Vinhas Invasoras

“Raphtalia, Filo, sejam cuidadosas.”
Certo, então nós passaríamos o dia de hoje lutando com plantas.
Eu já estava acostumado com o manuseio de ervas e gramíneas em geral, mas as plantas que agora nos cercavam eram completamente diferentes.
Suas vinhas eram cobertas com diferentes frutos, e suas raízes estavam cravejadas em batatas. E isso não era tudo. Elas eram plantas parasíticas, capazes de infectar o corpo humano, além de serem capazes de cuspir ácido e veneno.
Eu acreditava que o herbicida seria a nossa melhor aposta. Fisicamente, eu não sabia se espancá-las ou cortá-las seria particularmente efetivo.
Nós caminhamos por algum tempo antes de sermos atacados por algumas vinhas.
Raphtalia e Filo acabaram com elas facilmente.
Porém isso fez pouco para impedir as vinhas em geral. Na verdade só causou mais problemas, pois agora as vinhas restantes pareciam mais interessadas em nós.
Poderíamos tentar utilizar magia…
“Eu sou a fonte de todo o poder. Ouça minhas palavras e as compreenda bem. Proteja-as! Proteção Veloz!”
Eu ativei uma magia de proteção na Raphtalia e na Filo.
A magia tinha o efeito de aumentar o poder de defesa do alvo. Quando eu a utilizava em mim mesmo ela tornava-se ainda mais efetiva, já que minha defesa já era naturalmente alta.
“Obrigado, Sr. Naofumi.”
“Obrigado!”
As duas me agradeceram, mas logo foram atacadas por outras vinhas.
Nós poderíamos continuar avançando por meio de força bruta, mas o que teríamos que fazer para acabar com essas vinhas de uma vez por todas?
Quando acabasse o herbicida e a magia, não teríamos escolha a não ser recuar. Mas da forma como as coisas estavam agora, talvez ainda pudéssemos matar as vinhas uma de cada vez e avançar assim.
Se alcançássemos os monstros no centro da vila, talvez eles possuíssem a chave para derrotar as vinhas.
Nós ainda não sabíamos como eles haviam quebrado o selo, então eu não pude formar um plano concreto. Então tudo o que podíamos fazer era experimentar todas as possibilidades que estavam em nosso alcance até que encontrássemos uma que funcionasse.
No pior cenário possível, teríamos de retornar às ruínas – e isso seria uma dor de cabeça.
As vinhas não eram fortes o bastante para romper minhas defesas, então não havia muito que elas pudessem fazer para impedir nosso progresso.
“Continuem avançando! Vamos compreender melhor a situação quando alcançarmos o centro!”
“Tudo bem!”
Nós prosseguimos até aquilo o que pareciam ser as raízes das vinhas, bem no centro da vila.
A área inteira estava coberta por plantas-monstro. Elas não eram fortes o bastante para impedir que Raphtalia e Filo as destruíssem. Mas ainda assim, eu queria garantir que elas permanecessem sob minha proteção.
Os nomes destas criaturas eram “BioPlanta”, “Plantriwe” e “Mandrágora”.
A BioPlanta parecia se tratar de algum tipo de planta-mestre a partir da qual todos os outros inimigos eram produzidos. Plantriwe se referia especificamente à amalgamados de vinhas diferentes que assumiam um formato humanóide. A Mandrágora era uma planta enorme e imóvel, muito semelhante às plantas-jarro.
O monstro capaz de cuspir veneno que a Filo havia mencionado anteriormente era a Mandrágora. A Plantriwe possuía uma flor notável crescendo a partir de sua cabeça, flor esta capaz de liberar nuvens de pólen tóxico. A Mandrágora produzia um líquido acídico em suas vinhas, líquido este que era arremessado em criaturas mais fracas para então, uma vez que estas criaturas estivessem atordoadas, puxá-las para dentro de sua boca escancarada.
A BioPlanta era a pior de todas, já que era capaz de produzir as outras duas. Suas vinhas formavam um bulbo que continuava crescendo constantemente até eclodir, originando outras plantas-monstro.
Eu tentei borrifa-la com o herbicida e ela reagiu instantaneamente, murchando e morrendo como se eu tivesse apunhalado seu coração.
