eu teria desviado o olhar. Porém, essa não era uma opção.

Essa foi a minha primeira vez dissecando um animal, mas também era algo que eu teria que fazer para sobreviver. Quando eu vi pela primeira vez o sangue do Usapil em minhas mãos eu comecei a entender como Raphtalia se sentiu.

Aparentemente eu não podia utilizar armas em batalha, mas podia utilizá-las para tarefas como esta. Obviamente havia muitos momentos na vida em que uma faca seria necessária, então fazia sentido.

Eu dissequei os dois Usapils e permiti que o escudo os absorvesse.

 

 Escudo de Usacouro: Requisitos Atendidos

 Escudo de Usacarne: Requisitos Atendidos

 

Escudo de Usacouro

Habilidade Bloqueada

 Bônus de Equipamento – Agilidade 3

 

 Escudo de Usacarne

 Habilidade Bloqueada

 Bônus de Equipamento – Habilidade de Dissecamento 1

 

Eu transformei meu escudo em sua versão “Usacarne” e me levantei.

“Mestre, por favor, não… me abandone.”

Raphtalia estava olhando para mim, implorando. Ela parecia magoada.

Acredito que ela realmente não queria voltar para o negociante de escravos.

Ela chorava durante a noite, estava doente e magra como um graveto. Se eu não tomasse cuidado, ela iria acabar morrendo. E isso não seria bom para ninguém.

Eu sorri momentaneamente quando a ideia de morrer levando aquela mulher comigo atravessou minha mente. Mas na vida real esse também não seria um cenário ideal.

“Enquanto você fizer seu trabalho eu não vou te abandonar.”

E eu estaria em uma situação no mínimo complicada se ela morresse.

…Sim, qualquer coisa do mesmo sexo daquela mulher… Ugh, ela!

Minha cabeça parecia estar girando. Eu precisava parar de pensar nisso. Era doloroso. Estava na hora de voltar a pensar em como usar essa escrava para me tornar mais forte.

 

 EXP +7

Raphtalia EXP +7

 

“Eu quero… te ajudar… mestre.”

Raphtalia estava agindo como uma pessoa completamente diferente, atacando e matando todos os Usapils que encontrávamos. Uma vez ela até mesmo matou um deles antes mesmo que eu tivesse a chance de prendê-lo.

Mesmo que fosse um pouco violento, isso era bom.

O que eu estava fazendo não era algo bom. Era tudo apenas para mim, completamente egocêntrico.

Mas… eu não tinha escolha, não é?

Decidimos passar aquela noite na floresta. Nós encontramos uma clareira, juntamos um pouco de lenha e fizemos uma fogueira.

Separamos algumas ervas que pareciam ser comestíveis e cozinhamos elas juntamente com a carne de Usapil para o jantar.

Sobrou um pouco da carne, então nós a espetamos e grelhamos na fogueira.

Eu estava planejando voltar para a cidade no entardecer de amanhã, mas eu não estava certo de que poderíamos vender a carne. Na verdade eu não tinha certeza de que podíamos comê-la, mas minha habilidade de ‘Visão’ dizia que era comestível.

Quando terminei de cozinhar, eu provei um pedaço como um teste. Não parecia haver nada de errado.

No entanto, sua consistência era borrachosa e não parecia ter gosto algum. Estava ruim?

Eu não tinha feito nada além de cozinhar a carne. Então, provavelmente, estava insípida.

Minha habilidade de cozinhar brilhou e informou-me de que a qualidade estava ‘Relativamente Boa’, então não podia estar muito ruim.

“Aqui. Coma.”

Eu entreguei a Raphtalia o pote com ensopado e um espeto de carne.

“Está delicioso!”

O estômago dela esteve roncando em antecipação, e seus olhos se iluminaram quando ela começou a comer. Ela a comeu como se fosse a coisa mais saborosa do mundo.

Depois de um dia preenchido com batalhas, eu havia chegado no nível dez, assim como Raphtalia. Ela finalmente havia me alcançado.

Eu foquei minha atenção nas misturas que estava fazendo a luz das chamas.

Graças ao dinheiro que eu ganhei pelos medicamentos eu tenho mais esperanças de que serei capaz de comprar um melhor equipamento. Eu fabriquei os medicamentos mais caros dos quais eu tinha conhecimento.

Eu moí as ervas no almofariz, utilizando o pilão, e torci seus fluídos em um béquer.

 

 Você fabricou Medicamentos!

 Você fabricou uma Bebida Nutritiva!

 

Eu produzi todas as receitas que eu conhecia.

Então,  aparentemente eu havia alcançado o limite de utilidade de ‘Misturas 1’. Além disso, eu descobri essas duas receitas completamente por acaso. Eu estava quase sem os materiais necessários para produzir mais.

E a maior parte dos resultados que eu obtive não foram muito bons.

Raphtalia havia voltado a tossir, o que significava que os efeitos do remédio que eu lhe dei estavam passando. Eu entreguei mais uma garrafa para ela, que novamente, bebeu em silencio. Nós dois precisaríamos ser mais fortes.

“Vamos tomar turnos vigiando o fogo. Você pode dormir primeiro e… eu lhe acordarei quando sua vigília começar.”

“Tudo bem.”

Ela estava sendo tão honesta e bem disposta. Estava agindo como uma pessoa completamente diferente da que eu havia conhecido em nosso primeiro encontro.

“Boa noite.”

“Ah… Sim, boa noite. Ah é, é melhor que você durma no cobertor de couro de carneiro enquanto nós ainda o temos, pois amanhã iremos vendê-lo.”

Enquanto cozinhava, eu havia utilizado a fumaça produzida pelo fogo para expurgar os percevejos e piolhos para fora do cobertor, e o entreguei a Raphtalia. Não era muito grosso, mas quando combinado com o resto, devia ficar bem quente.

“Certo.”

Ela cheirou o couro de carneiro e fez uma careta.

“A fumaça?”

“Sim. Está bem defumado.”

“Aposto que sim.”

“Mas parece quente.”

Ela deitou-se e se inclinou contra minhas costas. Então ela fechou seus olhos.

Eu continuei praticando as misturas, e tomando conta das chamas, aguardando pela inevitável explosão de Raphtalia.

Quando tempo teríamos que viver assim?

Por mais uma semana, no mínimo.

Eu não queria refletir sobre, mas se não adquiríssemos novos equipamentos podíamos acabar mortos.

…Aconteceria logo. Após três dias, eu já estava começando a adivinhar com exatidão o momento exato dos terrores noturnos de Raphtalia.

“…Mmm…”

Raphtalia lentamente se levantou e coçou os olhos.

“Hm?”

“Você está acordada?”

Ela não chorou.

Ah, entendo. Suas costas estavam tocando as minhas quando ela adormeceu, então o calor deve ter feito ela se sentir melhor. Se ela tocasse outra pessoa enquanto dormia ela ficaria bem?

“…Estou com fome.”

Ela ainda estava com fome? Depois de comer tudo aquilo?

“Aqui está.”

Eu lhe dei o resto da carne grelhada, carne essa que eu estava guardando para o café da manhã. Ela comeu e pareceu gostar.

“Certo, eu vou tentar dormir um pouco. Me acorde caso algo ocorra.”

“Tudo bem!”

Ela assentiu enquanto mastigava a comida.

Estou feliz que ela esteja mais satisfeita do que antes, mas ela estava começando a se tornar uma porquinha.

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