Aquilo pareceu não quebrar a regra de não-agressão imposta pelo escudo. Provavelmente porque aquelas criaturas se assemelhavam mais à plantas do que à monstros.
Me pergunto como o escudo estava tomando tais decisões.
Talvez funcionasse com base no uso original do objeto em questão, como quando água benta é utilizada para derrubar mortos-vivos. Ou talvez o herbicida havia sido projetado para retornar as à sua forma parasítica?
Eu não faço ideia.
As Plantriwes e Mandrágoras continuaram me atacando, sem sucesso.
Seus ataques por si só não tinham efeito algum, mas o pólen tóxico estava começando a afetar minha respiração. E o ácido também estava se tornando um incômodo. Ambos os efeitos possuíam a capacidade de diminuir o poder defensivo do alvo, e quando eu verifiquei minha janela de status pude confirmar que estava tendo efeito em mim.
Ainda assim, elas não eram capazes de me ferir. Infelizmente a “Presa de Víbora Tóxica (intermediária)” não estava tendo efeito algum nelas.
Acho que eu já deveria ter suposto que elas teriam esse tipo de resistência. Afinal, elas usavam veneno também, e além disso eram plantas.
“Raphtalia!”
“O que foi?”
Raphtalia respondeu enquanto tossia.
O ar estava muito pesado, e parecia que Raphtalia estava com dificuldades para respirar.
Mesmo que eu tenha conseguido curá-la anteriormente, seu sistema respiratório provavelmente ainda estava danificado e mais fraco do que o dos outros.
“Aqui! Leve um pouco de herbicida também.”
“Ah, certo!”
Eu arremessei uma garrafa de herbicida para ela. Eu faria com que ela o utilizasse caso houvesse alguma emergência ou coisa do tipo.
As vinhas se retorceram em sua direção e tentaram atacá-la, mas Raphtalia recuou calmamente e as cortou.
Elas não estavam nem perto de serem tão resistentes quanto eu havia imaginado.
“Sr. Naofumi? Estou indo!”
“Oh… Ahn…”
Nós continuamos avançando até alcançarmos a praça central. Havia uma árvore enorme crescendo lá.
Na verdade, não… Não era uma árvore. Tratavam-se de várias vinhas torcidas juntas.
“Essa é a fonte! Eu espero que-”
Nós nos aproximávamos da “árvore”, quando repentinamente um olho surgiu em seu centro e nos encarou.
“!!!!!”
Aquilo era assustador. Mas realmente aparentava ser a origem do problema.
“Mestre! Vou avançar!”
Filo disparou em direção à árvore, mas diversas vinhas se estenderam de encontro com ela.
Ela preparou suas pernas poderosas e chutou as vinhas, jogando-as voando para longe, antes de saltar e se virar para encarar a árvore. Uma expressão de compreensão cobriu seu rosto: ela ainda estava longe demais.
“Mestre!”
“Eu sei! Escudo de Disparo Aéreo!”
Filo estava em queda livre, mas o Escudo de Disparo Aéreo surgiu embaixo dela, e ela caiu em cima dele.
Ela recuperou seu equilíbrio em cima do escudo antes de saltar novamente e cair diante do olho gigante.
Ouviu-se o som repulsivo de líquido espirrando, e o olho explodiu sob a pressão do poderoso chute de Filo.
Ugh… Era realmente nojento.
As três vinhas começaram a se contorcer violentamente. Aparentemente destruir o olho não seria o bastante para matá-la.
O que deveríamos fazer agora?
“A criatura não está morrendo!”
“Eu sei.”
Com um contorcer hediondo, o olho ressurgiu.
Durante apenas um segundo, eu fui capaz de ver algo similar à uma semente dentro do olho enquanto ele retornava.
“Raphtalia, Filo, eu consegui ver algo dentro do olho. Tentem despejar herbicida lá dentro.”
Minha habilidade já tinha terminado seu período de “resfriamento”, e agora poderia ser utilizada novamente. Eu enviei outro Escudo de Disparo Aéreo. Eu deveria ressaltar que esse tempo todo eu estava sob o ataque de Mandrágoras e Plantriwes. Elas continuavam surgindo de forma inesgotável.
“Certo!”
“Pode deixar!”
Raphtalia saltou em cima das costas de Filo e elas correram na direção do globo ocular que se regenerava rapidamente.
O olho, provavelmente percebendo a ameaça, enviou mais vinhas diretamente na direção delas. E mais algumas vinhas desceram de cima.
“Escudo Prisão!”
Uma gaiola surgiu de imediato e prendeu a Raphtalia e a Filo. Elas ficaram suspensas na gaiola no meio do ar, mas deveriam ser capazes de atacar daquele ponto.
A habilidade duraria apenas cerca de quinze segundos.
Durante esse período, a maioria das vinhas que atacavam de cima quicava na gaiola e caia para longe.
Porém haviam algumas que se agarravam às barras.
Quinze segundos se passaram, e a gaiola desapareceu. Ao mesmo tempo, para servir de apoio, eu utilizei o Escudo de Disparo Aéreo para pegar a Filo.
Filo recuperou seu equilíbrio em cima do escudo, e Raphtalia sacou sua espada e a apontou para as vinhas.
Parece que ela havia tido sucesso, pois algumas vinhas se afastaram. Elas então partiram para outra tentativa de aproximação.
Filo conseguiu atingir o olho com outro chute.
“!!!!???”
O olho que se regenerava parou de se mover por completo após o segundo chute de Filo.
Percebendo uma nova oportunidade, Raphtalia se inclinou e despejou o herbicida em cima do objeto semelhante à uma semente.
Ouviu-se um guincho inacreditavelmente alto, seguido por mais contorções violentas. Então todas as BioPlantas pararam de se mexer.
“Funcionou?”
Parecia ter dado certo, e eu não havia me ferido nem um pouco no processo.
Mas então as BioPlantas começaram a se mover novamente.
“Me desculpe, eu devo ter feito algo errado!”
“Você fez bem. Eu acho que o herbicida não foi forte o bastante…”
Mas o que deveríamos fazer agora?
Espere… Tive uma ideia.
Eu possuía uma habilidade que aumentava a eficácia da aplicação de medicamentos. Não foi por meio desta habilidade que eu fui capaz de ajudar todas aquelas pessoas?
Isso significa que… Deveria ser eu a utilizar o herbicida?
“Deixe-me tentar. Acho que eu consigo fazer funcionar.”
Eu segurei uma garrafa em minha mão, e comecei a espreitar em direção ao olho.
Eu tinha começado a perceber isso recentemente, mas aparentemente a minha defesa negava por completo os ataques de meus inimigos. Mesmo que eu tivesse coberto deles, eu poderia caminhar tranquilamente. Mas uma vez que eu tentasse atacar, a diferença de poder se tornava mais evidente.
Havia uma BioPlanta diante de mim, suas raízes expostas a partir do solo.
“Acho que eu realmente deveria montar a Filo para me aproximar daquela semente…”
Eu despejei o herbicida nas raízes da BioPlanta.
“!!!!!!!!!??????”
As plantas começaram a se retorcer de forma rápida e violenta. Elas gritavam como monstros.
O olho assumiu uma cor marrom, e o apodrecimento se espalhou a partir do olho e cobriu o restante da criatura.
Subitamente, a planta inteira começou a secar.
Ouviu-se um som de rachadura enquanto a árvore secava, murchava e finalmente se esfarelava. Tivemos que correr para escapar dos pedaços que caíam.
“Uau…”
Nós observamos ao nosso redor, apenas para encontrar todos os monstros murchos e marrons. Tudo, com exceção das frutas, havia assumido aquela cor marrom, e nós éramos a única coisa que se movia.
E então, na posição onde a BioPlanta ficava, um grande número de sementes brilhantes começou a chover do alto.
Deixá-las ali parecia ser uma má ideia.
“Agora é hora de limpar tudo isso. Talvez eu consiga absorver algumas destas criaturas em meu escudo. Vamos começar a coletar estas sementes.”
“Certo.”
“Hora do almoço!”
Enquanto Raphtalia e eu juntávamos todas as sementes, Filo observava e devorava o que havia restado das frutas e das batatas.

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